quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Aprender começa com o acolhimento

 Em Pacaraima, uma iniciativa do UNICEF fortalece a inclusão de crianças indígenas migrantes por meio do apoio de uma socioeducadora indígena


UNICEF/BRZ/Laís Muniz

“Mamãe, você não vai acreditar quem estava na minha sala hoje”, conta, entusiasmado, Roderick Valentín, de 9 anos. Ele se referia a Olívia Jimenez, socioeducadora indígena que passou a integrar parte da rotina escolar de dezenas de crianças, promovendo aprendizados e acolhimento entre indígenas, migrantes e brasileiros em Pacaraima, município que faz fronteira com a Venezuela. Em 2025, o município tinha 36% da sua população composta por pessoas vindas do país vizinho.

Nas escolas, onde sempre foi comum haver estudantes venezuelanos devido a proximidade com a fronteira, as salas de aula ganharam cada vez mais a sonoridade do espanhol e de línguas indígenas, como o Warao. Foi nesse contexto que o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), por meio do seu parceiro implementador, a AVSI Brasil, identificou a necessidade de apoiar a rede pública de ensino através das iniciativas de educação para crianças e adolescentes migrantes, especialmente indígenas.

“Já tive alunos que não falavam nada em português e nem espanhol, apenas sua língua materna indígena. Como um aluno que chega assim na escola vai aprender?”, diz Olívia. Em quase três anos apoiando a iniciativa, ela desenvolveu formas de auxiliar estudantes que falam pouco ou nenhum português ou espanhol a se sobressair nos estudos, acolhendo-os e aproximando-os também de outras crianças, como no caso de Roderick. Ao promover esse acolhimento, a iniciativa contribui para que crianças e adolescentes se sintam parte da comunidade escolar, o que favorece sua permanência na escola e reduz o risco de abandono.

Olívia recorda que em seu primeiro contato com a turma de Roderick, o comportamento do menino chamou sua atenção. Ele não se envolvia com as outras crianças, se sentava nos fundos da sala e não interagia nas aulas.

“Nos meus momentos com a turma, eu promovia leituras em grupo com contos tanto do Brasil, como da Venezuela. Passei a envolvê-lo, chamá-lo para ler os contos comigo, a participar com as outras crianças. Foi quando ele começou a perder o medo”, lembra.

Em casa, a mãe de Roderick, Rutzelis Ramos, acompanhava o desenvolvimento do filho, que ao chegar da escola, atualizava a mãe.

“Roderick me contou que Olívia estava apoiando a professora em sua escola. Ele ficou feliz em vê-la pois a conhece desde que era mais novo, quando chegamos aqui no Brasil”, disse. “Então ele passou a me contar sobre como a Olívia estava o ajudando. Ele dizia: ‘Mamãe, hoje a Olívia nos fez cantar’ e ‘mamãe, Olívia leu contos para a gente hoje’, e eu percebi o quanto aquilo o deixava feliz”

UNICEF/BRZ/Laís MunizDa esquerda para a direita, Liliane Paixão, professora de Roderick, que está no meio, e Olívia, socioeducadora Warao.

“Eu tinha muito medo de que as pessoas não o aceitassem por ser indígena e por não falar o idioma. Mas sei que hoje ele está seguro, porque ele se sente assim. E ter um representante indígena dentro de sala de aula ajuda nisso”, explica Rutzelis, mãe de Roderick. “Me emocionou um dia que ele chegou em casa e disse ‘mamãe, estou começando a entender as palavras. Olívia está me dizendo o que as palavras em português significam’”.

Em alguns meses, Roderick passou a interagir mais nas aulas e com os outros alunos, e está mais confiante.

“Roderick é um aluno especial. Sua mudança foi grande, e por isso quis falar sobre ele. Hoje vejo ele muito mais sorridente, muito mais próximo”, descreve Olívia. “Para mim, é uma felicidade acolher crianças que muitas vezes chegam sem muita perspectiva ao Brasil, que acham que não vão aprender. Quero mostrar para elas que elas conseguem”.

Para apoiar estratégias de educação e acolhimento em Pacaraima, o UNICEF tem como parceria estratégica  da União Europeia, através do Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária (ECHO, na sigla em inglês).

