quarta-feira, 22 de abril de 2026

Cobertura de migrações ainda enfrenta desafios éticos, apontam especialistas

 Evento, em parceria com ACNUR, reuniu estudantes do PPGCOM e dos cursos de Jornalismo e de Relações Internacionais, para discutir os impactos da desinformação e do discurso de ódio na cobertura sobre migrações e refúgio em Roraima.

Miguel Pachioni, Oficial de Comunicação do ACNUR ministrou a palestra. Foto: Mariana Elmore.

A cobertura jornalística sobre migrações e refúgio ainda enfrenta desafios éticos, especialmente diante do avanço da desinformação e do discurso de ódio. O tema foi debatido durante uma formação em jornalismo humanitário promovida pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), agência da ONU para refugiados, na Universidade Federal de Roraima, que reuniu estudantes e profissionais da comunicação e de Relações Internacionais.

Durante a palestra, o Oficial de Comunicação do ACNUR, Miguel Pachioni, destacou como conteúdos desinformativos são construídos e disseminados, muitas vezes associando temas distintos para gerar interpretações equivocadas. Segundo ele, a ligação entre migrações e problemas sociais, como saúde pública ou criminalidade, pode ser resultado de manipulações narrativas.

Há uma associação muito clara de uma questão de saúde pública com o deslocamento de pessoas que buscam proteção internacional”, afirmou. O palestrante também alertou para o uso de manchetes, gráficos e vídeos fora de contexto, que contribuem para reforçar percepções distorcidas.

A formação foi uma parceria entre o ACNUR, os Cursos de Jornalismo e de Relações Internacionais, o Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM), o Projeto de Extensão Somos Migrantes e a Cátedra Sérgio Vieira de Mello.

Foto: Mariana Elmore

Cobertura migratória em Roraima

A discussão ganha relevância em Roraima, estado que concentra grande fluxo migratório, especialmente de venezuelanos, e onde o tema está presente no cotidiano da população e da imprensa local. Para a jornalista Adriele Lima, também mestranda no PPGCOM com pesquisa sobre migrações e plataformas digitais, um dos principais desafios enfrentados pelos profissionais da área é justamente lidar com a presença de discursos preconceituosos.  “A xenofobia ainda é muito enraizada. É difícil produzir conteúdo que vá contra esses discursos, mas é necessário”, afirmou.

A cobertura precisa ser feita com responsabilidade para evitar a reprodução de estigmas, ainda diz Adriele. “É importante mostrar que a migração não corresponde a esses discursos construídos e trabalhar com informações que retratem a realidade.”

Foto: Mariana Elmore

A formação também contou com a participação de estudantes de Relações Internacionais, que trouxeram uma perspectiva mais ampla sobre o fenômeno migratório. Para o acadêmico Lucas Gadelha, a atuação na área humanitária exige sensibilidade e preparo diante das situações de vulnerabilidade.

A área humanitária é muito desafiadora e está muito presente aqui no estado. A gente convive com essas realidades e precisa lidar com elas de forma responsável. É uma área muito sensível. Ao mesmo tempo que é gratificante, também é preocupante e exige cuidado.” – Lucas Gadelha, graduando em Relações Internacionais.

Foto: Mariana Elmore

A programação incluiu ainda a abertura de uma exposição sobre migrações globais, que permanece exposta no hall do Bloco I – Centro de Comunicação, Letras e Artes da UFRR ao longo do mês de abril. A entrada é gratuita e a visita pode ser realizada das 8h às 21h em dias úteis.

Por Mariana Elmore

Acadêmica do Curso de Jornalismo

https://ufrr.br/ppgcom

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sábado, 18 de abril de 2026

Voo com 146 imigrantes haitianos pousa no Aeroporto de BH nesta sexta-feira

 


Haitianos recebendo atendimento no Centro de Referência em Direitos Humanos para Repatriados e Migrantes (CREDH-RM) do Aeroporto. — Foto: Divulgação/MDHC

Uma aeronave com 146 imigrantes haitianos pousou na manhã desta sexta-feira (17) no Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, em Confins, na Região Metropolitana.

