Programa Latinoamerica no Ar- Missão Paz , Radio 9 de Julho Am 1600 Khz Domingo das 16 a 17 h. Miguel Angel Ahumada, Patricia Rivarola
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No Dia Mundial contra o Tráfico de Pessoas, organização destaca o crescimento do recurso ao tráfico humano por parte de criminosos; vítimas são obrigadas a cometer crimes e relatam casos de tortura, abuso sexual, fome e isolamento; africanos são o grupo mais traficado.
Redes criminosas internacionais estão a expandir o tráfico humano para alimentar esquemas de fraudes online, forçando a participação de centenas de milhares de vítimas em várias atividades ilegais, sob pena de coação.
O alerta foi dado pela Organização Internacional para as Migrações, OIM, no contexto do Dia Mundial contra o Tráfico de Pessoas. A data é assinalada neste 30 de julho sob o tema “Presos por detrás do esquema”.
Guterres apela a uma resposta global contra o tráfico
Em mensagem, António Guterres relembrou que o tráfico de seres humanos constitui uma grave violação dos direitos humanos. O secretário-geral da ONU deixou ainda um apelo a uma resposta coletiva, capaz de identificar estas redes criminosas e cortar as suas vias de financiamento.
O tráfico para fins criminais tem crescido rapidamente nos últimos anos. De acordo com o Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime, Unodc, este tipo de exploração aumentou de 1% das vítimas detetadas a nível mundial em 2016 para 8% em 2022.
Ainda em 2022, vítimas de 162 nacionalidades foram traficadas para 128 países. Por sua vez, cerca de 70% das pessoas que foram investigadas, acusadas e condenadas por tráfico eram homens.
Já as vítimas africanas são o grupo mais amplamente traficado pelas organizações criminosas, representando 31% dos fluxos de tráfico transfronteiriço, indicam os dados da ONU.
O tráfico humano para criminalidade forçada ocorre quando pessoas são exploradas e obrigadas a cometer crimes em benefício dos traficantes, frequentemente através de engano, ameaças ou coação.
Muitas vezes, o recrutamento começa em plataformas online. Os anúncios de emprego fraudulentos visam pessoas que falam várias línguas, têm competências digitais e estão familiarizadas com as redes sociais.
As burlas não são o único crime praticado pelas vítimas, que também são forçadas a uma grande variedade de atividades ilegais, incluindo furtos, tráfico de droga, fraude financeira e esquemas online.
De acordo com Agência da ONU para os Refugiados, Acnur, estima-se que mais de 300 mil pessoas estão atualmente presas em centros controlados por estas organizações criminosas.
Proteção das vítimas no centro da resposta
Perante a expansão geográfica do tráfico de pessoas, a OIM tem vindo a reforçar o apelo à prevenção, à proteção das vítimas, à cooperação transfronteiriça e a parcerias reforçadas para desmantelar redes de tráfico.
Ainda este ano, a agência lançou a sua nova Estratégia Regional de Resposta ao Tráfico de Pessoas para Criminalidade Forçada na Ásia e no Pacífico 2026 – 2030.
O plano prevê a proteção de vítimas, a cooperação transfronteiriça e o reforço de parcerias para desmantelar redes de tráfico.
No Dia Mundial contra o Tráfico de Pessoas de 2026, a OIM enfatiza que as pessoas forçadas a cometer crimes dentro de centros de golpes são vítimas de tráfico e como tal devem ser protegidas
A identidade cultural brasileira está passando por uma das maiores transformações de sua história. Esse processo não pode ser explicado apenas pelo crescimento das igrejas neopentecostais nem apenas pela revolução digital. Ele resulta do encontro entre mudanças religiosas, econômicas, políticas e tecnológicas que, ao longo dos últimos setenta anos, alteraram profundamente a forma como os brasileiros vivem a fé, compreendem a sociedade e se relacionam entre si.
