quinta-feira, 27 de agosto de 2026

A ansiedade migratória na busca de uma vida melhor

 


Migrar costuma ser associado a coragem, oportunidade e recomeço. Para muitos brasileiros, deixar o país representa a possibilidade de conquistar melhores condições financeiras, segurança, reconhecimento profissional ou uma vida considerada mais promissora. Entretanto, por trás do projeto migratório existe uma dimensão frequentemente pouco discutida: o impacto psicológico de deixar referências conhecidas, construir uma nova identidade e enfrentar a possibilidade de não ser plenamente acolhido pela sociedade de destino.

A experiência migratória não começa necessariamente quando a pessoa atravessa uma fronteira. Ela pode começar muito antes, ainda no Brasil, quando surgem expectativas, fantasias, medos e dúvidas sobre o futuro. E também não termina necessariamente quando o indivíduo retorna. Para algumas pessoas, voltar ao país de origem pode representar outro processo de adaptação, marcado por sentimentos de fracasso, estranhamento, perda de identidade e dificuldade de reconhecer o próprio lugar na sociedade que um dia foi familiar. A literatura científica contemporânea tem chamado atenção justamente para essa dimensão psicológica da migração.

Uma das experiências potencialmente mais desgastantes para quem migra é perceber que a sua nacionalidade, sotaque, aparência, profissão ou maneira de se comportar podem influenciar a forma como é tratado.

Uma revisão de escopo publicada em 2024, que analisou 143 estudos sobre discriminação e adaptação psicológica de imigrantes de primeira geração, encontrou evidências consistentes de associação entre discriminação percebida e desfechos negativos de saúde mental. A discriminação esteve relacionada a maiores níveis de depressão, sofrimento psicológico e ansiedade, além de menor bem-estar e satisfação com a vida. Isso é importante porque a rejeição migratória nem sempre aparece de maneira explícita. Ela pode estar presente em uma ofensa direta, mas também em situações mais sutis: ser constantemente tratado como menos competente, receber comentários sobre o sotaque, ter sua formação profissional desvalorizada, ser excluído de determinados círculos sociais, enfrentar estereótipos relacionados à nacionalidade ou sentir que precisa provar constantemente que merece estar naquele lugar.

A experiência repetida de situações como essas pode produzir uma espécie de vigilância psicológica: a pessoa passa a antecipar a possibilidade de ser rejeitada. E o problema não é apenas aquilo que aconteceu, mas também aquilo que ela passa a imaginar que poderá acontecer.

Os brasileiros constituem um grupo migratório particularmente interessante porque muitas vezes são percebidos de maneiras diferentes dependendo do país, gênero, raça, classe social, profissão e contexto cultural.

Uma revisão integrativa publicada em 2023 sobre a saúde mental de brasileiros imigrantes nos Estados Unidos identificou como temas relevantes as necessidades específicas de cuidado psicológico, as fontes de suporte e estresse na comunidade, além de fatores socioeconômicos relacionados à saúde mental, incluindo discriminação, equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, coesão comunitária e aculturação. Os autores também chamam atenção para uma questão importante: brasileiros frequentemente são agrupados genericamente em categorias como “latinos”, o que pode apagar características culturais, linguísticas e históricas específicas da experiência brasileira. Esse apagamento pode contribuir para a sensação de não pertencimento. É como se a pessoa deixasse de ser reconhecida pelo que construiu sobre si mesma e passasse a ser interpretada principalmente pela categoria de “estrangeiro”.

Portugal oferece um exemplo particularmente relevante. A existência de uma língua compartilhada pode criar a expectativa de que a adaptação será simples. Porém, compartilhar o idioma não significa compartilhar necessariamente os códigos sociais, as relações de poder, os costumes, as expectativas profissionais ou a maneira como determinados grupos são percebidos.

Um estudo publicado em 2024, envolvendo 604 imigrantes brasileiros e cabo-verdianos em Portugal, encontrou uma associação importante entre discriminação percebida e sofrimento psicológico. Entre os brasileiros, aproximadamente 28,6% apresentaram sofrimento psicológico e 10,4%apresentaram ansiedade moderada a grave na amostra estudada. A percepção de discriminação esteve associada ao sofrimento psicológico, enquanto resiliência e suporte social apareceram como fatores protetivos.

Outro estudo do mesmo projeto identificou que a discriminação estava relacionada ao sofrimento psicológico e que mulheres apresentavam maior vulnerabilidade em algumas dimensões analisadas. O estudo qualitativo também mostrou como a ausência de redes familiares, a insegurança e experiências discriminatórias podem produzir medo e ansiedade antes mesmo de uma nova situação de preconceito acontecer. Essa antecipação merece atenção clínica.

O indivíduo pode começar a pensar:

Será que vão me tratar diferente porque sou brasileiro?”

Será que meu sotaque vai fazer as pessoas me considerarem menos competente?”

“Será que vou conseguir emprego?”

Será que estão rindo de mim?”

Será que realmente pertenço a este lugar?”

A ansiedade migratória pode ser alimentada justamente por esse estado de incerteza constante.

É importante não interpretar todo sofrimento migratório como transtorno mental.

Migrar é uma experiência complexa e, em muitos casos, o desconforto faz parte de um processo esperado de adaptação. A questão clínica surge quando o sofrimento se torna intenso, persistente e começa a comprometer relações, trabalho, sono, autoestima, tomada de decisões ou funcionamento cotidiano.

A evidência científica sugere que a discriminação pode funcionar como um estressor social relevante, mas seus efeitos não acontecem de maneira automática ou igual para todas as pessoas.

O suporte social, a resiliência, as condições econômicas, o domínio do idioma, a situação profissional, a possibilidade de pertencimento comunitário e a maneira como o indivíduo interpreta suas experiências podem modificar significativamente esse processo. A revisão de 2024 sobre discriminação e aculturação, por exemplo, identificou o suporte social como um possível fator de proteção diante dos efeitos psicológicos da discriminação.

Por isso, compreender a ansiedade migratória exige olhar para além do indivíduo.Não se trata simplesmente de perguntar: “Por que essa pessoa não consegue se adaptar?”. Também é necessário perguntar: “O que essa pessoa está encontrando no ambiente em que está tentando se adaptar?”

Existe ainda uma dimensão emocional menos visível: o luto pelas perdas produzidas pela migração. A pessoa pode perder a convivência cotidiana com familiares, amigos, lugares conhecidos, referências culturais, comidas, festas, rituais, espontaneidade linguística e até uma determinada versão de si mesma.

