quinta-feira, 30 de abril de 2026

Nas rotas da migração: venezuelanos no Brasil e latinos indocumentados nos Estados Unidos

 

Foto wikipedea 

 Por Josué Carlos Souza dos Santos, doutorando na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP, Gilvete de Lima Gabriel, professora da Universidade Federal de Roraima, e Rebecca Tarlau, professora da Stanford University

A possibilidade de realizar uma pesquisa com um tema que ganha novos acontecimentos simultâneos a todas as fases de seu desenvolvimento, de pré-projeto à tese feita, é um grande desafio. O ano de minha entrada no programa de pós-graduação em educação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP foi em 2022, um momento com duplo desafio a respeito da migração de venezuelanos ao Brasil: os acontecimentos sócio-históricos desde o aumento do fluxo de refugiados e migrantes venezuelanos na fronteira Brasil-Venezuela que se localiza no estado de Roraima, no ano de 2016 (e os períodos pré e pós esse ano e seus desdobramentos), e os acontecimentos concomitantemente à escrita de minha tese doutoral, de 2022 até o presente momento.

Ciente de que muitos autores nas ciências humanas e sociais analisam assuntos relacionados à migração, como o que é um refugiado e migrante, além de apontarem questões mais específicas sobre os dispositivos legais de amparo e acolhida à essas pessoas e até mesmo nos achados presentes nas convenções internacionais, optamos – eu e minhas orientadoras – abordar a migração subjecti parte subjecti (“sujeito pelo sujeito”), tomando como problemática o seguinte questionamento: O que significa aos venezuelanos ser um migrante e/ou refugiado no Brasil?

No coração dos estudos decoloniais – ou, ouso dizer, contracoloniais – a subjetividade se localiza no centro, ao contrário das abordagens positivas que viam a pesquisa como neutra e os sujeitos como meros indivíduos percentuais. Na abordagem fenomenológica que escolhemos, os sujeitos são participantes e suas histórias de vida, suas narrativas autobiográficas e também suas opiniões, são ciência viva, dinâmicas, móveis e constituem conhecimento. Ademais, as hipóteses descartadas, os itinerários trocados, os “achados marginais” que aparecem nas bordas e até mesmo as mudanças de planos também são pesquisa, são metodologias da experiência e mostram um conjunto de fenômenos que buscam não necessariamente respostas prontas, mas compreensão, análise, problematização e investigação. Abrem-se, portanto, à outras perguntas, e com elas possibilidades e continuidades narrativas.

Com isso em mente, no ano de 2025 realizei a pesquisa de campo em um grande abrigo humanitário na cidade de Boa Vista, capital de Roraima. O Rondon 1 é considerado o maior abrigo humanitário da América Latina e no período da coleta de dados estava em sua capacidade máxima de lotação: 2.300 pessoas. Aliando os estudos de/com narrativas autobiográficas (dos participantes) e etnografia (do pesquisador), realizei conversas em grupos-reflexivos e desenvolvi questões norteadores e complementares que ajudaram a mediar esses encontros, sempre tomando como referência o objetivo da investigação.

Se distanciando de um protocolo formal de entrevistas onde o pesquisador pergunta e o pesquisado responde, essas questões norteadoras permitiam ir e voltar de caminhos epistemológicos relacionais ao fenômeno de sua migração e que surgiam a partir de suas próprias vivências, tal qual a pedagogia social de Paulo Freire onde o sujeito também compartilha conhecimento a partir de sua vida e contexto e ajudando assim a construir em conjunto as metodologias de seu aprendizado. Esses desdobramentos foram: trajetórias educacionais, opiniões políticas, migração a outros países tendo o Brasil como segunda opção (como aos Estados Unidos), questões de gênero e suas especificidades, entre outras. A primeira questão norteadora foi: “Quais experiências marcaram a minha vida na Venezuela e no Brasil?”. A segunda questão foi: “O que essas experiências fizeram comigo?” e a terceira questão foi: “O que faço agora com o que isso me fez?”.

Diante dos resultados coletados nessa investigação, sistematizei as várias narrativas dos migrantes venezuelanos em 8 (oito) eixos que ajudam a cumprir o objetivo da pesquisa. Esses eixos são: eixo 1 – da abundância à escassez; eixo 2 – migração, trajetórias, viagens; eixo 3 – formação performativa: aprendizados e experiências; eixo 4 – ser migrante e mãe solo no Brasil; eixo 5 – ser homem, trabalhador e com profissão; eixo 6 – nós, migrantes; eixo 7 – sigo adiante; e eixo 8 – narradores. Com base nesses eixos e na etnografia que constituí a partir de minhas vivências com eles no abrigo, sistematizo nos parágrafos seguintes os resultados da pesquisa.

As vidas dos venezuelanos são constituídas em um espaço-tempo que transcende o geográfico. Estando no Brasil, mas com raízes da/na Venezuela que os faz retornar à sua nação (fisicamente, pois muitos vão e voltam por diferentes motivos, ou simbolicamente), sua existência em Roraima, no Brasil, se localiza em um entrelugar, como aponta o pesquisador Homi Bhabha, onde a cultura é produzida no ‘entre’ duas ou mais culturas outras. Um encontro e choque que resulta em uma nova cultura, viva, pulsante, móvel, fluida, que percorre caminhos simultâneos a outros processos simbólicos, estruturais e temporários de construções e desconstruções que possibilitam reconhecimentos.