Sobre o Projeto de Integração Intercultural Indígena

O Projeto de Integração Intercultural Indígena, desenvolvido pelo UNICEF em parceria com a AVSI Brasil tem fortalecido o acesso, a permanência e a aprendizagem de crianças e adolescentes indígenas migrantes, especialmente das etnias Warao, Eñepá e Pemon, em Pacaraima. Com uma abordagem intercultural que reconhece e valoriza a diversidade cultural, linguística e os direitos dos povos indígenas, a iniciativa tem apoiado a rede municipal de ensino na construção de ambientes escolares mais inclusivos, acolhedores e preparados para responder às necessidades específicas dos estudantes indígenas.

As atividades desenvolvidas incluem dinâmicas de quebra-gelo, contação de histórias, rodas de conversa, atividades lúdicas e mediação intercultural, promovendo a interação entre estudantes indígenas e não indígenas, o fortalecimento da convivência escolar e a valorização das identidades culturais. Além do trabalho direto com as crianças e adolescentes, a socioeducadora oferece suporte contínuo aos professores na adoção de estratégias pedagógicas culturalmente sensíveis, contribuindo para reduzir barreiras linguísticas e culturais e fortalecer práticas educativas inclusivas.

Ao longo dos três anos de implementação, o projeto atendeu diretamente mais de 600 crianças e adolescentes indígenas venezuelanos, além dos impactos relevantes para a educação no município. O projeto fortaleceu as capacidades da rede municipal de ensino para promover uma educação intercultural, ampliou o acolhimento e a participação dos estudantes indígenas na vida escolar, fortaleceu o vínculo entre escolas, famílias e comunidades indígenas e contribuiu para a redução de situações de discriminação e exclusão. 


https://www.unicef.org/brazil

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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Universidades dos EUA podem perder US$ 3,4 bilhões com queda de estudantes internacionais


Foto: Unsplash

 Universidades dos Estados Unidos podem registrar uma queda de até 112 mil estudantes internacionais no ano acadêmico de 2026–2027. Segundo projeções da NAFSA e da JB International, a redução pode representar uma perda de US$ 3,4 bilhões (R$ 17,38 bilhões) em receita e eliminar cerca de 40 mil empregos no país.

O levantamento considera dados do Institute of International Education. Entre as instituições consultadas, 63% esperam receber menos estudantes estrangeiros no próximo ano. Apenas 11% projetam crescimento, enquanto 26% preveem estabilidade, segundo a Forbes.

Leia também: Universidades americanas podem ganhar bilhões com IPO da SpaceX e reforçam aposta em private equity

Matrículas entram em trajetória de queda

A expectativa é que aproximadamente 1,057 milhão de estudantes internacionais estejam matriculados em universidades americanas no próximo ano. O número representa uma redução em relação aos 1,169 milhão estimados para 2025–2026.

Outros indicadores reforçam essa tendência. As candidaturas internacionais para programas de doutorado nos EUA caíram 21% neste ciclo. Como consequência, as admissões de estudantes estrangeiros recuaram 17%. Além disso, os envios internacionais pela plataforma Common App diminuíram 9%.

O movimento ocorre após uma recuperação das matrículas desde a pandemia. O número de estudantes estrangeiros chegou a 914 mil durante a crise sanitária e voltou a crescer nos anos seguintes. Em 2024–2025, o total atingiu o pico de 1,178 milhão.

Políticas migratórias afetam estudantes

A queda também coincide com mudanças nas políticas de imigração do governo Donald Trump. Nos últimos meses, os EUA adotaram restrições de viagem, endureceram exigências para vistos e aumentaram as recusas de solicitações. A administração também ameaçou alterar o programa Optional Practical Training, que permite a estudantes estrangeiros trabalhar no país após a formação.

O impacto vai além das universidades. Em 2024–2025, estudantes internacionais contribuíram com US$ 43 bilhões (R$ 219,8 bilhões) para a economia americana e ajudaram a sustentar 356 mil empregos. Para 2026–2027, a projeção indica uma contribuição de US$ 38,3 bilhões (R$ 195,8 bilhões) e 294 mil postos de trabalho.

