sábado, 6 de junho de 2026

Em última análise, quantos deportados desaparecem das estatísticas oficiais?

 Gustavo Dias   |   Julio D’Angelo Davies

m 2025, a mídia brasileira reproduziu repetidamente as imagens de migrantes brasileiros deportados desembarcando de voos fretados pelos Estados Unidos. Com base nos números divulgados pela Polícia Federal e outros órgãos federais, a imprensa classificou as deportações como um “recorde histórico”. Desde então, tornaram-se evidentes as contradições nos dados oficiais sobre deportações. Contudo, o debate público pouco avançou além do impacto visual dos desembarques e das cifras divulgadas pelo governo federal.

O Brasil não é um caso isolado. Várias nações latino-americanas vêm recebendo deportados dos EUA em voos fretados. Portanto, serve de alerta para pensarmos como os demais governos da região têm também projetado e divulgado esses registros.

A partir desse cenário e da violenta campanha de deportações promovida pela atual gestão de Donald Trump, questionamos por que esses “números oficiais” apresentam discrepâncias significativas. Também perguntamos se essas inconsistências favorecem a consolidação de uma coalizão regional de extrema direita marcada pela xenofobia. Resta saber se governos ditos progressistas, como os do Brasil, da Colômbia e do México, representam de fato um contraponto a esse cenário. 

Pós-Verdade?

Desde outubro de 2019, o aeroporto de Confins, em Minas Gerais, passou a receber voos fretados pelo ICE (Serviço de Imigração e Alfândega, na sigla em inglês) transportando brasileiros deportados dos Estados Unidos. No início de 2025, um avião realizou um pouso emergencial em Manaus, no Amazonas, onde alguns desses migrantes foram vistos algemados e acorrentados andando sobre as asas do avião. A cena provocou forte repercussão nacional e levou o governo brasileiro a assumir uma posição mais ativa na recepção dessa população. A partir dali, também houve uma mudança  sobre quem passou a divulgar os números de deportados.

Até o incidente de Manaus, o setor de comunicação e imprensa do aeroporto de Confins informava esses dados. A partir do ocorrido, o aeroporto interrompeu a divulgação, alegando que as matérias sobre deportados comprometiam sua imagem. Desde então, a Polícia Federal, Ministério de Direitos Humanos (MDHC)  e o Itamaraty passaram, cada qual, a fornecer os números. O que não se esperava, porém, eram as contradições que surgiram nesses dados e que viriam a ser legitimadas por narrativas midiáticas sensacionalistas e deturpadas.

Matérias veiculadas no início de 2026 pelo Grupo Globo, ICL e UOL destacaram que 2025 teria sido o ano em que “bateu-se o recorde” de deportados brasileiros dos Estados Unidos. Segundo a PF, 2025 teria registrado o recorde de 3.294 brasileiros deportados. À CNN Brasil, a PF afirmou que 2.262 brasileiros haviam sido deportados nesse mesmo ano.

Será que 2025 foi, de fato, o ano em que batemos o recorde de deportados? Segundo os números que obtivemos com exclusividade da própria Polícia Federal via Lei de Acesso à Informação (LAI), não.

De fato, eles diferem dos próprios números que a grande imprensa diz receber também da PF. Em 2022 houve 4.516 deportados, número bastante superior ao de 2025, que supera em 3.093 brasileiros o total informado à Globo pela Polícia Federal.

A divergência dos números e as instituições federais brasileiras envolvidas, porém, não se esgotam aí. Há ainda o Itamaraty, que apresenta outros dados. À Veja, ele informou que “2785 brasileiros foram deportados dos Estados Unidos em 2025, frente aos 1640 registros no ano imediatamente anterior”.

Ao contrário da PF e do Itamaraty, nosso banco de dados é explícito. Ele foi iniciado em 2019 a partir de informações fornecidas pelo aeroporto de Confins e, desde fevereiro de 2025, passou a contar com os dados do MDHC em parceria com a Organização Internacional das Migrações (OIM), que assumiu essa função nesse ano. Abaixo, apresentamos um gráfico que reúne o conjunto de números oficiais contraditórios e o compara com os do Observatório das Deportações: 

Até 20 de maio de 2026, 16.132 brasileiros foram deportados por meio do aeroporto de Confins. Em outubro de 2019, por exemplo, os dados da PF, via LAI, registrou 65 deportados, e não 0, como indicado em algumas reportagens. Embora 2022 apresente um número inferior ao que recebemos do aeroporto, também supera o suposto “recorde” de deportações de 2025 alardeado pela imprensa brasileira.