Ao mesmo tempo, existe uma pressão para demonstrar que a escolha de migrar foi acertada.É comum que o indivíduo sinta que precisa mostrar aos familiares e amigos que “está tudo bem”, mesmo quando enfrenta solidão, insegurança ou sofrimento. Essa contradição pode produzir um conflito interno importante: “Eu escolhi isso. Então por que estou sofrendo?”. Sofrer não significa necessariamente que a decisão de migrar foi errada. Da mesma maneira, sentir saudades do Brasil não significa necessariamente que a pessoa precise retornar. A experiência migratória pode conter simultaneamente conquista e perda, liberdade e solidão, crescimento e medo. Parece filosófico não é?

Pouco se fala sobre a dimensão psicológica do retorno. Existe uma ideia social de que voltar significa simplesmente “ir para casa”. Mas, psicologicamente, o retorno pode ser muito mais complexo. A pessoa que retorna não é exatamente a mesma que saiu. Durante o período no exterior, ela pode ter adquirido novos valores, hábitos, expectativas, formas de relacionamento e maneiras diferentes de interpretar o mundo. Enquanto isso, sua família, seus amigos, sua cidade e sua própria posição social também podem ter mudado. Por isso, voltar pode produzir um fenômeno conhecido na literatura como estresse de reentrada, estresse de reaculturação ou choque cultural reverso.

Uma revisão sistemática publicada em 2024 analisou 55 estudos sobre o processo de readaptação após o retorno ao país de origem. Os estudos encontrados apresentaram prevalências de estresse de reentrada variando de 40% a 92%, embora os autores ressaltem diferenças importantes entre métodos e populações estudadas. O retorno, portanto, não deve ser compreendido como simplesmente “voltar para onde tudo era conhecido”. É voltar para um lugar conhecido com uma identidade que pode ter mudado.

Essa pode ser uma das experiências mais dolorosas do retorno. O indivíduo pode perceber que já não se identifica completamente com o país de origem, mas também não se sente totalmente pertencente ao país onde viveu. Surge então uma experiência de identidade entre dois mundos.

Pesquisas com brasileiros que retornaram da Irlanda, por exemplo, descrevem dificuldades socio psicológicas relacionadas ao processo de reintegração, incluindo dificuldades de readaptação à vida no Brasil, perda ou transformação de redes sociais e desafios relacionados à reconstrução da vida após o retorno. Essa situação pode ser ainda mais complexa quando o retorno acontece acompanhado de uma sensação de fracasso. A pessoa pode pensar:

Eu não consegui.”

Todo mundo esperava que eu desse certo.”

“Como vou explicar que voltei?”

O que as pessoas vão pensar de mim?”

Nesse contexto, o retorno pode ser vivido não apenas como uma decisão prática, mas como uma ameaça à identidade e à autoestima.

Existe uma diferença importante entre decidir retornar e sentir-se obrigado a retornar. Quando o retorno acontece depois de experiências prolongadas de discriminação, dificuldades financeiras, problemas documentais, desemprego, isolamento social ou sofrimento psicológico, a pessoa pode interpretar o retorno como uma derrota. Esse significado atribuído ao retorno pode ser mais importante para a saúde mental do que o simples fato de voltar.

A literatura sobre retorno migratório ainda é relativamente limitada, mas estudos contemporâneos apontam que fatores como expectativas frustradas, alienação, dificuldades identitárias, suporte social insuficiente e falta de apoio institucional podem aumentar o estresse antes e depois do retorno. Por isso, a pergunta clínica não deveria ser apenas: “Por que você voltou?”; mas também:“O que voltar significa para você?”.

A migração pode modificar profundamente a maneira como uma pessoa se percebe. Antes, sua identidade podia estar organizada em torno de papéis relativamente estáveis: profissional, filho, mãe, pai, amigo, membro de uma comunidade. Depois da migração, esses papéis podem ser questionados. A pessoa pode descobrir novas capacidades, mas também enfrentar situações que desafiam sua autoestima.

Uma pesquisa de 2022 com jovens nipo-brasileiros que viviam no Japão, caracterizados como migrantes de retorno em relação ao Brasil e com ancestralidade japonesa, encontrou associação entre identidade étnica e indicadores de saúde mental. Aqueles com menor identificação étnica apresentaram piores condições de saúde mental na amostra estudada.

Embora esse estudo tenha uma população específica e não possa ser generalizado para todos os brasileiros que migram, ele ajuda a demonstrar uma questão importante:

identidade e pertencimento podem ser componentes relevantes da saúde mental em contextos migratórios.

A ansiedade relacionada à migração pode envolver diferentes dimensões. Pode aparecer antes da partida, durante a adaptação e também após o retorno. Antes de migrar, pode estar relacionada à antecipação e à incerteza. Durante a permanência no exterior, pode envolver solidão, discriminação, dificuldades profissionais, barreiras culturais, distância da família e medo do futuro. No retorno, pode aparecer como insegurança sobre a própria identidade, dificuldades de readaptação, comparação com outras pessoas, vergonha, sensação de fracasso ou dificuldade de reconstruir vínculos. Por isso, o acompanhamento psicológico precisa considerar a história migratória como um processo, e não como um único acontecimento.

Na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental, uma das possibilidades é compreender como as experiências migratórias influenciam pensamentos, emoções, comportamentos e crenças sobre si mesmo e sobre o mundo. Depois de experiências repetidas de rejeição, por exemplo, podem surgir pensamentos como:

As pessoas sempre vão me rejeitar.”

“Nunca vou ser aceito aqui.”

Sou inferior porque sou estrangeiro.”

Preciso provar meu valor o tempo inteiro.”

“Se eu voltar, significa que fracassei.”

Minha vida no Brasil não tem mais lugar para mim.”

Esses pensamentos não devem ser automaticamente classificados como distorções cognitivas. Em algumas situações, eles podem estar relacionados a experiências reais de discriminação. A intervenção cognitivo-comportamental precisa, portanto, diferenciar uma interpretação excessivamente ameaçadora de uma ameaça social efetivamente existente. Esse cuidado é fundamental.

O objetivo da psicoterapia não é convencer o imigrante de que “tudo está na cabeça dele”, mas ajudá-lo a desenvolver recursos para lidar com aquilo que pode ser modificado, reconhecer aquilo que não está sob seu controle, fortalecer redes de apoio, trabalhar autoestima e identidade e construir estratégias mais flexíveis diante das incertezas.

Uma das armadilhas psicológicas da experiência migratória é transformar a permanência ou o retorno em uma prova de sucesso ou fracasso. Mas permanecer não significa necessariamente vencer. E retornar não significa necessariamente fracassar. Algumas pessoas encontram no exterior oportunidades que não encontrariam no Brasil. Outras percebem que o custo emocional ou social da permanência é maior do que esperavam. Algumas retornam e constroem uma nova vida. Outras retornam temporariamente e depois migram novamente. A decisão precisa ser compreendida dentro da história individual, das condições concretas de vida e dos valores pessoais.

A psicoterapia pode ajudar justamente nesse espaço de reflexão: separar a decisão baseada em valores e necessidades reais daquela tomada exclusivamente pelo medo, pela vergonha ou pela pressão social.

