sábado, 28 de fevereiro de 2026

Reunião da Assembleia Geral prepara caminho para Fórum sobre Migração



Migrantes que tentaram atravessar o Mediterrâneo rumo à Europa são resgatados no mar. (arquivo)

 A  Assembleia Geral da ONU reúne-se nesta sexta-feira para analisar um  resumo do secretário-geral, António Guterres, a respeito do Pacto Global sobre Migração. 

A sessão antecede o segundo Fórum de Revisão da Migração Internacional, Imrf, marcado para 5 a 8 de maio de 2026, em Nova Iorque.

304 milhões de migrantes internacionais

O documento avalia os progressos, desde o relatório anterior de 2024, e fornece orientações para as deliberações do Fórum deste ano, com base em revisões regionais, contributos escritos e consultas com Estados, partes interessadas e entidades das Nações Unidas.

Segundo o relatório, em 2024 o mundo tem 304 milhões de migrantes internacionais, representando 3,7% da população mundial. Desse total, 45% residiam na sua região de origem.

A força de trabalho global incluía 168 milhões de trabalhadores migrantes, dos quais 64,9 milhões eram mulheres. Entre 37 e 42 milhões de migrantes internacionais eram crianças, correspondendo a 12% a 14% do total.

Entre 2020 e 2023, foram registadas 202.478 vítimas de tráfico humano em 156 países, sendo 61% mulheres. Desde a adoção do Pacto Global sobre Migração Segura, Ordenada e Regular, foram contabilizadas mais de 48 mil mortes e desaparecimentos durante rotas migratórias, incluindo 15 mil em 2024 e 2025.

O brasão da ONU retratado no Salão da Assembleia Geral
ONU/Loey Felipe
 
O brasão da ONU retratado no Salão da Assembleia Geral

Vias regulares e regularização

O relatório sublinha que, na ausência de vias seguras e regulares, os migrantes enfrentam riscos acrescidos. Diversos Estados-membros implementaram programas de migração laboral, incluindo mecanismos baseados em competências, bem como admissões por motivos humanitários.

Alguns países concederam autorizações de residência com base em direitos humanos, incluindo para sobreviventes de violência baseada no género, exploração laboral e tráfico humano. 

Também foram adotados programas temporários e permanentes de regularização para migrantes em situação irregular, incluindo pessoas com vínculos laborais, sociais, educacionais ou familiares estabelecidos.

Apesar desses avanços, o relatório aponta obstáculos como custos administrativos elevados, critérios restritivos e exigências documentais complexas.

Reunificação familiar

A reunificação familiar é identificada como elemento relevante para reduzir movimentos irregulares e reforçar a integração. 

Algumas iniciativas incluem o reconhecimento de casamentos não oficializados e a possibilidade de acompanhamento familiar em regimes de mobilidade laboral.

No entanto, persistem barreiras legais e práticas, e trabalhadores migrantes com baixos rendimentos continuam frequentemente excluídos de mecanismos de reunificação.

Migrantes fogem da instabilidade econômica, conflitos e situações adversas
© OIM/Gema Cortes
 
Migrantes fogem da instabilidade econômica, conflitos e situações adversas

Migração e alterações climáticas

O relatório destaca a necessidade de integrar a mobilidade humana nas políticas de adaptação às alterações climáticas e de reforçar a coerência com instrumentos internacionais como o Acordo de Paris e o Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres.

Alguns Estados incorporaram a mobilidade humana, incluindo migração, deslocamento e relocalização planeada, nas suas estratégias climáticas.

O Fundo Fiduciário Multiparticipativo para Migração canalizou mais de US$ 15 milhões para programas em várias regiões com foco em resiliência e vias baseadas em direitos para pessoas afetadas pelas alterações climáticas.

O segundo Imrf reunirá Estados-Membros e outras partes interessadas para avaliar progressos e desafios na implementação do Pacto e definir prioridades futuras. 