O Brasil sempre foi uma nação marcada pelo sincretismo religioso, pela convivência entre diferentes tradições e por um forte espírito comunitário. Nossa cultura foi construída pela mistura de povos indígenas, africanos, europeus e migrantes de diversas origens. A solidariedade, a vida em comunidade e a capacidade de conviver com as diferenças tornaram-se características marcantes da sociedade brasileira.
Entretanto, essa identidade começou a ser desafiada ainda durante a Guerra Fria.
Naquele contexto, América Latina e Brasil tornaram-se espaços estratégicos da disputa entre capitalismo e socialismo. Ao mesmo tempo em que cresciam os movimentos populares, sindicais e estudantis, a Igreja Católica aproximava-se das periferias por meio das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), fortalecidas pelo Concílio Vaticano II e pela Conferência de Medellín. A partir delas, milhares de leigos passaram a organizar pequenas comunidades de fé, solidariedade e participação social, suprindo a escassez de sacerdotes provocada pela rápida urbanização e pelo intenso êxodo rural.
Foi também nesse período que a Teologia da Libertação ganhou força ao defender uma leitura do Evangelho comprometida com a justiça social, a superação da pobreza e a organização popular.
Paralelamente, intensificou-se a atuação de missionários protestantes norte-americanos e canadenses na América Latina. O objetivo declarado dessas missões era ampliar a evangelização. Contudo, diversos pesquisadores sustentam que essa expansão também se inseria no ambiente ideológico da Guerra Fria, quando organizações religiosas passaram a ser vistas, por diferentes atores, como parte da disputa pela influência política e cultural no continente. Nesse contexto, movimentos de esquerda e a crescente presença da Igreja Católica nas periferias tornaram-se importantes focos de oposição de setores religiosos anticomunistas.
Desse ambiente nasceram ou ganharam força novas denominações pentecostais, como a Igreja do Evangelho Quadrangular, O Brasil para Cristo, Deus é Amor e a Casa da Bênção. Esta última, fundada pelo missionário canadense Robert McAlister, influenciou diretamente uma geração de líderes que daria origem ao neopentecostalismo brasileiro.
Nas décadas seguintes surgiram igrejas como a Universal do Reino de Deus, a Internacional da Graça de Deus, a Renascer em Cristo e a Mundial do Poder de Deus. Embora diferentes entre si, essas denominações compartilhavam características comuns: intensa utilização dos meios de comunicação, administração altamente profissionalizada, forte presença nas periferias urbanas e uma teologia centrada na experiência individual da fé.
A Teologia da Prosperidade passou a afirmar que a bênção divina também se manifesta por meio do sucesso material, da saúde e da prosperidade econômica. A salvação deixou de ser apresentada apenas como uma promessa futura e passou a ser percebida também como vitória sobre os problemas da vida cotidiana.
Ao mesmo tempo, a Igreja Católica vivia um período de mudanças internas. Durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI, a Teologia da Libertação sofreu fortes restrições doutrinárias, enquanto as Comunidades Eclesiais de Base perderam espaço e influência. Sem abandonar sua missão social, a Igreja reduziu sua capacidade de organização popular justamente no momento em que as igrejas pentecostais ampliavam rapidamente sua presença nos bairros populares.
Outro fenômeno decisivo foi o surgimento da cultura gospel.
A Igreja Batista da Lagoinha, sob a liderança do pastor Márcio Valadão, desempenhou papel fundamental nesse processo. O ministério Diante do Trono, liderado por Ana Paula Valadão, transformou a música evangélica em um fenômeno nacional. A partir daí consolidou-se uma poderosa indústria cultural formada por gravadoras, editoras, rádios, emissoras de televisão, grandes eventos e, mais recentemente, influenciadores digitais.
A religião deixou de ocupar apenas os templos para tornar-se também entretenimento, mercado e produção permanente de conteúdo.
Então chegou a internet.