Quais os impactos destes números nas narrativas que forjamos sobre os mandatos de Trump e Biden quanto à gestão migratória? Quais os impactos disso em tempos de negacionismo científico e pós-verdade? Qual o comprometimento do Estado brasileiro com o registro dessa população?

Em entrevista ao Portal UOL e ao Jornal Hoje da TV Globo em janeiro, apresentamos a contradição nos números oficiais. Também destacamos o fato de a PF ignorar os números de 2019 e a ênfase em um suposto recorde de deportações em 2025 nos dados fornecidos à imprensa. Como demonstrado aqui com números oficiais, 2022 foi o real ano com recorde de deportações. Ambos os veículos optaram por ignorar essas contradições, reproduzindo os dados recebidos da Polícia Federal. 

O que aprendemos com a COVID-19? 

Não somos apenas números. Passados seis anos desde o início das deportações, o Estado brasileiro ainda não disponibiliza um número oficial público consolidado. MDHC, Polícia Federal e Itamaraty apresentam dados distintos e contraditórios. Apenas o MDHC explicita suas fontes, baseadas em dados produzidos pela OIM. Entretanto, também apresentam lacunas importantes e não computam, por exemplo, um voo realizado pela Companhia Gol, que pousou em 28 de outubro de 2025 com 128 brasileiros deportados. A Polícia Federal e o Itamaraty sequer esclarecem como seus números são produzidos.

A mídia nacional, por sua vez, reproduz os dados dessas três instituições sem averiguar as contradições neles presentes. Matérias com títulos sensacionalistas e sem o devido cuidado analítico são publicadas em larga escala. O que significa apagar o registro de 50 pessoas deportadas em 2019 ou de 3.093 pessoas em 2022? O que aprendemos com a pandemia de COVID-19 e com aquele governo que, de forma tão escandalosa, manipulou os números de vítimas? Quantas vidas podem ser ignoradas?

O caso é ainda mais grave quando consideramos que o aeroporto de Confins não é o único destino de brasileiros deportados dos Estados Unidos. Há brasileiros também sendo removidos por meio de programas de “self-deportation”, além daqueles que, ao entrarem pelo território mexicano, são obrigados a retornar em razão da política “Fique no México”.

Em que medida esses números imprecisos de brasileiros deportados representam, de fato, a real dimensão das deportações de brasileiros desde a primeira gestão de Donald Trump?

Neste sentido, o trabalho do Observatório das Deportações tem analisado criticamente registros, lacunas e apagamentos oficiais relativos à deportação de brasileiros dos EUA, ainda que não sejamos uma “fonte oficial” governamental. Ao expor tais contradições, buscamos aprofundar o jornalismo investigativo em diálogo com o engajamento público das ciências sociais.

Professor da Universidade Estadual de Montes Claros - UNIMONTES (Brasil). Doutor em Sociologia pela Goldsmiths University of London. Especialista em migração internacional de brasileiros e regimes fronteiriços.

Antropólogo e professor visitante no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual de Montes Claros - Unimontes (Brasil) e Coordenador do Observatório das Deportações, financiado pelo CNPq.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Voo da Operação Acolhida interioriza 189 migrantes para quatro estados e o DF



Operação Acolhida realizou um voo de interiorização, nesta sexta-feira (6.03), com 189 pessoas migrantes a bordo, sendo 59 crianças de até 12 anos. O avião saiu de Boa Vista e pousou no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. De lá, os passageiros seguiram viagem para seus destinos, por via terrestre.

Do aeroporto, 29 migrantes seguiram para a capital São Paulo, outros 86 migrantes tiveram como destino o Paraná, 37 o Rio de Janeiro, 19 Tocantis e 18 o Distrito Federal. Como virou tradição nos últimos anos, o voo priorizou mulheres.