Cuidar da saúde mental também é cuidar da experiência migratória

A ciência contemporânea mostra que a saúde mental do imigrante não pode ser compreendida exclusivamente como uma característica individual. Discriminação, precarização profissional, isolamento, ausência de suporte social, insegurança econômica e barreiras institucionais podem fazer parte do contexto que produz sofrimento. Estudos recentes com brasileiros em Portugal reforçam essa rhttps://outraspalavras.net/crise-brasileira/3201878/elação e apontam, simultaneamente, para a importância de fatores protetivos como resiliência e suporte social.

Ao mesmo tempo, a literatura sobre retorno mostra que a volta também pode exigir um novo processo de adaptação. Isso significa que cuidar da saúde mental durante uma experiência migratória não é simplesmente ajudar alguém a “se acostumar com outro país”. É ajudar a pessoa a compreender quem ela está se tornando durante esse processo. Porque, muitas vezes, a pergunta mais profunda não é: “Onde eu devo morar?”; mas:“Quem eu sou depois de tudo o que vivi entre esses dois lugares?”. E talvez seja justamente nesse espaço entre partir, permanecer e voltar que a psicoterapia possa oferecer um lugar seguro para reorganizar essa história.

Por

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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Comissão Diocesana de Migrações articula ações para fortalecer acolhimento de migrantes no Sudoeste do Paraná

 


A realidade da população migrante no Sudoeste do Paraná tem mobilizado setores da sociedade na busca por estratégias de acolhimento, integração e garantia de direitos. Nesse contexto, coordenada pelo Padre Roberto Baroni, foi criada a Comissão Diocesana de Migrações, iniciativa que reúne representantes de instituições e tem como objetivo discutir, planejar e articular ações voltadas às necessidades da população migrante presente nos municípios da região.

A comissão já realizou dois encontros, reunindo pessoas vinculadas a setores sociais, entre eles representantes do clero, da Cáritas, de instituições de ensino e de secretarias municipais de Assistência Social. A diversidade de participantes é considerada fundamental para que a discussão sobre migração seja realizada de forma ampla e integrada, considerando as dimensões que envolvem a chegada e a permanência de pessoas migrantes nas comunidades.

A proposta parte do entendimento de que a migração é uma realidade que demanda ações articuladas entre poder público, instituições religiosas, organizações sociais, universidades e comunidade, incluindo, em especial, migrantes que residem na região. Mais do que oferecer atendimento pontual, a comissão pretende contribuir para a construção de uma rede capaz de identificar demandas, fortalecer serviços e criar condições para que os migrantes possam participar efetivamente da vida social, cultural e econômica dos municípios.

Como parte desse processo de articulação, a Comissão Diocesana de Migrações também vem estabelecendo contatos com autoridades políticas e representantes do poder público da região Sudoeste, buscando sensibilizar gestores e lideranças para a importância da temática migratória e para a necessidade de políticas públicas que contemplem essa população.

Primeiro passo: conhecer a realidade migratória

[Grupo RBJ de Comunicação] Comissão Diocesana de Migrações articula ações para fortalecer acolhimento de migrantes no Sudoeste do Paraná
Entre as primeiras ações previstas está a realização de um levantamento de dados sobre a população migrante no Sudoeste do Paraná. A intenção é identificar quem são essas pessoas, sua origem, onde estão estabelecidas, quais são suas principais necessidades e quais serviços e políticas públicas já são acessados por elas. O diagnóstico deverá contribuir para que as ações futuras sejam planejadas a partir de informações concretas sobre a realidade regional. Conhecer o perfil da população migrante e suas demandas permitirá identificar possíveis lacunas nos serviços existentes e apontar caminhos para o fortalecimento das redes de atendimento e acolhimento.

A partir desse levantamento, a comissão pretende avançar para a construção de ações de socialização, integração e acolhimento, promovendo iniciativas que aproximem migrantes e comunidade local. Entre as possibilidades estão atividades culturais, educativas, de orientação sobre direitos e serviços públicos, espaços de convivência e ações que favoreçam a participação dos migrantes na sociedade.

A Comissão Diocesana de Migrações nasce, portanto, com a perspectiva de transformar o acolhimento em uma ação coletiva e permanente, articulando diferentes atores e instituições em torno de um objetivo comum: contribuir para que as pessoas migrantes sejam reconhecidas não apenas como destinatárias de assistência, mas como sujeitos de direitos, com histórias, culturas, conhecimentos e contribuições importantes para o desenvolvimento das comunidades do Sudoeste do Paraná.

O trabalho da comissão representa, assim, um importante passo para ampliar o diálogo sobre migração na região e construir, de forma conjunta, estratégias que promovam acolhimento, dignidade, integração, participação social e garantia de direitos para a população migrante.

Fonte: Comissão Diocesana do Migrante

Pascom Diocesana

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sábado, 22 de agosto de 2026

Adalid Contreras – Desmontando mitos de la comunicación gubernamental

La comunicación gubernamental está referida a la construcción de sentidos y prácticas sobre políticas públicas, aportando en la generación de consensos para garantizar un relacionamiento equilibrado entre programas gubernamentales y exigibilidades ciudadanas, y entre autoridades y ciudadanos, contribuyendo así al logro de niveles importantes de gobernabilidad en función del bien común de la sociedad.

Comunicación gubernamental no es equivalente a campaña electoral

Empecemos señalando uno de los errores más comunes y reiterativos en el desarrollo de la comunicación gubernamental. Y es la creencia que ésta es la prolongación de la campaña electoral. Es una falencia presente en las experiencias de prácticamente la totalidad de países del planeta, con mayor desviación en las democracias frágiles que pretenden compensar sus posicionamientos con recursos comunicacionales de propaganda y publicidad. Como las campañas de comunicación son parte importante de los factores que permiten el triunfo electoral, se instala la creencia de que la fórmula experimentada puede ser el factor facilitador de una buena gestión de gobierno, y se tiende a reproducirla.

De aquí resulta una primera y frecuente falencia, como es la instalación de gobiernos en campaña permanente, cuyas propuestas comunicacionales priorizan el posicionamiento del gobernante y de sus promesas, llenando los espacios de las redes sociodigitales y de los medios tradicionales con productos publicitarios cuyo tema central es la dinámica gubernamental, ya sea nacional, regional o local. Estas propuestas, basadas en la búsqueda de persuasión y adaptación de conductas, siguen rigurosamente los procedimientos del marketing político enfrascado en activar emociones.

La segunda falencia que resulta de este error de concepción comunicacional-política, es la tendencia al mediacentrismo, tan propio de las corrientes difusionistas cuya misión principal es persuadir sobre las supuestas inmutables y sagradas propuestas gubernamentales. Buscan ganar adhesiones confiando en un poder sobredimensionado que le otorgan a la función (des)informativa que deberían cumplir los spots, los jingles, los hashtags, los podcast, los screemings, los reels, los influencers y los community manager, tanto en medios como en redes y plataformas sociodigitales.