Nesse contexto, a migração é categoria social. Seus movimentos migratórios podem ser definidos como transmovimento migratório híbrido, composto, complexo e contínuo, que não termina quando cruzam uma fronteira internacional, quando adentram noutra nação, e até mesmo quando chegam no abrigo, mas continuam se perpetuando nos entrelugares da migração e além dela, nas diversas nuances que compõem seu cotidiano, quando fazem suas escolhas com base na cultura de origem e na cultura de acolhida (culturas híbridas), quando significam seus acontecimentos, quando vão e voltam da Venezuela ao Brasil (e vice versa, evidenciando uma migração transnacional).

A presença do migrante venezuelano se anuncia no espaço público, nas ruas, nas escolas, nos centros e nas periferias através de seu status migratório (refugiados ou residentes temporários), de sua autodeterminação, para além dos documentos obtidos (seja como residente temporário ou como refugiado), do idioma adquirido e suas variantes – como por exemplo o portunhol – variante linguística legitimada por seus falantes-hablantes que surge do encontro do português do Brasil com o Espanhol da Venezuela – e através das marcas de sua migração percebidas em seus olhares, suas falas e seus gestos, um atrelamento à uma imagem de alguém que rasga os riscos e as margens fragilizadas da adaptação indócil de existência, buscando um lugar de pertença na sociedade de acolhida, e por consequência, no mundo.

Se movimentando nos movimentos dos venezuelanos e naqueles que a pesquisa me permitia fazer, e sobretudo atento ao que dizia os venezuelanos e venezuelanas em suas narrativas que os EUA são uma rota de migração comum entre os outros migrantes (e até mesmo prioritária, levando o Brasil a ser a segunda ou até mesmo terceira opção de rota migratória), tive a oportunidade de realizar o doutorado sanduíche no estado norte americano da Califórnia, especificamente na Universidade de Stanford, logo após a imersão de campo no Brasil.

Naquela pesquisa, busquei compreender o acolhimento de imigrantes latinos no contexto norte americano, sobretudo considerando as complexas e controversas manobras do governo federal vigente naquele país, tensionando e questionando as narrativas necropolíticas que surgem de uma agenda extremista com valores que verticalizam os direitos humanos à margem da sociedade. O termo ‘indocumentados’ é amplamente utilizado em substituição ao termo ‘ilegal’, pois, conforme ouvi muitas vezes no campo, ‘No one is illegal on stolen land’. Refere-se às pessoas em processo de regularização de seu status documental no país.

Nos EUA, escolhemos abordar o tema sob o ponto de vista das estratégias político-educacionais para a integração local de imigrantes latinos na Califórnia tomando como base minha inserção como Educador de Cidadania voluntário em um centro de imigração, o Immigration Institute of Bay Area (IIBA), contribuindo dessa forma com outro objetivo da educação conforme a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) no Brasil: a extensão universitária, quando saímos dos muros institucionais das Universidades e adentramos a sociedade com contribuições significativas – uma extensão de nossas vivências educacionais e pedagógicas. Os objetivos da educação brasileira, conforme a LDB, são: ensino, pesquisa e extensão e possuem a intencionalidade de promover formação crítica, produção de conhecimento e impacto social.

Dessa forma, entendemos que as vivências dos imigrantes latinos – que também são conhecidos/as como comunidade Latinx – são fortalecidas e experenciadas por alguns fatores. Primeiro, a influência de seus grupos-referência como fundamentais na inserção local na comunidade de acolhida. A Dra. Gilvete Gabriel, em um estudo anterior, sistematizou os grupos-referência como aqueles que visam estruturar a maneira de ser, de pensar e de agir da pessoa desde a sua mais tenra idade, e constituem, de fato, referências, quando ela está confrontada com um problema na sua vida.

Os grupos-referência dos imigrantes latinos indocumentados na Califórnia são: a família, o grupo instituído nas classes de cidadania no IIBA, as amizades com outros imigrantes, o grupo-religioso (considerando que muitos frequentam espaços religiosos como templos e igrejas), e os grupos institucionais formados nos projetos que fazem parte. Todos esses grupos se continuem redes de apoio de compartilhamento de informações úteis de sobrevivência, como oportunidades, vagas de trabalho, distribuições grátis de comida e itens não alimentares e outras comunicações.

Segundo, a língua é um mecanismo de adaptação em uma nova cultura (o aprendizado do inglês) e ao mesmo tempo representa a sobrevivência de outros elementos culturais anteriormente praticados (o espanhol). A junção das duas línguas identificadas na pesquisa de campo, convertidas no Spanglish, se torna ao mesmo tempo uma variante linguística e um dialeto popular – semelhante ao Portunhol, no Brasil -, uma nova linguagem que representa resistência, adaptação e sobrevivência.

Terceiro, percebemos que a educação como prática de liberdade implica articular o campo educacional às lutas sociais mais amplas. Estratégias político-educacionais para a integração local de imigrantes latinos devem contribuir para a construção de uma cidadania, mesmo em contextos de status migratório ainda sob avaliação (no caso dos indocumentados), ao fomentar a consciência crítica sobre direitos/reformas trabalhistas, acesso a serviços públicos, saúde, moradia e participação política local (entre outras).