A Operação Acolhida interiorizou, entre 2018 e dezembro de 2025, promoveu a interiorização de mais de 156,65 mil migrantes e refugiados que chegaram pela fronteira norte. Eles foram encaminhados para 1.112 municípios brasileiros.

Para a gerente de projeto da Secretaria Nacional de Assistência Social do MDS, Niusarete Lima, o Dia Internacional da Mulher é uma data que convida a refletir sobre conquistas, desafios e, principalmente, sobre a importância de garantir dignidade, segurança e oportunidades para todas as mulheres.

“No contexto da Operação Acolhida, essa reflexão ganha um significado ainda mais profundo, muitas mulheres que chegam ao Brasil por meio do fluxo migratório enfrentaram situações extremamente difíceis em seus países de origem”, pontuou.

“Muitas são mães solo, responsáveis pelo sustento e proteção de seus filhos, e chegam ao país carregando não apenas bagagens, mas também histórias de resistência, coragem e esperança por uma vida melhor”, contextualizou a representante do MDS na coordenação da Operação Acolhida.

A Operação Acolhida busca garantir que essas mulheres encontrem no Brasil um ambiente de proteção e acolhimento. Nos abrigos e nos diversos serviços oferecidos, são desenvolvidas ações voltadas à proteção, à promoção da autonomia e ao fortalecimento dessas mulheres, garantindo acesso a documentação, assistência social, saúde, oportunidades de trabalho e processos de interiorização para outras cidades do país.

“É importante destacar que apoiar mulheres migrantes e refugiadas significa também fortalecer famílias e comunidades inteiras. Quando uma mulher tem acesso a direitos, oportunidades e proteção, ela amplia as possibilidades de desenvolvimento para seus filhos e para o seu entorno”, prosseguiu Niusarete Lima.

Para ela, mais do que uma data simbólica, este é um momento para reconhecer a força dessas mulheres e renovar o compromisso coletivo com a igualdade, a proteção e a valorização de todas elas.

“Neste Dia Internacional da Mulher, reafirmamos o compromisso de continuar trabalhando para que cada mulher atendida pela Operação Acolhida seja tratada com respeito, dignidade e tenha a oportunidade de reconstruir sua vida com segurança e esperança no Brasil”, concluiu.

Operação Acolhida

A Operação Acolhida é uma resposta humanitária do Governo Federal para o fluxo migratório intenso na fronteira entre o Brasil e a Venezuela. Ela foi criada com o objetivo de garantir atendimento aos refugiados e migrantes.

A estratégia consiste na realocação voluntária, segura, ordenada e gratuita dessas pessoas, em situação de vulnerabilidade, dos municípios de Roraima para outras cidades brasileiras.

Esta realocação, conhecida como interiorização, visa permitir que as pessoas beneficiadas tenham melhores oportunidades de integração social, econômica e cultural, bem como reduzir a pressão sobre os serviços públicos atualmente existente principalmente em Roraima, localizado na fronteira norte do Brasil com a Venezuela.

A ação envolve o Governo Federal, estados, municípios, as Forças Armadas, órgãos do Judiciário, organizações internacionais e mais de 100 organizações da sociedade civil.

 

A Operação Acolhida tem sido vista como uma experiência de sucesso e foi reconhecida pela ONU como uma forma única no mundo de acolher imigrantes respeitando as normativas internacionais.  

A interiorização prevê quatro modalidades, que seguem critérios rigorosos de proteção social:

1- Institucional: acolhimento em abrigos de parceiros fora de Roraima;

2- Reunificação de Famílias: acolhimento por familiar já estabelecido fora do estado, com apoio mínimo de três meses;

3- Reunião Social: acolhimento por amigo já estabelecido, também com apoio mínimo de três meses;

4- Vaga de Emprego Sinalizada: o imigrante tem a oportunidade de uma vaga de emprego ofertada por empresas.

 

Assessoria de Comunicação - MDS

https://www.gov.br/mds/pt-br

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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Simpósio internacional no Paraná discutirá políticas e integração de migrantes

1º Simpósio Internacional de Migração do Paraná fortalece políticas públicas e integração de migrantes

Foto: SEJU

O Governo do Estado promove o 1º Simpósio Internacional de Migração do Paraná, iniciativa que busca ampliar o diálogo sobre mobilidade humana, integração e políticas públicas voltadas a essa população. O simpósio será realizado nos dias 11 de junho, no período da manhã com workshops e sessões temáticas, e 12 de junho com palestras durante todo o dia, das 8h30 às 12h e das 13h às 16h30, na sede do Sistema Federação das Indústrias do Paraná, em Curitiba.  