O relatório sublinha que o Pacto fornece um quadro de cooperação multilateral, reconhecendo simultaneamente o direito soberano dos Estados de definir as suas políticas migratórias em conformidade com o direito internacional.


https://news.un.org/pt

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Freira peruana lidera rede latino-americana contra o tráfico de pessoas

Imagem ACIPRENSA 

Por Diego López Marina , Nathali Paredes

A freira Ana María Vilca, da Congregação das Irmãs dos Santos Nomes de Jesus e Maria, assumiu a Rede Internacional de Vida Consagrada contra o Tráfico de Seres Humanos, Talitha Kum, na América Latina.

A freira peruana disse à EWTN News que "infelizmente, o tráfico de pessoas está aumentando nessa parte do continente", impulsionado por fatores estruturais como pobreza, migração e corrupção.

“A pobreza é um dos fatores que torna muitas mulheres e crianças vulneráveis ​​e, como resultado, elas caem nas mãos de traficantes de pessoas”, disse ela. Isso é agravado por “extensas fronteiras sem monitoramento”, migração irregular e deslocamento forçado que afetam vários países da América Latina e do Caribe.

Os alertas da freira coincidem com dados de organizações internacionais.

O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, na sigla em inglês) observou em seu Relatório Global sobre Tráfico de Pessoas 2024 que o número de vítimas detectadas em todo o mundo aumentou 25%, com um aumento na exploração infantil e nos casos de trabalho forçado.

A mesma organização diz, num relatório atualizado até o ano passado, que 16% das vítimas detectadas em todo o mundo são das Américas.

Países afetados e modos de operação

Embora tenha evitado apontar um único país com maior incidência, a freira Ana María disse que "México, Colômbia, Peru e Brasil" frequentemente registram fatores de risco associados ao tráfico de pessoas, embora tenha dito que "não podemos dizer que isso não ocorre em outros países".

“Ainda precisamos coletar dados precisos para realmente dizer: esse é o número”, disse ela.

A freira disse que o tráfico de pessoas é um processo que começa com o recrutamento, feito por redes criminosas que muitas vezes estão ligadas a outros crimes. "São redes interligadas", disse ela.

Em alguns casos, disse a freira, “sob ameaça e coerção, as próprias vítimas do tráfico são agora incumbidas de recrutar outras pessoas”. Esse mecanismo ocorre principalmente com o propósito de exploração sexual. “Uma mulher que foi recrutada para exploração é usada para recrutar outras”, disse ela.

As principais vítimas são "mulheres jovens, garotos e garotas, adolescentes", geralmente da infância até aproximadamente os 30 anos de idade, embora ela tenha dito que não se trata de uma faixa etária restrita.

Prevenção, educação e apoio

Diante dessa realidade, a Talitha Kum concentra seu trabalho na prevenção e no apoio. "Nosso principal trabalho é a prevenção e a educação", disse a irmã Vilca.

O relatório anual de 2024 da Talitha Kum — publicado pela União Internacional das Superioras Gerais — diz que a rede alcançou cerca de 939 mil pessoas ao redor do mundo por meio de ações de prevenção e apoio, e prestou atendimento direto a cerca de 46 mil sobreviventes.

A rede acolhe e apoia sobreviventes em abrigos e trabalha em colaboração com voluntários leigos e outras instituições. "Não trabalhamos isoladamente, mas sim como uma rede", disse ela.

Atualmente, Talitha Kum está presente em 14 países da América Latina e em 77 países ao redor do mundo, segundo a freira.

Todo dia 8 de fevereiro, a Igreja promove o Dia Mundial de Oração e Reflexão contra o Tráfico de Seres Humanos, iniciativa que busca conscientizar e promover ações concretas contra esse crime que, como disse a irmã Ana María, continua crescendo e afetando especialmente os mais vulneráveis.

“Acreditamos que ainda há muito trabalho a ser feito na área de prevenção e educação, para que não nos coloquemos em situações de risco que nos levem a cair nesse crime”, concluiu.

https://www.acidigital.com/

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Mar Mediterrâneo tem começo de ano mais mortal para migrantes já registrado

 

SOS Méditerranée/Fabian Mondi
 

Migrantes que tentaram atravessar o Mediterrâneo rumo à Europa são resgatados no mar (arquivo)

Naufrágio recente na costa da Grécia deixou 30 mortos ou desaparecidos; OIM defende cooperação regional mais forte, para salvar vidas e garantir desembarques seguros; redes de tráfico e contrabando atuam ao longo da rota do Mediterrâneo Central. 