La tercera falencia es la construcción de la figura de la autoridad-candidato, que a título de gobernar desde y con la gente, entra en una vorágine activista de entrega diaria de obras que en el caso de los gobiernos nacionales compite con las atribuciones de los gobiernos regionales y locales. La actividad se complementa con discursos y formas de presentación con vestimentas adecuados a cada ocasión y lugar. La actividad en sí misma no es negativa ni mucho menos, pero suele descompensar funciones cuando no guarda equilibrio con la responsabilidad de gobernar velando también en parecida proporción por los factores estructurales y estratégicos, nacionales e internacionales.

El sentido de toda comunicación gubernamental está referido al ámbito de los policy, es decir de la construcción de políticas públicas con argumentos racionales, con un triple propósito: Por una parte su contribución con estrategias y con productos de información y de orientación por distintos medios, a la búsqueda de resultados que garanticen niveles considerables de gobernabilidad, es decir a la capacidad de gobernar con eficacia, estabilidad, orden y paz. Por otra parte promueve que las promesas y los programas transiten de su formulación como buenos propósitos a realizaciones en la práctica, velando porque satisfagan material y simbólicamente las expectativas, necesidades y demandas de la población. Un tercer propósito, eminentemente comunicacional, tiene horizonte estratégico y realización cotidiana, combinando objetivos de información, posicionamiento, educación y participación ciudadana, en el marco de una concepción dialogal y relacional que escucha y atiende las necesidades, demandas y propuestas de la sociedad, además de promover su propia expresión desde la formación crítica de una opinión pública. Por estas razones combinadas se suele afirmar que la comunicación es en sí misma un derecho, al mismo tiempo que un factor fundamental de democratización de las sociedades.

Comunicación gubernamental no es sinónimo de difusión oficialista

Un segundo gran error que la comunicación gubernamental debe desmontar, es la creencia que la comunicación se reduce a medios y productos de comunicación, siendo que la comunicación gubernamental es por naturaleza transmedial, es decir que combina las discursividades en medios de comunicación tradicionales con redes sociodigitales y con acciones presenciales, contribuyendo cada uno de su propia constitución al logro de objetivos comunes

La tarea central de la comunicación gubernamental es generar consensos para garantizar un relacionamiento equilibrado entre programas gubernamentales y demandas ciudadanas, y entre autoridades y ciudadanos, en función del bien común de las sociedades. Por esto, Mario Riorda dice que si la comunicación gubernamental no actúa bien en su relación con las ciudadanías, no hay consensos y si no hay consensos, no hay buena gestión, porque se imponen los factores de oposición, división y polarización y no la apropiación social de las políticas gubernamentales y su desarrollo con la participación de la población.

Toda comunicación gubernamental contempla dos dimensiones: una, generar un proceso incremental de información (news) y la otra, adjunta, dinamizar un proyecto general de gobierno (views). Los news están referidos a la información y la orientación mediante la producción y mediación de noticias sobre acciones específicas más que de promesas o buenas intenciones. En cambio los views se refieren a los horizontes o visiones de futuro que tienen los gobiernos garantizando condiciones de vida digna.

O sea que una falencia a superar sigue siendo el creer que basta con propagandizar obras y generalizar promesas con informativos oficiales. Se tiene que tomar en cuenta que las obras en la percepción ciudadana son leídas como obligaciones de los gobiernos con sus habitantes, y las promesas son eso, promesas cuya credibilidad depende de los grados de confianza construidos. Además de lo cotidiano de la acción gubernamental se tiene que trabajar comunicacionalmente la narrativa del proyecto histórico involucrando a las ciudadanías y, además, generando compromisos y esperanzas para recorrer con entusiasmo los sinuosos caminos de los ciclos históricos con memoria larga.

En la práctica, todo gobierno requiere motivaciones que tengan la capacidad de generar confianza, en base a argumentos que alcancen empatías y adhesiones colectivas con sus propuestas estructurales que definen el tipo de sociedad que se quiere construir. También debe lograr la valoración de las políticas públicas, sean estas obras o servicios, de carácter físico o simbólico, general o sectorial. Y debe así mismo conseguir el funcionamiento social rigiéndose por un marco normativo reconocido y aceptado en sus procedimientos enmarcados en la vida democrática.

Relacionado con este punto, es menester superar la falencia informacionista que sustenta que la única fuente del discurso gubernamental es el propio gobierno y sus propuestas, programas, promesas y acciones gubernamentales. Desde una perspectiva relacional, la ciudadanía es también fuente de definición de las políticas públicas desde sus demandas concretas y desde sus exigibilidades de derechos, que a su vez se convierten en fuente de elaboración discursiva para las experiencias de comunicación de los gobiernos. Esta dimensión conlleva la responsabilidad comunicacional-política de saber escuchar.

Entonces no se trata sólo de divulgar las propuestas y acciones gubernamentales, sino de establecer las formas de apropiación y resignificación de éstas en los imaginarios ciudadanos. Esto es, en los posicionamientos que tiene un gobierno o determinados temas en las percepciones ciudadanas, porque es aquí, en este proceso de reconstrucción de sentidos donde se hace la comunicación gubernamental. Un ejemplo: hay países donde la actuación de los poderes judiciales son permisivos con las anomias, tal es el caso de las resoluciones que liberan a detenidos con culpabilidades demostradas ya sea por corrupción, enriquecimiento ilícito, narcotráfico, estupro, feminicidio u otros. Si bien estas desatinadas decisiones son responsabilidad del poder judicial o de la fuerza policial, puede darse el caso que para los posicionamientos ciudadanos la responsabilidad sea del gobierno, como suele ocurrir con frecuencia. En estos casos, no se puede partir del supuesto gubernamental de la separación de poderes y responsabilidades, sino de las apropiaciones ciudadanas para dialogar con ellas y reencaminarlas.

El tinte oficialista de los medios y plataformas gubernamentales no genera interacciones, agrede y espanta públicos y consumidores, por su exagerada inclinación presidencialista o gubernamentalista. Son medios que reducen sus audiencias a sus entornos de afines, cuando su desafío es abarcar la sociedad entera. Para ello no basta la capacidad tecnológica, es necesario desarrollar mediaciones de diálogo, de incorporación y participación ciudadana, de pluralismo y de deliberación desde la opinión pública ciudadana, abordando temas tanto de la coyuntura como de los estructurales de largo plazo, enmarcados en una concepción relacional de la comunicación.