O grupo chegou ao Brasil como parte de um processo de reunificação familiar, que permite que estrangeiros tragam familiares para morar legalmente no país (saiba mais abaixo), e não são considerados refugiados ou deportados.

Ao todo, são 59 homens, 52 mulheres e mais 35 crianças e adolescentes acompanhados.

A chegada ocorreu por volta das 10h e contou com uma operação de acolhimento organizada por diferentes órgãos e instituições. As informações são do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e da BH Airport, concessionária responsável pelo terminal.

Os atendimentos incluem acolhimento inicial, escuta qualificada, identificação de demandas e orientação sobre direitos, além de encaminhamentos à rede pública quando necessário.

Também há apoio à regularização documental, com possibilidade de pré-documentação, e articulação para acesso a serviços sociais e de saúde nos locais de destino, visando à proteção social dos imigrantes.

No local, foram disponibilizados tradutores de crioulo haitiano e francês, idiomas predominantes no Haiti, para facilitar a comunicação com os passageiros. Uma das profissionais integra o fórum local de migração.

Entre os envolvidos estão o Centro de Referência em Direitos para Repatriados e Migrantes do MDHC, a Organização Internacional para as Migrações (OIM), o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) e a Polícia Federal.

'Boom' de imigrantes haitianos

A crise social, política e de segurança no Haiti tem impulsionado a saída de milhares de pessoas em busca de melhores condições de vida. A violência de gangues armadas e a falta de perspectivas econômicas levam famílias inteiras a deixar o país, muitas vezes abrindo mão de bens para recomeçar no Brasil.

Esse fluxo migratório tem como uma das principais portas de entrada o Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP), que recebe centenas de imigrantes por semana.

Nesse contexto, o Brasil registra um aumento expressivo na concessão de vistos a cidadãos haitianos, com destaque para os de reunião familiar.

🔎O visto de reunião familiar permite que estrangeiros se juntem a parentes no Brasil. Esse tipo de visto pode ser emitido por qualquer repartição consular brasileira no exterior, inclusive pela Embaixada do Brasil em Porto Príncipe, no Haiti.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores, esse tipo de visto cresceu 252,9% entre 2024 e 2025, indicando um “boom” na política de reunificação familiar no país.

Em março deste ano, um voo com 118 haitianos ficou retido por cerca de dez horas no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP), após a Polícia Federal impedir o desembarque. À época, a companhia responsável informou que os passageiros pretendiam solicitar refúgio no país.

https://g1.globo.com/

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sexta-feira, 17 de abril de 2026

Até 2027, mais de 4 milhões de pessoas serão obrigadas a fugir de casa devido a guerras, violência e perseguição

 


No seu relatório anual, o CDR afirma que os novos deslocados internos, sem ter em conta a situação atual no Médio Oriente, somam-se a cerca de 117,3 milhões de pessoas já nessa situação em todo o mundo.

As projeções do DRC baseiam-se nos dados disponíveis até ao final de 2025 e, por isso, são anteriores à guerra no Médio Oriente, que "está a provocar mais deslocações e a agravar a situação humanitária", observou a secretária-geral da ONG, Charlotte Slente, em comunicado.

"Há um caminho que pode trazer a região de volta da beira do abismo: o atual cessar-fogo (entre Estados Unidos e Irão) deve tornar-se permanente e deve ser alargado ao Líbano, onde uma em cada cinco pessoas foi deslocada pelo conflito. As famílias no Líbano e no Irão devem poder regressar a casa e reconstruir as suas vidas em paz", disse ela

O relatório sublinha que as novas deslocações estão cada vez mais espalhadas por vários países, em vez de se concentrarem em algumas grandes crises, como acontecia anteriormente.

Ucrânia, Myanmar, Sudão do Sul, Nigéria e Mali com maiores projeções de aumento de deslocações

Assim, em 2025, o Myanmar e o Sudão representavam, em conjunto, mais de metade do aumento total projetado, enquanto nas projeções atuais, a sua quota combinada representa apenas um quarto do total.