As redes sociais aceleraram uma transformação que já estava em curso. Pela primeira vez na história brasileira, a formação de valores deixou de depender prioritariamente da família, da escola, das igrejas e das organizações comunitárias. Hoje, algoritmos decidem quais mensagens religiosas, políticas e culturais alcançarão milhões de pessoas todos os dias.
Essa mudança coincide com outra transformação mais profunda: a passagem de uma cultura fortemente comunitária para uma lógica cada vez mais individualista. Enquanto as Comunidades Eclesiais de Base valorizavam a solidariedade, a participação popular e a transformação coletiva da sociedade, boa parte da religiosidade contemporânea enfatiza a realização pessoal, o empreendedorismo individual, a prosperidade econômica e a responsabilidade exclusiva do indivíduo pelo próprio sucesso.
Não se trata de afirmar que todas as igrejas pensam da mesma maneira, nem de reduzir a complexidade da história religiosa brasileira a uma única interpretação. O campo religioso permanece plural e abriga experiências muito diversas. Contudo, é difícil ignorar que a expansão do neopentecostalismo coincidiu com profundas mudanças culturais, econômicas e tecnológicas que fortaleceram valores mais individualistas.
A pergunta que permanece é maior do que a religião.
O Brasil conseguirá preservar sua tradição de convivência, solidariedade, diversidade cultural e organização comunitária diante de uma sociedade moldada por algoritmos, pela lógica do mercado e pela valorização crescente do indivíduo?
Responder a essa questão talvez seja um dos maiores desafios intelectuais e políticos do nosso tempo. Afinal, o debate já não diz respeito apenas ao futuro das igrejas, mas ao futuro da identidade cultural brasileira e da própria democracia.
José Carlos Lima, Dirigente da Fundação Verde Herbert Daniel, advogado, ambientalista e amazônida
O Programa Mundial de Alimentos (PMA) está trabalhando com o Governo da Colômbia e parceiros para apoiar a integração a longo prazo de migrantes venezuelanos e pessoas deslocadas internamente. Com foco em Bogotá, Medellín e áreas de fronteira, o projeto ampliará o acesso à proteção social, formação profissional e apoio a microempresas e novos empreendimentos. O objetivo é alcançar mais de 4.000 famílias até 2026 e busca financiamento adicional além dos US$ 2 milhões já garantidos.
O PMA tem experiência na implementação de projetos de integração socioeconômica – alcançando 7.000 famílias (28.000 pessoas) na Colômbia nos últimos quatro anos – em conjunto com uma vasta rede de atores público-privados. O PMA já está presente nas áreas propostas para esta intervenção e cultivou relações sólidas com instituições e comunidades locais. A parceria apoiará a sustentabilidade do projeto além do primeiro ano e ajudará a transformar a vida de migrantes e deslocados internos na Colômbia.
Milhares de pessoas em situação irregular apresentaram pedidos de regularização após medida do governo da Espanha
Foto: Ramon Costa/SOPA Images/Sipa USA/picture alliance
Mirra Banchón
Em meio ao endurecimento das políticas migratórias na Europa e ao avanço da extrema direitae de partidosultradireitistasem todo o continente, o Parlamento Europeu aprovou em junho novas regras que ampliam os poderes dos governos para deportar migrantes e requerentes de asilo com pedidos rejeitados. A medida também abre caminho para transferências a centros de retorno localizados em países terceirosm, ou seja, fora da União Europeia (UE).
No entanto, não ficou imediatamente claro se os cidadãos de países da América Latina também estariam sujeitos a essas deportações.
"Fala-se atualmente em centros de acolhimento. De acordo com o novo Regulamento de Retorno, uma pessoa que chega àEspanhaou a outro país daUnião Europeia (UE)e solicita qualquer tipo de autorização, e quando esta é negada, poderá ser enviada para um desses centros para que seu retorno possa ser gerenciado a partir dali", explicou Mónica López, diretora-geral da Comissão Espanhola de Ajuda aos Refugiados (Cear), à DW.
