quinta-feira, 7 de maio de 2026

População migrante 60+ cresce entre os 2 milhões de refugiados no Brasil

 Mulheres da comunidade de refugiados indígenas Warao, da Venezuela

Por Alexandre Barreto

A população migrante com 60 anos ou mais apresentou o maior crescimento proporcional no Brasil entre 2023 e 2024, passando de 61.211 para 74.165 pessoas, alta de 21,2%. Os dados são 12º Relatório Anual do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra).

O avanço ocorre em um cenário em que o País já abriga mais de 2 milhões de imigrantes, refugiados e solicitantes de refúgio.

Leia também: Envelhecer longe de casa: os desafios de quem chega ao Brasil depois dos 50

Segundo o estudo, , publicado na última quinta-feira, o crescimento da população idosa entre migrantes acompanha a expansão geral dos registros no sistema de assistência social. O total de migrantes cadastrados no CadÚnico subiu de 562.687 em 2023 para 650.683 em 2024.

Entre todas as faixas etárias analisadas, os idosos lideraram o aumento proporcional, seguidos pela faixa de 50 a 59 anos, que cresceu 16,4% no mesmo período.

Ainda assim, o aumento mais acelerado entre os idosos indica uma mudança no perfil demográfico dessa população.

Entre crianças e adolescentes de 0 a 17 anos, o número de registros passou de 159.011 para 188.531, crescimento de 18,6% em um ano.

"Esse resultado evidencia a ampliação de famílias migrantes com crianças no sistema de assistência social e reforça a necessidade de articulação entre políticas de assistência social, educação e proteção à infância", destaca o relatório.

Predominância feminina chama atenção

Em 2024, as mulheres representavam 55,6% dos migrantes cadastrados. Esse perfil está associado à presença de famílias com filhos, o que amplia a demanda por serviços públicos voltados ao cuidado, à educação e à inclusão social, segundo o relatório.

O Brasil reúne atualmente pouco mais de 2 milhões de imigrantes internacionais de cerca de 200 nacionalidades. Entre os principais grupos estão venezuelanoshaitianoscubanos e angolanos.

A estimativa indica que cerca de 680 mil venezuelanos viviam no País no início de 2026, com maior presença de mulheres e crianças.

O estudo analisa que a distribuição etária evidencia a coexistência de diferentes perfis entre os migrantes. 

"O crescimento da população migrante mais envelhecida amplia a complexidade das demandas dirigidas ao poder público e reforça a necessidade de respostas intersetoriais no âmbito das políticas públicas", afirma o documento.

O relatório também destaca o crescimento da presença de migrantes no mercado de trabalho formal. Entre 2023 e 2025, o número de vínculos formais aumentou 54%, superando 414,97 mil trabalhadores com carteira assinada.

Ainda assim, parte dessa população enfrenta dificuldades de inserção em ocupações compatíveis com sua formação, o que impacta renda e condições de vida.

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Recomendações do estudo

Na área social, o estudo recomenda reduzir o tempo de acesso a benefícios e aprimorar a gestão dos programas públicos. Também sugere ampliar políticas de acolhimento e interiorização, com foco na inclusão produtiva e na redução de desigualdades regionais.

O avanço da população idosa entre migrantes reforça a necessidade de políticas específicas para esse grupo, com foco em acesso à saúde, proteção social e garantia de direitos.

Além disso, o documento aponta a necessidade de fortalecer a articulação entre União, Estados e municípios para garantir atendimento adequado à população migrante.

“A consolidação da política migratória nacional, especialmente no eixo da integração, depende do fortalecimento do pacto federativo, da governança local, da institucionalização das respostas municipais e da construção de mecanismos que garantam sustentabilidade, equidade territorial e efetividade no acesso a direitos para migrantes e refugiados no Brasil”, pontua o relatório.

A proposta do relatório anual é analisar a evolução dos fluxos migratórios no País e subsidiar a implementação da Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia (PNMRA), editada no fim de 2025 e substituiu a Lei de Migração de 2017.

https://viva.com.br/

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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Mães refugiadas apostam no empreendedorismo como caminho de inclusão econômica no Brasil, aponta pesquisa

 Estudo com pessoas refugiadas e migrantes empreendedoras revela protagonismo das mulheres e alta demanda por crédito e capacitação

Proprietária do restaurante Fusão de Sabores, Ana Joselyn é mãe e encontrou no empreendedorismo a possibilidade de conciliar a geração de renda e os cuidados com a família


Ana Joselyn é a empreendedora à frente do Fusões de Sabores, restaurante que mistura temperos da culinária venezuelana e brasileira ou de sua terra natal e do país que a acolheu. O espaço fica no Mercado de Origem da Amazônia, localizado em Manaus, onde mora atualmente.