Comunicación gubernamental no es construcción espontánea de narrativas

¿Cuántas veces se ha convocado a los equipos de comunicación de los gobiernos con el encargo de producir un spot para aplacar las demandas sociales, o posicionar un mensaje, o cambiar los temas de la agenda, o movilizar adeptos?. Muchas, sin duda, talvez, demasiadas, esperando resultados mágicos de la comunicación. A veces se logra algo, por lo general solo escenarios de entropía comunicacional, que hace creer a los interesados que por el sólo hecho de publicar o difundir un producto, o expresarlo en una rueda de prensa, ya está cumplido el trabajo. La entropía es una forma de autoengaño ilusorio.

Lo que la comunicación gubernamental requiere son estrategias de comunicación política que contemplen un plan integral en el que cobra sentido todo lo que hace (y deja de hacer) el gobierno y todo lo que comunica (o deja de comunicar). Comunicación es poder. Sus resultados no son producto de la casualidad, sino de la manera como se encaran las probabilidades existentes, tratando de reducir al mínimo las incertidumbres para paralelamente, y de manera proporcional, amplificar las certezas. Una estrategia de comunicación política señala el camino y el destino, define las rutas que se tienen que transitar con mapas diseñados en base a datos que se obtienen con rigurosas investigaciones cuantitativas y cualitativas que dan cuenta del campo político, donde se ubican las ideologías o proyectos políticos en disputa, los actores políticos individuales y colectivos, los candidatos, las líneas discursivas que (re)producen las ofertas mediáticas y de las redes digitales, así como, especialmente, los sentipensamientos ciudadanos.

De manera más operativa, estrategia de comunicación es la articulación entre construcción discursiva, planes y prácticas sociales encaradas por sujetos sociohistóricos, en la perspectiva de alcanzar objetivos de transformación social. Y más específicamente estrategia de comunicación política se refiere a los planes diseñados para desarrollar batallas por la significación, incorporando la participación ciudadana en la elaboración de caminos para la conquista y gestión del poder. Toda estrategia establece escenarios posibles que llevan a prever acontecimientos e intervenciones pensando antes de actuar, siguiendo un proceso flexible, pero con orden y sintonizando siempre con las aspiraciones ciudadanas. En pocas palabras, las estrategias se baten, dan aire, abren camino, arrasan y pasan.

Una estrategia de comunicación gubernamental contiene los lineamientos estratégicos que suponen tomas de posición, formas de relacionamiento entre los actores sociales, criterios de interpretación de la realidad y del contexto, definición de previsiones de futuro y alternativas de organización de las operaciones para encaminar acciones con un destino definido. En este tiempo en el que las ciudadanías ya no quieren promesas (como en las campañas electorales), sino resultados, la estrategia de comunicación gubernamental valora los resultados y las acciones como el real sentido de los mensajes y construcciones discursivas, porque un hecho habla más que decenas de promesas contenidas en múltiples productos. Por eso, en la esfera pública es importante sintonizar con el mundo de la vida, en la cotidianidad integrada culturalmente a la política.

Una estrategia de comunicación gubernamental encara la elaboración de productos de comunicación al interior de estrategias que definen el horizonte, los sujetos, las narrativas, los formatos y los tiempos de su exposición, considerando estas funciones: una de información sobre las propuestas y acciones gubernamentales; otra de formación con orientaciones para la construcción de un pensamiento crítico ciudadano; la tercera función es de promoción; y la cuarta es de diálogo y debate con un sentido pluralista. Estas funciones deberían organizar también las estructuras programáticas de los medios y plataformas gubernamentales. En articulación con estas funciones es vital la de investigación permanente sobre el campo político, los contextos, las expresiones discursivas y las acciones políticas en los diferentes sectores, estableciendo las tendencias existentes y la definición de escenarios de intervención. Adjunta a esta y sosteniendo el edificio de la estrategia está la función de planificación prospectiva de las narrativas y acciones comunicacionales para las disputas simbólicas y prácticas en el largo, mediano y corto plazo, de los aspectos estructurales y de los coyunturales.

Un factor fundamental en el diseño y desarrollo de las estrategias de comunicación gubernamental es el cuidado de la responsabilidad social y de la ética comunicacional y política. Es cierto que la estrategia de comunicación gubernamental se confronta con otras en el espacio político, pero esto no le valida el desarrollo de acciones de desinformación, o de guerra sucia o de la intervención de estrategas cuestionados, por el contrario, su manejo deontológico debe iluminar con sentido ético la contienda en el campo político. Tratándose de una propuesta de apropiación ciudadana como representación democrática, debe regirse estrictamente por los cánones del derecho a la información y a la comunicación.

Adalid Contreras Baspineiro es Sociólogo boliviano

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O que permanece quando o silêncio atravessa gerações

 


Entre memórias interrompidas, heranças culturais e conflitos de pertencimento, o escritor paranaense Oscar Nakasato transforma a experiência da imigração japonesa em literatura e revisita uma identidade construída entre o Japão e o Brasil

O deslocamento é uma força que move não apenas vidas, mas também saudades e lembranças. Um silêncio atravessando mesas de jantar, fotografias antigas, sotaques interrompidos e gestos que nunca precisavam ser explicados dentro das famílias nipo-brasileiras. Foi nesse espaço, entre o que era dito e aquilo que permanecia guardado, que o escritor paranaense Oscar Nakasato cresceu. Filho de imigrantes japoneses, ele nasceu em Maringá e aprendeu desde cedo que existir entre duas culturas também significa carregar conflitos difíceis de nomear.

O Paraná possui uma das maiores comunidades nipo-brasileiras do país, segundo a Embaixada do Japão no Brasil. A imigração japonesa para o estado se intensificou principalmente a partir da década de 1930, impulsionada pela expansão agrícola do norte paranaense. Famílias japonesas chegaram a cidades como Londrina, Maringá, Assaí e Uraí para trabalhar, principalmente nas lavouras que se tornaram uma das identidades do norte do estado. Mas a história da imigração japonesa, no Brasil, começa antes. Em 1908, o navio Kasato Maru atracou no porto de Santos trazendo os primeiros imigrantes japoneses ao país. O movimento acontecia em um contexto de crise econômica e excesso populacional no Japão, enquanto o Brasil buscava mão de obra após a abolição da escravidão.

Ao longo da conversa, o escritor Nakasato fala baixo, pausadamente, como quem organiza as palavras antes de soltá-las. A impressão é de que a escrita de Nakasato nasce exatamente desse movimento: observar durante muito tempo algo aparentemente comum até perceber o peso histórico escondido nele. “A memória da imigração japonesa nunca foi algo distante para mim”, comenta. “Ela estava dentro de casa.”.

Para a pesquisadora da imigração japonesa da Universidade Federal do Paraná, Mônica Setuyo Okamoto, existe uma tendência histórica de romantizar a experiência dos japoneses no Brasil, apagando conflitos importantes dessa trajetória. “Muitas vezes se construiu uma ideia da imigração japonesa associada apenas ao trabalho, disciplina e sucesso econômico”, explica. “Mas existiram rupturas, discriminações e dificuldades profundas de pertencimento”.