Diante do cenário, a NAFSA defende medidas para acelerar entrevistas e processamento de vistos. A entidade também pede exceções às restrições de viagem para estudantes e a preservação do Optional Practical Training para alunos estrangeiros.

https://timesbrasil.com.br/

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sábado, 15 de agosto de 2026

Marrocos trava nova invasão de centenas de migrantes a Ceuta

 

Publicamente já fora anunciado um reforço de policiamento e de militares nos últimos dias, perante as dezenas de publicações nas redes sociais que davam como certo um novo desembarque nas praias daquele território espanhol, tal como aconteceu há cerca de duas semanas.

As forças de segurança de Marrocos travaram este sábado uma tentativa de centenas de migrantes, na maioria subsarianos, de entrarem irregularmente na cidade espanhola de Ceuta, indicaram à agência de notícias espanhola EFE fontes securitárias marroquinas.

Segundo as fontes, o incidente aconteceu numa zona montanhosa, nos arredores da cidade fronteiriça de Fnideq (Castillejos, em castelhano), a sudoeste de Ceuta.

Milhares de operacionais integram o dispositivo de segurança que foi montado por Marrocos para impedir a entrada em massa em Ceuta de migrantes que tinha sido convocada para hoje nas redes sociais.

No final de julho, cerca de 72 mil pessoas entraram em 24 horas na cidade autónoma espanhola de Ceuta, situada no norte de África, e, à data de 6 de agosto, 70 mil já tinham voltado a Marrocos, segundo dados das autoridades de Espanha. Pelo menos 82 pessoas morreram a tentar chegar a Ceuta a nado.

Antes de ser conhecida esta tentativa, o comentador de assuntos internacionais da Renascença, Manuel Poêjo Torres, dizia ser pouco provável que um fenómeno da mesma magnitude venha a acontecer.

“A probabilidade de voltar a acontecer na mesma intensidade, na mesma quantidade e frequência é baixa. No entanto, é muito provável que um acontecimento em massa tenha lugar, provavelmente não na mesma dimensão. Ainda assim, este é um fenómeno que não é um fenómeno orgânico, é um fenómeno planeado, é um fenómeno que está a ser estudado. Existem metadados que provam que existia uma rede por detrás desta massa humana”, avança.

Poêjo Torres considera, no entanto, que as medidas por parte do governo espanhol continuam a ser insuficientes:

Espanha não tem feito, não tem estado à altura das exigências. Não se movem 50 mil almas em direção a Ceuta sem que para isso sejam levantados alertas e indicadores de alarme em relação a essa movimentação de grande escala.Espanha sabia que isto estaria a acontecer nas vésperas dessa mesma invasão e pouco ou nada fez para conseguir deter e proteger, deter essa invasão e proteger os seus territórios.

Poêjo Torres acredita que uma nova entrada de migrantes vai colocar Madrid numa situação complicada dentro da União Europeia e vai avivar a discussão sobre o Espaço Schengen e o controlo de fronteiras.

“Isso vai não apenas dificultar a posição do Governo Socialista em Espanha, mas garantidamente degradar as relações entre Espanha e os seus homólogos na União Europeia, que têm políticas de segurança emigratórias bastante mais apertadas. Itália já tinha prometido que iria suspender os passos Schengen com Espanha até pelo menos dia 15, porque neste momento os circuitos dos serviços de inteligência, todos eles encontram uma alta probabilidade de que um evento semelhante, mas não idêntico, possa ainda acontecer", remata o analista.

Ceuta, um pequeno território de 80.000 habitantes situado no extremo norte de Marrocos e banhado pelo estreito de Gibraltar, é uma das duas fronteiras terrestres entre África e a Europa, juntamente com o outro enclave espanhol de Melilla.

https://rr.pt/noticia

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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

UFPR apresenta censo que traça perfil de pessoas refugiadas e migrantes em Piraquara

 Equipe do censo comunitário. Foto: Divulgação

A Universidade Federal do Paraná (UFPR) participa, na próxima terça-feira (18), da apresentação de um censo realizado na comunidade de Andorinhas, em Piraquara, com dados sobre pessoas refugiadas e migrantes que vivem na localidade. O evento vai abordar o perfil demográfico e socioeconômico, as condições de vida e as principais demandas desta população.

