
*Por Tatiane Vargas
A cooperação acadêmica entre a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) e a Universidade de Southampton, no Reino Unido, tem se consolidado como uma importante iniciativa internacional voltada à produção de conhecimento socialmente relevante sobre migração, direitos humanos e saúde pública. Iniciada em 2019, a parceria envolve a pesquisadora da ENSP Maria do Carmo Leal e a professora e pesquisadora Pia Riggirozzi, da Universidade de Southampton, e vem contribuindo para o fortalecimento de agendas interdisciplinares e para o aprimoramento de políticas públicas voltadas a populações migrantes.
A aproximação entre as instituições teve origem em interesses de pesquisa convergentes, especialmente diante da intensificação dos fluxos migratórios venezuelanos para a América do Sul. O diálogo inicial foi impulsionado pelas pesquisadoras Pia Riggirozzi e Maria do Carmo Leal, em articulação com Zeni Lamy, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), com quem Pia já desenvolvia estudos sobre saúde, desigualdades de gênero e acesso a sistemas públicos de proteção social para mulheres em situação de vulnerabilidade no Brasil.
De acordo com Maria do Carmo Leal, desde o início, a cooperação foi orientada por objetivos claros, como a produção de conhecimento aplicado, o fortalecimento de abordagens interdisciplinares e a contribuição direta para o aprimoramento das políticas públicas de saúde, especialmente no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

Pia Riggirozzi e Maria do Carmo Leal.
Pesquisa ReGHID e impacto social
Um dos principais resultados dessa parceria foi o desenvolvimento da pesquisa ReGHID, que entrevistou mais de duas mil venezuelanas e se destaca pela relevância social e pela abordagem inovadora ao analisar o impacto da migração na saúde de mulheres migrantes venezuelanas no Brasil, com foco no acesso aos serviços do SUS. O estudo contribuiu para ampliar o debate sobre migração no campo acadêmico brasileiro, combinando metodologias qualitativas e quantitativas, diferentes tradições teóricas e análises sobre governança nacional, regional e políticas públicas.
Além da produção científica, a pesquisa adotou metodologias participativas e visuais, que resultaram na criação de um documentário e de um fotolivro, ampliando o alcance dos resultados para além da academia. A parceria também gerou publicações conjuntas, relatórios de impacto, eventos científicos e atividades de formação, além de promover intercâmbio contínuo de estudantes e pesquisadoras(es).
"Outro diferencial do ReGHID foi o compromisso com a coprodução de conhecimento, envolvendo organizações da sociedade civil e atores institucionais, o que ampliou a relevância social da pesquisa e seu potencial de incidência sobre políticas públicas", apontou Maria do Carmo.
Cooperação internacional e desafios contemporâneos
Para as pesquisadoras, parcerias acadêmicas internacionais são fundamentais no atual cenário de migração internacional, marcado por crises humanitárias prolongadas, respostas políticas restritivas e pressões crescentes sobre os sistemas públicos de saúde. Desta forma, essas colaborações permitem comparar experiências, identificar boas práticas e produzir evidências robustas a partir de uma perspectiva de direitos humanos.
No campo da saúde pública, esse tipo de cooperação é essencial para enfrentar desafios que ultrapassam fronteiras nacionais, como a proteção da saúde de populações em mobilidade e a redução de desigualdades estruturais que afetam especialmente os países sul-americanos.
Consolidação da parceria e perspectivas futuras
Em 2026, a parceria ganha novo fôlego com a vinda da professora Pia Riggirozzi ao Brasil, para ministrar o Curso de Verão na ENSP/Fiocruz 'Migração Internacional na América Latina, Gênero e Saúde', com a participação das pesquisadoras da Escola, Maria do Carmo Leal e Thaiza Gomes. "A realização do curso marca um momento importante de consolidação da cooperação institucional. A iniciativa fortalece o diálogo Sul–Norte, amplia oportunidades de formação avançada e estimula novas agendas de pesquisa conjuntas, incluindo desdobramentos inovadores do Projeto ReGHID", explicou Thaiza, pesquisadora visitante da ENSP/Fiocruz.

"As perspectivas futuras incluem o desenvolvimento de novas pesquisas sobre migração, gênero, saúde e governança; a formação de jovens pesquisadoras(es) em contextos internacionais; a ampliação de redes globais de colaboração; e o fortalecimento do diálogo internacional sobre direitos humanos e saúde. A parceria também aposta na incidência política, utilizando dados e evidências produzidos pela pesquisa para formular recomendações e informar políticas públicas mais justas e inclusivas no campo da saúde e da migração", ressaltou Pia Riggirozz.
Para Maria do Carmo Leal, com base na experiência acumulada ao longo dos últimos anos, a cooperação entre a ENSP/Fiocruz e a Universidade de Southampton se consolida como uma iniciativa estratégica que alia excelência científica, compromisso ético e impacto social, contribuindo para respostas mais equitativas aos desafios contemporâneos da saúde pública.
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