"Na prática, pessoas da América Latina, por exemplo, que não obtiveram autorização e permanecem em situação irregular, poderão ser enviadas para um centro de retorno fora da UE", esclareceu.
Ameaças ao direito de asilo
Tão logo o Conselho da UE adote o Regulamento de Retorno aprovado pelo Parlamento Europeu, os países terão 12 meses para sua implementação completa. Este regulamento permite, entre outras coisas, detectar e prender imigrantes em situação irregular ou aqueles que tiveram seus pedidos de asilo rejeitados para, em seguida, enviá-los para centros de acolhimento fora da Europa por um período de até 30 meses, independentemente da idade.
Suécia deporta jovens imigrantes ao completarem 18 anos
05:06
"Embora as suas funções ainda não tenham sido especificadas, enquanto organização de direitos humanos, somos totalmente contra, sobretudo por uma razão fundamental: isso põe em risco o princípio da não devolução, que é um dos pilares básicos do direito do asilo", afirmou Mónica López.
Vale lembrar que o Regulamento de Retorno é o último pilar do chamado Pacto da UE sobre Migração e Asilo, que entrou em vigor em meados de junho e prevê a solidariedade entre os Estados-membros do bloco europeu, bem como o controle e o registro nas fronteiras.
A Comissão Europeia – o poder Executivo da UE – explicou à Comissão das Liberdades Cívicas, da Justiça e dos Assuntos Internos do Parlamento Europeu que se trata de ajudar os Estados-membros a gerir a migração irregular, combatendo-a também ao longo das rotas migratórias.
Externalização das fronteiras da UE
Também são objetivos declarados desta nova política migratória europeia reduzir a criminalidade e oferecer apoio nos pontos de partida. Países como Tunísia e Ruanda estariam entre os centros de retorno. "Na Mauritânia, estão sendo criados centros temporários de acolhimento de migrantes com financiamento da Espanha e da União Europeia", relatou a diretora-geral da Cear.
Paralelamente a esses "centros de retorno", a Comissão Europeia, com o auxílio do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), planeja criar centros multifuncionais, onde os migrantes poderão apresentar seus pedidos de entrada, ter suas qualificações avaliadas para determinar se possuem o perfil profissional necessário na UE e obter acesso a serviços e assistência.
Organizações da sociedade civil na Espanha há muito realizam campanhas pela regularização dos migrantesFoto: Jorge Gil/Europa Press/IMAGO
"Essa política da UE de externalização das fronteiras significa que esses centros estão sendo abertos em países que não são exatamente conhecidos pelo seu respeito aos direitos humanos", destacou Mónica López. "Estamos extremamente preocupados com a possibilidade de esses direitos serem violados e, certamente, com o não cumprimento das garantias necessárias para assegurar o direito de asilo", acrescentou.
Em relação à imigração latino-americana para a Europa, é crucial entender as rotas que as pessoas percorrem. "Chegam como turistas. Uma vez aqui, solicitam refúgio, seja por motivos políticos, por deslocamento causado por guerras, mudanças climáticas ou fome”, explicou à DW Antonia Ávalos, presidente da entidade espanhola Associação de Mulheres Sobreviventes. "Decorrido o prazo de três meses, se não houver resposta ao pedido de asilo, acabam permanecendo no país em situação irregular”, acrescentou.
Via Legais versus regularização
Vale lembrar que o Pacto Global para as Migrações – acordo internacional sob a égide da ONU – também inclui a promoção de vias legais para a migração. "Há anos que reivindicamos programas de migração circular e o estabelecimento de mecanismos para que as pessoas possam chegar à Europa legalmente, sem terem de arriscar as suas vidas no mar" e sem passarem anos escondidas na economia informal, continua Mónica López.