Retornando ao Brasil e inspirado por tantas vivências, pelos achados da pesquisa e pelo calor latino dos migrantes e imigrantes tanto na fronteira brasileira com a Venezuela, no seio da Amazônia, quanto no frio intenso da Califórnia, muitas são as considerações nesses estudos e que apontam (in)conclusões, onde a pesquisa tem um fim e ao mesmo tempo nunca termina.

Bagunceira das epistemologias constituídas, essa pesquisa nos permitiu observar como se constitui o dia a dia de migrantes e refugiados venezuelanos em um abrigo humanitário no Brasil e ensinar-aprender com imigrantes latinos em um centro de imigração californiano. Mas, além disso, ser um imigrante em suas migrações, alguém de passagem, em movimento alteritário, dialógico, que transita entre fronteiras físicas e não-físicas, simbólicas, descobrindo, coletando dados e os interpretando dentro das limitações de um determinado espaço-tempo sócio-histórico, e de nossas próprias limitações. Essas vivências se converteram em experiências, e essas provocaram essas considerações.

(Com um agradecimento especial à Dra Gabriel, que me orienta no doutorado no Brasil e à Dra. Tarlau, que me orientou no doutorado sanduíche na Califórnia – e que são co-autoras nessa escrita —, à Capes pela bolsa no Brasil e ao Centro Lemann/Stanford University pela bolsa no doutorado sanduíche nos Estados Unidos. A pesquisa no Brasil teve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da FFCLRP-USP em 8 de dezembro de 2024 sob o parecer nº 7.275.352 e CAAE nº 82766724.9.0000.5407. A pesquisa nos Estados Unidos teve aprovação do Centro Lemann, da Stanford Graduate School of Education e do Immigration Institute of Bay Area.)

https://jornal.usp.br/

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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Relatório inédito da Abin aponta Brasil como eixo do contrabando de migrantes e detalha rotas em 14 estados

 Por 

Felipe Gelani



Sede da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) localizada em Brasília — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

Um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) publicado nesta terça-feira (28) aponta que o Brasil se consolidou como um ponto estratégico nas dinâmicas internacionais de contrabando de migrantes, com rotas estruturadas em ao menos 14 estados e atuação de redes criminosas que exploram a extensão das fronteiras, a posição geográfica e a política migratória do país. O diagnóstico, que integra o documento “Contrabando de Migrantes no Brasil: uma análise de inteligência”, é o primeiro levantamento dessa natureza feito no país e traça um panorama sobre o funcionamento dessas estruturas.

Produzido em parceria com a Organização Internacional para as Migrações (OIM), o estudo foi elaborado a partir de coletas de campo em regiões de fronteira, troca de informações com serviços de inteligência e análise de dados nacionais e internacionais. O objetivo, segundo a Abin, é lançar luz sobre um crime ainda pouco visível e subsidiar políticas públicas de enfrentamento, além de ampliar o debate sobre migração e segurança.

O relatório ressalta que migrar de forma irregular não é crime no Brasil. A legislação brasileira adota o princípio da não criminalização do migrante, de modo que a responsabilização recai sobre quem organiza, financia e lucra com a travessia clandestina. O relatório explica o que representa o crime de contrabando de migrantes:

"O contrabando de migrantes envolve a facilitação da entrada irregular de indivíduos em um país, com o fim de obter benefícios financeiros ou materiais. Representa, assim, um crime contra o Estado e uma ameaça aos direitos dos migrantes. De modo geral, está também conectado com outras práticas ilícitas, que comprometem a segurança e a estabilidade de diferentes regiões do país. É um crime complexo e uma preocupação global", detalha o documento.

Segundo a Abin, essas redes operam de forma flexível, descentralizada e frequentemente transnacional, com conexões fora do Brasil. A estrutura pode variar, mas costuma incluir recrutadores, responsáveis pela captação de migrantes; intermediários financeiros; falsificadores de documentos; transportadores e os chamados “coiotes”, que conduzem as travessias.

"As organizações criminosas responsáveis pelo contrabando de migrantes possuem ampla gama de atividades, sendo comum que pratiquem também outros tipos de crimes. Essa estrutura permite flexibilidade e adaptabilidade, e ao mesmo tempo dificulta os esforços para combater o contrabando, já que a natureza descentralizada dessas operações gera obstáculos à identificação e ao desmantelamento de redes inteiras", diz o texto.

O recrutamento, de acordo com o documento, começa frequentemente por redes de confiança — amigos, parentes ou conhecidos que já utilizaram esse tipo de serviço. Com o avanço da tecnologia, aplicativos de mensagens e redes sociais ampliaram o alcance dessas redes.

O uso de aplicativos de mensagens (WhatsApp, Telegram, Signal) e redes sociais de relacionamento (Facebook, Instagram, X) para recrutamento e coordenação tem se tornado cada vez mais comum, ampliando a capacidade de alcance desses agentes, diz o documento. No entanto, são as plataformas de vídeos curtos, como TikTok e Kwai, que passaram a ser usadas como os principais veículos para promoção velada, comunicação e atração de novos migrantes, sob a aparência de serviços legais, como agências de viagem ou consultorias migratórias.