Pelo menos 30 migrantes são considerados mortos ou desaparecidos após um naufrágio na costa da Grécia, sob condições climáticas severas no sábado. A Organização Internacional para Migrações, OIM, afirmou que 20 pessoas foram resgatadas, incluindo quatro menores de idade.

A embarcação partiu de Tobruk, na Líbia, em 19 de fevereiro e afundou cerca de 20 milhas náuticas ao sul da ilha grega de Creta. Até esta segunda-feira, as autoridades haviam recuperado os corpos de três homens e uma mulher.

Cooperação para salvar vidas

Desde o início de 2026, pelo menos 606 migrantes já foram reportados como mortos ou desaparecidos ao longo da rota do Mediterrâneo, segundo o Projeto de Migrantes Desaparecidos da OIM. 

Este é o início de ano mais mortal no Mediterrâneo desde que os dados começaram a ser registrados em 2014.

A agência lamenta a perda de vidas em mais um incidente e pede o aumento dos esforços de busca e salvamento no Mediterrâneo Central. A OIM defende uma cooperação regional mais forte, para salvar vidas e garantir desembarques seguros. 

Redes de tráfico operam no Mediterrâneo

A organização especializada em migrações alerta que as redes de tráfico e contrabando continuam explorando migrantes ao longo da rota do Mediterrâneo Central. 

Os criminosos lucram com travessias perigosas em barcos inaptos para navegar, enquanto expõem as pessoas a graves riscos de abuso e proteção.

De acordo com a OIM, cooperação internacional mais forte e respostas centradas na proteção são fundamentais para combater essas redes criminosas e expandir caminhos seguros e regulares para reduzir riscos.


https://news.un.org/pt

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Como estrangeiros podem fazer faculdade no Brasil

 

Como estrangeiros podem fazer faculdade no Brasil

Estudar no exterior é um objetivo cada vez mais comum entre estudantes que buscam ampliar horizontes profissionais e vivenciar novas culturas. O Brasil tem se consolidado como um destino atrativo para estrangeiros interessados em qualificação acadêmica, seja por meio de cursos técnicos, graduação, pós-graduação ou intercâmbio.


Segundo o Ministério da Educação, existem diversas formas de ingresso nas instituições brasileiras, que possuem autonomia para definir seus processos seletivos. Além disso, iniciativas em parceria com o Ministério das Relações Exteriores facilitam o acesso de estudantes internacionais ao ensino superior no país.


Por que estudar no Brasil


O Brasil recebe todos os anos estudantes, migrantes e refugiados de diferentes partes do mundo em busca de oportunidades educacionais e melhores perspectivas de carreira. A diversidade cultural, a qualidade do ensino e a oferta de programas de inclusão tornam o país um destino relevante no cenário educacional internacional.


Outro diferencial é a presença de universidades reconhecidas, cursos profissionalizantes acessíveis e iniciativas que apoiam a integração social e profissional, com suporte na regularização migratória e acesso ao mercado de trabalho.


Programas do governo para estrangeiros


Um dos principais caminhos para estudar no país é o Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), criado em 1965. A iniciativa oferece vagas gratuitas em cursos superiores para cidadãos de países que mantêm acordos educacionais com o Brasil.


As inscrições são anuais e realizadas nas embaixadas ou consulados brasileiros. Entre os requisitos estão média escolar mínima de 60%, comprovação financeira, compromisso de retorno ao país de origem após a graduação e certificado de proficiência em português por meio do Celpe-Bras.


Atualmente, mais de mil estudantes estão matriculados em universidades brasileiras pelo programa, segundo dados do MRE.


Formações profissionalizantes e cursos técnicos


Para quem busca inserção rápida no mercado de trabalho, cursos técnicos e profissionalizantes são alternativas acessíveis. As formações podem durar de poucos meses até cerca de dois anos e são voltadas para áreas como Tecnologia, AdministraçãoGastronomia e Marketing.


