sábado, 11 de abril de 2026

A importância da migração internacional na cidade de São Paulo

 

Crédito: Agência Brasil

As migrações internas e internacionais são fenômenos que constituíram a história da cidade de São Paulo e da sociedade brasileira. Se é verdade que migrantes internos e internacionais tiveram papel crucial na construção da metrópole paulista desde os seus primórdios, é preciso reconhecer que o fenômeno ganha importância central na contemporaneidade. O atual contexto das múltiplas crises engendradas no interior do capitalismo produz diversas formas de expulsão e migrações forçadas de populações em escalas sem precedentes. Cada vez mais, as pessoas migram em decorrência de fatores diversos, tais como desemprego, graves violações de direitos humanos, conflitos geopolíticos, guerras e em razão de desastres ambientais causados pela destruição humana da natureza. Nesse contexto, muitas outras categorias relacionadas às mobilidades humanas ganham relevância, tais como a situação das pessoas refugiadas, apátridas e solicitantes de refúgio. É preciso frisar, adicionalmente, que a divisão das pessoas que realizam migração em diferentes categorias de cidadania e status migratórios tem sido utilizada na governança migratória global para criar formas de controle, distinções e desigualdades no acesso a direitos humanos que deveriam ser universais.

Como reflexo dessas tendências globais e diante da crescente intensificação das políticas restritivas à migração nos países centrais do capitalismo, a cidade de São Paulo, uma das mais ricas e populosas da América Latina, tem sido um dos principais territórios de chegada, trânsito e instalação desses fluxos migratórios na região. Desde o início do século XXI, no que diz respeito à migração internacional, esses fluxos são diversos e heterogêneos, compostos sobretudo por trabalhadores e trabalhadoras e suas famílias vindos de países do Sul Global – e, portanto, majoritariamente racializados.

Neste artigo, apresentaremos uma breve história da imigração em São Paulo, além de um panorama sobre a presença dos diferentes grupos de imigrantes presentes na cidade hoje. Também abordaremos as lutas migrantes por direitos e as políticas públicas que ganharam força nas últimas décadas com a chegada de novos fluxos na cidade. Ao final, traremos uma reflexão sobre o nosso papel diante da questão migratória no cenário global de emergência de novos fatores de expulsão de populações de seus territórios, amplificada pelo aumento das desigualdades sociais, pela ascensão da extrema-direita com a sua agenda anti-imigrante, além de retrocessos brutais em direitos conquistados e nas políticas de seguridade social.

Um pouco da história da imigração em São Paulo

A cidade de São Paulo foi erguida sobre território indígena Guaianás ou Guaianases – etnia considerada extinta no século XVI, e que hoje dá nome a um dos distritos mais negros de São Paulo. O seu desenvolvimento foi marcado pela chegada em massa de migrantes internos e internacionais ao longo do século XIX e, de forma mais intensa, a partir do início do século XX. Em um contexto de rápida industrialização da economia brasileira relacionada à expansão da indústria cafeeira, a incipiente metrópole paulista passou a atrair trabalhadores e trabalhadoras de distintas partes do mundo. Migrantes internos também chegaram em grandes números para a cidade, vindos em especial de Minas Gerais e de estados do Nordeste – muitos deles, sobreviventes do regime escravocrata. É preciso lembrar que foram mais de 12 milhões de africanos sequestrados e trazidos ao Brasil para trabalhar de maneira forçada ao longo dos trezentos anos de escravidão, um número duas vezes maior que a população portuguesa que se estabeleceu no país durante o período colonial.

Entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX, tornaram-se majoritárias as entradas de italianos, espanhóis, portugueses, além de chineses e japoneses, libaneses e armênios. Nesse período, o Estado brasileiro elaborou e colocou em prática políticas migratórias racistas para estimular a vinda de imigrantes brancos e europeus como parte de um projeto econômico e político de modernização. De forma aparentemente contraditória, essa importação de trabalho imigrante trouxe consequências inesperadas, já que proporcionou ampla circulação de ideias, propiciando a formação de diversos espaços coletivos de socialização, apoio, resistência e de organização da classe trabalhadora em um período histórico de ebulição de movimentos e ideias revolucionárias. Exemplo disso foi o significativo protagonismo de trabalhadores imigrantes na organização de movimentos políticos na cidade de São Paulo, realizando greves que reivindicavam menores jornadas de trabalho e a proibição do trabalho infantil, entre outras pautas, como o fim da política de expulsão de imigrantes envolvidos em atividades partidárias de esquerda, sindicatos e manifestações.

Já na segunda metade do século XX, sobretudo no período de globalização neoliberal que aprofundou os ataques aos direitos da classe trabalhadora e a expulsão de populações de seus territórios, nota-se a crescente entrada de bolivianos, peruanos e sul-coreanos relacionada ao trabalho no comércio e na indústria da costura. Ao longo desse período, a imigração na metrópole paulista contribuiu diretamente para a constituição social e territorial da vida na cidade, construindo e (re)configurando bairros como a Liberdade, o Brás, o Bom Retiro e o Pari, nos quais a presença migrante continua sendo marcante nas lojas, restaurantes, mercados populares, oficinas de costura, centros culturais e outros espaços comunitários.