Segundo ela, os primeiros imigrantes chegaram ao Brasil carregando valores sociais extremamente rígidos, como ordem e disciplina, que foram construídos em um Japão fortemente nacionalista do final do século XIX e início do século XX. “Muitos vieram acreditando que retornariam ao Japão depois de enriquecer”. A permanência definitiva em território brasileiro, para várias famílias, não fazia parte dos planos iniciais. “O Brasil era visto como um lugar de passagem”.

Essa tentativa constante de preservar uma identidade japonesa aparece diretamente na obra de Oscar Nakasato. Em Nihonjin, livro vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Romance Literário em 2012, o autor revisita a trajetória de famílias japonesas que migraram para o Brasil carregando expectativas, traumas e dificuldades de adaptação. O livro acompanha gerações diferentes, revelando conflitos entre pais e filhos, tradição e assimilação, memória e pertencimento. Embora seja ficção, a narrativa dialoga diretamente com experiências históricas da imigração japonesa no Paraná e no Brasil.

“Eu escrevi muito a partir das memórias que ouvi durante a vida”, conta Nakasato. “Não eram histórias organizadas, eram fragmentos.” Ele lembra que cresceu cercado por relatos interrompidos, comentários sobre o Japão, lembranças da guerra e histórias de deslocamento. Muitas vezes, porém, existia também uma recusa em falar profundamente sobre o passado. “Os imigrantes japoneses tinham uma relação muito silenciosa com a dor.”

Mônica Okamoto explica que isso não era incomum. Segundo ela, muitas famílias japonesas que chegaram ao Brasil carregavam experiências traumáticas decorrentes da guerra. “Existe uma dimensão emocional da imigração que nem sempre aparece nos registros históricos”, afirma. “Migrar não significa apenas mudar de território, significa abandonar referências, afetos e uma ideia de futuro”.

Segundo a pesquisadora, os japoneses encontraram um território desconhecido, dificuldades econômicas e forte preconceito racial ao chegar ao Brasil. Durante a Segunda Guerra Mundial, a situação se agravou ainda mais. Como o Japão fazia parte do Eixo, ao lado da Alemanha e da Itália, famílias japonesas passaram a ser perseguidas e vigiadas pelo governo brasileiro. Escolas japonesas foram fechadas, jornais censurados e o uso do idioma proibido em espaços públicos, causando muito preconceito aos imigrantes japoneses que residiam no Brasil. “Muitos imigrantes viveram aquele período como uma ruptura violenta”, explica Okamoto. “Eles já eram vistos como estrangeiros antes, mas durante a guerra passaram a ser tratados como inimigos”.

Nakasato comenta que a guerra ocupa um espaço importante dentro da memória coletiva nipo-brasileira justamente porque ela intensificou conflitos de identidade já existentes. “Os filhos dos imigrantes cresceram entre duas culturas, mas sem se sentirem completamente pertencentes a nenhuma delas”.

Essa sensação aparece constantemente na literatura de Oscar Nakasato. Os personagens de Nihonjin vivem atravessados por expectativas familiares, cobranças silenciosas e dificuldades emocionais herdadas de gerações anteriores. Existe uma sensação permanente de deslocamento, mesmo para aqueles que já nasceram no Brasil. “A imigração não termina na geração que atravessa o oceano,lá continua sua literatura  nos filhos e nos netos”.

Ao longo da entrevista, Nakasato fala várias vezes sobre herança. Não apenas herança material ou cultural, mas emocional. Para ele, muitos descendentes de japoneses cresceram tentando corresponder a uma ideia rígida de comportamento construída pelos próprios imigrantes. “Existia muito a ideia do esforço, do silêncio e da obrigação”.

A pesquisadora Mônica Okamoto explica que parte dessa lógica vinha de valores trazidos do Japão do início do século XX. Entre eles, conceitos ligados ao bushidô, código moral associado aos samurais, e à chamada “moral japonesa”, ensinada nas escolas japonesas durante o período imperial. “Esses valores foram reinterpretados no Brasil como forma de construir ‘bons cidadãos’ nipo-brasileiros”, afirma. “A disciplina, a obediência e o autocontrole passaram a ser vistos como virtudes centrais dentro da comunidade”.

Segundo ela, esses comportamentos também funcionavam como mecanismo de proteção diante do preconceito racial enfrentado no Brasil. “Muitos imigrantes acreditavam que precisavam demonstrar excelência moral e profissional para serem aceitos socialmente”. Ainda assim, a preservação desses valores nem sempre acontecia sem conflitos. Filhos e netos de japoneses cresceram tentando equilibrar expectativas familiares com a realidade brasileira ao redor deles.

Nakasato observa que essa cobrança atravessou gerações. “Muitos descendentes cresceram tentando corresponder a expectativas muito altas”, diz. Para ele, a literatura surge justamente como espaço para questionar esses silêncios e contradições. “Escrever foi uma forma de compreender coisas que eu vivi sem entender completamente”.

O escritor comenta que, durante dois séculos, a imigração japonesa foi narrada quase exclusivamente através do sucesso econômico e da disciplina. Pouco se falava sobre sofrimento emocional, solidão ou conflitos familiares. “Existe uma tendência de transformar os imigrantes japoneses em um modelo idealizado, mas eram pessoas atravessadas por medo, frustração e dificuldades como qualquer outro grupo imigrante”, afirma.

Apesar do reconhecimento nacional, o escritor mantém uma relação muito íntima com o Paraná. É impossível separar sua trajetória pessoal do contexto histórico da imigração japonesa no estado. Maringá, Londrina e outras cidades do norte paranaense aparecem não apenas como cenário, mas como espaços simbólicos de construção identitária. “O Paraná tem uma presença japonesa muito forte, o que  molda a cultura local de várias maneiras”.

Segundo Okamoto, o norte do Paraná foi fundamental para a consolidação das comunidades japonesas no Brasil. A expansão agrícola da região, especialmente ligada ao café, permitiu que muitas famílias japonesas criassem redes comunitárias, escolas e associações culturais. “Esses espaços ajudavam a preservar a identidade japonesa,  e a criar ambientes de forte cobrança interna”.

Ela afirma que muitos descendentes cresceram entre duas pressões distintas: a necessidade de se adaptar ao Brasil e a obrigação de preservar valores da cultura japonesa. “A identidade nikkei (palavra em kanji que descreve imigrantes japoneses e pessoas que nasceram fora do Japão) foi construída nesse espaço de negociação constante.”

Ao falar sobre pertencimento, Nakasato hesita por alguns segundos. Existe algo de parecido entre suas reflexões e as falas de outros descendentes de imigrantes relatadas em artigos: a percepção de que identidade nunca é algo totalmente resolvido. “Eu sou brasileiro”, mas também existe uma memória japonesa que faz parte da forma como eu vejo o mundo, afirma.