“Sonhei que meu negócio fosse mundial e nesse mercado este sonho está se realizando por meio dos turistas que vem do mundo todo aqui”, comemora a venezuelana.

O empreendedorismo tem se consolidado como uma das principais estratégias de inclusão socioeconômica de pessoas refugiadas e migrantes no Brasil, especialmente entre as mulheres. É o que revela a pesquisa realizada com integrantes da Plataforma Refugiados Empreendedores, iniciativa da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e Pacto Global da ONU - Rede Brasil. Cerca de 95% das pessoas entrevistadas residem no Brasil há mais de três anos, o que reforça o empreendedorismo como alternativa sólida para geração de renda, autonomia e estabilidade de pessoas refugiadas no país.

A Plataforma Refugiados Empreendedores foi lançada em fevereiro de 2021 e reúne quase 200 empreendimentos de pessoas refugiadas no Brasil.

O estudo realizado pela Innovare Pesquisa, subsidiado pelo ACNUR, ouviu 89 pessoas em diferentes regiões do país entre os meses de janeiro e fevereiro de 2026. A maioria dos negócios são de latino-americanos (82%), seguidos por pessoas do Oriente Médio e África, que somam 18%. São das áreas de gastronomia, artesanato, design e moda e seguem sendo de pequeno porte, predominantemente microempreendedores individuais (56%).

Elas comandam lares e negócios

Os dados mostram que, em 2026, o perfil das pessoas refugiadas que empreendem é majoritariamente feminino (71%). A idade média das empreendedoras é de 40 anos, indicando mulheres com mais experiência e com maior tempo de inclusão no país.

Quando analisadas as composições familiares, a predominância continua sendo de casais com filhos mas, nesta edição da pesquisa, o número de mães solo empreendedoras sobressaiu em relação à pesquisa anterior, realizada em 2023.

“O crescimento da participação de mães solo evidencia que o empreendedorismo não é apenas uma escolha econômica, mas uma estratégia para estas mulheres conciliarem a geração de renda, gestão da família e cuidados do lar. Apesar das inúmeras barreiras, tem sido a forma encontrada por elas para conquistarem autonomia financeira e estabilidade aqui no Brasil. O ACNUR busca, por meio de suas parcerias, oferecer suporte para que elas possam se capacitar, formalizar seus negócios e até mesmo conseguirem facilidades de crédito”, destaca Paulo Sérgio de Almeida, Oficial de Inclusão Econômica do ACNUR no Brasil.

Ana Joselyn veio da Venezuela para o Brasil com o filho caçula em 2019. Desde então, participou de várias formações. Ela destaca o projeto de capacitação Mulheres Fortes, iniciativa da associação Hermanitos, Ministério Público do Trabalho (MPT-AM/RR) e ACNUR. Recebeu capital semente, foi aprimorando técnicas e adaptando o modelo de negócio. Ela comenta que os vínculos construídos nessas oportunidades a fazem sentir mais confiante.

“Nos deram visibilidade pública e conseguimos ser enxergadas por organizações e empresas que realizam eventos e divulgaram nossas redes sociais”, comenta a proprietária do Fusões de Sabores.

Ana Joselyn conta que precisou adaptar o modelo de negócios várias vezes. A mudança mais recente foi para se adaptar ao prédio histórico de Manaus onde instalou seu restaurante

Quase 90% dos entrevistados afirmam precisar de capacitação, com foco prioritário em marketing e vendas, áreas consideradas estratégicas para ampliar clientela e faturamento. A captação de clientes apareceu como segunda dificuldade mais citada na pesquisa. Neste sentido, a plataforma Refugiados Empreendedores foi apontada como ferramenta importante para divulgação dos trabalhos: 35% afirmaram ter feito vendas por conta da plataforma.

venezuelana Gema Soto é proprietária do empreendimento gastronômico Chévere, em São Paulo. Foi o negócio próprio que deu fôlego para o sustento dos três filhos. Ela comenta que a ferramenta é um suporte que vai além de divulgar os trabalhos.