O evento é realizado pela Secretaria da Justiça e Cidadania (Seju), por meio da Superintendência-Geral de Governança Migratória (SGGM), e reunirá representantes da sociedade civil, gestores públicos municipais e estaduais, comunidade acadêmica, organismos internacionais, instituições religiosas, setor produtivo, conselhos de direitos, lideranças migrantes e demais interessados na temática.

 “O Simpósio de Migração tem como objetivo apresentar o modelo de governança migratória que o Paraná está construindo e realizando através da Agência do Migrante, da SGGM, juntamente com a Seju. E para além da apresentação para o Brasil, o simpósio também discutirá as temáticas de empregabilidade, dados e informações para tomada de decisão e governança", disse Gil Souza, da SGGM. “É uma oportunidade para evoluir nos debates e para as pessoas que têm interesse na temática participarem”, acrescentou. 

ATIVIDADES – Entre as atividades previstas estão oficinas temáticas simultâneas, com foco em diferentes áreas estratégicas. A oficina voltada à sociedade civil abordará o acolhimento, integração social, direitos humanos e fortalecimento das redes de apoio. Já o encontro com universidades e pesquisadores discutirá a produção de dados, pesquisas e o papel da academia na formulação de políticas públicas. A oficina destinada a gestores públicos promoverá o intercâmbio de experiências municipais e o debate sobre desafios da gestão migratória e integração de serviços.

A programação inclui, ainda, palestras sobre os desafios contemporâneos da governança migratória e mesas redondas que tratarão de temas como empregabilidade e inserção laboral, além de dados e indicadores migratórios, com participação do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra).

Os interessados podem confirmar presença por meio da plataforma oficial do Governo do Estado.

Serviço 

1º Simpósio Internacional de Migração do Paraná

Data: 11 de junho (das 8h30 às e 12hs) e 12 de junho (8h30 às 12h e das 13h às 16h30)

Local: sede do Sistema Fiep - Av. Comendador Franco, 1341 - Jardim Botânico, Curitiba

Inscrição: https://www.ead.pr.gov.br/course/view.php?id=3676


https://www.parana.pr.gov.br/

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quarta-feira, 3 de junho de 2026

ACNUR e Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania assinam acordo de cooperação

Duda Rodrigues/MDHC
 

Voltada à promoção e proteção dos direitos de pessoas refugiadas e outras em necessidade de proteção internacional, a cooperação institucional entre a Agência da ONU para Refugiados e o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) foi oficializada nesta terça-feira (2). Assinaram o termo a Ministra de Estado dos Direitos Humanos e da Cidadania, Janine Mello dos Santos, e o Representante do ACNUR no Brasil, Davide Torzilli.

A cooperação se dará por meio da realização de iniciativas conjuntas, ações de capacitação, produção de materiais informativos, promoção do diálogo interinstitucional, intercâmbio de boas práticas e demais atividades voltadas ao fortalecimento da agenda de direitos humanos e proteção internacional de populações deslocadas à força no Brasil.

Segundo Davide Torzilli, o momento é muito oportuno para formalização da parceria, sobretudo no contexto de aumento do fluxo do deslocamento forçado. Ele lembra que em junho celebra-se o mês dos refugiados.

“O ACNUR tem trabalho em parceria com o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania há alguns anos. Esse acordo vem reforçar a atuação para implementar com o olhar dos direitos humanos as políticas públicas que existem no Brasil em prol das pessoas refugiadas e com necessidade de proteção internacional. Queremos que esse acordo se traduza em um plano de ações concretas que fortaleça também a implementação da Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia, a Operação Acolhida e outras políticas intersetoriais”, destaca.

Representante do ACNUR destaca que o Brasil é um país é acolhedor que tem políticas públicas avançada para pessoas com necessidade de proteção internacional.