Os requisitos variam conforme a instituição, mas geralmente incluem documento de identificação, CPF, comprovante de escolaridade e residência.


Graduação no Brasil para estrangeiros


A graduação é indicada para quem deseja formação acadêmica mais completa. Cursos tecnológicos costumam durar de dois a três anos, enquanto bacharelados e licenciaturas podem chegar a cinco anos. Entre as formas de ingresso estão:


Vestibular próprio das universidades;

Nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem);

Processos seletivos específicos para estrangeiros, como os da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila);

Programas internacionais como o PEC-G.


Normalmente, é necessário apresentar diploma do ensino médio, certificado de proficiência em português, visto de estudante e documentos pessoais.


Pós-graduação e especialização


Estrangeiros que já possuem diploma podem optar por cursos de pós-graduação para aprofundar conhecimentos ou se especializar. Os processos seletivos podem incluir análise curricular, entrevistas e projetos de pesquisa.


Entre as iniciativas disponíveis está o Programa de Estudantes-Convênio de Pós-Graduação (PEC-PG), que oferece bolsas para mestrado e doutorado. Algumas instituições também realizam seleções específicas para migrantes e refugiados.


Intercâmbio acadêmico no Brasil


intercâmbio é ideal para estudantes que desejam uma experiência temporária no país. Geralmente, é necessário estar matriculado em uma universidade no exterior, comprovar conhecimento em português e atender às exigências da instituição de destino. 


Muitas universidades possuem parcerias internacionais que permitem cursar um ou mais semestres no Brasil.


Documentos necessários para estudar no Brasil


Independentemente da modalidade, alguns documentos são frequentemente exigidos:


Documento de identificação e visto de estudante;

CPF;

Comprovante de escolaridade;

Certificado de proficiência em português;

Comprovação financeira;

Comprovante de residência.


Planejamento é essencial para estudar no país


Antes de se candidatar, é fundamental verificar os requisitos específicos de cada instituição ou programa. O planejamento antecipado facilita o processo de inscrição e aumenta as chances de aprovação.


Com diferentes formas de ingresso e políticas de inclusão, o Brasil segue como um destino promissor para estrangeiros que buscam formação acadêmica e crescimento profissional em um ambiente culturalmente diverso.


Veja tambémEstrangeiro pode prestar concurso público no Brasil?


Curso de idiomas com desconto nas mensalidades


Educa Mais Brasil é um programa de inclusão educacional que, além de bolsas para cursos de graduação e pós-graduação, oferece descontos em cursos de idiomas, como inglês, espanhol, francês e outros. Não perca a oportunidade de se capacitar para o mercado de trabalho com o conhecimento de uma nova língua estrangeira. 


As instituições parceiras do programa possuem reconhecimento no mercado e podem te auxiliar a conquistar a tão sonhada fluência. Consulte as bolsas disponíveis para cursos de idiomas em sua cidade!


https://www.educamaisbrasil.com.br/

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

A Ucrânia e as vidas suspensas dos refugiados

 


Quatro anos após o início do conflito, cerca de 10 milhões de ucranianos vivem longe de suas casas. Entre deslocados internos e refugiados no exterior, cresce a necessidade de assistência humanitária, à medida que aumentam as dificuldades econômicas e psicológicas. Apesar de tudo, permanece forte o desejo de voltar.

Stefano Leszczynski - Vatican News

A guerra na Ucrânia entra no seu quinto ano, deixando para trás não só territórios disputados, mas acima de tudo vidas destruídas e comunidades desintegradas. Casas, escolas, hospitais e infraestruturas energéticas continuam sendo atingidos, com um impacto direto na população civil. De acordo com a Missão de Monitoramento dos Direitos Humanos das Nações Unidas na Ucrânia, 2025 foi o ano mais letal para os civis: mais de 2.500 pessoas perderam a vida e mais de 12 mil ficaram feridas. Números que confirmam que o conflito ainda está longe de uma solução e que testemunham a intensificação dos ataques e as consequências sobre as infraestruturas essenciais.