Imigrantes em São Paulo hoje

São Paulo é a cidade brasileira com o maior número de registros de imigrantes, reunindo a maior diversidade de nacionalidades e de pessoas em situação de refúgio do país. Segundo o Observatório das Migrações Internacionais em São Paulo, há 489.219 imigrantes registrados no município. Desses, os cinco maiores grupos são bolivianos (135.273), chineses (33.237), haitianos (26.198), peruanos (21.600) e estadunidenses (21.156). Esses dados, entretanto, são sub-representados, já que a cidade também abriga uma quantidade expressiva e não quantificada de imigrantes indocumentados, invisibilizados para as políticas públicas. Vale pontuar a existência de uma presença histórica de imigrantes indígenas na cidade, constituída majoritariamente por grupos aimarás e quéchuas vindos do Peru e da Bolívia.

A partir de 2010, no contexto de fronteiras mais fechadas nos países que eram destino preferencial de migrantes e com o reposicionamento do Brasil no regime global das migrações por meio da celebração de acordos internacionais de mobilidade, é possível observar o crescimento na chegada dos chamados “novos fluxos” na cidade. Esses fluxos migratórios são compostos principalmente de haitianos, que migraram em massa após o terremoto que atingiu o Haiti em 2010, além de imigrantes do continente africano – em especial angolanos, senegaleses, democrático-congoleses, nigerianos –, e da região do Oriente Médio, como os sírios. Também nota-se o aumento da entrada de imigrantes asiáticos no período, em especial sul-coreanos e chineses, cujas populações mais do que dobraram nas últimas décadas. Esses novos fluxos somam-se a outros historicamente estabelecidos, e ainda relevantes, como é o caso de imigrantes sul-americanos de países fronteiriços. Mais recentemente, a partir de 2017, destaca-se o aumento sensível na entrada de venezuelanos após o recrudescimento da crise na Venezuela impulsionada por agressões e sanções imperialistas que produziram um êxodo sem precedentes em toda a região da América Latina.

No que diz respeito ao acesso à moradia e à distribuição territorial na metrópole de São Paulo, os grupos de recém chegados frequentemente residem inicialmente em bairros da região central da cidade, como Brás, Pari, Liberdade, Bela Vista e Sé. Nesses distritos, há uma concentração de ocupações urbanas de movimentos por moradias, além de centros de acolhida específicos para pessoas imigrantes e refugiadas que integram a rede de serviços de proteção social oferecida pelo município – algo previsto na Política Municipal para as Populações Imigrantes (PMPI), sobre a qual falaremos mais no próximo tópico. É comum, no entanto, que imigrantes recém-chegados tenham que se mudar para bairros mais afastados da região central após alguns meses. Muitos acabam residindo em bairros da Zona Leste da cidade, como Itaquera, Penha, Guaianases e São Mateus, com uma recente distribuição por bairros das zonas Sul e Norte. Entre as razões para sua alta mobilidade no território urbano estão a dificuldade para cumprir os requisitos formais para a locação de imóveis, como a apresentação de fiadores, os altos valores dos aluguéis praticados por imobiliárias nas regiões centrais, além do curto prazo que possuem para sair dos centros de acolhida – algumas vezes, o período máximo de permanência é de três meses.

Quando chegam à cidade, os primeiros serviços públicos a serem acessados são frequentemente as unidades de saúde, as escolas e os serviços de assistência social. Apesar de imigrantes terem os mesmos direitos em pé de igualdade com os nacionais, independente do status migratório, no que diz respeito ao acesso aos serviços públicos (como prevê a Lei de Migração, Lei nº 13.445/2017), são frequentes as denúncias de práticas discriminatórias. Em relação ao acesso à educação, ainda é comum negativas de matrícula nas escolas por não aceitarem as documentações apresentadas por famílias imigrantes e/ou por exigirem de forma ilegal documentos traduzidos. Nesses casos, a atuação de organizações de defesa de direitos e movimentos sociais tem sido decisiva para a efetivação do direito dessas populações ao provocar intervenções das Diretorias Regionais de Educação. Também como parte das conquistas da Política Municipal para as Populações Imigrantes, consolidou-se o Projeto Portas Abertas que oferece aulas de português gratuitas em algumas unidades educacionais distribuídas pela cidade. Ainda assim, imigrantes têm dificuldade de acessá-lo pelos horários de oferta das aulas – muitas vezes, em horário comercial –, e pela distância das escolas dos locais onde vivem, obrigando-os a onerosos deslocamentos pela cidade.

Ao mesmo tempo, as condições de vida na cidade estão diretamente relacionadas com as condições de acesso ao mercado de trabalho. Trabalhadores imigrantes – em especial negros/as e indígenas – acabam tendo dificuldades frequentes para trabalhar de maneira formal por muitos motivos. Para além do racismo estrutural e a desigualdade de gênero que afeta o mercado de trabalho brasileiro como um todo, as barreiras para o acesso ao trabalho formal são permeadas pela falta de informação sobre os seus direitos no país, dificuldades na revalidação de diplomas e indocumentação. Na metrópole paulista, muitos terminam trabalhando informalmente no comércio ambulante, na produção têxtil, na construção civil e outras ocupações precárias no setor de serviços, com renda oscilante e sem quaisquer direitos. Assim, esses trabalhadores e trabalhadoras na informalidade estão vulneráveis à violência policial, a golpes e abusos de agiotas e consignadores de produtos para o comércio, além de muito frequentemente tornarem-se vítimas de condições de trabalho análogo à escravidão. Mesmo aqueles em vagas de trabalho formal têm, por vezes, seus direitos violados, com retenção de documentos após a demissão, como a Carteira de Trabalho, ou com descontos salariais abusivos.