Os serviços oferecidos pelos contrabandistas variam conforme o perfil do migrante e a complexidade da rota, podendo incluir transporte terrestre e aéreo, hospedagem, orientação em travessias e fornecimento de documentação falsa. Por vezes, esses serviços são vendidos como “pacotes”, que integram diferentes etapas da viagem e elevam o custo total. A operação, segundo o relatório, é altamente lucrativa e frequentemente associada a outros crimes, como corrupção, lavagem de dinheiro e exploração de migrantes.

O documento também destaca que o Brasil desempenha múltiplos papéis nas rotas migratórias: é destino para estrangeiros que buscam trabalho, corredor de passagem para quem segue rumo a outros países e ponto de origem para brasileiros que tentam migrar, sobretudo para os Estados Unidos e a Europa. A maior parte dessas rotas combina diferentes modais de transporte e passa por grandes hubs logísticos, como aeroportos internacionais.

Apesar de recorrerem voluntariamente aos serviços dessas redes, os migrantes enfrentam riscos significativos ao longo do trajeto. O relatório cita exposição a violência, exploração, condições precárias de deslocamento, além de perigos naturais e ausência de assistência médica. A vulnerabilidade é agravada pela dependência financeira em relação aos contrabandistas e pelo desconhecimento das rotas, leis e condições locais.

Outro desafio apontado pela Abin é a subnotificação. Por vezes os migrantes não se reconhecem como vítimas ou evitam denunciar por medo de deportação ou represálias, o que contribui para a invisibilidade do crime e dificulta a atuação das autoridades. A natureza descentralizada das redes, com atuação fragmentada e adaptável, também impõe obstáculos ao combate.

A expectativa é que o estudo sirva como base para ações coordenadas entre órgãos governamentais e cooperação internacional, combinando repressão às redes criminosas com a proteção dos direitos dos migrantes e a promoção de rotas seguras e regulares.

Relatório por estado

Acre

No Acre, o contrabando de migrantes se aproveita da posição estratégica do estado na tríplice fronteira com Peru e Bolívia. A BR-317 conecta Rio Branco a cidades fronteiriças, facilitando o trânsito, enquanto rotas que passam por Lima, Puerto Maldonado e Iñapari são usadas por estrangeiros que seguem principalmente para o Sul e Sudeste do Brasil. Nos últimos anos, o estado registrou fluxos relevantes de migrantes extracontinentais, como vietnamitas e afegãos, embora esses tenham caído acentuadamente a partir do fim de 2024 após medidas mais restritivas. Hoje, predominam venezuelanos vindos de países vizinhos.

As redes que atuam no estado têm estrutura pouco organizada e mais fragmentada, envolvendo taxistas, donos de hospedagens e atravessadores que cobram por transporte, abrigo e facilitação da travessia. Migrantes que chegam por avião ou via terrestre já costumam ter contatos prévios para seguir até a fronteira, pagando valores elevados por deslocamento e estadia. A travessia final pode incluir até barcos improvisados pelo Rio Acre. Apesar da movimentação estimada de milhares de pessoas por ano, há forte subnotificação, já que migrantes raramente denunciam abusos. Nos últimos anos, operações policiais e mudanças nas regras migratórias reduziram significativamente alguns fluxos.

Amapá 

No Amapá, especialmente em Oiapoque, na fronteira com a Guiana Francesa, o estado funciona como corredor de passagem para migrantes, com permanência curta e forte atuação de redes de contrabando. O fluxo é marcado pela entrada de cubanos, muitos solicitando refúgio, e, em menor escala, haitianos, além da saída de migrantes que buscam chegar à Europa. As rotas combinam trechos terrestres e fluviais, incluindo travessias noturnas em pequenas embarcações para evitar fiscalização, com apoio de intermediários que organizam transporte, hospedagem e deslocamentos até Macapá.

As redes atuam de forma fragmentada, com “picapeiros”, agenciadores e olheiros, cobrando valores que podem chegar a centenas de dólares por trecho. O trajeto segue, em geral, até o Porto de Santana e depois para Belém, de onde migrantes continuam viagem para o Sul do Brasil ou outros países. A falta de estrutura de acolhimento e a baixa visibilidade do tema favorecem a atuação dessas redes, que frequentemente se conectam a outros ilícitos na região de fronteira, como garimpo ilegal, tráfico de pessoas e narcotráfico.

Amazonas

No Amazonas, o estado atua ao mesmo tempo como destino e corredor estratégico nas rotas de contrabando de migrantes, conectando fluxos da América do Sul a trajetos rumo ao norte do continente. De um lado, há a entrada de venezuelanos, principalmente por Roraima, que seguem até Manaus em busca de regularização, mas frequentemente acabam explorados por intermediários que cobram por transporte e serviços básicos. De outro, migrantes da Ásia, África e América Central utilizam cidades como Manaus e Tabatinga como pontos de passagem em rotas rumo aos Estados Unidos — fluxo que foi intenso até 2024, mas caiu significativamente em 2025.

A extensa rede fluvial, as fronteiras remotas e a limitada fiscalização favorecem a atuação de facilitadores, que organizam deslocamentos por rios e estradas, além de oferecer abrigo e documentos irregulares mediante pagamento elevado. Apesar da existência de estruturas de acolhimento e regularização em Manaus, a baixa integração entre estados da região dificulta o monitoramento das rotas e o enfrentamento coordenado dessas redes.