Mônica Okamoto acredita que essa dualidade continua presente mesmo entre gerações mais jovens. “Não se trata de escolher entre ser japonês ou brasileiro”, essas experiências coexistem”. Para ela, descendentes de japoneses frequentemente vivem uma espécie de pertencimento híbrido, no qual diferentes referências culturais se misturam dentro do cotidiano brasileiro.

Essa coexistência aparece também na própria linguagem de Nakasato. Seus textos costumam carregar um ritmo contido, econômico, quase silencioso. Há sempre a sensação de que algo importante permanece nas entrelinhas. “Eu acho que isso vem muito da experiência da comunidade japonesa”, nem tudo é dito diretamente, comenta”.

A própria escolha da literatura como linguagem também parece atravessada por essa tentativa de evidenciar silêncios familiares. Nakasato explica que escrever sobre imigração nunca foi apenas revisitar o passado, é também falar sobre o presente. “O Brasil continua sendo um país atravessado por migrações”, afirma Nakasato. Ao olhar para movimentos migratórios contemporâneos, como os de venezuelanos e haitianos, ele reconhece dinâmicas parecidas às vividas pelos japoneses décadas atrás. “Mudam os contextos históricos, mas permanecem a tentativa de pertencimento e os conflitos de identidade.”

Para ele, a literatura de imigração ajuda a compreender o Brasil de maneira mais profunda. “A história brasileira é feita de deslocamentos”, diz. Entender essas trajetórias significa também compreender como diferentes grupos ajudaram a construir o país e como essas memórias atravessam gerações.

No fim da conversa, ao ser questionado sobre memória, o escritor permanece alguns segundos em silêncio antes de responder. Talvez para ele, nunca tenha sido apenas lembranças. É herança, conflito e continuidade. “Existe muita coisa que desaparece quando uma geração vai embora, mas também existe aquilo que permanece mesmo sem ser dito”, diz.

Talvez seja exatamente nesse espaço, entre o silêncio e a permanência, que a literatura de Oscar Nakasato continua existindo. Não apenas como registro da imigração japonesa no Paraná e no Brasil, mas como tentativa de compreender aquilo que atravessa gerações sem nunca desaparecer completamente.

Ficha técnica: 

Produção: Maria Gallinea e Dimitri de Souza

Supervisão de produção: Hendryo André

Edição e publicação: Emanueli Garcia, João Pimentel, Larissa Didres, Leonardo Alexandre, Roberto Indzejczak e Sarah Brasil

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Muriel Emídio do Amaral

https://www2.uepg.br/

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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Imigrantes reconstroem a vida em MS com qualificação para o trabalho

 


Chegar a um novo país sem dominar o idioma, sem emprego, sem moradia e, muitas vezes, trazendo apenas a esperança de dias melhores. Essa é a realidade enfrentada por muitos imigrantes que vêm a Mato Grosso do Sul em busca de dignidade e oportunidades para recomeçar.

Em Campo Grande, essa jornada tem encontrado apoio na Sala do Migrante. A iniciativa é coordenada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e conta com o apoio da Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul (Fiems), entre outros parceiros.

O espaço reúne serviços de acolhimento, regularização de documentos e conexão com o emprego. Em pouco mais de um ano, o projeto já encaminhou mais de 2 mil pessoas ao mercado de trabalho formal. São mais de duas mil famílias que tiveram oportunidade de recomeçar com dignidade.

Aprender português para recuperar a confiança

Se o CPF abre as portas para a formalização no país, o domínio do idioma é o que permite ao imigrante conquistar autonomia no cotidiano, construir novas relações sociais e competir por melhores oportunidades de emprego, como conta a venezuelana Luisany Alexandra Reveron Gragirena.

“Decidi estudar português porque sabia que a língua é a chave para me integrar de verdade à sociedade. Hoje tenho autonomia para resolver meus documentos, me comunicar no dia a dia e ir a qualquer lugar sem medo”, relatou.

Luisany é uma das alunas que concluiu o curso de Português Técnico e Comunicação para Imigrantes, oferecido pelo Senai com formação de 60 horas. As aulas foram ministradas em uma sala especialmente montada para o projeto, na sede da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego, na capital.

O haitiano Smith Bien Aime lembra que o curso transformou o aprendizado da língua em uma experiência acessível e motivadora.

“A língua virou algo palpável. A gramática foi bem explicada e todos conseguiam acompanhar. Para nós, o curso foi um sucesso total”, avaliou.

Educação, acolhimento e oportunidades

No curso, os participantes tiveram acesso a conteúdo sobre língua portuguesa, cultura brasileira, serviços públicos e comunicação para o mercado de trabalho. A professora Maria Rosana Rodrigues Pinto Gama conta que a experiência foi marcada pelo comprometimento dos alunos e pela vontade de aprender.

 

“O respeito e o interesse dos estudantes em aprender português, além da gratidão pela forma como foram acolhidos no Brasil, ficaram evidentes durante todo o curso. Foi uma experiência pedagógica extremamente gratificante”, ressaltou.

A venezuelana Maizmell Teresa Hernandez Rodriguez reforça o acolhimento recebido durante as aulas.

“Estou muito agradecida pelo tempo investido em nos ensinar a língua portuguesa. Foi um trabalho feito com amor, paciência e dedicação”, declarou.

Também venezuelana, Liliana Josefina Alvarez Maestre destaca que a comunicação é uma necessidade básica para quem chega a um país estrangeiro.

“Como estrangeiro, é necessário se comunicar, e ao mesmo tempo é frustrante quando não conseguimos. Graças a esse projeto, nós estamos sendo muito ajudados. Cada aula foi maravilhosa. Que iniciativas como essa continuem”, afirmou.

Educação, acolhimento e oportunidades

Segundo o superintendente regional do Trabalho em Mato Grosso do Sul, Alexandre Cantero, a iniciativa nasceu da percepção de que milhares de vagas existentes no Estado poderiam ser ocupadas por pessoas que buscavam reconstruir suas trajetórias de vida.

“Estamos levando cidadania para quem está chegando ao Estado e, ao mesmo tempo, possibilitando o crescimento sustentável do setor produtivo com trabalho formal e direitos garantidos”, afirmou.

A presidente da Associação Venezuelana em Campo Grande, Mirtha Carpio, acompanha diariamente o atendimento aos imigrantes ao lado de Junel Ilora, da associação dos haitianos. Ela conta que muitos chegam à capital após longas jornadas e em situação de extrema vulnerabilidade.

“Muitas pessoas deixam para trás suas casas, suas famílias e suas carreiras. Algumas chegam apenas com a roupa do corpo. Por isso, ter um local que ofereça acolhimento, documentação, orientação profissional e qualificação faz toda a diferença”, afirmou.