Além disso, os cortes na ajuda internacional têm um impacto direto nas deslocações.

Nos cinco países com as maiores projeções de aumento de deslocações em 2025 (Ucrânia, Myanmar, Sudão do Sul, Nigéria e Mali), o financiamento para os esforços de paz desceu, em média, 23% em 2024.

Por outro lado, nos cinco países onde a quebra foi mais acentuada (Somália, Sudão, Afeganistão, Síria e República Democrática do Congo), este financiamento aumentou, em média, 15%.

"A comunidade internacional enfrenta um fracasso catastrófico na proteção das populações mais vulneráveis do mundo", afirmou a Slente, referindo que a violência contra civis aumentou 14% em 2025.

"Para as famílias que fogem da guerra apenas com a roupa do corpo, há pouca esperança: a rede de segurança internacional que existia está cheia de lacunas, enquanto a ajuda humanitária está a diminuir", lamentou.

As organizações humanitárias enfrentam cortes significativos na ajuda internacional, principalmente desde o regresso de Donald Trump à Casa Branca, no ano passado.

https://sicnoticias.pt/
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quinta-feira, 16 de abril de 2026

Refugiados interessados em voltar se Venezuela melhorar, revela pesquisa da ONU

 Se as condições socioeconômicas da Venezuela melhorarem, o país poderá receber mais de um terço dos venezuelanos que tiveram que fugir da crise e da violência para outras nações da região.

A conclusão é de uma pesquisa realizada pela Agência da ONU para Refugiados, Acnur, com migrantes e refugiados venezuelanos.

Uma família venezuelana migrante faz uma longa viagem desde a fronteira sul do Peru até Lima
Uma família venezuelana migrante faz uma longa viagem desde a fronteira sul do Peru até Lima

Fatores complexos

Atualmente, 6,9 milhões deles vivem em nações latino-americanas e caribenhas. E deste total, 4 milhões precisam de assistência.

A pesquisa, realizada entre janeiro e março deste ano, teve como base entrevistas com 1.288 venezuelanos que vivem em países como Brasil, Equador, Peru, Colômbia, Chile e Guatemala. Todos responderam à pergunta sobre a intenção de retornar ao seu país de nascimento nos próximos 12 meses a cinco anos.

O principal motivo dentre aqueles que querem voltar é o reencontro com a família.

Após a queda do presidente Nicolás Maduro do poder, muitos venezuelanos começam a se concentrar no retorno à casa levando em conta os fatores complexos que influenciam na volta em meio aos desafios regionais de deslocamento.

Serviços confiáveis

Cerca de 9% de mais de um terço dos venezuelanos que querem voltar para casa esperam fazer isso dentro de um ano.

A resposta negativa veio de dois terços dos ouvidos pela pesquisa do Acnur. Para esses venezuelanos, o desejo de se reconectar com parentes na Venezuela é contrabalançado por fatores socioeconômicos e políticos, incluindo a recuperação do mercado de trabalho, a segurança e a disponibilidade de serviços confiáveis.

Para esse grupo, as comunidades anfitriãs oferecem segurança, emprego e serviços essenciais melhores. Já os serviços nacionais nesses países permanecem sob pressão, e alguns citaram os desafios socioeconômicos nas nações anfitriãs como razões para considerar o retorno.

Venezuelanos fazem fila no escritório de migração em Lima, Peru
OIM/Gema Cortes
 
Venezuelanos fazem fila no escritório de migração em Lima, Peru

Apelo recebeu apenas 12% do pedido

Outro impedimento para muitos venezuelanos é a falta de informação confiável, citada por quase 60% dos entrevistados. 

O Acnur lembra que o retorno à casa deve ser sempre voluntário, seguro e digno, acompanhado do máximo de informações possíveis sobre as implicações de qualquer mudança. 

Este ano, o Acnur precisa de US$ 328,2 milhões para seguir apoiando os venezuelanos na região e na Venezuela. 