Mato Grosso

No Mato Grosso, o estado funciona tanto como destino quanto como corredor de passagem em rotas terrestres, com destaque para a entrada de bolivianos pela fronteira seca com a Bolívia. Esses migrantes utilizam rodovias como a BR-070 e caminhos alternativos, as chamadas “cabriteiras”, para evitar fiscalização, sendo frequentemente alvo de redes que oferecem transporte, abrigo precário e intermediação de trabalho, por vezes com cobranças indevidas e falsas promessas de emprego.

Também há fluxo de venezuelanos que chegam via Rondônia pela BR-364 e seguem para regiões do agronegócio, atraídos por oportunidades de trabalho, além de grupos menores de outras nacionalidades. A falta de vigilância contínua na fronteira e a presença de múltiplas rotas informais favorecem a atuação dessas redes, que exploram a vulnerabilidade dos migrantes e mantêm um ciclo de dependência baseado na promessa de renda e regularização.

Mato Grosso do Sul

No Mato Grosso do Sul, a extensa fronteira com Bolívia e Paraguai e a posição central no país fazem do estado um ponto-chave nas rotas de contrabando de migrantes, reunindo funções de entrada, saída, trânsito e destino. A região de Corumbá concentra a maior parte dos fluxos, especialmente de bolivianos que seguem para São Paulo, em uma rota antiga ligada ao trabalho na indústria têxtil, frequentemente em condições precárias ou análogas à escravidão. As travessias ocorrem tanto por postos oficiais quanto por caminhos informais, como a chamada Trilha do Gaúcho, com apoio de coiotes, taxistas e redes de aliciadores.

Essas redes operam com estrutura relativamente organizada, incluindo transporte clandestino em ônibus, uso de casas de apoio e atuação de olheiros para evitar fiscalização. Os migrantes, em geral vulneráveis, são atraídos por promessas de emprego e acabam expostos a abusos, cobranças ilegais e retenção de documentos. O aumento do transporte irregular, mais barato que o regular, intensificou o fluxo recente e ampliou os riscos ao longo da rota.

Minas Gerais e Espírito Santo

Em Minas Gerais, especialmente na região do Vale do Rio Doce, concentra-se a principal origem da migração irregular de brasileiros para os Estados Unidos (60%), com cidades historicamente ligadas a esse fluxo e forte presença de redes de apoio no exterior. As travessias, organizadas por coiotes, podem custar até US$ 20 mil e envolvem rotas complexas com trechos aéreos e terrestres até a fronteira mexicana, onde a travessia final é feita a pé. O endurecimento das políticas migratórias elevou os custos e os riscos, com relatos de detenção prolongada e deportações frequentes. Ainda assim, migrantes retornam dispostos a tentar novamente, sustentando um ciclo contínuo de saída.

No Espírito Santo, o fenômeno tem se expandido a partir da influência das redes mineiras, com municípios do interior se tornando novos polos de aliciamento. As organizações atuam de forma semelhante, oferecendo pacotes de viagem, intermediação e até produção de documentos falsos para facilitar a migração. Apesar de menor tradição que Minas Gerais, o estado vem ganhando relevância como origem de migrantes irregulares, reforçando a interiorização dessas redes no Sudeste.

Pará

No Pará, o estado é usado principalmente como rota de passagem para migrantes que seguem em direção ao Sul e Sudeste do Brasil ou a outros países. Cubanos, venezuelanos e haitianos compõem a maior parte desses fluxos, que combinam deslocamentos fluviais, como viagens entre Macapá e Belém ou Santarém, e trajetos rodoviários. Apesar de não haver uma rede criminosa estruturada claramente identificada, facilitadores atuam organizando etapas da viagem e explorando fragilidades na fiscalização.

Essas vulnerabilidades aparecem sobretudo no transporte fluvial e, em alguns casos, no setor aéreo, com registros de entrada de migrantes sem documentação regular pelo aeroporto de Belém. Episódios envolvendo companhias aéreas que anunciavam facilidades para entrada irregular indicam como diferentes modais podem ser utilizados, reforçando o papel do estado como elo logístico nas rotas migratórias.

Paraná

No Paraná, o estado se destaca mais como destino de imigrantes do que como rota de entrada irregular, com forte de mão de obra estrangeira para setores como agroindústria e serviços. A maioria dos migrantes, especialmente venezuelanos e, mais recentemente, cubanos, chega ao Brasil por outras fronteiras e se fixa em cidades como Curitiba e Cascavel. Embora o contrabando de migrantes não seja predominante, há registros de entradas e saídas irregulares em áreas como Foz do Iguaçu e Guaíra, além da atuação de facilitadores e esquemas que prometem migração regular, especialmente voltados a haitianos.

O estado também registra casos que tangenciam tráfico de pessoas e exploração laboral, como o envio de paraguaios para oficinas de costura em São Paulo e situações de trabalho análogo à escravidão. Na tríplice fronteira, há ainda movimentações mais complexas envolvendo migrantes de outras regiões do mundo, que utilizam a área para simular trajetos migratórios e dar aparência legal a documentos, antes de seguir para a América Central ou tentar ingresso em outros países.

Rio Grande do Sul

No Rio Grande do Sul, o estado combina funções de destino, trânsito e saída de migrantes, impulsionado pelas fronteiras com Uruguai e Argentina. Em 2025, ganhou destaque o aumento da saída de cubanos rumo ao Uruguai, sobretudo pela região de Sant’Ana do Livramento, por vezes após entrada regular no Brasil por outros estados. Parte desses migrantes busca refúgio em território uruguaio ou utiliza o país como etapa intermediária em trajetos mais longos.