Podemos compreender até aqui que a cidade continua carregando as marcas da presença imigrante, sejam elas históricas, sejam as do cotidiano da metrópole. Essas pessoas são uma força viva que molda ativamente a cidade, seu presente, passado e futuro. Isso é ainda mais visível quando pensamos nas lutas dessas populações pela garantia de direitos, como veremos a seguir.

Migração é parte constituinte da população de São Paulo
Crédito: Agência Brasil

Lutas por direitos e protagonismos de pessoas imigrantes e refugiadas

Se é importante ressaltar as dificuldades enfrentadas pelas populações imigrantes na cidade de São Paulo, é preciso também apontar para sua capacidade de organização e mobilização como forma de conquistar e efetivar direitos. A cidade, que possui longo histórico de imigrantes engajando-se em lutas políticas, contabiliza cerca de 73 coletivos de imigrantes e organizações que atuam na pauta migratória, sejam eles movimentos liderados por migrantes ou por brasileiros. Essas organizações e coletivos atuam no campo cultural, político, social e religioso, e são constituídas formal ou informalmente em diferentes territórios da cidade.

Nesse cenário urbano, formou-se ao longo de décadas uma rede de organização e participação política de imigrantes. Cresceram associações e coletivos criados pelos próprios imigrantes, além de grupos de apoio ligados a igrejas, centros de saúde e organizações de defesa dos direitos humanos espalhados por diferentes regiões da cidade, especialmente nas periferias. Na cidade de São Paulo, muitos desses grupos se articulam por meio de associações fundadas e dirigidas por imigrantes, como a União Social dos Imigrantes Haitianos (USIH), a Associação de Mulheres Imigrantes Luz e Vida (AMILV), o coletivo de base Warmis – convergência das culturas, a Associação dos Congoleses no Brasil, a Associação da Comunidade da Guiné Bissau e a Comunidade Senegalesa. Também atuam organizações institucionalizadas, como o Pacto pelo Direito de Migrar – África do Coração, além de ONGs mais antigas, como a Missão Paz, a Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, o Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI) e o Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC), que há muitos anos funcionam como importantes pontos de acolhimento, orientação e defesa de direitos, especialmente para quem está chegando ao país.

As lutas articuladas por imigrantes por meio dessas redes procuram reivindicar direitos e denunciar as inúmeras formas de racismo, discriminação e violências sofridas. As manifestações contra os assassinatos de imigrantes africanos que deram origem a campanhas antirracistas por justiça e reparação são exemplos emblemáticos de lutas articuladas em reação à violência estatal, marcada pelo racismo estrutural. Entre elas, podemos citar as campanhas “Zulmira Somos Nós”, “Somos João Manuel”, “Justiça para Talla Mbaye”, “Justiça por Ngagne Mbaye”, que reivindicam justiça por imigrantes mortos em assassinatos motivados por racismo na cidade. Também ganham força nos últimos anos as mobilizações contra a exploração no trabalho e o trabalho escravo, com destaque para os trabalhadores da indústria têxtil e os trabalhadores ambulantes da cidade. Outras mobilizações merecem destaque, como a campanha “Regularização Já”, em defesa da regularização migratória para todos; a campanha “Nacionalidade no SUS”, por direito à saúde; os protestos e ações contra as políticas de encarceramento, expulsão e deportação no Aeroporto de Guarulhos.

É preciso ressaltar ainda que as lutas migrantes em São Paulo tiveram o mérito de pautar e aprovar a primeira Política Municipal para as Populações Imigrantes (PMPI) do país, prestes a completar dez anos em 2026, além de um Plano Municipal de Políticas para Imigrantes, que opera de forma intersecretarial e estabelece metas e ações para gestores públicos municipais visando sua efetivação. Essa é uma conquista ainda mais relevante se considerarmos que apenas 5% das cidades onde residem imigrantes e refugiados possuem políticas públicas de apoio e atendimento para essas populações.

A aprovação da Política se deu na esteira da realização da 1ª Conferência Municipal de Políticas para Imigrantes, em 2013 – também pioneira no país –, e a aprovação do Plano se deu após a 2ª Conferência Municipal com o mesmo tema, realizada em 2019, demonstrando a importância das mobilizações e da participação popular para a elaboração de políticas públicas para imigrantes no Brasil. Também é preciso mencionar a realização, em 2014, da 1ª Conferência Nacional sobre Migrações, Refúgio e Apatridia, ocorrida no município. Como fruto desses esforços, e da aprovação de uma lei municipal de imigrantes em São Paulo de 2016, foi criado um Conselho Municipal de Imigrantes (CMI), órgão consultivo ligado à Secretaria Municipal de Direitos Humanos, considerado um avanço importante na garantia do direito à participação política dessas comunidades no país.