Até o fim do mês passado, apenas 12% deste valor havia sido financiado.


https://news.un.org/pt

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quarta-feira, 15 de abril de 2026

Choque reverso: os brasileiros que voltam do exterior

 Maurício Cancilieri | Marina Lourenço

Foto: BH Ai

   Ex-imigrantes costumam partilhar a mesma tensão: um choque de desejos e frustrações.                                                                               Foto: BH Airport/Divulgacao/D. Mansur

"O que estou fazendo aqui? Será mesmo que eu deveria ter vindo?". Perguntas como essas são recorrentes na mente de quem decide voltar ao seu país de origem após viver como imigrante no exterior.

O retorno à terra natal é bem mais complexo do que pode parecer. Seja por razões voluntárias ou involuntárias, se tornar "ex-imigrante” é um processo intenso, cheio de emoções conflitantes.

Em meio a um embate entre expectativa vs. realidade, desejos viram frustrações, reflexões se tornam outras, e a sensação de se sentir em casa já não é mais a mesma. Sensações como essas fazem parte da síndrome do retorno, também chamada de choque cultural reverso.

"Eu costumo chamar de ‘ferida do retorno'", afirma a psicóloga intercultural Andrea Sebben, que elaborou uma pesquisa com 500 brasileiros que viveram no exterior e retornaram ao país.


"É uma idealização, porque quando a gente está fora, literalmente fora do contexto, a gente meio que rompe com a realidade. A gente se relaciona com o país de origem muito mais no nosso imaginário. E você não tem dados de realidade suficientes para saber como é morar no Brasil hoje. Os dados que você tem habitam absolutamente no que é imaginário", diz Sebben.

A psicóloga explica que o movimento de deixar o país costuma causar incertezas. Já o retorno gera uma quebra de familiaridade. É assim que surge o estado de ambivalência.

"Você sabe o que está perdendo. Mas você não sabe o que está ganhando. A perda é concreta, ela é dolorosa. Mas o que você está ganhando?", afirma a pesquisadora. "Isso se chama ambivalência. Eu quero ganhar, mas eu não quero perder. Eu quero conquistar, mas não quero abrir mão de nada."

Brasileiro, mas estranho no ninho

Com a síndrome do retorno, a pessoa sente que perdeu dois países de uma só vez: aquele no exterior (onde já se sentia em casa, apesar de ser imigrante), e aquele em que ela já não se reconhece, embora seja seu local de nascimento.

Há casos em que a pessoa decide retornar ao país para matar a saudade – da família, da comida ou simplesmente do bairro em que cresceu. Já em outras situações, não há escolha. É o que aconteceu com os mais de 3.000 brasileiros deportados nos Estados Unidos em 2025, por exemplo.

Foi também em 2025 que o Itamaraty publicou um guia online para os brasileiros regressos. Com dicas do que e como fazer ao retornar ao país, o manual propõe auxiliar ex-imigrantes. Os temas vão de reinserção profissional a transporte de animais.

"No período recente, nota-se um movimento de retorno de migrantes brasileiros ao território nacional. Por um lado, esse fluxo pode ser explicado pelo acirramento da retórica e das políticas anti-imigração, verificado em alguns países que tradicionalmente recebem os migrantes. Por outro, a dinamização do mercado de trabalho no Brasil constitui forte fator de estímulo ao regresso voluntário", aponta o manual.

Brasileiros que foram deportados dos EUA chegando a Manaus em 2025
Brasileiros que foram deportados dos EUA chegando a Manaus em 2025Foto: MICHAEL DANTAS/AFP/Getty Images

Mesmo com contextos e motivos de regresso tão diferentes entre si, os ex-imigrantes costumam partilhar a mesma tensão: um choque de desejos e frustrações.

"A gente escuta muito isso: ‘Ah, eu esperava que voltando para o Brasil fosse acontecer A, B ou C…' E não acontece", conta a psicóloga Sebben. Ela também explica que a ambivalência emocional já se inicia quando a pessoa está no aeroporto.

Essa síndrome começou a ser estudada no início do século 20, a partir do abalo psicológico que militares e civis sentiam ao se mudarem de país em meio à Primeira Guerra Mundial.

