sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Prefeito de NY dá exemplo ao mundo ao fornecer documento a imigrantes.

Se Nova York é a capital do mundo – porque há gente de todo lugar e o que aqui se decide afeta o planeta -, então seu prefeito, Bill de Blasio, tem uma enorme influência global com o que faz ou deixa de fazer. Não é pouca coisa, portanto, que tenha decidido tornar visíveis os invisíveis e oferecer a meio milhão de sem documentos uma identificação oficial da cidade. Se Nova York o fez, outras cidades também poderiam fazê-lo. É o poder do exemplo. Ainda mais quando se é o prefeito do mundo.
Nova York atuou porque Washington não quis. “Se nosso governo federal não vai atuar, nós vamos”, disse-me De Blasio em uma entrevista no maravilhoso zoológico do Bronx. Os republicanos do Congresso, vergonhosamente, bloquearam a reforma que teria legalizado muitos dos 11 milhões de sem documentos. E o presidente Barack Obama ainda não se atreve a agir sozinho.
Assim, a identificação da cidade tornará mais fácil a vida dos sem documentos para alugar apartamentos, abrir contas em bancos, para que a polícia não os incomode e para assistir com desconto a eventosculturais (embora não para conduzir ou para embarcar em aviões). “Quase 500 mil nova-iorquinos não têm documentos”, ele me disse. “São nossos vizinhos, nossos amigos, nossos companheiros de trabalho, precisam ser reconhecidos, respeitados e participar completamente de nossa sociedade.”
Esta foi sem dúvida uma decisão corajosa em um momento em que Nova York continua sendo um alvo para terroristas. A cidade ainda tem enormes feridas depois dos ataques de 11 de Setembro. Seus críticos dizem que dar identificação aos sem documentos facilitaria para os terroristas se misturarem com a população. De Blasio não acredita nisso.
“Temos mil agentes dedicados à luta contra o terrorismo. O Departamento de Polícia de Nova York entende de terrorismo”, disse o prefeito. “Uma das melhores maneiras de enfrentá-lo é com boa informação, com dados obtidos pela espionagem e pelas relações que tenhamos com as diversas comunidades.”
Mas o temor continua presente. Na semana passada, De Blasio teve de acalmar o nervosismo na cidade depois que o primeiro-ministro iraquiano declarou que se preparavam ataques terroristas aos metrôs de Nova York e Paris. “Os terroristas querem que vivamos com medo”, disse o prefeito em uma entrevista coletiva improvisada e tensa. “Mas nos recusamos a viver com medo.” E os trens do metrô continuam rodando.
Em apenas nove meses, De Blasio impôs sua agenda, muito mais liberal que a de seus dois antecessores, Michael Bloomberg e Rudy Giuliani. Desmantelou um programa de espionagem a membros da comunidade muçulmana: era “contraproducente”, justificou, e inibia a relação que a polícia deveria ter com os muçulmanos de Nova York. Também suspendeu a prática de deter e revistar suspeitos – conhecida eminglês como “Stop and frisk” – que era aplicada desproporcionalmente aos afro-americanos e a outras minorias.
Conseguiu a aprovação de seu programa de educação pré-escolar para mais de 73 mil crianças durante os próximos dois anos. Não é barato. Custará mais de US$ 10 mil por criança de 4 anos. Mas torceu braços e vontades e conseguiu um dos principais objetivos de sua prefeitura.
Além de ser muito alto – mais de 2 metros -, De Blasio é muito rápido. Caminhando no zoológico do Bronx, explicou que sabe que seu capital político começou a diminuir assim que tomou posse. E por isso, como bom nova-iorquino, sempre parece ter pressa.
Agora falta o mais difícil para o prefeito. Ele chegou à prefeitura com a promessa de tornar Nova York uma cidade mais equitativa para todos. Mas o desafio é gigantesco: Manhattan é um dos lugares dos EUA onde há mais separação entre os muito ricos e os muito pobres. Se a experiência der certo, outros políticos (dentro e fora dos EUA) seguirão a mesma agenda.
Gostaria de ser presidente?, perguntei-lhe. A resposta foi politicamente correta: “Acabo de começar aqui, e é uma tarefa enorme fazer as mudanças que são necessárias; tenho muito a fazer aqui”, respondeu.
O prefeito do mundo apenas começou. Veremos como termina.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Jorge Ramos

O jornalista Jorge Ramos é um dos mais conceituados analistas da questão hispânica nos Estados Unidos.

Uol.com.br

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