Ainda assim, as limitações para a implementação efetiva da Política e do Plano são muitas. Relatório divulgado pela Coordenadoria de Políticas para Migrantes e Promoção do Trabalho Decente (CPMIG-TD), responsável pela avaliação da implementação do Plano, mostra que o município havia cumprido apenas 23,6% das metas estabelecidas – como, por exemplo, a oferta do Projeto Portas Abertas para o ensino de português. A maior parte das metas, ou 52%, ainda permanecem por serem cumpridas, como a garantia de um representante imigrante – ligado ao CMI – no Conselho Municipal de Saúde. Além disso, não houve verba para o cumprimento das metas estabelecidas, o que tornou o Plano uma carta de intenções. Soma-se a isso o fato de que o CMI, como órgão consultivo, atua sem poderes deliberativos, tornando-o um Conselho inócuo e esvaziando as discussões realizadas no fórum. Dessa forma, ainda que representem um avanço, tais iniciativas têm contribuído pouco para a efetivação dos direitos que declaravam querer efetivar.

Adicionalmente, a pandemia de Covid-19 catalisou a criação de diversas iniciativas de mobilização política de imigrantes enfatizando a demanda pela garantia do direito à saúde e à assistência. Se o SUS é universal, ele frequentemente falha em ser equitativo. Iniciativas visando a consulta das populações imigrantes sobre propostas para políticas públicas de saúde, como as Conferências Nacionais Livres; mutirões de vacinação contra a Covid-19 nas periferias da cidade, especialmente para imigrantes indocumentados com hesitação vacinal por medo de serem deportados; e a instituição, por demanda da sociedade civil, de um Grupo de Trabalho na Secretaria Municipal de Saúde para debater estratégias para a promoção da saúde das populações imigrantes são exemplos de mobilizações recentes nesse sentido.

Por fim, é preciso considerar que vivemos sob constante risco de retrocessos sobre as políticas sociais e os direitos conquistados. Recentes declarações do prefeito Ricardo Nunes e do governador do Estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas, em pautas relacionadas aos direitos humanos, evidenciam os desafios para fazer avançar nessas lutas hoje. “Espero que não venham”, disse Ricardo Nunes ao ser perguntado sobre o possível aumento do fluxo de imigrantes venezuelanos para São Paulo, ao mesmo tempo em que anunciou o fechamento de um abrigo que atende mais de cem pessoas refugiadas na cidade – fechamento revertido após pressão de movimentos de imigrantes, como de praxe. Já o atual governador tem investido fortemente na ampliação do poder de polícia nas ações contra trabalhadores ambulantes no Brás, violando o direito ao trabalho e vitimando principalmente imigrantes haitianos e africanos por meio da Operação Delegada – um programa do governo de São Paulo que permite que policiais militares atuem, em seus dias de folga, em ações de apoio às prefeituras, como na fiscalização do comércio considerado irregular e sem nenhuma alternativa de regularização para quem depende desse trabalho para sobreviver.

Garantir acesso a direitos básicos, como saúde, educação, moradia e trabalho decente é tornar possível a vida dessas pessoas no país. Do contrário, resta apenas o discurso institucional e inócuo da metrópole paulista enquanto uma cidade aberta às pessoas imigrantes e refugiadas, ao mesmo tempo em que as ações, bem como a negligência, do Poder Público se encarregam de expulsá-las daqui.

Considerações finais

São Paulo foi e continua sendo uma metrópole de migrantes, internos e internacionais. A tendência é que a população constituída por imigrantes e refugiados na cidade, ao invés de diminuir, se expanda nos próximos anos em decorrência das múltiplas crises – ambientais, climáticas, sanitárias, políticas, econômicas etc. – do capitalismo. Apesar do crescente engajamento das próprias associações e coletivos de migrantes nas lutas sociais, os desafios colocados para a garantia de direitos e a efetiva inclusão dessas populações nas políticas sociais são inúmeros e dependem da capacidade de formação de alianças mais amplas no âmbito local, nacional e transnacional. Não apenas na cidade de São Paulo, mas em diversas cidades do mundo, temos visto a multiplicação de regimes de controle migratório e fronteiriço que produzem a criminalização da migração e diversas outras formas de violência e discriminação contra pessoas em mobilidade.

É certo que, para resistir aos retrocessos no horizonte e garantir os avanços para o futuro, dependemos de organização e de mobilização coletivos. Se todo o trabalho a fazer está à nossa frente, as lutas migrantes na cidade de São Paulo – mas não apenas – são um exemplo de como é possível se organizar mesmo em condições precárias, e sob estatutos frágeis de cidadania. É por meio dessas coletividades insurgentes que os futuros possíveis são conquistados.

 

Karina Quintanilha é advogada e doutora em Sociologia pela Unicamp, com atuação sobre políticas migratórias, lutas migrantes, trabalho e direitos humanos. É co-fundadora e coordenadora do Fórum Internacional Fronteiras Cruzadas. Atualmente, é pesquisadora de pós-doutorado em Sociologia na USP.

Alexandre Branco-Pereira é antropólogo, pesquisador colaborador pleno no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de Brasília, onde também desenvolve pesquisa de pós-doutorado com bolsa CNPq. É coordenador da Frente Nacional pela Saúde de Migrantes (Fenami) e do Observatório Saúde e Migração.

