O envelhecimento da população de origem japonesa no Brasil revela mudanças profundas nas formas de pertencimento, nos vínculos familiares e nas experiências de identidade construídas ao longo de diferentes gerações. Mais de um século após o início da imigração japonesa para o país, comunidades formadas inicialmente por trabalhadores que chegaram em busca de novas oportunidades convivem hoje com desafios ligados ao cuidado, à memória e à preservação cultural. O novo episódio do podcast Prato do Dia discute como as trajetórias dessas populações ajudam a compreender os processos migratórios que continuam a atravessar a vida de descendentes mesmo décadas depois da chegada ao Brasil.
A psicóloga Mary Yoko Okamoto, docente da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Assis, dedica-se há anos ao estudo das experiências migratórias de japoneses e descendentes na América Latina e no Japão. Doutora e livre-docente em psicologia clínica, a pesquisadora coordenou projetos internacionais voltados à investigação da vida de dekasseguis e populações nikkeis, acompanhando diferentes gerações marcadas pela migração. Em seus estudos, Mary analisa como envelhecimento, identidade cultural e pertencimento se transformam ao longo do tempo e ganham novos significados entre famílias que viveram processos sucessivos de deslocamento.
A imigração japonesa no Brasil produziu experiências muito distintas entre as gerações. Enquanto os primeiros imigrantes enfrentaram barreiras linguísticas, dificuldades econômicas e um intenso esforço de adaptação, seus descendentes cresceram em contextos mais integrados à sociedade brasileira. Ainda assim, muitos mantiveram vínculos fortes com tradições familiares e valores culturais herdados dos antepassados. “É importante pontuar que esses imigrantes não vieram com este objetivo principal de permanência, mas sim de uma imigração temporária. O que acontece é que, pensando no retorno ao Japão, esses imigrantes criaram as associações nipo-brasileiras, que tinham como principal objetivo a educação dos filhos como um japonês para o retorno ao Japão. O que acontece é que houve todo um preparo para esse retorno que não aconteceu”, afirma Mary Okamoto.
Nas últimas décadas, outro fenômeno passou a marcar essas trajetórias: o movimento de brasileiros descendentes de japoneses que migraram para o Japão em busca de trabalho. Os chamados dekasseguis viveram uma experiência particular de retorno ao país de origem de suas famílias, muitas vezes descobrindo que pertencimento cultural e reconhecimento social não caminham necessariamente juntos. Embora fossem descendentes de japoneses, muitos enfrentam dificuldades de inserção e percebem diferenças profundas entre a cultura idealizada e a realidade cotidiana encontrada no Japão.
“Os nikkeis tiveram facilidades de entrada no país justamente porque tinham a mesma origem. Isso foi considerado pelo governo japonês na época como algo que facilitaria a homogeneização da população porque causaria menos impacto no tecido social japonês. Ao chegar no Japão, as pessoas se deparam com o fato de que elas são brasileiras ou estrangeiras, em termos de que não são consideradas japonesas. As famílias japonesas sempre idealizaram muito o Japão e, quando se migra para o país, esta imagem também é colocada em xeque, justamente por essa questão da aceitação ou não aceitação da sociedade japonesa”, explica a docente.
O envelhecimento dessa geração de migrantes também traz novos desafios. Pessoas que passaram anos trabalhando no exterior retornam ao Brasil em condições diversas, muitas vezes com vínculos familiares fragmentados e redes de apoio reduzidas. Em alguns casos, a experiência migratória produziu impactos emocionais duradouros, especialmente entre aqueles que viveram longos períodos de separação familiar ou dificuldades de adaptação cultural. “Diante do envelhecimento, as pessoas começam a se deparar com uma questão, por exemplo, em qual lugar essa pessoa pretende viver o tempo que resta, em qual país ela gostaria de que os seus restos mortais fossem enterrados? É o sentido da vida depois de um certo momento”, diz a pesquisadora.
Ao estudar diferentes comunidades nikkeis, Mary Yoko Okamoto observa que o envelhecimento não pode ser entendido apenas como uma questão biológica ou demográfica. As experiências acumuladas ao longo da vida, os processos migratórios e as mudanças culturais influenciam diretamente a forma como idosos se percebem e são acolhidos pelas comunidades em que vivem. Em muitos casos, o envelhecimento dessas populações também evidencia diferenças entre as estruturas de cuidado oferecidas pelo Japão e pelo Brasil.
Enquanto a sociedade japonesa desenvolveu, ao longo das últimas décadas, políticas públicas voltadas ao acompanhamento da população idosa, no Brasil o envelhecimento ainda ocorre em meio a limitações estruturais e desigualdades sociais que impactam diretamente a qualidade de vida dessa parcela da população. “No Brasil, não temos instituições de longa permanência públicas. Os estados não oferecem serviços públicos voltados à população idosa, pensando especificamente nas demandas e necessidades deste povo. No Japão, há cidades que têm dezenas desse tipo de centros de apoio, com atividades artísticas, musicais, artesanato, massagem, fisioterapia, desde atividades terapêuticas até atividades de inserção social e desenvolvimento de habilidades. Isso, de fato, no Brasil ainda continua muito incipiente”, afirma Mary Okamoto.
A experiência migratória também transforma a forma como famílias negociam pertencimento, memória e identidade entre diferentes gerações. Nesse processo, que Mary Yoko Okamoto define como “hibridismo”, descendentes de imigrantes transitam entre novos referenciais culturais sem precisar abandonar completamente suas origens. A preservação da língua, da alimentação, dos costumes e das histórias familiares convive, muitas vezes, com a necessidade de adaptação ao país onde se vive.
“Quando nós percebemos que existe muito sofrimento no movimento migratório ou muito sofrimento na fixação e estabelecimento das famílias das pessoas no país de destino, a tendência é que as pessoas fiquem rígidas e inflexíveis e negociem muito menos esse hibridismo. Isso fecha as pessoas e as famílias na sua cultura, ou então, ao contrário, desvaloriza por completo a sua cultura de origem e só valoriza a cultura externa”, conclui a docente.
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