“A plataforma foi um divisor de águas. Uma das maiores dores que temos, além do fato de ficarmos perdidos, vem das condições em que chegamos no país. Não temos o sentimento de pertencimento. E aqui a gente se sente parte, acolhido, importante e visibilizado. Sabemos que tem alguém atento aos nossos trabalhos. Temos a certeza de que temos profissionais para nos ajudar a superar”.

Para Gema foi um desafio se entender como empreendedora. “Eu passei fome e agora formo cozinheiros”.

Para Gabriela Rozman, gerente de Direitos Humanos e Trabalho do Pacto Global da ONU - Rede Brasil, a plataforma é um meio importante para apoiar essas pessoas a reconstruir suas vidas no Brasil, especialmente mulheres que encontram no empreendedorismo uma forma de retomar autonomia e autoestima. “Nosso objetivo é seguir apoiando essas empreendedoras com capacitações, treinamentos e mentorias", afirma.

Além das inúmeras formações feitas para consolidar seu negócio, Gema aprendeu também sobre sustentabilidade, aproveitamento de alimentos e agricultura familiar. Práticas sustentáveis foi um dos temas da pesquisa e, apesar do desconhecimento conceitual, 75% dos negócios já realizam a separação de resíduos recicláveis e 73% utilizam equipamentos de LED para economia de energia.

Crescimento dos negócios e a geração de empregos

Mais de 47% dos empreendedores entrevistados relataram que a principal dificuldade inicial foi a falta de recursos financeiros ou capital para investimento. O acesso a crédito aparece de forma consistente como gargalo para o crescimento dos negócios.

Atento à demanda de crédito, o ACNUR fez acordos com o Banco Pérola, parceiro da plataforma Refugiados Empreendedores, e o Crédito Solidário – Microfinanças (antes conhecido como Banco do Povo), instituições financeiras que passaram a oferecer linhas de microcrédito especiais para atender pessoas refugiadas e migrantes que queiram ampliar seus negócios no Brasil.

“Sem crédito é praticamente impossível alavancar um negócio, qualquer que seja o tamanho. E essas pessoas têm ainda menos condições de conseguir um empréstimo no mercado do que empreendedores brasileiros mais vulneráveis. Por mais que haja força de trabalho, demanda, capacidade empreendedora, existem questões muito práticas sem as quais um empreendimento simplesmente não existe, como capital de giro, recurso para comprar produtos ou para investir em uma infraestrutura mínima”, afirma a diretora Financeira e Administrativa do Banco Pérola, Andrea Federmann.

Ampliar os negócios, por vezes, se relaciona à contratação de pessoas. Apesar da maioria dos negócios não possuir funcionários, muitos que já contratam optam por pessoas da mesma nacionalidade, embora haja também brasileiros contratados.

Esta é a segunda edição da pesquisa realizada pela Innovare com negócios da Plataforma Refugiados Empreendedores. A primeira edição foi em 2023 e os principais dados estão disponíveis aqui.


https://www.acnur.org/br

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terça-feira, 5 de maio de 2026

STF aprova repasse de R$ 115 milhões a Roraima devido migração venezuelana

 


O Supremo Tribunal Federal (STF) homologou um acordo entre a União e o governo de Roraima que garante o repasse de R$ 115 milhões ao estado. O valor será destinado a compensar os gastos com o atendimento a migrantes venezuelanos.

A decisão foi assinada pelo ministro Luiz Fux em 28 de abril, no âmbito de uma Ação Cível Originária (ACO) que tramitava desde 2018. Com a homologação, o processo foi encerrado.

O Supremo Tribunal Federal (STF) homologou um acordo entre a União e o governo de Roraima que garante o repasse de R$ 115 milhões ao estado. O valor será destinado a compensar os gastos com o atendimento a migrantes venezuelanos.

A decisão foi assinada pelo ministro Luiz Fux em 28 de abril, no âmbito de uma Ação Cível Originária (ACO) que tramitava desde 2018. Com a homologação, o processo foi encerrado.

Roraima é a principal porta de entrada de venezuelanos no Brasil, por meio do município de Pacaraima. Desde 2015, o estado concentra grande parte dos migrantes que deixam o país vizinho devido à crise política, econômica e social.