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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Bela Vista Cultural lança o primeiro Guia Gastronômico da Culinária Imigrante do século XXI em São Paulo

Capa do Guia da Culinária Imigrante de SP, Bela Vista Cultural
 

Cidade historicamente marcada por sucessivas ondas migratórias, São Paulo ganha seu primeiro guia turístico e gastronômico, com cupons de desconto, dedicado exclusivamente à culinária imigrante do século XXI. A publicação é uma iniciativa da Bela Vista Cultural e reúne restaurantes, bares e cafés conduzidos por imigrantes de diferentes gerações que vivem e empreendem na capital paulista.

O guia tem o olhar voltado para os fluxos migratórios mais recentes, reunindo empreendedores vindos da América Latina, África, Europa, Oriente Médio e Extremo Oriente. Esses imigrantes encontraram no setor de alimentação uma forma de reconstruir suas trajetórias, gerar renda e estabelecer vínculos com a sociedade brasileira. Ao mapear e divulgar esses estabelecimentos, a publicação busca ampliar sua visibilidade e estimular a visitação do público.

Com patrocínio da Ambev e apoio da Selmi, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), o projeto, mais do que registrar técnicas culinárias e evocar sabores, procura proporcionar uma experiência urbana e social, convidando o público a circular por bairros centrais e periféricos, conhecer outros povos e reconhecer a culinária como uma vertente cultural de pertencimento, memória e identidades plurais.

A publicação é dividida em duas partes. A primeira apresenta um panorama histórico e cultural da gastronomia paulistana, contextualizando São Paulo como uma metrópole formada por diferentes ciclos migratórios, que ajudaram a impulsionar a indústria, o comércio e o setor de serviços. Esse conteúdo funciona como porta de entrada para compreender a cidade e suas transformações ao longo das últimas décadas. A segunda metade resulta de um amplo mapeamento de estabelecimentos conduzidos por imigrantes do século XXI. Os negócios são apresentados a partir de suas histórias, de seus proprietários e suas famílias, bem como as características de suas cozinhas, compondo um retrato fidedigno da diversidade cultural paulistana.

Entre os estabelecimentos participantes estão nomes como Al Janiah, Café Colombiano, Cho Sun Gal Bi, Cusco Cozinha Peruana, Hong Bin, Ombra Bar e Ton Hoi, entre outros, reunindo 33 restaurantes, bares e cafés que representam a nova cena gastronômica paulistana. Para integrar o projeto, foi estabelecido como critério que o negócio fosse conduzido por um imigrante de primeira geração ou por membros de seu núcleo familiar, com a participação dos fundadores na rotina do empreendimento.

A partir do dia 14 de abril, o guia poderá ser adquirido pelo valor de R$70,00 no site da Bela Vista Cultural ou, presencialmente, em estabelecimentos que participam da publicação. 

O lançamento contará com uma programação especial, incluindo atividades ligadas aos restaurantes e bares participantes, experiências exclusivas e ações que convidam o público a vivenciar os percursos e histórias apresentados na publicação.


Programação de lançamento

O lançamento do Guia da Culinária Imigrante de São Paulo compreende uma programação estendida, concebida para aproximar o público dos estabelecimentos mapeados na publicação e aprofundar o diálogo entre gastronomia, imigração e cidade. As atividades iniciam em abril de 2026 e combinam eventos nos próprios restaurantes, passeio gastronômico guiado e uma palestra de lançamento institucional com bastidores da produção.

Noites do Guia

A série Noites do Guia reúne eventos realizados nos próprios estabelecimentos participantes da publicação, abertos ao público. Cada encontro combina abertura institucional, depoimento do fundador ou representante do restaurante, interação com o público e homenagem formal ao empreendimento, transformando cada espaço em palco de sua própria história. A entrada é gratuita, basta chegar ao local com 1h de antecedência ao início da atividade.

A programação prevê, por enquanto, quatro edições:

  • Sexta-feira, dia 24 de abril, às 18h, no Café Colombiano;
  • Quarta-feira, dia 29 de abril, às 19h, no El Guatón;
  • Quinta-feira, dia 7 de maio, às 19h, no Ombra Bar e;
  • Sábado, dia 16 de maio, às 17h, no Patacón SP.

Durante os eventos, o guia estará disponível para compra no local. Quem adquirir a publicação receberá um cupom para ser trocado por um item selecionado pelo próprio restaurante naquela noite. Novas edições serão anunciadas no Instagram do projeto.
 

Passeio gastronômico guiado

No sábado, dia 25 de abril, das 15h às 19h, o público poderá participar de um passeio a pé de 3,1 km pelas regiões da Bela Vista e Consolação, conduzido pelo guia bilíngue e agente de turismo Rafael Gushiken (@spdagaroa). O trajeto parte do Top Center Shopping, na Avenida Paulista, percorre pontos de referência histórica e urbana da região antes de encerrar no restaurante Biyou’z, com passagem pelo Bánh Mì Vietnam para degustação. Ao longo do percurso, narrativas sobre imigração, urbanização e culinária se entrelaçam, oferecendo uma experiência que ultrapassa a visita gastronômica convencional.

O passeio integra as experiências oferecidas durante a pré-venda do guia e, posteriormente, também será comercializado de forma independente. Os valores variam de R$170,00 e R$350,00, de acordo com a modalidade de compra, que incluem pequenas degustações nos dois restaurantes. Informações atualizadas serão divulgadas no Instagram do projeto.
 