Os dados foram obtidos por meio de censo comunitário realizado entre abril e julho pela Prefeitura Municipal de Piraquara em parceria com a UFPR e a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). O objetivo do levantamento foi reunir informações sobre perfil, necessidades e prioridades da população – informações essenciais para orientar políticas públicas, fortalecer ações locais e apoiar soluções construídas em diálogo com a comunidade.

O projeto Atlas da Migração Internacional no Paraná, da UFPR, esteve envolvido junto com a Acnur na elaboração dos questionários, no treinamento das equipes de recenseadores e na sistematização dos dados levantados. O coordenador da iniciativa, professor Márcio Oliveira, conta que a comunidade é composta por brasileiros e pessoas de mais cinco nacionalidades, vivendo de maneira bastante integrada.

“São famílias, a maioria haitianas, que estão buscando o último degrau da integração econômica, de tornarem-se proprietárias de casas e terrenos, o que dá uma garantia imensa para sua permanência no Brasil”, afirma. “Esse censo mostra o quão importante a migração tem sido para o desenvolvimento do Estado e a diversificação de sua cultura. O Brasil, por meio de suas políticas públicas, mostra mais uma vez que é uma sociedade muito acolhedora, capaz de integrar, prestar assistência e fornecer os serviços básicos para toda a população”.

Atualmente, a comunidade Andorinhas possui 1.002 domicílios. Destes, 844 foram alcançados pelo censo, reunindo informações sobre 2.557 pessoas. A população registrada é majoritariamente brasileira, mas há presença expressiva de pessoas migrantes e refugiadas. No total, são 820 pessoas não brasileiras registradas na comunidade, ou 32,1% do total com base na nacionalidade registrada. A população haitiana é o maior grupo, com 727 pessoas em 270 domicílios.

A chefe do escritório do ACNUR em São Paulo (SP), Maria Beatriz Nogueira, destaca que o Brasil é o segundo país com maior número de pessoas haitianas em necessidade de proteção internacional fora do Haiti; também são acolhidas, todos os anos, dezenas de milhares de pessoas venezuelanas.

“Muitas dessas populações que foram forçadas a se deslocar buscam por um recomeço no Paraná, onde as comunidades e os governos precisam estar preparados para protegê-las e acolhê-las adequadamente, garantindo que seus direitos sejam respeitados. Nesse sentido, a realização deste censo é essencial para conhecer quem são essas pessoas, quais as suas demandas mais urgentes, e para a construção e o aprimoramento de políticas públicas locais”, diz.

Realizado de abril a julho de 2026, o censo foi feito presencialmente por equipes da Prefeitura de Piraquara e pesquisadores da UFPR. No total, 96 profissionais estiveram envolvidos nas entrevistas aos moradores da comunidade. 

Perfil da população e das condições de moradia

Entre os principais dados demográficos apontados pelo censo estão os recortes por gênero (50,7% de homens e 49,3% de mulheres), faixa etária (predominante entre 30 e 59 anos, com 39,2% do total da população local) e escolaridade (com maior faixa tendo cursado ensino fundamental – 41,2%).

Quanto às condições de habitação, o censo também aponta que, na comunidade, o acesso à água encanada, à coleta adequada de esgoto e à energia elétrica é precarizado, com a maior parte dos domicílios tendo ligações informais ou comunitárias. Apesar dos desafios estruturais, o acesso a serviços de saúde e de assistência social é realidade para a maioria da população – 84,9% afirmaram recorrer a Unidades Básicas de Saúde e 62,7% dos domicílios estão no Cadastro Único para Programas Sociais. 

Devido à presença expressiva da população haitiana e da necessidade de se pensar políticas públicas voltadas para a integração e autonomia do público feminino, o censo também apresenta esses dois recortes. Na análise comparativa, o dado que mais se destaca é com relação à renda e ao acesso ao trabalho.