A relevância da regularização para a população latino-americana ficou evidente na Espanha, onde o processo extraordinário de regularização de imigrantes lançado pelo governo de Pedro Sánchez recebeu mais de um milhão de pedidos. Desses, 25,9% partiram de colombianos, 11,8% de venezuelanos, 8,8% de peruanos, 4,8% de hondurenhos, 3,8% de paraguaios e 2,3% de argentinos.
Não faltaram críticas ao processo de regularização iniciado pelo governo do primeiro-ministro socialista Pedro Sánchez na Espanha. Ainda assim, "foi um acerto para toda a sociedade, porque, embora tenha sido impulsionado pela sociedade civil, contou com o apoio do setor empresarial, dos sindicatos e da Igreja", resumiu Mónica López.
"São pessoas que já viviam na Espanha e, em muitos casos, trabalhavam na economia informal. Optar pela via legal significa simplesmente reconhecer uma realidade existente. Isso tem sido um grande alívio para essas pessoas", acrescentou a diretora-geral da Cear.
O muro que protege a Europa do leste do mundo
08:29
Em todo o caso, tanto o Pacto Internacional sobre Migração e Asilo como o Regulamento de Retorno começam a ganhar forma concreta. Segundo dados da Frontex, a agência de fronteiras da UE, as entradas irregulares diminuíram 40% no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Por outro lado, não estão previstos até o momento programas de regularização no âmbito europeu.
O que acontecerá às pessoas sem documentos nos 27 países da UE?
"Mais uma vez, elas serão marginalizadas. Mais de um milhão de pedidos foram submetidos [na Espanha], mas isso não significa que todos serão aprovados. Além disso, houve casos de pessoas que trabalham na agricultura ou de trabalhadores domésticos que não obtiveram autorização para apresentar a documentação, e outros que se confrontaram com o colapso dos consulados ao tentar solicitar documentos", continua Antonia Ávalos, cuja organização atua no sul da Espanha.
Por enquanto, segundo Antonia Ávalos, "os Centros de Detenção de Estrangeiros (CIEs) estão cheios de latino-americanos que não roubaram nem agrediram ninguém. São pessoas que simplesmente não têm status migratório regular". Na opinião dela, a Espanha poderia argumentar que já possui centros de retorno. Além disso, a presidente da Associação de Mulheres Sobreviventes aponta para o fato de que ainda não existem políticas de retorno humanitário.
O tráfico de pessoas pode estar mais perto do que se imagina, por trás de uma oferta de emprego na internet, de uma promessa de viagem dos sonhos ou de uma vida melhor. O número de brasileiros vítimas desse crime cresceu 33% no ano passado, segundo o Relatório Nacional sobre Tráfico de pessoas. A internet e ferramentas de inteligência artificial são cada vez mais utilizadas para aliciar as vítimas por meio de promessas que se transformam em graves violações de direitos humanos ao chegar no destino.
Para alertar sobre os sinais desse crime e mostrar como denunciar às autoridades, o Ministério Público Federal (MPF) vai publicar, durante todo o mês de julho, uma série de conteúdos informativos no site, redes sociais, rádio e televisão. A ideia é que a população, além de se proteger, ajude a prevenir e combater a prática.
A iniciativa é da Unidade Nacional de Enfrentamento do Tráfico Internacional de Pessoas e do Contrabando de Migrantes (UNTC) - ligada à Secretaria de Cooperação Internacional - e da Comunicação Social do MPF. Denúncias sobre a prática do crime podem ser feitas on-line, viaMPF Serviços, ou pelos telefones 100 e 180. No exterior também é possível procurar o consulado brasileiro.
Uma modalidade cada vez mais frequente do crime tem sido o aliciamento de jovens pela internet para trabalhar em países do Sudeste Asiático. No último ano, o Camboja foi o principal destino de brasileiros traficados no mundo.