O trabalho conjunto prevê o estímulo ao protagonismo de coletivos de pessoas refugiadas, fortalecimento da mobilização comunitária e fomento à participação de lideranças em espaços de diálogo e articulação social, como o Fórum Nacional de Lideranças Migrantes, Refugiadas e Apátridas (FOMIGRA).

A parceria inclui também a elaboração de guias, cartilhas, publicações e estudos, voltados à promoção de direitos, ao enfrentamento da xenofobia e ao fortalecimento de soluções inclusivas para pessoas refugiadas, apátridas e outras em necessidade de proteção internacional.

“A assinatura de hoje é estratégica para o ministério porque temos uma série de ações sendo desenvolvidas no âmbito da política voltada a refugiados e migrantes. O acordo vem coroar o diálogo que temos com o ACNUR. A situação da migração no Brasil tem ficado mais complexa, mas a gente tem novas formas e novas dimensões de abordagem. O que precisamos fazer é garantir que o Estado brasileiro esteja pronto para acolher e responder a esses desafios à altura. Somos um país de portas abertas”, reforça a ministra Janine Mello.

Outras tantas áreas e ações estão previstas no memorando e serão formalizadas em um plano de trabalho com escopo de dois anos, que será construído conjuntamente por profissionais do ACNUR e MDHC.

O Brasil é um Estado Parte da Convenção de 1951 relativa ao Estatuto dos Refugiados e seu Protocolo de 1967 e, por meio da Lei 9.474/1997, assume a obrigação de assegurar os direitos de pessoas refugiadas e solicitantes da condição de refugiado.

https://www.acnur.org/br/

www.radiomigrantes.net

terça-feira, 2 de junho de 2026

Corumbá lidera rota de entrada de imigrantes para trabalho escravo no Brasil



Duas cidades de Mato Grosso do Sul figuram entre as principais portas de entrada de trabalhadores estrangeiros submetidos ao trabalho escravo no Brasil. Corumbá, na fronteira com a Bolívia, lidera o ranking nacional, responsável por 29,1% dos registros identificados entre 2003 e 2022. Ponta Porã aparece em 5º lugar, com 8,25%.

Os dados são da plataforma SmartLab Trabalho Escravo, desenvolvida pelo Ministério Público do Trabalho e pela OIT Brasil. Em Corumbá, o fluxo mais frequente envolve trabalhadores bolivianos com destino a São Paulo. Em Ponta Porã, a rota principal envolve paraguaios com destino a cidades do interior sul-mato-grossense.

Entre 2003 e 2022, o Estado registrou 3.215 trabalhadores resgatados. O município com mais resgates foi Brasilândia, com 1.011 casos, seguido de Iguatemi, com 668. O perfil das vítimas no período revela que 47% eram indígenas, mais de um terço tinha até 24 anos e quase metade era analfabeta. O agronegócio concentra a maior parte dos casos de exploração no Estado.

https://www.grandefm.com.br/

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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Após 51 dias retido em aeroporto de SP, egípcio é autorizado a entrar no Brasil e reencontra a família

 

Egípcio retido por 51 dias em aeroporto internacional de SP é autorizado a entrar no Brasil e reencontra a família — Foto: Arquivo Pessoal

O egípcio Abdallah Montaser foi autorizado pela Justiça Federal a entrar no Brasil após passar 51 dias retido na área restrita do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, após solicitar refúgio. A decisão, proferida na quinta-feira (29), permitiu que ele deixasse o local e se reencontrasse com a esposa grávida e os dois filhos na madrugada de sábado (30).

Abdallah e a família desembarcaram no Brasil em 8 de abril de 2026. Segundo o advogado Willian Fernandes, que representa o egípcio, a entrada foi inicialmente impedida após a Polícia Federal apontar supostas informações de segurança que o classificariam como pessoa perigosa.

O caso da família chamou a atenção de entidades que atuam na promoção e defesa dos direitos de migrantes, refugiados e pessoas em situação de mobilidade humana. Quando a retenção completou 30 dias, mais de 10 organizações divulgaram uma nota conjunta manifestando "profunda preocupação" com a situação (veja mais abaixo).

A mulher e as crianças foram autorizadas a ingressar no país no dia 8 de maio, após quase um mês retidas no aeroporto. Desde então, Abdallah ainda aguardava uma decisão sobre sua situação migratória e permaneceu na área restrita do terminal.