Os recursos serão aplicados nas seguintes áreas:

Segurança pública: R$ 63 milhões

Saúde: R$ 36 milhões

Educação: R$ 10 milhões

Sistema prisional: R$ 6 milhões

O repasse será feito diretamente ao estado, em contas específicas para cada área. O acordo também prevê o compartilhamento de informações com órgãos de controle, como CGU, TCU, TCE-RR e Ministérios Públicos, para garantir transparência na aplicação dos recursos.

https://ac24horas.com/

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segunda-feira, 4 de maio de 2026

Mais de 78 milhões de pessoas são imigrantes na América Latina


Por Teresa Canto Noronha

As Nações Unidas dizem que a imig ração na América Latina está a crescer cada vez mais. E que mais de 78 milhões de migrantes internacionais vivem naquela região. A pobreza, os desastres naturais e a violência são os principais fatores que levam as pessoas a migrarem.

Os padrões de migração estão a mudar e as Nações Unidas dizem que na América Latina a situação é cada vez mais complexa e difícil de prever. A violência ligada ao crime organizado, a pobreza e os desastres naturais em consequência das alterações climáticas estão a redefinir a forma como as pessoas se movimentam no sul e centro do continente americano.

A ONU diz que as caravanas já não seguem os padrões tradicionais e que a pressão exercida pelas autoridades nas várias fronteiras, desde o sul até aos Estados Unidos, está a obrigar os migrantes a procurarem novas rotas.

Muitos arriscam a vida

Em muitos casos, essas novas rotas são mais perigosas e dependem quase exclusivamente das redes de tráfico humano, que exploram e roubam os mais vulneráveis.
Os dados mais recentes dizem que há mais de 78 milhões de migrantes internacionais a viverem na América Latina.
Muitos sonham chegar ao norte e passar a fronteira para os Estados Unidos, mas a maior parte nunca vai completar esse caminho e acaba por ficar no México, Brasil, Peru, Chile e Colômbia.


https://sicnoticias.pt/

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sábado, 2 de maio de 2026

Estudo de DNA revela migração desconhecida para a América do Sul há 1.300 anos

 


Um novo estudo genético identificou uma migração humana até então desconhecida para a América do Sul. A descoberta muda a compreensão sobre a formação dos povos indígenas do continente.

A pesquisa analisou quase 200 genomas indígenas, incluindo 128 novos genomas de populações da Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, México, Paraguai e Peru. O trabalho envolveu 45 populações e 28 famílias linguísticas.

O resultado mostra que a ocupação da América do Sul foi mais complexa do que se pensava.

Até agora, os modelos principais apontavam duas grandes camadas genéticas antigas. O novo estudo indica uma terceira dispersão, ocorrida há pelo menos 1.300 anos, por volta de 720 d.C.

Essa migração teria vindo de grupos relacionados à Mesoamérica.

Os dados sugerem um fluxo genético gradual entre Mesoamérica, Caribe e América do Sul, e não um evento isolado. Isso coincide com um período de reorganização de sociedades antigas na região, incluindo o declínio de cidades como Teotihuacan entre os séculos VII e VIII.

Até agora, os modelos principais apontavam duas grandes camadas genéticas antigas. O novo estudo indica uma terceira dispersão, ocorrida há pelo menos 1.300 anos, por volta de 720 d.C.

Essa migração teria vindo de grupos relacionados à Mesoamérica.

Os dados sugerem um fluxo genético gradual entre Mesoamérica, Caribe e América do Sul, e não um evento isolado. Isso coincide com um período de reorganização de sociedades antigas na região, incluindo o declínio de cidades como Teotihuacan entre os séculos VII e VIII.

A pesquisa foi publicada na revista Nature, uma das mais importantes publicações científicas do mundo. O estudo faz parte do Indigenous American Genomic Diversity Project, voltado a ampliar o conhecimento genético sobre populações indígenas das Américas.

Outro achado chamou atenção.

Os cientistas identificaram sinais de uma linhagem asiática antiga, chamada Ypykuéra, palavra de origem tupi que significa “ancestral”. Essa linhagem aparece em baixos níveis, mas de forma consistente, em povos indígenas há mais de 10 mil anos

O dado ajuda a explicar conexões genéticas antigas entre populações indígenas americanas e grupos da Australásia, região que inclui povos originários da Austrália, Nova Zelândia e ilhas do Pacífico.

Isso não significa uma migração direta recente da Oceania para a América do Sul.

O que os pesquisadores indicam é a existência de uma população ancestral ainda não identificada, que contribuiu geneticamente para diferentes grupos humanos antes ou durante as primeiras fases de povoamento das Américas.

O estudo também encontrou genes associados à adaptação ambiental.