Já no Brasil, as pesquisas sobre a síndrome engataram nos anos 1980, com o neuropsiquiatra Décio Nakagawa, que estudou a saúde mental dos decasséguis – brasileiros que tinham sido imigrantes no Japão. Nos relatos que colheu, o médico notou sintomas de depressão, ansiedade e não pertencimento.

O paradoxo de desconhecer o conhecido

"Eu sempre achava: ‘Ah, eu sinto falta do meu país, lá é minha terra, minha língua, vou conseguir fazer tudo mais fácil'. Não foi muito bem assim, não", conta a microempreendedora.

Ela morou dez anos na Alemanha e, em 2025, decidiu voltar ao Brasil porque sentia saudades da família, do clima e da cultura. Mas a adaptação não foi nada do que ela tinha imaginado. Daí, após sete meses de muita frustração com a mudança, a microempreendedora foi (de novo) para a Alemanha.

"Meu pensamento primeiro foi: ‘cheguei em casa'", diz ela. "Não era a mesma coisa. Porque eu acabei chegando no Brasil, mas sempre me lembrava como era o meu estilo de vida aqui [na Alemanha]."

Aline Milene Machado
Aline Milene Machado, que acabou voltando para a AlemanhaFoto: Mauricio Cancilieri/DW

Muita da dificuldade que Machado sentiu para se adaptar tem a ver com a mudança de rotina. "Como a gente estava em Florianópolis, então, tudo o que você precisava fazer era do norte da ilha até o centro. Era sempre muito trânsito, muito carro, parecia que estava sempre cheio. Isso aí foi uma das coisas que me pegou um pouquinho mais."

Não existe fórmula mágica. É impossível saber como será retornar para (ou partir do) seu país, nem se a readaptação será muito dolorosa ou "apenas" complexa. Mas saber disso já ajuda a entender os próprios sentimentos, ter paciência e lidar com o desafio.

Para a psicóloga Sebben, o período de readaptação não é linear e, por isso, o ideal seria esperar mais do que sete meses para tomar uma nova decisão. "A migração não acontece do lado de fora. Ela acontece do lado de dentro. Então eu diria: há que se preparar, na medida do possível, antes", afirma.

Difícil, mas não impossível

Enfrentar o "luto migratório" é difícil, mas não impossível. Um exemplo é Maucir Nascimento, autor de A Volta Dos Que Foram, livro que ele escreveu com base na própria experiência.

"Eu sempre vi outros imigrantes sofrendo muito com essa coisa da perda. E eu não queria. Eu sou filho de mãe solteira. Aquela coisa toda, não tenho família próxima, eu não tenho nada. Então, eu sempre entendi o valor da vida, o valor da coisa de você valorizar aquelas pessoas que estão ali por você. É por isso que eu decidi voltar", conta ele.

Maucir Nascimento morou dez anos na Austrália e, em 2018, regressou ao Brasil. Ele diz que não se arrepende das decisões que tomou, mesmo quando tem novas reflexões sobre o assunto.

"Estaria mentindo se eu dissesse para você que não passa pela cabeça, com certa frequência, voltar para a Austrália. Ou ir para algum outro lugar do mundo. Isso é da natureza do imigrante. Se você fizer essa opção, você sempre vai ficar pensando em voltar. Do mesmo jeito que quem vai fica pensando em voltar", afirma Nascimento, cujo livro se propõe a auxiliar quem passa ou passará pela síndrome do retorno.

"Acho que a questão de fazer tudo com pé no chão é muito importante. Sem esses floreios das mídias sociais, essas coisas assim que todo mundo fala, cheio de tipo assim... Ah, como deveria ser... Quem sabe... Não, cara, vai buscar a realidade! Vai buscar a realidade do que é, do que não é para você. Muito autoconhecimento. Quem não busca autoconhecimento para entender por que está voltando, por que quer voltar, por que foi... O que era bom antes, o que não era bom depois. Faz uma matriz aí de prós e contras."

Para ele, o mais importante de todo esse processo é justamente se planejar bastante. Imaginar o que pode (ou não) acontecer nesse novo ciclo da vida.

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