Segundo a coordenadora da UNTC, Stella Scampini, ao chegarem no destino final, os jovens são obrigados a trabalhar em centros de golpes digitais (scam centres), com jornadas exaustivas de trabalho. Além disso, têm o passaporte apreendido pelos criminosos, adquirem dívidas de passagem, hospedagem e alimentação e são impedidos de deixar o local. “Temos identificado esse mesmo modelo de operação em países da América do Sul e da África. Por isso as pessoas precisam estar atentas a promessas muito atrativas na internet”, alerta a procuradora.
De acordo com ela, é preciso tomar alguns cuidados, desconfiar da oferta de altos salários, promessas de passagem e hospedagem além de facilidades para obter visto. O ideal é exigir detalhes sobre o contrato e o local de emprego, pesquisar informações sobre a empresa ou o agenciador, entrar em contato com outras pessoas que já foram para o destino, não assinar documentos sem tradução e não entregar passaporte ou documentos pessoais. Antes de partir, compartilhar contatos e o itinerário com os familiares também é importante.
Este ano, o MPF conseguiu que a Justiçaaumentasse para 23 anos de prisãoa pena aplicada a um homem condenado por aliciar, recrutar e levar 12 brasileiros para Myanmar, país do sudeste asiático, para serem explorados em esquemas de aplicação de golpes virtuais. Além disso, a UNTC apresentou à Justiça Federaldenúncia contra três brasileiros e um chinêspor aliciar e levar para o Camboja pelo menos 17 pessoas, que foram traficadas para aplicar golpes financeiros na internet contra outros brasileiros.
Outros tipos de exploração
Segundo Stella, há ainda muitos casos de mulheres e pessoas trans levadas a outros países para exploração sexual, além de estrangeiros trazidos ao Brasil para serem explorados em plantações ou fábricas clandestinas. Outro caso que tem chegado à UNTC são notícias do suposto aliciamento de pessoas para serem exploradas em países que estão em guerra.
Segundo os relatos, as ofertas são feitas pela internet, com promessa de altos salários em dólar para trabalhos na cozinha, em apoio às atividades de guerra, para pilotar drone, entre outros. No entanto, ao chegarem no destino as vítimas seriam direcionadas à linha de frente de combate, de acordo com denúncias levadas ao MPF. “São casos que estão sendo investigados no Brasil sob a ótica do tráfico internacional de pessoas. Outros países, como o Peru, têm feito alertas à população sobre esse tipo de prática”, explica a coordenadora da UNTC.
Tráfico de pessoas é crime
Previsto no art. 149-A do Código Penal, o tráfico de pessoas abrange oito tipos de prática: gerenciar, aliciar, recrutar, transportar, transferir, comprar, alojar ou acolher pessoa. Para configurar crime, a conduta deve ser praticada mediante grave ameaça, violência, coação, fraude ou abuso. A finalidade também pode variar entre : submeter a pessoa a qualquer tipo de servidão, trabalho similar ao escravo, exploração sexual, remoção de órgãos ou adoção ilegal.
A pena prevista em lei vai de quatro a oito anos de prisão, que pode ser aumentada de um terço até a metade caso a vítima seja levada a outro país.Cabe ao MPF investigar os casos e apresentar ação à Justiça pedindo a punição dos envolvidos.
Coração Azul
A ação de comunicação do MPF faz parte da Campanha Coração Azul. Criada pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) em 2009, a campanha é realizada anualmente em diversos países, incluindo o Brasil. O objetivo é conscientizar a sociedade sobre esse problema mundial, fortalecer a prevenção e o combate a esse crime, para garantir apoio às vítimas e evitar a impunidade.
Este mês, o MPF também participa dacampanha do Projeto Liberdade no Ar, em parceria com outras 16 instituições, que está sendo veiculada nos aeroportos brasileiros e em locais de grande circulação. As peças buscam alertar para as tentativas de aliciamento de crianças e adolescentes nas redes sociais. Esse grupo corresponde a um terço das vítimas de tráfico de pessoas no mundo, segundo o UNODC.