Algumas variações estão ligadas a metabolismo, fertilidade, imunidade e resistência a doenças como malária. Esses traços ajudaram populações a se adaptar a ambientes como Andes e Amazônia.

Para o Brasil, a descoberta tem peso direto.

O país aparece no estudo por meio de populações indígenas analisadas e pela própria denominação tupi da linhagem Ypykuéra. Isso reforça a centralidade da Amazônia e dos povos originários brasileiros na história genética do continente.

A pesquisa também corrige uma lacuna histórica.

Até recentemente, poucos grupos indígenas amazônicos haviam sido geneticamente estudados, o que deixava a região sub-representada na ciência global.

No plano científico, o impacto é profundo.

A América do Sul deixa de aparecer como ponto final de uma única grande migração humana e passa a ser vista como território de circulação, mistura e adaptação contínua.

No plano político e cultural, o estudo reforça a importância dos povos indígenas como guardiões de uma história que antecede em milênios a formação dos Estados nacionais.

O dado central é esse.

A formação genética da América do Sul não foi simples, nem linear.

Foi resultado de ondas migratórias, conexões antigas e adaptações locais que ainda estão registradas no DNA dos povos originários.

Com informações da South China Morning Post

https://www.ocafezinho.com/

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sexta-feira, 1 de maio de 2026

Relatório do OBMigra aponta 2 milhões de migrantes no Brasil e destaca desafios de integração


 

Autoridades reunidas durante a apresentação do relatório. Foto: Isaac Amorim/MJSP

O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) apresentou, nesta quinta-feira (30), no Palácio da Justiça, o 12º Relatório Anual do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), referente a 2025. O documento reúne dados sobre a mobilidade humana no Brasil e marca a retomada do protagonismo do País nas discussões globais sobre o tema. 

O relatório foi elaborado com a participação de seis ministérios: Relações Exteriores (MRE), Desenvolvimento Social (MDS), Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), Trabalho, Saúde e Educação. Também contribuíram instituições de pesquisa, como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a Universidade de Brasília (UnB). 

"Este é um momento em que o Brasil reúne dados e capacidade operacional para demonstrar que é possível promover uma migração responsável, acolhedora e geradora de benefícios sociais e produtivos", afirmou a secretária nacional de Justiça, Maria Rosa Loula. 

Panorama da migração no Brasil 

Intitulado Política Migratória no Brasil: Evidências para Gestão de Fluxos e Políticas Setoriais, o material apresenta análise sobre a implementação da Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia (PNMRA), com foco no apoio à formulação de ações voltadas à população migrante. 

O Brasil abriga atualmente cerca de 2 milhões de migrantes, de aproximadamente 200 nacionalidades. Desse total, cerca de 414 mil estão empregados formalmente no país.  

Outro dado relevante aponta a região Sul como principal destino para trabalho formal, concentrando 56,2% dos migrantes empregados, sobretudo no setor agroindustrial, além de se destacar na oferta de capacitação profissional. O Paraná (PR) é o estado com maior atuação na revalidação de diplomas. 

As cidades de São Paulo (SP) e Campo Grande (MS) se destacam na presença de abrigos, conselhos e ações de capacitação da população migrante e refugiada.  

 "A política migratória precisa ser compreendida como vetor de trabalho, desenvolvimento e proteção social. Trata-se de pessoas que buscam oportunidades, dignidade e melhores condições de vida para si e suas famílias", afirmou o ministro do Trabalho, Luiz Marinho. 

Entre os principais desafios enfrentados estão a falta de estruturas institucionais e as barreiras linguísticas. Menos de 5% dos municípios brasileiros possuem acordos formais de atendimento, e apenas 1,4% oferecem serviços em outros idiomas, o que limita o acesso a direitos básicos. 

A demanda por políticas educacionais também cresce. Entre 2010 e 2024, houve aumento de 437% nas matrículas de estudantes migrantes na educação básica, sendo 62,4% concentradas no ensino fundamental. 

"A política nacional brasileira já se consolida como referência regional e global, especialmente ao promover estratégias de integração com acesso ao trabalho. A inclusão, quando orientada por evidências, beneficia toda a sociedade", ressaltou o representante da ACNUR no Brasil, Davide Torzilli. 

A programação incluiu duas mesas de debate, conduzidas pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e pela Organização Internacional para as Migrações (OIM), que discutiram o papel do Brasil na agenda migratória e o fortalecimento da cooperação internacional. 