Ao mesmo tempo, há fluxos de entrada, especialmente de argentinos, ligados a trabalhos sazonais no campo, como colheitas e atividades agroindustriais. Esses trabalhadores, frequentemente em situação de vulnerabilidade, são recrutados por redes informais e, em alguns casos, acabam submetidos a condições precárias ou análogas à escravidão. O uso de aplicativos e indicações pessoais para recrutamento, aliado à dinâmica de fronteira, favorece a atuação de facilitadores e a circulação irregular.

Rondônia

Em Rondônia, o estado tem se destacado como ponto de origem de brasileiros que recorrem a redes de migração irregular rumo aos Estados Unidos, enquanto perdeu relevância recente como rota de trânsito de estrangeiros. O aliciamento ocorre principalmente por contatos pessoais e redes sociais, com atuação de intermediários em cidades do interior. Os pacotes de viagem podem custar entre R$ 30 mil e R$ 80 mil e incluem emissão de documentos, passagens e organização de rotas que passam por São Paulo, América Central e México, com travessia final da fronteira americana.

No passado recente, também houve fluxo de migrantes da Ásia e da África que utilizavam o estado como corredor até a Bolívia, mas esse movimento caiu drasticamente após 2024, com maior fiscalização e mudanças nas regras migratórias. Ao mesmo tempo, cresce o número de rondonienses deportados ou retornados, muitos dos quais mantêm o interesse em tentar novamente, impulsionados por redes de apoio já consolidadas nos Estados Unidos. A vulnerabilidade econômica local e a atuação estruturada de aliciadores ajudam a sustentar esse fluxo.

Roraima

Em Roraima, o estado ocupa posição central nas rotas migratórias do país, especialmente pela entrada de venezuelanos desde 2018, absorvida em grande parte pela Operação Acolhida, o que reduz a necessidade de rotas irregulares para esse grupo. Nos últimos anos, porém, ganhou destaque o aumento expressivo da chegada de cubanos, tanto por vias regulares quanto por trajetos facilitados por redes de contrabando, com forte concentração na fronteira com a Guiana, em Bonfim.

Essas redes oferecem pacotes que incluem transporte, hospedagem e intermediação da viagem, com valores que variam conforme o percurso. O estado funciona principalmente como ponto de trânsito: após a entrada, os migrantes seguem por via terrestre até Manaus e, depois, para outras regiões do Brasil ou países vizinhos. A atuação é descentralizada, com uso de olheiros, veículos particulares e estratégias para evitar fiscalização, enquanto redes sociais e aplicativos de mensagem são os principais canais de articulação e busca por esses serviços.

Santa Catarina

Em Santa Catarina, o estado se destaca como destino de imigrantes atraídos pela forte demanda por mão de obra, especialmente no Oeste, onde a agroindústria e a indústria de transformação concentram vagas. Migrantes chegam por programas oficiais, recrutamento direto e fluxos espontâneos, com destaque para venezuelanos e, mais recentemente, cubanos que entram no país por outras regiões e seguem para o Sul. Há também movimentações sazonais de trabalhadores, principalmente argentinos, para atividades agrícolas.

Embora o foco seja a absorção de mão de obra, há indícios da atuação de redes que prometem facilidades migratórias, especialmente voltadas a haitianos, e casos crescentes de exploração laboral, incluindo situações análogas à escravidão. A combinação de demanda econômica, rotas internas e fragilidades de controle em áreas de fronteira favorece tanto a atração de migrantes quanto a atuação de intermediários.

São Paulo

Em São Paulo, o estado ocupa papel central na dinâmica da migração irregular no Brasil, atuando simultaneamente como porta de entrada, ponto de trânsito e principal eixo de saída de brasileiros para o exterior. O Aeroporto Internacional de Guarulhos (GRU) concentra grande parte desses fluxos, sendo utilizado por migrantes de diversas nacionalidades, especialmente da África, Ásia e Oriente Médio, que, por vezes, solicitam refúgio como estratégia para permanecer no país ou seguir viagem para outros destinos.

Além de atrair imigrantes em busca de trabalho, apoiados por comunidades já estabelecidas, o estado mantém rotas históricas de entrada de sul-americanos, especialmente bolivianos e paraguaios, por vezes vinculadas a exploração laboral. Há também esquemas mais sofisticados, como uso de contratos falsos, empresas fictícias e casas de apoio na periferia para abrigar migrantes em trânsito. Medidas recentes de restrição a vistos reduziram parte dos fluxos extracontinentais, mas São Paulo segue como principal hub logístico dessas redes, concentrando tanto a articulação de entradas quanto a saída de brasileiros rumo a países como Estados Unidos, Europa e Canadá.

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segunda-feira, 27 de abril de 2026

'Nunca imaginei que acabaria na África': o limbo dos latinoamericanos deportados pelos EUA para o Congo

 





Carlos Rodelo (à esq.) e Jorge Cubillos em um hotel de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo.

  • Norberto Paredes
  • Role,BBC News Mundo


Durante oito anos, Jorge Cubillos se esforçou para construir uma nova vida nos Estados Unidos após fugir de ameaças na Colômbia.