Palestra e Lançamento institucional

O encerramento da programação ocorre no dia 16 de junho, às 19h, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo. O evento terá formato de palestra, com apresentação conduzida por Renan Cyrillo, diretor executivo da Bela Vista Cultural, que contextualizará o projeto e trará bastidores da produção. Em seguida ocorrerá uma sessão de perguntas e um momento para comercialização da publicação. As inscrições serão disponibilizadas pelo site do Sesc na última semana de maio.

 

Estímulo à economia local

O guia impresso contará com cupons promocionais de 10% de desconto no valor da conta, pensados como um incentivo real para atrair um novo público para esses estabelecimentos. Mais do que um benefício pontual ao leitor, esses cupons configuram uma estratégia de ativação econômica, estimulando a circulação pela cidade e ampliando o fluxo de clientes para restaurantes, bares e cafés.

Além da visibilidade proporcionada pela publicação, os empreendedores participantes integraram um programa de capacitação realizado em parceria com o Sebrae, com foco em gestão financeira, organização administrativa e estratégias de marketing. Também tiveram acesso a um curso de gestão de bares e restaurantes oferecido pela Abrasel, Bares Sp e Esbre, ampliando repertórios e ferramentas para a condução sustentável de seus negócios.

Essas ferramentas contribuíram com a estruturação interna desses estabelecimentos, oferecendo suporte técnico para decisões estratégicas e contribuindo com o controle de custos, posicionamento de marca e planejamento de crescimento. Dessa forma, o guia associa comunicação e formação, fortalecendo tanto a imagem quanto a base operacional dos empreendimentos.

Segundo Renan Cyrillo, diretor executivo da editora, a proposta é unir visibilidade, capacitação e geração de renda. “Muitos desses empreendedores chegaram ao Brasil recentemente e encontraram na gastronomia uma possibilidade concreta de reconstrução de vida. Nesse contexto, o guia funciona não apenas como ferramenta de divulgação, mas como instrumento de fortalecimento estrutural desses negócios, ampliando suas oportunidades de crescimento e integração ao mercado local”, afirma. “A combinação entre estímulo ao consumo consciente e a qualificação empresarial reforça o compromisso do projeto com impacto econômico real e duradouro”, complementa.

 

Impacto educacional e acessibilidade

A Bela Vista Cultural se notabiliza pelo desenvolvimento de projetos culturais e educacionais voltados principalmente às escolas públicas. Esse compromisso também está presente no Guia da Culinária Imigrante de São Paulo, que utiliza a gastronomia como ponto de partida para discutir temas como imigração contemporânea, diversidade cultural e pertencimento.

O projeto conta com materiais pedagógicos, audiolivro, conteúdos em libras e audiodescrição. Parte da tiragem será destinada, gratuitamente, a escolas e instituições culturais, junto da realização de ações formativas na rede pública de ensino.

 

Ficha técnica

Guia da Culinária Imigrante de São Paulo

Tiragem: 3.000 exemplares

Formato: 11,5 x 21 cm fechado

Número de páginas: 120

Miolo: papel couché 115g, impressão 4x4 cores

Capa: papel escala em supremo 250g

Valor: R$70,00

www.belavistacultural.com.br/loja
 

Redes sociais do projeto: 

Instagram: @culinariaimigrantesp

TikTok: @culinariaimigrantesp

 

Materiais pedagógicos e acessíveis

www.belavistacultural.com.br/culinariaimigrantesp

O projeto conta com o patrocínio da Ambev e apoio da Selmi, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet).

 

Sobre a Bela Vista Cultural

Fundada em 2016, a Bela Vista Cultural é uma editora, produtora e consultoria que desenvolve projetos culturais e educacionais voltados principalmente às escolas públicas. Atua em parceria com a iniciativa privada para criar iniciativas que promovam acesso à cultura, formação docente e desenvolvimento social por meio da educação.

Mais informações

www.belavistacultural.com.br

@belavistacultural

https://jornaldobras.com.br/

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quinta-feira, 9 de abril de 2026

Haitianos no Brasil: desinformação distorce dados de acesso a Bolsa Família e trabalho de imigrantes

  

Haitianos em São Paulo. Foto: HÉLVIO ROMERO / ESTADÃO

Por Giovana Frioli

A imigração haitiana no Brasil é alvo de desinformação, com alegações falsas sobre acesso ao Bolsa Família. Em 2025, apenas 11.751 famílias haitianas recebiam o benefício, representando 0,06% do total. A migração aumentou após o terremoto de 2010 no Haiti. Haitianos enfrentam condições precárias de trabalho, especialmente no Sul do Brasil. A Polícia Federal investiga a Aviatsa por trazer imigrantes com vistos falsificados. O fluxo migratório atual é de cerca de 600 haitianos por semana.

A imigração haitiana no Brasil tem sido tema de desinformação nas redes sociais, com vídeos distorcendo a realidade dos imigrantes e disseminando ideias xenofóbicas. Exemplos encontrados pelo Estadão Verifica no Instagram afirmam que a chegada de pessoas do Haiti estaria descontrolada e que todos os migrantes teriam acesso ao Bolsa Família - o que não é verdade, de acordo com dados oficiais e especialistas.