Próxima qualificação

Entre as entidades parceiras da Sala do Migrante estão a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) e o Sindicato das Indústrias de Frios, Carnes e Derivados do Estado de Mato Grosso do Sul (Sicadems). O presidente do sindicato, Régis Comarella, explica que o projeto representa a chance de recomeçar uma vida nova em solo brasileiro.

“Mais do que capacitar trabalhadores, a iniciativa busca oferecer condições para que homens e mulheres que deixaram seus países de origem possam reconstruir suas vidas com autonomia, dignidade e perspectivas de futuro”, afirmou.

Dando continuidade às ações de capacitação, o Senai já prepara novas oportunidades para os imigrantes atendidos pelo projeto. O próximo curso será o de Segurança no Trabalho e Prevenção, com carga horária de 16 horas.

A proposta é ampliar ainda mais as possibilidades de inserção profissional dos participantes, especialmente em setores que demandam mão de obra qualificada e seguem em expansão em Mato Grosso do Sul.

https://www.fiems.com.br/

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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Aprender começa com o acolhimento

 Em Pacaraima, uma iniciativa do UNICEF fortalece a inclusão de crianças indígenas migrantes por meio do apoio de uma socioeducadora indígena


UNICEF/BRZ/Laís Muniz

“Mamãe, você não vai acreditar quem estava na minha sala hoje”, conta, entusiasmado, Roderick Valentín, de 9 anos. Ele se referia a Olívia Jimenez, socioeducadora indígena que passou a integrar parte da rotina escolar de dezenas de crianças, promovendo aprendizados e acolhimento entre indígenas, migrantes e brasileiros em Pacaraima, município que faz fronteira com a Venezuela. Em 2025, o município tinha 36% da sua população composta por pessoas vindas do país vizinho.

Nas escolas, onde sempre foi comum haver estudantes venezuelanos devido a proximidade com a fronteira, as salas de aula ganharam cada vez mais a sonoridade do espanhol e de línguas indígenas, como o Warao. Foi nesse contexto que o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), por meio do seu parceiro implementador, a AVSI Brasil, identificou a necessidade de apoiar a rede pública de ensino através das iniciativas de educação para crianças e adolescentes migrantes, especialmente indígenas.

“Já tive alunos que não falavam nada em português e nem espanhol, apenas sua língua materna indígena. Como um aluno que chega assim na escola vai aprender?”, diz Olívia. Em quase três anos apoiando a iniciativa, ela desenvolveu formas de auxiliar estudantes que falam pouco ou nenhum português ou espanhol a se sobressair nos estudos, acolhendo-os e aproximando-os também de outras crianças, como no caso de Roderick. Ao promover esse acolhimento, a iniciativa contribui para que crianças e adolescentes se sintam parte da comunidade escolar, o que favorece sua permanência na escola e reduz o risco de abandono.

Olívia recorda que em seu primeiro contato com a turma de Roderick, o comportamento do menino chamou sua atenção. Ele não se envolvia com as outras crianças, se sentava nos fundos da sala e não interagia nas aulas.

“Nos meus momentos com a turma, eu promovia leituras em grupo com contos tanto do Brasil, como da Venezuela. Passei a envolvê-lo, chamá-lo para ler os contos comigo, a participar com as outras crianças. Foi quando ele começou a perder o medo”, lembra.

Em casa, a mãe de Roderick, Rutzelis Ramos, acompanhava o desenvolvimento do filho, que ao chegar da escola, atualizava a mãe.

“Roderick me contou que Olívia estava apoiando a professora em sua escola. Ele ficou feliz em vê-la pois a conhece desde que era mais novo, quando chegamos aqui no Brasil”, disse. “Então ele passou a me contar sobre como a Olívia estava o ajudando. Ele dizia: ‘Mamãe, hoje a Olívia nos fez cantar’ e ‘mamãe, Olívia leu contos para a gente hoje’, e eu percebi o quanto aquilo o deixava feliz”

UNICEF/BRZ/Laís MunizDa esquerda para a direita, Liliane Paixão, professora de Roderick, que está no meio, e Olívia, socioeducadora Warao.

“Eu tinha muito medo de que as pessoas não o aceitassem por ser indígena e por não falar o idioma. Mas sei que hoje ele está seguro, porque ele se sente assim. E ter um representante indígena dentro de sala de aula ajuda nisso”, explica Rutzelis, mãe de Roderick. “Me emocionou um dia que ele chegou em casa e disse ‘mamãe, estou começando a entender as palavras. Olívia está me dizendo o que as palavras em português significam’”.

Em alguns meses, Roderick passou a interagir mais nas aulas e com os outros alunos, e está mais confiante.

“Roderick é um aluno especial. Sua mudança foi grande, e por isso quis falar sobre ele. Hoje vejo ele muito mais sorridente, muito mais próximo”, descreve Olívia. “Para mim, é uma felicidade acolher crianças que muitas vezes chegam sem muita perspectiva ao Brasil, que acham que não vão aprender. Quero mostrar para elas que elas conseguem”.

Para apoiar estratégias de educação e acolhimento em Pacaraima, o UNICEF tem como parceria estratégica  da União Europeia, através do Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária (ECHO, na sigla em inglês).

Sobre o Projeto de Integração Intercultural Indígena

O Projeto de Integração Intercultural Indígena, desenvolvido pelo UNICEF em parceria com a AVSI Brasil tem fortalecido o acesso, a permanência e a aprendizagem de crianças e adolescentes indígenas migrantes, especialmente das etnias Warao, Eñepá e Pemon, em Pacaraima. Com uma abordagem intercultural que reconhece e valoriza a diversidade cultural, linguística e os direitos dos povos indígenas, a iniciativa tem apoiado a rede municipal de ensino na construção de ambientes escolares mais inclusivos, acolhedores e preparados para responder às necessidades específicas dos estudantes indígenas.

As atividades desenvolvidas incluem dinâmicas de quebra-gelo, contação de histórias, rodas de conversa, atividades lúdicas e mediação intercultural, promovendo a interação entre estudantes indígenas e não indígenas, o fortalecimento da convivência escolar e a valorização das identidades culturais. Além do trabalho direto com as crianças e adolescentes, a socioeducadora oferece suporte contínuo aos professores na adoção de estratégias pedagógicas culturalmente sensíveis, contribuindo para reduzir barreiras linguísticas e culturais e fortalecer práticas educativas inclusivas.

Ao longo dos três anos de implementação, o projeto atendeu diretamente mais de 600 crianças e adolescentes indígenas venezuelanos, além dos impactos relevantes para a educação no município. O projeto fortaleceu as capacidades da rede municipal de ensino para promover uma educação intercultural, ampliou o acolhimento e a participação dos estudantes indígenas na vida escolar, fortaleceu o vínculo entre escolas, famílias e comunidades indígenas e contribuiu para a redução de situações de discriminação e exclusão. 


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