Ele afirma que tinha autorização de trabalho, um processo de asilo em andamento e expectativa de permanecer no país.

Mas, de repente, foi deportado para a África sem maiores explicações.

Em entrevista à BBC News Mundo em um pequeno quarto de hotel em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, ele diz que está doente e desorientado, longe de tudo o que conhece e de seus quatro filhos e de sua esposa, que ficaram no estado da Flórida.

"Nunca imaginei que acabaria na África. Achei que eram só ameaças", afirma.

Cubillos faz parte de um grupo de 15 latino-americanos que foram deportados na semana passada dos Estados Unidos para o Congo, no âmbito de um controverso acordo com países terceiros assinado pelo governo do presidente americano Donald Trump.

Os migrantes e solicitantes de asilo são originários da Colômbia, do Peru e do Equador. É o primeiro grupo que chega ao Congo desde que o acordo foi firmado.

O governo do país africano defendeu sua decisão de receber migrantes provenientes de países terceiros como um compromisso com a dignidade humana, a proteção dos direitos dos migrantes e a solidariedade internacional.

Também reiterou que a permanência dessas pessoas no país é temporária e que a acolhida, o apoio e o atendimento estão sendo financiados pelos Estados Unidos.

Mas os migrantes e solicitantes de asilo entrevistados pela BBC News Mundo afirmam que suas condições no Congo estão longe de ser ideais e que sua saúde está se deteriorando rapidamente.

Marta, que não quis revelar seu verdadeiro nome por medo de represálias, conta que seu calvário começou com a visita de um grupo de agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE).

Ela relata que, em 13 de fevereiro, após uma longa batalha legal durante a qual passou 14 meses detida e que incluiu um habeas corpus concedido por um juiz federal, foi libertada. Afirma que tinha autorização de trabalho e seguia seu processo migratório "de maneira correta".

'Nossos direitos humanos foram violados'

Mas, em 2 de abril, seu destino mudou repentinamente.

Ela diz que, naquele dia, agentes do ICE chegaram à sua casa no Texas, bateram à porta e lhe mostraram, através do vidro, uma ordem de supervisão com a qual havia sido libertada anteriormente. Disseram que precisavam apenas verificar seu endereço.

"Não vi nenhum problema e abri a porta", recorda.

Vista geral da Avenida 30 de Junho em Kinshasa, em 20 de outubro de 2025.

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,O grupo de sul-americanos afirma não se sentir seguro na capital congolesa.

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sexta-feira, 24 de abril de 2026

Livro digital transforma caminhadas de migrantes pela Pequena África em narrativa literária no Rio


 

Pequena África, no Centro do Rio de Janeiro, é uma das protagonistas do e-book Narrativa Migrante, publicação digital que transforma caminhadas com migrantes e historiadoras em literatura. O lançamento está marcado para o dia 29 de abril, no CRAB Sebrae, dentro da programação do II Encontro Diversidade Criativa em Diálogo.

A proposta parte de percursos feitos por espaços simbólicos da cidade, onde migrantes de diferentes países e pesquisadoras compartilham memórias, leituras do território e experiências de deslocamento. Em vez de apenas registrar o trajeto, o projeto tenta construir uma leitura do Rio a partir de quem caminha, observa e vive esses espaços.

Idealizado pela Feltrip e realizado pela ColetivA DELAS, com patrocínio da Prefeitura do Rio de Janeiro e da EloGroup via Lei de Incentivo Municipal do ISS, o e-book aborda a migração para além do deslocamento geográfico. Nos textos, o movimento aparece ligado a pertencimento, memória e às relações criadas no contato com o espaço urbano.

As autoras Fernanda PaixãoMarcelle Leal e Nayara Marfim acompanham esses percursos e transformam a experiência em textos que transitam entre ensaio, diário e ficção. Participam das caminhadas migrantes vindos de países como AngolaTunísia e Venezuela, ampliando o olhar sobre diferentes formas de viver e interpretar a cidade.

No centro dessas narrativas estão lugares como a Pedra do Sal e o Cais do Valongo, pontos que ligam passado e presente e ajudam a revelar camadas da formação cultural do Rio de Janeiro. A escolha da Pequena África como eixo do projeto também reforça o peso histórico e simbólico da região na memória afro-brasileira.

O lançamento integra o II Encontro Diversidade Criativa em Diálogo, evento que, segundo a programação divulgada, será realizado em 29 de abril, das 10h às 18h, no CRAB Sebrae, na Praça Tiradentes, 69, no Centro. A agenda reúne representantes da sociedade civil, do setor público e da iniciativa privada para discutir diversidade e economia criativa.

Além do e-book, o projeto também se desdobra em uma websérie documental, levando essas narrativas para outros formatos e ampliando a discussão sobre cidade, memória e migração.

Serviço
Lançamento do e-book “Narrativa Migrante”
Data: 29 de abril
Horário: 11h45 às 12h15
Local: CRAB Sebrae – Praça Tiradentes, 69Centro do Rio
Evento: II Encontro Diversidade Criativa em Diálogo

Por

 Quintino Gomes Freire

 

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quinta-feira, 23 de abril de 2026

Comissão aprova novas regras para naturalização de imigrantes no Brasil

 Discussão e votação de propostas legislativas. Dep. General Girão (PL - RN)

Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados
General Girão: proposta aperfeiçoa legislação migratória e aumenta segurança jurídica

A Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados aprovou projeto que altera as regras para naturalização de imigrantes no Brasil.