Dez milhões de pessoas longe de casa

Cerca de 10 milhões de ucranianos vivem atualmente longe de suas casas. Desses, 3,7 milhões são deslocados internos: deixaram as zonas de combate, mas permaneceram dentro das fronteiras nacionais. Outros 5,9 milhões procuraram proteção no exterior. “Os fluxos de refugiados ucranianos para o exterior ainda são uma realidade”, explica Elisabeth Haslund, porta-voz do ACNUR na Ucrânia. A principal razão continua sendo a falta de segurança, agravada pela crise energética causada pelos bombardeios contínuos contra as infraestruturas. De acordo com dados do Eurostat, em 2025, na União Europeia – juntamente com os quatro países associados ao espaço Schengen (Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça) – foram emitidas 670 mil autorizações de residência temporária a cidadãos ucranianos, 12% menos do que em 2024.

A emergência dentro das fronteiras ucranianas

Dentro do país, pelo menos 11 milhões de pessoas precisam de assistência humanitária. Por trás desse número escondem-se necessidades concretas: comida, alojamento, cuidados médicos, apoio psicológico, acesso a serviços básicos. A maioria dos deslocados internos ainda se concentra nas regiões orientais, particularmente em Kharkiv e Dnipro, na tentativa de permanecer o mais próximo possível de suas casas. A capital, Kiev, também está sob pressão devido ao fluxo contínuo de refugiados. Um dos problemas mais urgentes continua sendo o alojamento, especialmente para idosos e pessoas frágeis. Entre as prioridades do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados está justamente o apoio habitacional e sanitário para aqueles que não têm alternativas. 

O caso italiano: integração fracassada

Os refugiados ucranianos apresentam características peculiares também no contexto italiano. “Os ucranianos e ucranianas na Itália nunca deram a impressão de querer se estabelecer de forma permanente”, explica Filippo Ungaro, porta-voz do ACNUR na Itália. Muitas crianças continuaram a acompanhar as aulas das escolas ucranianas on-line e o nível de conhecimento da língua italiana permanece relativamente baixo. Um outro elemento crítico diz respeito ao registro no cartório: muitos não estão registrados, perdendo assim o acesso aos serviços sociais municipais e aos subsídios para o aluguel. Muitas vezes, eles dependem de redes informais de parentes e amigos.

Uma resiliência que não deve ser normalizada

Na segunda metade de 2025, os riscos para a população deslocada e outros grupos vulneráveis aumentaram. No entanto, apesar dos bombardeamentos e das dificuldades diárias, as pessoas continuam a ir trabalhar e a levar os filhos à escola. Uma resiliência ostensiva que, no entanto, não deve tornar-se normalidade. Por trás da aparente capacidade de adaptação esconde-se uma pressão constante, sobretudo em nível psicológico. 42% dos refugiados relatam dificuldades relacionadas à saúde mental, com porcentagens ainda mais elevadas entre idosos, doentes crônicos e famílias monoparentais.

O desejo de retornar e as dificuldades econômicas

Apesar de tudo, cerca de 1,4 milhão de refugiados retornaram à Ucrânia, permanecendo no país por pelo menos três meses. Um sinal da vontade generalizada de retornar, quando as condições permitirem. De acordo com a última pesquisa sobre intenções realizada pelo ACNUR, 61% dos refugiados no exterior e 73% dos deslocados internos esperam voltar um dia para casa.