Apesar de as pessoas não nacionais representarem taxa ligeiramente maior de acesso ao trabalho (74% contra 71,5% entre brasileiros), o rendimento costuma ser menor, em especial entre as pessoas haitianas. Enquanto a população de Andorinhas sem nenhuma renda é composta 16,2% por brasileiras e brasileiros, haitianas e haitianos respondem por 24,7% desse total.

Esses e demais dados serão apresentados em detalhes durante o evento.

Serviço

Apresentação pública dos dados do Censo Comunitário Andorinhas

Data: 18 de agosto de 2026 

Horário: 9h 

Local: Auditório da Praça CEU (Rua Juri Danilenko, 3460. Guarituba, Piraquara – PR)


https://ufpr.br/ufpr

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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Judiciário de SC já sente reflexos das ondas migratórias dos últimos anos no Brasil

 


A comarca de Joinville, sediada na maior cidade de Santa Catarina, com mais de 1 milhão de habitantes em sua região metropolitana, já sente os reflexos da onda de imigração que, principalmente no período pós pandemia, chegou ao Brasil. Oriundos de países da América do Sul e Central, são venezuelanos, bolivianos, haitianos e, em menor escala, até cubanos, que, motivados por crises humanitárias, políticas ou desejos pessoais, chegam ao país em busca de melhores condições, na esperança de obter emprego, renda e qualidade de vida.

A 2ª Vara da Fazenda Pública de Joinville, que tem competência privativa para ações acidentárias na maior comarca do estado, terceiro polo industrial do sul do país - atrás apenas de Curitiba e Porto Alegre, apresenta números que ilustram essa demanda que chega do exterior por serviços públicos que incluem saúde, educação e, claro, também justiça. Ao se depararem com direitos que entendem possuir mas são negligenciados, os imigrantes, assim como os brasileiros, batem à porta do Judiciário.

A unidade registrou, em 2024, 1.886 processos desta natureza, que pularam para 2.432 ações em 2025 – aumento de 28,95%, consideradas também aquelas oriundas de outras comarcas e remetidas pela Justiça Federal, e já alcançam mais de 1.500 mil até julho deste ano, todos relacionadas a acidentes de trabalho. Os dados são do Núcleo de Monitoramento de Perfis de Demandas e Estatísticas (Numopede) do Tribunal de Justiça de Santa Catarina e mostram a escalada de ações, já acrescidas ao habitual movimento processual de brasileiros.

J.C.P.R. deixou a Venezuela e parte da família para trás, em 2023, com o sonho de recomeçar em solo brasileiro. Como destino, escolheu Joinville e, poucos meses após a chegada, já estava inserido no mercado de trabalho. Tudo corria bem até que em um acidente de trabalho durante o expediente fez com que tivesse que amputar o antepé, após um carrinho de transporte de carga atingi-lo. Com receio de perder o emprego recém-conquistado, continuou suas atividades mesmo lesionado, até o agravamento do quadro de saúde. Foi então que buscou a justiça, que reconheceu seu direito ao benefício por incapacidade, após a comprovação da lesão e das limitações permanentes decorrentes do quadro clínico. “Foi uma grande ajuda, pois minha saúde me impede de fazer muitas coisas. Agora fico tranquilo porque tenho para o sustento de minha esposa e o meu”, afirmou J., ao relatar o impacto da decisão.

Outro imigrante que buscou recomeçar sua vida no Brasil, o haitiano S.J chegou ao país em 2017 e também encontrou essa chance na maior cidade catarinense. Para ele, uma atividade laboral consolidada era condição essencial para encontrar a felicidade em um novo país e cultura. Porém, ele também enfrentou situação relacionada a evento ocorrido durante sua atividade profissional, o que levou ao ingresso de ação com pedido de reconhecimento de direito previdenciário. O juízo considerou seu pedido procedente. “A concessão ajudou bastante”, reconheceu.

Ações acidentárias

As ações acidentárias são processos judiciais movidos por um trabalhador contra o INSS para conseguir, mudar ou voltar a receber um benefício por causa de um acidente de trabalho ou doença da profissão. As ações exigem análises complexas, com base em perícias, documentos e depoimentos. Nesses casos, o Judiciário avalia a ocorrência do fato, a extensão das sequelas e o direito ao benefício por incapacidade a partir do conjunto das provas produzidas nos autos.