Participaram ainda a oficial nacional de programas da OIM no Brasil, Socorro Tabosa; a secretária de Comunidades Brasileiras e Assuntos Consulares e Jurídicos do MRE, embaixadora Márcia Loureiro; a secretária-executiva adjunta do MDHC, Isadora Lacava; e o secretário-executivo adjunto do MEC, Ângelo Vinícius Roda, além de representantes da Universidade de Brasília (UnB) e do OBMigra. 

Brasil retoma agenda internacional sobre migração 

A divulgação do relatório antecede a participação do Brasil no Fórum Internacional de Revisão das Migrações (IMRF), que será realizado de 5 a 8 de maio, em Nova Iorque (EUA), no âmbito do Pacto Global para a Migração Segura, Ordenada e Regular. 

Após o retorno do país ao Pacto Global, em 2023, a delegação brasileira apresentará, pela primeira vez, avanços em governança migratória e compartilhará boas práticas de acolhimento. 

https://www.gov.br/mj/pt-br

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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Nas rotas da migração: venezuelanos no Brasil e latinos indocumentados nos Estados Unidos

 

Foto wikipedea 

 Por Josué Carlos Souza dos Santos, doutorando na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP, Gilvete de Lima Gabriel, professora da Universidade Federal de Roraima, e Rebecca Tarlau, professora da Stanford University

A possibilidade de realizar uma pesquisa com um tema que ganha novos acontecimentos simultâneos a todas as fases de seu desenvolvimento, de pré-projeto à tese feita, é um grande desafio. O ano de minha entrada no programa de pós-graduação em educação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP foi em 2022, um momento com duplo desafio a respeito da migração de venezuelanos ao Brasil: os acontecimentos sócio-históricos desde o aumento do fluxo de refugiados e migrantes venezuelanos na fronteira Brasil-Venezuela que se localiza no estado de Roraima, no ano de 2016 (e os períodos pré e pós esse ano e seus desdobramentos), e os acontecimentos concomitantemente à escrita de minha tese doutoral, de 2022 até o presente momento.

Ciente de que muitos autores nas ciências humanas e sociais analisam assuntos relacionados à migração, como o que é um refugiado e migrante, além de apontarem questões mais específicas sobre os dispositivos legais de amparo e acolhida à essas pessoas e até mesmo nos achados presentes nas convenções internacionais, optamos – eu e minhas orientadoras – abordar a migração subjecti parte subjecti (“sujeito pelo sujeito”), tomando como problemática o seguinte questionamento: O que significa aos venezuelanos ser um migrante e/ou refugiado no Brasil?

No coração dos estudos decoloniais – ou, ouso dizer, contracoloniais – a subjetividade se localiza no centro, ao contrário das abordagens positivas que viam a pesquisa como neutra e os sujeitos como meros indivíduos percentuais. Na abordagem fenomenológica que escolhemos, os sujeitos são participantes e suas histórias de vida, suas narrativas autobiográficas e também suas opiniões, são ciência viva, dinâmicas, móveis e constituem conhecimento. Ademais, as hipóteses descartadas, os itinerários trocados, os “achados marginais” que aparecem nas bordas e até mesmo as mudanças de planos também são pesquisa, são metodologias da experiência e mostram um conjunto de fenômenos que buscam não necessariamente respostas prontas, mas compreensão, análise, problematização e investigação. Abrem-se, portanto, à outras perguntas, e com elas possibilidades e continuidades narrativas.

Com isso em mente, no ano de 2025 realizei a pesquisa de campo em um grande abrigo humanitário na cidade de Boa Vista, capital de Roraima. O Rondon 1 é considerado o maior abrigo humanitário da América Latina e no período da coleta de dados estava em sua capacidade máxima de lotação: 2.300 pessoas. Aliando os estudos de/com narrativas autobiográficas (dos participantes) e etnografia (do pesquisador), realizei conversas em grupos-reflexivos e desenvolvi questões norteadores e complementares que ajudaram a mediar esses encontros, sempre tomando como referência o objetivo da investigação.

Se distanciando de um protocolo formal de entrevistas onde o pesquisador pergunta e o pesquisado responde, essas questões norteadoras permitiam ir e voltar de caminhos epistemológicos relacionais ao fenômeno de sua migração e que surgiam a partir de suas próprias vivências, tal qual a pedagogia social de Paulo Freire onde o sujeito também compartilha conhecimento a partir de sua vida e contexto e ajudando assim a construir em conjunto as metodologias de seu aprendizado. Esses desdobramentos foram: trajetórias educacionais, opiniões políticas, migração a outros países tendo o Brasil como segunda opção (como aos Estados Unidos), questões de gênero e suas especificidades, entre outras. A primeira questão norteadora foi: “Quais experiências marcaram a minha vida na Venezuela e no Brasil?”. A segunda questão foi: “O que essas experiências fizeram comigo?” e a terceira questão foi: “O que faço agora com o que isso me fez?”.