No entanto, também cresce o número daqueles que se declaram resignados por não poderem retornar aos seus locais de origem. O ACNUR contribuiu para a reparação de mais de 55 mil habitações danificadas pelos combates. Mas as dificuldades financeiras, agravadas pelos recentes cortes na cooperação internacional, limitam a capacidade de intervenção: menos recursos significam menos pessoas ajudadas. A linha de frente continua a se mover lentamente. Mas a divisão mais profunda não é apenas geográfica: ela atravessa a vida de milhões de pessoas suspensas entre a espera pela paz e a necessidade de reconstruir um futuro longe de casa.

https://www.vaticannews.va/pt
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sábado, 21 de fevereiro de 2026

OIM expande Fundo de Filantropia Islâmica para apoiar migrantes e famílias deslocadas em todo o mundo

 

 A OIM, a Agência da ONU para Migrações, lançou esta semana sua segunda campanha anual para o Ramadan, com o nome de “Compartilhe as bênçãos”, expandido o Fundo de Filantropia Islâmica (IPF, na sua sigla em inglês) para apoiar migrantes e famílias deslocadas afetadas por crises. Com base no apelo do ano passado no Sudão, a campanha expandirá a assistência para diversos contextos de emergência, respondendo a necessidades humanitárias impulsionadas por conflitos, impactos da mudança do clima e deslocamentos.  

“Em sua essência, o IPF representa compaixão, solidariedade e nossa responsabilidade conjunta de cuidarmos uns dos outros”, disse Mohammed Abdiker, chefe de gabinete da OIM e Presidente do Conselho Consultivo do IPF. “Por meio do Fundo, tornamos possível que o Zakat (dever de contribuição destinada a pessoas em situação de vulnerabilidade) alcance pessoas que foram deslocadas, exploradas e privadas de proteção, ajudando-as a suprir suas necessidades com dignidade e autonomia. Cada contribuição é a fé colocada em prática, entregue com respeito, transparência e esperança.” 

O Ramadan é um período de generosidade e solidariedade para as comunidades muçulmanas em todo o mundo. No entanto, para milhões de migrantes e pessoas deslocadas, a vida diariamente é marcada por insegurança, perdas e acesso limitado a serviços básicos. Por meio dessa campanha, a OIM facilita a doação do Zakat de forma completamente alinhada com os princípios da Shariah, garantindo que a ajuda chegue às pessoas em situação de vulnerabilidade aguda com dignidade e respeito. 

O Zakat e a Sadaqah (doação voluntária) doados através do Fundo de Filantropia Islâmica contribuem para oferecer apoio vital, incluindo abrigos de emergência, cuidados de saúde, serviços de proteção e assistência financeira emergencial. Através da assistência em dinheiro, as famílias podem decidir por si mesmas a melhor forma de atender às suas necessidades mais urgentes, preservando sua dignidade e, ao mesmo tempo, fortalecendo as economias locais, mesmo em tempos de crise. 

Os recursos arrecadados durante a campanha apoiarão o trabalho da OIM com famílias deslocadas elegíveis, migrantes retidos, sobreviventes de tráfico de pessoas e comunidades de acolhida vulneráveis em contextos prioritários, incluindo Afeganistão, Bangladesh, Gaza, Sudão, Síria e Iêmen.  

O IPF é um mecanismo global da OIM para a coleta, gestão e distribuição de Zakat, Sadaqah e outras formas de doações islâmicas. O Fundo adota uma política de distribuição de 100% do Zakat, garantindo que todas as contribuições sejam entregues integralmente aos beneficiários elegíveis em total conformidade com os princípios da sharia e as normas financeiras e de prestação de contas da OIM. O IPF opera de acordo com fatawa (pareceres jurídicos) reconhecidas que confirmam a elegibilidade da OIM para coletar e administrar doações islâmicas. 

Desde seu lançamento, o Fundo expandiu-se por meio de campanhas digitais e do engajamento direto com doadores, ampliando o acesso a doações alinhadas à fé e reforçando a transparência e a confiança. À medida que as necessidades humanitárias continuam a crescer, a OIM segue fortalecendo o IPF como parte de esforços mais amplos para diversificar e sustentar o financiamento que apoia migrantes e pessoas deslocadas em todo o mundo. 

https://brazil.iom.int/pt-br

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Quando a população atingir 10 milhões, as portas se fecharão para imigrantes: a medida radical que a Suíça está considerando

 

Fabrício Mainenti


Desde o período pós-guerra na Europa, a imigração tem sido uma constante silenciosa na reconstrução econômica do continente, inicialmente para fornecer mão de obra à indústria e, posteriormente, para sustentar o crescimento e o estado de bem-estar social em sociedades cada vez mais envelhecidas.