Um dos vídeos analisados pelo Verifica é do pré-candidato à Presidência Renan Santos (Missão), que foi contatado mas não respondeu. Ele afirmou que “boa parte dos imigrantes vivem de assistencialismo” e que mais de 100 mil haitianos receberiam o Bolsa Família.

Mas isso é enganoso: o número de participantes do Bolsa Família é bem menor do que o mencionado. Em setembro de 2025, 11.751 famílias haitianas eram contempladas com o benefício, segundo números do Ministério do Desenvolvimento Social e Assistência Social concedidos via Lei de Acesso à Informação (LAI). Elas representam apenas 0,06% do total de beneficiários e 3,5% do número de estrangeiros que recebem o auxílio.

ambém não há fundamento em dizer que os imigrantes em geral vivem de benefícios e assistencialismo no Brasil – dados apontam que a nacionalidade haitiana foi a segunda com mais registros em empregos formais no País ao final de 2024. Eles convivem com condições precárias de trabalho e falta de acesso a políticas públicas, de acordo com relatórios e pesquisadores da área.

Migração haitiana no Brasil ocorre por fragilidades sociais

Um dos principais motivos para a migração haitiana ao Brasil é o terremoto de 2010, que matou mais de 200 mil pessoas na ilha. Na época, o exército brasileiro estava na linha de frente da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), que ocorreu entre 2004 a 2017. Por isso, o País tornou-se um dos principais destinos de migrantes que necessitavam de acolhimento.

O professor Luís Felipe Aires Magalhães, de Políticas Públicas da Universidade Federal do ABC (UFABC) e coordenador adjunto do Observatório das Migrações em São Paulo (Nepo/Unicamp), explica que a maior parte da migração internacional ao Brasil vem de pessoas do Sul Global, com um perfil vulnerável.

“No caso do Haiti, devido a um processo de esgotamento e deterioração das condições econômicas, sociais e políticas”, ressaltou.

Até 2010, antes do terremoto, o número de haitianos que vinha ao Brasil era inexpressivo. Em 2012, a então presidente Dilma Rousseff afirmou, no Haiti, que o Brasil estava aberto para receber imigrantes, com autorização de 100 vistos mensais.

Um mês antes, o governo havia instituído a concessão de visto por razões humanitárias aos haitianos, condicionado ao prazo de cinco anos. O limite de concessão de vistos, contudo, caiu um ano depois.

A maior vinda de imigrantes foi registrada em 2016, um ano antes da promulgação da Lei de Imigração, no ano de 2017. A legislação determinou que a migração é um direito humano e garantiu direitos iguais, à vida, à liberdade, à segurança e à propriedade. Ela ainda determinou acesso a políticas públicas, serviços, programas e benefícios sociais, educação, trabalho, moradia, seguridade social, serviço bancário e assistência jurídica.

Gráfico mostra a série histórica da migração haitiana no Brasil de 2000 a 2025. O número de 193 mil representa os registros totais somando os anos. Foto: Visualização do Banco Interativo SISMIGRA do Observatório das Migrações em São Paulo (NEPO/UNICAMP).

Atualmente, os relatórios da Organização Mundial das Nações Unidas (ONU) registram que o Haiti sofre uma crise humanitária e vive um dos piores momentos de instabilidade política. O país opera sob “níveis alarmantes de violência” e insegurança alimentar, segundo nota de março de 2026. Segundo a ONU, mais de 1,4 milhão de pessoas tiveram que se deslocar de seus locais de origem.

Os dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) mostram que, em fevereiro de 2026, 123.364 haitianos tinham autorização de residência ativa no País. A maior parte deles, 77.815, têm registro de trabalho. Outros 22.572 estão sob condição de “Reunião Familiar” e 12.466 em “Acolhida Humanitária”. Há motivos para concessão de registro que ainda incluem estudos, religião, refúgio e outros.

Dados do OBMigra de fevereiro de 2026 sobre haitianos com registro ativo no Brasil. Foto: Dados do painel DataMigra do OBMigra.

O OBMigra notificou que, em janeiro de 2026, houve 2.219 novos registros de haitianos no Sistema de Registro Nacional Migratório (Sismigra). No mesmo mês em 2025, haviam sido 1.150 pessoas. Já em janeiro de 2024, 772.

Número de haitianos no Bolsa Família representa 0,06% do total

Em setembro de 2025, havia 11.751 famílias haitianas beneficiárias do programa, segundo dados do MDS divulgados em novembro via LAI.

Naquele mês, 334.012 famílias estrangeiras recebiam o Bolsa Família. A nacionalidade venezuelana é a com mais beneficiários, 205.526. Na sequência, vêm Bolívia (25.227), Angola (14.031), Paraguai (12.731) e Cuba (12.465).

O Haiti, que era o 6º da lista, representou 3,5% do total de estrangeiros beneficiários do programa. Em setembro, havia no total 19 milhões de famílias contempladas pelo Bolsa Família em todo o Brasil. Ou seja, o número de haitianos representou apenas 0,06% dos participantes.

A quantidade de beneficiários haitianos caiu na comparação com dezembro de 2024, quando havia 15.568 famílias no programa.

Quantidade de haitianos representa 0,06% do total de beneficiários do PBF. Foto: Lyon Santos/MDS

É importante ressaltar que o Bolsa Família é concedido por família, o que significa que uma mesma unidade familiar pode incluir múltiplos indivíduos.