Diante dos resultados coletados nessa investigação, sistematizei as várias narrativas dos migrantes venezuelanos em 8 (oito) eixos que ajudam a cumprir o objetivo da pesquisa. Esses eixos são: eixo 1 – da abundância à escassez; eixo 2 – migração, trajetórias, viagens; eixo 3 – formação performativa: aprendizados e experiências; eixo 4 – ser migrante e mãe solo no Brasil; eixo 5 – ser homem, trabalhador e com profissão; eixo 6 – nós, migrantes; eixo 7 – sigo adiante; e eixo 8 – narradores. Com base nesses eixos e na etnografia que constituí a partir de minhas vivências com eles no abrigo, sistematizo nos parágrafos seguintes os resultados da pesquisa.

As vidas dos venezuelanos são constituídas em um espaço-tempo que transcende o geográfico. Estando no Brasil, mas com raízes da/na Venezuela que os faz retornar à sua nação (fisicamente, pois muitos vão e voltam por diferentes motivos, ou simbolicamente), sua existência em Roraima, no Brasil, se localiza em um entrelugar, como aponta o pesquisador Homi Bhabha, onde a cultura é produzida no ‘entre’ duas ou mais culturas outras. Um encontro e choque que resulta em uma nova cultura, viva, pulsante, móvel, fluida, que percorre caminhos simultâneos a outros processos simbólicos, estruturais e temporários de construções e desconstruções que possibilitam reconhecimentos.

Nesse contexto, a migração é categoria social. Seus movimentos migratórios podem ser definidos como transmovimento migratório híbrido, composto, complexo e contínuo, que não termina quando cruzam uma fronteira internacional, quando adentram noutra nação, e até mesmo quando chegam no abrigo, mas continuam se perpetuando nos entrelugares da migração e além dela, nas diversas nuances que compõem seu cotidiano, quando fazem suas escolhas com base na cultura de origem e na cultura de acolhida (culturas híbridas), quando significam seus acontecimentos, quando vão e voltam da Venezuela ao Brasil (e vice versa, evidenciando uma migração transnacional).

A presença do migrante venezuelano se anuncia no espaço público, nas ruas, nas escolas, nos centros e nas periferias através de seu status migratório (refugiados ou residentes temporários), de sua autodeterminação, para além dos documentos obtidos (seja como residente temporário ou como refugiado), do idioma adquirido e suas variantes – como por exemplo o portunhol – variante linguística legitimada por seus falantes-hablantes que surge do encontro do português do Brasil com o Espanhol da Venezuela – e através das marcas de sua migração percebidas em seus olhares, suas falas e seus gestos, um atrelamento à uma imagem de alguém que rasga os riscos e as margens fragilizadas da adaptação indócil de existência, buscando um lugar de pertença na sociedade de acolhida, e por consequência, no mundo.

Se movimentando nos movimentos dos venezuelanos e naqueles que a pesquisa me permitia fazer, e sobretudo atento ao que dizia os venezuelanos e venezuelanas em suas narrativas que os EUA são uma rota de migração comum entre os outros migrantes (e até mesmo prioritária, levando o Brasil a ser a segunda ou até mesmo terceira opção de rota migratória), tive a oportunidade de realizar o doutorado sanduíche no estado norte americano da Califórnia, especificamente na Universidade de Stanford, logo após a imersão de campo no Brasil.

Naquela pesquisa, busquei compreender o acolhimento de imigrantes latinos no contexto norte americano, sobretudo considerando as complexas e controversas manobras do governo federal vigente naquele país, tensionando e questionando as narrativas necropolíticas que surgem de uma agenda extremista com valores que verticalizam os direitos humanos à margem da sociedade. O termo ‘indocumentados’ é amplamente utilizado em substituição ao termo ‘ilegal’, pois, conforme ouvi muitas vezes no campo, ‘No one is illegal on stolen land’. Refere-se às pessoas em processo de regularização de seu status documental no país.