"Esta é uma grande vitória dos direitos humanos. A Justiça brasileira privilegiou a dignidade da pessoa humana, a liberdade de locomoção, o devido processo legal e o direito à reunião familiar. Não é admissível que alguém permaneça privado de sua liberdade de circulação por mais de cinquenta dias com base em acusações que não puderam ser comprovadas", afirmou o advogado Willian Fernandes, responsável pela defesa, em nota divulgada ao g1.

Na época, o g1 questionou a Polícia Federal sobre a decisão de impedir a entrada da família. Em nota, a PF afirmou que sua atuação no controle migratório observa estritamente a legislação brasileira e os compromissos internacionais assumidos pelo país, e que não comenta casos concretos, em respeito ao sigilo de dados pessoais e às normas legais aplicáveis.

"Os procedimentos de fiscalização migratória são realizados com base na Lei nº 13.445/2017, garantindo-se o devido processo legal e o tratamento digno a todos os estrangeiros. Eventuais medidas de inadmissão decorrem do não atendimento aos requisitos legais para ingresso no território nacional. Situações que envolvam alegações de necessidade de proteção são tratadas nos termos da legislação vigente, observados os protocolos próprios e as competências institucionais", afirmou o órgão.

Ainda conforme o advogado da família, a decisão judicial reconheceu a inexistência de elementos suficientes para sustentar a medida e determinou a entrada de Abdallah no território nacional.

"A proximidade do nascimento do filho do casal tornou ainda mais evidente a dimensão humana deste caso. Nenhuma família deveria ser submetida a uma situação como essa sem que existam provas concretas que a justifiquem. A decisão da Justiça permitiu que essa família estivesse reunida justamente em um dos momentos mais importantes de suas vidas".

https://g1.globo.com/sp 

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domingo, 31 de maio de 2026

Encontro em São Paulo reúne mais de 20 instituições católicas em Assembleia Formativa da Rede Clamor Brasil


 

A diversidade dos fluxos migratórios e a fragilização das políticas internacionais de acolhimento pautam a Assembleia Formativa Nacional da Rede Clamor Brasil. O encontro, que aconteceu  da terça-feira (26) a quinta-feira (28), no Seminário Scalabriniano João XXIII, em São Paulo (SP), reuniu mais de 20 instituições católicas para discutir o tema “Mobilidade Humana: um olhar a partir da Doutrina Social da Igreja”.

O bispo referencial da CNBB para a Rede Clamor, dom Nereudo Freire Henrique acredita que esta assembleia vai impulsionar o trabalho da rede em vista da ação junto com migrantes e refugiados no Brasil. Ele ressaltou que a assembleia aconteceu num momento oportuno, no qual o Papa Leão XIV lança a Encíclica Magnifica Humanitas que retoma toda a Doutrina Social da Igreja e recoloca a dignidade da pessoa humana no centro da ação pastoral da Igreja.

“Essa assembleia está em sintonia com o momento que a Igreja está vivendo de um novo reforço na Doutrina Social, uma das nossas reflexões aqui, e também da comunicação com o mundo da Inteligência Artificial”, disse dom Nereudo.

Acolhida, proteção, integração e promoção

Com a presença de assessores de órgãos como a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), o evento buscou traçar estratégias conjuntas de proteção a migrantes, refugiados e vítimas de exploração para fortalecer o compromisso com uma Igreja sinodal, missionária e próxima das pessoas em situação de vulnerabilidade. Um dos principais pontos de atenção levantados durante os primeiros dias de debate é a crise no financiamento internacional e a mudança na forma como as nações lidam com o refúgio.

Nos debates da Assembleia, os participantes aprofundaram a reflexão sobre a migração à luz da Doutrina Social da Igreja, guiados pelo padre Alfredo Gonçalves. O momento destacou documentos eclesiais recentes, incluindo a encíclica Humanitas, do Papa Leão XIV, divulgada dia 25 der maio, e os quatro verbos propostos pelo saudoso Papa Francisco para a questão migratória: acolher, proteger, acompanhar e integrar. O desafio central é garantir esse acompanhamento humanitário diante do atual cenário global.