O Verifica questionou o MDS sobre o número de haitianos beneficiados em fevereiro de 2026, mas não recebeu retorno até a publicação da checagem.

Segundo o relatório de 2025 sobre a situação socioeconômica da população haitiana no Brasil, elaborado pelo OBMigra e pela Agência da ONU para Refugiados (Acnur), a maioria das famílias haitianas no Cadastro Único (64%), em 2022, tinha renda per capita inferior a R$ 218, revelando uma situação de pobreza ou extrema pobreza.

O documento aponta, a partir dos registros entre 2020 a 2022, que em comparação às outras nacionalidades no CadÚnico, como Bolívia, Venezuela e Paraguai, os haitianos têm um percentual menor de acesso ao Bolsa Família ou ao Benefício de Prestação Continuada (BPC).

O especialista Guimarães explica que, ao contrário do que é propagado nas redes sociais, não há um acesso em larga escala de benefícios sociais aos imigrantes.

“Nós temos uma lei imigratória pouquíssimo regulamentada, pouco articulada entre os entes federativos, União, Estados e Municípios. Isso transfere muitas das responsabilidades que deveriam ser do Estado para a sociedade civil, e que consagra isso no artigo 120 da lei”, explicou.

Na foto de 2019, Pharaday Bresier, haitiano que queria ser jogador de futebol, em frente a uma galeria em São Paulo.  Foto: HÉLVIO ROMERO / ESTADÃO

“A União não dá conta de prover políticas públicas específicas para migrantes”, afirmou.

Santa Catarina concentra mais trabalhadores haitianos

A maior parte dos registros de haitianos está localizado em São Paulo: são 33.265. Em Santa Catarina, há 30.630 registros, e no Paraná, 22.443. Os dados do relatório de 2025 do OBMigra com a Acnur revelam que esses são os Estados que mais absorveram contingentes de trabalhadores haitianos.

O documento mostra que, ao final de 2024, havia 45.192 haitianos no mercado formal de trabalho no Brasil, a segunda nacionalidade de estrangeiros com maior prevalência. Santa Catarina se destaca como o principal destino, concentrando 32,5% (14.679) do total de trabalhadores vindos do Haiti no País. Até 2018, a Região Sudeste tinha a maior concentração do grupo, mas foi ultrapassada posteriormente pela Região Sul.

De acordo com o professor Guimarães, a atração de trabalhadores haitianos para o Sul se iniciou com o recrutamento da força de trabalho no Norte do Brasil ou em São Paulo.

“Empresas principalmente de limpeza pública urbana, construção civil e da agroindústria trouxeram imigrantes para cidades do Sul, como Chapecó, Navegantes, Itajaí e Curitiba”, explicou.

Ele explica que os haitianos vieram, sobretudo, para trabalhar em setores em expansão no País, como empreiteiras e frigoríficos de carne suína, bovina e de aves. O relatório do OBMigra com a Acnur ressalta (página 45) a importância da agroindústria e da construção civil na absorção dessa população na Região Sul.

Os trabalhadores haitianos convivem, contudo, com condições precárias de trabalho, segundo o documento técnico. Eles enfrentam jornadas excessivas, falta de pagamento e horas extras, barreiras linguísticas e discriminação racial. O texto aponta que a situação explica a falta de progressão salarial desses trabalhadores.

Guimarães, que pesquisou a superexploração do trabalho de haitianos em Santa Catarina, ressaltou que os imigrantes são alocados em trabalhos mais precários em comparação aos brasileiros, com menos acesso a direitos e sindicalização, além de maior vulnerabilidade.

Segundo o pesquisador, foram identificadas estratégias de violações: má abrigamento da força de trabalho, com condição precária de alojamentos de imigrantes; alocação discriminatória, com trabalho mais exaustivo e degradante; e contratos com cláusulas em que o trabalhador abre mão de direitos trabalhistas sem saber, devido ao pouco domínio do português.

Ao Estadão, Advogados Sem Fronteiras afirmaram que haitianos estão numa situação de desespero para fugir de um país com alta criminalidade e chegam com documentos rasgados e até mesmo irregulares. Foto: Reprodução/EPTV

PF vai investigar companhia aérea que trouxe imigrantes com vistos falsificados

Como noticiou o Estadão, a Polícia Federal informou que iria investigar a Aviación Tecnológica S.A. (Aviatsa) por contrabando de imigrantes e falsificação de documentos, após 118 refugiados haitianos permanecerem retidos no aeroporto de Campinas no dia 12 de março.

Em nota ao jornal, a Aviatsa afirmou que operou o voo em conformidade com as normas da aviação civil internacional, “transportando passageiros devidamente identificados e portadores de passaporte válido”.

Já o Ministério de Relações Exteriores disse, na ocasião, que foi informado de que 113 haitianos chegaram ao Brasil portando vistos falsificados. “Não se trata de vistos humanitários, mas sim de vistos de reunião familiar”, afirmou.

À reportagem, a Polícia Federal disse que identificou um fluxo migratório atual de aproximadamente 600 de pessoas vindas do Haiti por semana, com cerca de três operações semanais de voos ao Aeroporto de Viracopos. A corporação não respondeu sobre a qual período o número corresponde ou se há dados sobre vistos com irregularida

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