Luis Alcides Barreto Lezama é um dos mais de 29 mil venezuelanos empregados no RS.Bruno Todeschini / Agencia RBS
Por Mathias Boni
Em um Estado que há séculos já conhece a força do trabalho de imigrantes, a presença de trabalhadores de fora do país tem sido cada vez mais importante para o setor produtivo também nos dias atuais. Em 2025, o Rio Grande do Sul bateu o recorde de imigrantes contratados, terminando o ano com 53,6 mil estrangeiros empregados formalmente.
O número de trabalhadores imigrantes no Rio Grande do Sul vem crescendo ano a ano. Conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) compilados pela Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS), em dezembro de 2022, eram 26.148 contratados no Estado, menos da metade do registrado em dezembro de 2025.
— Vivemos um momento no Rio Grande do Sul de redução de natalidade, envelhecimento da população, e há uma demanda forte por trabalhadores em diversos setores. Nesse contexto, os imigrantes, além das contribuições com suas culturas e experiências próprias, também têm ajudado a enfrentar a escassez de mão de obra que há no Estado — afirma Juliano Florczak Almeida, chefe da seção de Informação e Pesquisa da FGTAS.
Sofrendo grave crise humanitária há mais de uma década, os venezuelanos seguem como o maior grupo de internacionais atuando no mercado de trabalho gaúcho — o Rio Grande do Sul é o terceiro Estado que mais recebe imigrantes do país por meio do programa de interiorização da Operação Acolhida, ficando atrás de Paraná e São Paulo. Dos 53,66 mil imigrantes trabalhando formalmente no Estado, 29.473 são nacionais da Venezuela, ou cerca de 55% do total.
Um dos venezuelanos contratados no Rio Grande do Sul em 2025 foi Luis Alcides Barreto Lezama, 35 anos. Ele é natural do estado venezuelano de Bolívar, que faz fronteira com Roraima, e onde ainda vivem sua mãe, seu pai e seu filho.
Em 2023, ele atravessou a fronteira com o Brasil em Pacaraima em busca de sustento, após vários meses com dificuldades para arranjar emprego. Por indicação de conhecidos, acabou vindo tentar a sorte em Porto Alegre. Após um período exercendo atividades informais, atuando como pintor, foi contratado em junho do ano passado como auxiliar de açougue em uma unidade do supermercado Asun na Capital.
— No começo, sofri muito, principalmente pela dificuldade da língua. Mas, depois que fui aprendendo português, as coisas foram melhorando, e hoje me sinto como se estivesse no meu país. Precisava buscar uma oportunidade de vida melhor para mim e para a minha família e vim para o Brasil tentar isso. Hoje, o que mais pesa para mim é sentir falta da família, mas estou aqui também por eles — destaca Luis, que pretende continuar morando em Porto Alegre pelos próximos anos, ainda sem saber o que vai acontecer na Venezuela após a recente derrubada de Nicolás Maduro.
O diretor de RH do Asun, Maurício Echeverria, destaca que “a contratação de imigrantes é vista como um fator enriquecedor para o negócio“.
— Pessoas oriundas de outras culturas promovem a diversidade, a inclusão, visões e perspectivas diferentes. Vale lembrar que a nossa fundadora, Dona Asunción, era imigrante. Atualmente, temos em nossos quadros de colaboradores pessoas vindas de países como Venezuela, Haiti, Peru, Uruguai e Cuba, sendo algumas delas ocupando cargos de liderança — afirma.
Ferramenta de acolhimento e integração
Especialistas em migração internacional sempre destacam que a integração na sociedade de recebimento é parte fundamental do processo de acolhimento de imigrantes, principalmente quando se trata de refugiados, como é o caso da maioria dos venezuelanos no Brasil. Imigrantes são considerados refugiados quando fogem de seu país em razão de fundados temores de perseguição relacionados a questões de raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um determinado grupo social ou opinião política, como também devido à grave e generalizada violação de direitos humanos, situação verificada na Venezuela, e por isso demandam mais atenção em seu acolhimento.
Ao lado de mais de 100 países, o Brasil é signatário da Convenção da ONU de 1951 sobre o Estatuto de Pessoas Refugiadas, se comprometendo a acolher e apoiar a inclusão em seu território dessas pessoas, que foi regulamentada pela Lei 9474/97. Para fomentar a integração de refugiados e imigrantes como um todo, uma das principais ferramentas de inclusão é justamente o emprego. Além de permitir ao imigrante auferir uma renda para se manter, também o insere no fluxo da sociedade de acolhida e propicia uma interação mais próxima com habitantes locais, a partir do contato com colegas de trabalho.
— A inclusão dessas pessoas ocorre primordialmente pelo acesso a trabalho decente, contribuindo para sua autonomia e integração local. Por isso é tão importante que as empresas estejam engajadas, de forma que as oportunidades de emprego também possam chegar a estas pessoas, complementando o mercado de trabalho nas regiões onde se encontram — aponta Paulo Sérgio Almeida, oficial de Meios de Vida e Inclusão Econômica na Agência da ONU para Refugiados (Acnur).
No Rio Grande do Sul, as admissões de imigrantes em 2025 abrangeram os seguintes setores, segundo a FGTAS:
- Indústria: 23.186
- Agropecuária: 17.034
- Serviços: 10.659
- Comércio: 10.627
- Construção civil: 2.818
* Esses números não consideram os desligamentos, que, junto das contratações, formam o saldo de 53,6 mil trabalhadores estrangeiros empregados no RS