Pelo menos 106 migrantes morreram ou estão desaparecidos após uma embarcação que seguia da Gâmbia para a Espanha permanecer à deriva por 25 dias no Oceano Atlântico. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), o barco transportava 144 pessoas, entre elas mulheres e crianças. Apenas 38 sobreviveram.
A embarcação partiu da localidade de Bufalo, no interior da Gâmbia, com destino ao arquipélago espanhol das Ilhas Canárias. De acordo com o porta-voz do ACNUR, Matthew Saltmarsh, a embarcação apresentou problemas mecânicos poucos dias após o início da viagem, ficando sem propulsão e à mercê das correntes marítimas.
Embarcação ficou sem água e alimentos
Segundo relatos dos sobreviventes, o barco ficou sem combustível, sem sistema de localização por GPS e sem provisões de água e alimentos. Com o passar dos dias, os passageiros passaram a enfrentar desidratação, fome e exaustão, sendo obrigados a consumir água do mar para tentar sobreviver.
Os sobreviventes desembarcaram em 14 de julho, em Nouadhibou, na Mauritânia. As operações de busca realizadas pela Guarda Costeira entre os dias 14 e 18 de julho resgataram cerca de 390 pessoas em diferentes embarcações. As buscas pelos desaparecidos ligados a esse caso se estenderam por cinco dias, e dois sobreviventes morreram pouco depois de chegarem à terra firme.
“Não é um número pequeno, mas nossos pensamentos estão com aqueles que não conseguiram sobreviver”, afirmou Saltmarsh, ao lamentar mais uma tragédia nas rotas migratórias do Atlântico.
Uma das rotas migratórias mais perigosas
O ACNUR alerta que a rota entre a África Ocidental e as Ilhas Canárias continua sendo uma das mais letais do mundo para migrantes. Segundo o órgão, o elevado número de mortes está relacionado às longas distâncias percorridas, às condições imprevisíveis do oceano, ao uso de embarcações precárias e superlotadas e à dificuldade de realizar operações rápidas de resgate.
O tema também foi abordado recentemente pelo Papa Leão XIV durante sua viagem à Espanha e, posteriormente, a Lampedusa, ao recordar o drama enfrentado por pessoas que deixam seus países em razão de conflitos, da fome e das consequências das mudanças climáticas.
O ACNUR voltou a defender a criação de corredores humanitários seguros e destacou os desafios enfrentados pelas equipes de patrulhamento em uma área marítima de grandes dimensões.
Chegadas diminuem, mas tragédias continuam
O porto de Nouadhibou concentra atualmente a assistência aos sobreviventes que chegam à Mauritânia, embora enfrente limitações para atender a demanda. Os casos mais graves de desnutrição e desidratação foram encaminhados para hospitais da região. Desde o início de 2026, a Mauritânia registrou 17 desembarques entre Nouadhibou e a capital, Nouakchott, totalizando 2.147 pessoas resgatadas.
Apesar da redução no número de migrantes que chegam às Ilhas Canárias, o risco da travessia permanece elevado. Dados da ONU indicam que as chegadas por mar ao arquipélago caíram 61% em comparação com o mesmo período de 2025, somando cerca de 4.400 pessoas até 15 de julho deste ano. Em toda a Europa, as principais rotas marítimas registraram pouco mais de 40 mil chegadas, frente às 65.407 contabilizadas no primeiro semestre de 2025.
Distâncias maiores aumentam os riscos
Segundo o ACNUR, o reforço da fiscalização nas rotas tradicionais levou traficantes de pessoas a deslocarem os pontos de partida para áreas mais ao sul da África Ocidental, como o Senegal e regiões da Gâmbia.
Com isso, embarcações improvisadas e sem equipamentos de segurança são obrigadas a percorrer mais de 2 mil quilômetros em mar aberto. As longas distâncias, a ausência de comunicação e a dificuldade de acesso a operações de resgate aumentam significativamente o risco de naufrágios e mortes durante a travessia.