Nos EUA, escolhemos abordar o tema sob o ponto de vista das estratégias político-educacionais para a integração local de imigrantes latinos na Califórnia tomando como base minha inserção como Educador de Cidadania voluntário em um centro de imigração, o Immigration Institute of Bay Area (IIBA), contribuindo dessa forma com outro objetivo da educação conforme a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) no Brasil: a extensão universitária, quando saímos dos muros institucionais das Universidades e adentramos a sociedade com contribuições significativas – uma extensão de nossas vivências educacionais e pedagógicas. Os objetivos da educação brasileira, conforme a LDB, são: ensino, pesquisa e extensão e possuem a intencionalidade de promover formação crítica, produção de conhecimento e impacto social.

Dessa forma, entendemos que as vivências dos imigrantes latinos – que também são conhecidos/as como comunidade Latinx – são fortalecidas e experenciadas por alguns fatores. Primeiro, a influência de seus grupos-referência como fundamentais na inserção local na comunidade de acolhida. A Dra. Gilvete Gabriel, em um estudo anterior, sistematizou os grupos-referência como aqueles que visam estruturar a maneira de ser, de pensar e de agir da pessoa desde a sua mais tenra idade, e constituem, de fato, referências, quando ela está confrontada com um problema na sua vida.

Os grupos-referência dos imigrantes latinos indocumentados na Califórnia são: a família, o grupo instituído nas classes de cidadania no IIBA, as amizades com outros imigrantes, o grupo-religioso (considerando que muitos frequentam espaços religiosos como templos e igrejas), e os grupos institucionais formados nos projetos que fazem parte. Todos esses grupos se continuem redes de apoio de compartilhamento de informações úteis de sobrevivência, como oportunidades, vagas de trabalho, distribuições grátis de comida e itens não alimentares e outras comunicações.

Segundo, a língua é um mecanismo de adaptação em uma nova cultura (o aprendizado do inglês) e ao mesmo tempo representa a sobrevivência de outros elementos culturais anteriormente praticados (o espanhol). A junção das duas línguas identificadas na pesquisa de campo, convertidas no Spanglish, se torna ao mesmo tempo uma variante linguística e um dialeto popular – semelhante ao Portunhol, no Brasil -, uma nova linguagem que representa resistência, adaptação e sobrevivência.

Terceiro, percebemos que a educação como prática de liberdade implica articular o campo educacional às lutas sociais mais amplas. Estratégias político-educacionais para a integração local de imigrantes latinos devem contribuir para a construção de uma cidadania, mesmo em contextos de status migratório ainda sob avaliação (no caso dos indocumentados), ao fomentar a consciência crítica sobre direitos/reformas trabalhistas, acesso a serviços públicos, saúde, moradia e participação política local (entre outras).

Retornando ao Brasil e inspirado por tantas vivências, pelos achados da pesquisa e pelo calor latino dos migrantes e imigrantes tanto na fronteira brasileira com a Venezuela, no seio da Amazônia, quanto no frio intenso da Califórnia, muitas são as considerações nesses estudos e que apontam (in)conclusões, onde a pesquisa tem um fim e ao mesmo tempo nunca termina.

Bagunceira das epistemologias constituídas, essa pesquisa nos permitiu observar como se constitui o dia a dia de migrantes e refugiados venezuelanos em um abrigo humanitário no Brasil e ensinar-aprender com imigrantes latinos em um centro de imigração californiano. Mas, além disso, ser um imigrante em suas migrações, alguém de passagem, em movimento alteritário, dialógico, que transita entre fronteiras físicas e não-físicas, simbólicas, descobrindo, coletando dados e os interpretando dentro das limitações de um determinado espaço-tempo sócio-histórico, e de nossas próprias limitações. Essas vivências se converteram em experiências, e essas provocaram essas considerações.

(Com um agradecimento especial à Dra Gabriel, que me orienta no doutorado no Brasil e à Dra. Tarlau, que me orientou no doutorado sanduíche na Califórnia – e que são co-autoras nessa escrita —, à Capes pela bolsa no Brasil e ao Centro Lemann/Stanford University pela bolsa no doutorado sanduíche nos Estados Unidos. A pesquisa no Brasil teve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da FFCLRP-USP em 8 de dezembro de 2024 sob o parecer nº 7.275.352 e CAAE nº 82766724.9.0000.5407. A pesquisa nos Estados Unidos teve aprovação do Centro Lemann, da Stanford Graduate School of Education e do Immigration Institute of Bay Area.)

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