A proposta aprovada é a versão do relator, deputado General Girão (PL-RN), para o Projeto de Lei 2523/19, do deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP). O relator ajustou a redação, mantendo o objetivo da iniciativa original.

Mudanças previstas
Entre outros pontos, o
substitutivo aprovado prevê:

  • a exigência de residência ininterrupta no país por quatro anos antes do pedido de naturalização ordinária;
  • a proibição do benefício a quem responda a processo criminal; e
  • a necessidade de comprovar meios lícitos de subsistência própria e da família.

O prazo mínimo exigido de residência no Brasil poderá ser reduzido para imigrantes:

  • originários de países de língua portuguesa;
  • que tiverem filho brasileiro, ressalvada a naturalização provisória; e
  • proprietários de empresa no país com pelo menos 20 empregados brasileiros.

Por fim, o texto determina que o atendimento das condições legais não assegura automaticamente ao estrangeiro o direito à naturalização. Caberá ao Ministério da Justiça e Segurança Pública a responsabilidade pela análise dos pedidos.

“O substitutivo aprimora o quadro normativo migratório, proporcionando maior segurança jurídica, especialmente ao transferir e consolidar regras delineadas em decreto e leis vigentes”, disse General Girão.

O texto altera a Lei de Migração.

Próximos passos
A proposta ainda será analisada, em
caráter conclusivo, pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania. Para virar lei, terá de ser aprovada pela Câmara e pelo Senado.

Da Reportagem/RM
Edição – Marcelo Oliveira


Fonte: Agência Câmara de Notícias

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quarta-feira, 22 de abril de 2026

Cobertura de migrações ainda enfrenta desafios éticos, apontam especialistas

 Evento, em parceria com ACNUR, reuniu estudantes do PPGCOM e dos cursos de Jornalismo e de Relações Internacionais, para discutir os impactos da desinformação e do discurso de ódio na cobertura sobre migrações e refúgio em Roraima.

Miguel Pachioni, Oficial de Comunicação do ACNUR ministrou a palestra. Foto: Mariana Elmore.

A cobertura jornalística sobre migrações e refúgio ainda enfrenta desafios éticos, especialmente diante do avanço da desinformação e do discurso de ódio. O tema foi debatido durante uma formação em jornalismo humanitário promovida pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), agência da ONU para refugiados, na Universidade Federal de Roraima, que reuniu estudantes e profissionais da comunicação e de Relações Internacionais.

Durante a palestra, o Oficial de Comunicação do ACNUR, Miguel Pachioni, destacou como conteúdos desinformativos são construídos e disseminados, muitas vezes associando temas distintos para gerar interpretações equivocadas. Segundo ele, a ligação entre migrações e problemas sociais, como saúde pública ou criminalidade, pode ser resultado de manipulações narrativas.

Há uma associação muito clara de uma questão de saúde pública com o deslocamento de pessoas que buscam proteção internacional”, afirmou. O palestrante também alertou para o uso de manchetes, gráficos e vídeos fora de contexto, que contribuem para reforçar percepções distorcidas.

A formação foi uma parceria entre o ACNUR, os Cursos de Jornalismo e de Relações Internacionais, o Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM), o Projeto de Extensão Somos Migrantes e a Cátedra Sérgio Vieira de Mello.

Foto: Mariana Elmore

Cobertura migratória em Roraima

A discussão ganha relevância em Roraima, estado que concentra grande fluxo migratório, especialmente de venezuelanos, e onde o tema está presente no cotidiano da população e da imprensa local. Para a jornalista Adriele Lima, também mestranda no PPGCOM com pesquisa sobre migrações e plataformas digitais, um dos principais desafios enfrentados pelos profissionais da área é justamente lidar com a presença de discursos preconceituosos.  “A xenofobia ainda é muito enraizada. É difícil produzir conteúdo que vá contra esses discursos, mas é necessário”, afirmou.

A cobertura precisa ser feita com responsabilidade para evitar a reprodução de estigmas, ainda diz Adriele. “É importante mostrar que a migração não corresponde a esses discursos construídos e trabalhar com informações que retratem a realidade.”

Foto: Mariana Elmore

A formação também contou com a participação de estudantes de Relações Internacionais, que trouxeram uma perspectiva mais ampla sobre o fenômeno migratório. Para o acadêmico Lucas Gadelha, a atuação na área humanitária exige sensibilidade e preparo diante das situações de vulnerabilidade.

A área humanitária é muito desafiadora e está muito presente aqui no estado. A gente convive com essas realidades e precisa lidar com elas de forma responsável. É uma área muito sensível. Ao mesmo tempo que é gratificante, também é preocupante e exige cuidado.” – Lucas Gadelha, graduando em Relações Internacionais.

Foto: Mariana Elmore

A programação incluiu ainda a abertura de uma exposição sobre migrações globais, que permanece exposta no hall do Bloco I – Centro de Comunicação, Letras e Artes da UFRR ao longo do mês de abril. A entrada é gratuita e a visita pode ser realizada das 8h às 21h em dias úteis.

Por Mariana Elmore

Acadêmica do Curso de Jornalismo

https://ufrr.br/ppgcom

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