O Nuncio apostólico em Lisboa acusou partidos políticos extremistas de tentarem associar-se à fé católica e defendeu que cabe à Igreja demarcar-se, principalmente em matérias sociais, como os imigrantes. Em entrevista à agência Lusa, Andrés Carrascosa Coso afirmou que os valores do Evangelho devem “chegar à vida quotidiana” e não é possível “escolher apenas as partes da doutrina que interessam a uns ou a outros”.
“Eu já vi governos ou partidos que querem que a Igreja fale aquilo que querem que a Igreja fale” e “se a Igreja não fala aquilo que eles querem então é um problema”, explicou, dando o exemplo do “tema da imigração que é também um tema técnico”.
A política de imigração define a “capacidade que um país tem de acolher. Não podemos fazer o acolhimento do mundo inteiro para Portugal porque isso não dá”, salientou. Contudo, este “tema técnico também tem de ser olhado do ponto de vista do Evangelho que exige um olhar para cada pessoa”, em muitos casos “em situação desumana”.
“Jesus disse que quando acolheste a um estrangeiro, foi a mim que acolheste. Isso está no Evangelho, não estamos a inventar nada”, disse, recusando o discurso de alguns políticos conservadores que querem apenas utilizar questões da doutrina que lhes interessa. “Querer cortar partes do Evangelho quando não nos convém, não é cristão”, resumiu.
O núncio espanhol distinguiu o discurso dos políticos da posição dos eleitores, que devem ter “um olhar também do ponto de vista da fé”. “Que o político diga uma coisa e olhe para o vento e veja o que pode dar ou não votos”, isso “entende-se”, comentou.
Mas “não posso aceitar que a fé tenha de estar submetida a uma posição política concreta. É ao invés: uma posição política concreta deve nascer, para um cristão, a partir da própria fé”, resumiu Carrascosa Coso, recordando que o atual Papa escolheu o nome de Leão, em homenagem a Leão XIII que criou a doutrina social da Igreja.
Na ocasião, Leão XIII abordou o modo “como os trabalhadores eram tratados” e, “nessa época, esse discurso era novidade total”. Hoje, Leão XIV tenta colocar em agenda “todas as dificuldades sociais”, mas também “uma coisa nova, que é a inteligência artificial”, que coloca “desafios de fundo tremendos, ao nível ético”.
“Os algoritmos impõem que uma pessoa só vai receber aquilo que já pensa” e isso tem reflexos na relação com os outros, porque “estamos a ter um problema de incapacidade de nos confrontarmos com aquilo que é diferente”, explicou Carrascosa Coso.
“Essa é uma das bases do populismo de esquerda e direita, que somente recebem a informação que querem receber” e ficam sem “capacidade de confrontar com argumentos de uma outra maneira de pensar”, salientou o núncio. Contudo, é “nesse diálogo que se constrói a sociedade” e são esses os desafios que “estão por detrás do nome Leão XIV”.
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