Ao longo das décadas, esse fenômeno passou de uma necessidade aceita a um debate político central, especialmente após os alargamentos da UE e as crises econômicas. Hoje, a Europa enfrenta uma questão que pensava já ter respondido: até que ponto está disposta a ir para permanecer um espaço aberto?

A cifra perturbadora

Discutimos essa ideia há alguns meses. A Suíça caminha para uma votação que sintetiza muitas das tensões acumuladas na Europa na última década: crescimento populacional, imigração, habitação e o modelo econômico. A proposta de estabelecer um limite populacional absoluto de 10 milhões de habitantes, promovida pela Swiss People’s Party, irá às urnas após coletar as assinaturas necessárias em um país onde a democracia direta transforma o descontentamento social em decisões estatais.

A situação: com uma população atual de 9,1 milhões e uma taxa de crescimento muito superior à dos seus vizinhos, o debate já não gira em torno da capacidade da Suíça de continuar a crescer, mas sim da sua vontade de o fazer.

De país atraente a “saturado”

Durante décadas, a prosperidade suíça baseou-se em salários elevados, estabilidade política e uma economia aberta capaz de atrair tanto mão de obra não qualificada como talento internacional. Este sucesso tem tido um lado negativo cada vez mais visível: 27% de residentes estrangeiros, um mercado imobiliário sobrecarregado e uma pressão crescente sobre as infraestruturas e os serviços públicos.

Para os defensores de um limite populacional, este crescimento tornou-se incontrolável e ameaça a qualidade de vida, mas para os seus detratores, é precisamente o motor que sustentou a riqueza do país.

O limite e as suas consequências

À primeira vista, a iniciativa não propõe um sistema gradual ou quotas flexíveis, mas sim um limite rígido e inflexível que exigiria ação imediata ao ultrapassar os 9,5 milhões e, ao atingir os 10 milhões, significaria praticamente o fechamento total da entrada de novos residentes, incluindo requerentes de asilo e reagrupamentos familiares.

Essa natureza absoluta é talvez o que mais preocupa economistas e empresários, que alertam para uma interrupção abrupta da chegada de trabalhadores justamente quando o envelhecimento da população começa a se fazer sentir e a demanda por mão de obra permanece alta.

A Europa como uma linha vermelha

O aspecto mais delicado do plano é justamente o seu impacto direto na relação com a União Europeia. A razão é muito simples: se o limite não for respeitado, o governo seria forçado a se retirar do acordo de livre circulação de pessoas, um pilar dos tratados que garantem à Suíça o acesso ao mercado único.

Em um país onde quase metade das exportações se destina à UE, romper esse vínculo não é apenas uma questão migratória, mas uma mudança estrutural no modelo econômico construído ao longo de décadas.

A economia versus o voto emocional

Aqui, outros fatores entram em jogo, já que multinacionais e associações patronais reagiram fortemente, alertando para a deslocalização da produção, a perda de inovação e a pressão adicional sobre o sistema previdenciário, financiado em grande parte por trabalhadores estrangeiros.

Por sua vez, a associação empresarial Economiesuisse classificou a proposta como caótica, enquanto acadêmicos enfatizam que a recente estagnação dos salários reais e o aumento do custo de vida criaram um terreno fértil para culpar a imigração, embora os problemas tenham raízes mais complexas.

Além do censo

As pesquisas mostram um país quase divididocom apoio em torno de 48%, tornando o resultado imprevisível. Portanto, não parece ser simplesmente uma questão de decidir quantas pessoas podem viver na Suíça.

A questão fundamental reside em outro lugar: definir que tipo de país quer ser em um ambiente europeu cada vez mais tenso. Ou um país que preserve sua abertura, mesmo que isso signifique administrar melhor seus desequilíbrios internos, ou outro que erga uma fronteira simbólica e assuma o risco de redefinir sua relação com a Europa e sua própria ideia de prosperidade.

Enquanto isso, a Europa prende a respiração, imaginando quais poderão ser as consequências dessa decisão.

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