Além das questões estruturais, o perfil de quem chega ao país mudou. Hoje, o Brasil abriga pouco mais de 2 milhões de migrantes de aproximadamente 200 nacionalidades, segundo relatório recente divulgado pelo Observatório das Migrações Internacionais (OBmigra). O documento aponta um aumento expressivo no fluxo de pessoas vindas de Cuba, países africanos e Venezuela, somado aos desafios contínuos enfrentados pela população haitiana.

O presidente da Comissão Especial contra o Tráfico Humano da CNBB, dom Adilson Pedro Busin, destacou a necessidade de adaptação diante deste cenário. “Enfrentamos uma fragilização das políticas de refúgio devido à escassez e ao corte de recursos internacionais que antes mantinham os campos de acolhimento. A tendência atual é que as soluções precisem ser encontradas localmente, para que cada país possa gerir a situação com menor dependência de recursos vindos do exterior ou da própria ONU”, analisou o bispo.

A Assembleia teve como objetivo fortalecer a articulação da Rede Clamor Brasil, aprofundar a reflexão pastoral sobre a mobilidade humana e promover espaços de formação, espiritualidade, escuta e construção conjunta de ações em defesa da dignidade humana. Participam do encontro 24 instituições de diferentes regiões do Brasil, entre elas pastorais, congregações religiosas, organismos e iniciativas ligadas à Igreja Católica que trabalham diretamente com migração, refúgio e enfrentamento ao tráfico de pessoas.

Momentos da Programação

A programação contou com momentos de espiritualidade, celebrações, análise de conjuntura nacional e internacional, oficinas e debates, além de assessorias de representantes do ACNUR (Agência da ONU para Refugiados), dos Missionários Scalabrinianos e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

O assessor de Comunicação da CNBB, padre Arnaldo Rodrigues, e o coordenador da Assessoria de Comunicação da CNBB, Willian Bonfim, foram os mediadores de um workshop cujo objetivo capacitar os participantes para pensar processos de comunicação institucional e levantar elementos para um Plano de Comunicação da Rede Clamor.

Inspirada pelo magistério do Papa Francisco e do Papa Leão XIV, a Rede CLAMOR Brasil reafirma, com esta Assembleia, seu compromisso com uma Igreja sinodal, missionária e próxima das pessoas em situação de vulnerabilidade e mobilidade humana.

https://www.cnbb.org.br/

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sábado, 30 de maio de 2026

Dilemas e desafios de nikkeis e dekasseguis

 


O envelhecimento da população de origem japonesa no Brasil revela mudanças profundas nas formas de pertencimento, nos vínculos familiares e nas experiências de identidade construídas ao longo de diferentes gerações. Mais de um século após o início da imigração japonesa para o país, comunidades formadas inicialmente por trabalhadores que chegaram em busca de novas oportunidades convivem hoje com desafios ligados ao cuidado, à memória e à preservação cultural. O novo episódio do podcast Prato do Dia discute como as trajetórias dessas populações ajudam a compreender os processos migratórios que continuam a atravessar a vida de descendentes mesmo décadas depois da chegada ao Brasil.

A psicóloga Mary Yoko Okamoto, docente da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Assis, dedica-se há anos ao estudo das experiências migratórias de japoneses e descendentes na América Latina e no Japão. Doutora e livre-docente em psicologia clínica, a pesquisadora coordenou projetos internacionais voltados à investigação da vida de dekasseguis e populações nikkeis, acompanhando diferentes gerações marcadas pela migração. Em seus estudos, Mary analisa como envelhecimento, identidade cultural e pertencimento se transformam ao longo do tempo e ganham novos significados entre famílias que viveram processos sucessivos de deslocamento.

 A imigração japonesa no Brasil produziu experiências muito distintas entre as gerações. Enquanto os primeiros imigrantes enfrentaram barreiras linguísticas, dificuldades econômicas e um intenso esforço de adaptação, seus descendentes cresceram em contextos mais integrados à sociedade brasileira. Ainda assim, muitos mantiveram vínculos fortes com tradições familiares e valores culturais herdados dos antepassados. “É importante pontuar que esses imigrantes não vieram com este objetivo principal de permanência, mas sim de uma imigração temporária. O que acontece é que, pensando no retorno ao Japão, esses imigrantes criaram as associações nipo-brasileiras, que tinham como principal objetivo a educação dos filhos como um japonês para o retorno ao Japão. O que acontece é que houve todo um preparo para esse retorno que não aconteceu”, afirma Mary Okamoto.

 Nas últimas décadas, outro fenômeno passou a marcar essas trajetórias: o movimento de brasileiros descendentes de japoneses que migraram para o Japão em busca de trabalho. Os chamados dekasseguis viveram uma experiência particular de retorno ao país de origem de suas famílias, muitas vezes descobrindo que pertencimento cultural e reconhecimento social não caminham necessariamente juntos. Embora fossem descendentes de japoneses, muitos enfrentam dificuldades de inserção e percebem diferenças profundas entre a cultura idealizada e a realidade cotidiana encontrada no Japão.

“Os nikkeis tiveram facilidades de entrada no país justamente porque tinham a mesma origem. Isso foi considerado pelo governo japonês na época como algo que facilitaria a homogeneização da população porque causaria menos impacto no tecido social japonês. Ao chegar no Japão, as pessoas se deparam com o fato de que elas são brasileiras ou estrangeiras, em termos de que não são consideradas japonesas. As famílias japonesas sempre idealizaram muito o Japão e, quando se migra para o país, esta imagem também é colocada em xeque, justamente por essa questão da aceitação ou não aceitação da sociedade japonesa”, explica a docente.

O envelhecimento dessa geração de migrantes também traz novos desafios. Pessoas que passaram anos trabalhando no exterior retornam ao Brasil em condições diversas, muitas vezes com vínculos familiares fragmentados e redes de apoio reduzidas. Em alguns casos, a experiência migratória produziu impactos emocionais duradouros, especialmente entre aqueles que viveram longos períodos de separação familiar ou dificuldades de adaptação cultural. “Diante do envelhecimento, as pessoas começam a se deparar com uma questão, por exemplo, em qual lugar essa pessoa pretende viver o tempo que resta, em qual país ela gostaria de que os seus restos mortais fossem enterrados? É o sentido da vida depois de um certo momento”, diz a pesquisadora. 

Ao estudar diferentes comunidades nikkeis, Mary Yoko Okamoto observa que o envelhecimento não pode ser entendido apenas como uma questão biológica ou demográfica. As experiências acumuladas ao longo da vida, os processos migratórios e as mudanças culturais influenciam diretamente a forma como idosos se percebem e são acolhidos pelas comunidades em que vivem. Em muitos casos, o envelhecimento dessas populações também evidencia diferenças entre as estruturas de cuidado oferecidas pelo Japão e pelo Brasil.

Enquanto a sociedade japonesa desenvolveu, ao longo das últimas décadas, políticas públicas voltadas ao acompanhamento da população idosa, no Brasil o envelhecimento ainda ocorre em meio a limitações estruturais e desigualdades sociais que impactam diretamente a qualidade de vida dessa parcela da população. “No Brasil, não temos instituições de longa permanência públicas. Os estados não oferecem serviços públicos voltados à população idosa, pensando especificamente nas demandas e necessidades deste povo. No Japão, há cidades que têm dezenas desse tipo de centros de apoio, com atividades artísticas, musicais, artesanato, massagem, fisioterapia, desde atividades terapêuticas até atividades de inserção social e desenvolvimento de habilidades. Isso, de fato, no Brasil ainda continua muito incipiente”, afirma Mary Okamoto.

A experiência migratória também transforma a forma como famílias negociam pertencimento, memória e identidade entre diferentes gerações. Nesse processo, que Mary Yoko Okamoto define como “hibridismo”, descendentes de imigrantes transitam entre novos referenciais culturais sem precisar abandonar completamente suas origens. A preservação da língua, da alimentação, dos costumes e das histórias familiares convive, muitas vezes, com a necessidade de adaptação ao país onde se vive.

“Quando nós percebemos que existe muito sofrimento no movimento migratório ou muito sofrimento na fixação e estabelecimento das famílias das pessoas no país de destino, a tendência é que as pessoas fiquem rígidas e inflexíveis e negociem muito menos esse hibridismo. Isso fecha as pessoas e as famílias na sua cultura, ou então, ao contrário, desvaloriza por completo a sua cultura de origem e só valoriza a cultura externa”, conclui a docente.

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