O Judiciário, atento aos números e seus impactos sociais, busca acompanhar a demanda e, na opinião daquele juízo, tem tido êxito: só em 2025, a 2ª Vara da Fazenda Pública de Joinville contabilizou 2.107 processos baixados por sentença, homologados por acordo ou extintos em razão do pagamento da obrigação. Até julho de 2026, já foram proferidas mais de 1 mil sentenças.

Segundo o último Censo Demográfico (2022) e levantamentos posteriores do IBGE, Santa Catarina é o estado que mais recebeu migrantes de outras partes do Brasil nos últimos anos, mais até do que São Paulo. Dos estrangeiros, as estimativas apontam que entre 1 e 2% da população de Santa Catarina, pouco mais de 8 milhões de habitantes, seja nascida no exterior. Já o Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego, registra quase 20 mil admissões de trabalhadores estrangeiros em Santa Catarina somente em 2024 - e, desse montante, aproximadamente 2,1 mil se estabeleceram em Joinville, com concentração em atividades do setor industrial.

https://www.tjsc.jus.br/web/imprensa

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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

PJF abre lista de interesse para participação na V Feira Cultural dos Migrantes e Refugiados

 


A Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), por meio da Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH) e do Comitê Municipal para Migrantes e Refugiados (Comitê Migrantes-JF), abriu lista de interesse para migrantes e refugiados que desejam participar da V Feira Cultural dos Migrantes e Refugiados de Juiz de Fora. O evento será realizado em 12 de setembro, das 9h às 18h, na Praça da Estação, no Centro. Para manifestar interesse, é necessário preencher o formulário online.

A participação é gratuita e está sujeita à disponibilidade de vagas. Podem manifestar interesse em participar migrantes e refugiados que desejam comercializar alimentos, bebidas, artesanatos e outros produtos, além de divulgar serviços relacionados à sua cultura, nacionalidade e trajetória.

A programação será construída de forma colaborativa e poderá incluir gastronomia típica, exposição e comercialização de produtos artesanais, apresentações culturais, divulgação de serviços e outras atividades que contribuam para a valorização da diversidade cultural e para a integração das comunidades migrantes e refugiadas com a população do município.

Neste primeiro momento, a SEDH realiza apenas o levantamento dos interessados. O preenchimento da lista não garante a participação na feira. Após essa etapa, os inscritos serão contatados pela equipe responsável e receberão as orientações para a participação no evento.

 

Diversidade cultural 

A V Feira Cultural dos Migrantes e Refugiados acontecerá em conjunto com a V Feira da Diversidade Religiosa. As atividades, que acontecerão de forma simultânea, têm como objetivo valorizar as culturas, tradições, saberes, produtos e serviços das diferentes comunidades migrantes e refugiadas que vivem em Juiz de Fora, promovendo integração, convivência e respeito à diversidade cultural.

O formulário de interesse para a Feira de Diversidade Religiosa também segue disponível.

https://www.pjf.mg.gov.br

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sábado, 8 de agosto de 2026

Espanha impõe controles de fronteira a viajantes vindos da Itália em meio a disputa sobre imigração

 

Centenas de migrantes foram fotografados em fila em uma praia em Ceuta para receber ajuda humanitária

Getty Imagem 

Henry Moore

A Espanha adotou controles de fronteira para todo o tráfego aéreo e marítimo proveniente da Itália, em meio ao agravamento das tensões entre os dois países da União Europeia (UE).

As medidas — que começaram a valer à meia-noite deste sábado (08/08) no horário local e durarão um mês — vêm uma semana depois de a Itália ter introduzido restrições semelhantes após a entrada de cerca de 78 mil imigrantes do Marrocos em Ceuta, cidade espanhola localizada no litoral norte da África.

Com a imposição dos controles fronteiriços, pessoas que entram na Espanha provenientes da Itália precisarão passar por checagem de documentos — algo que não acontece normalmente devido à criação da área de livre circulação na Europa, chamdada de Espaço de Schengen.

Na sexta-feira (07/08), a Espanha exigiu que a Itália revertesse as verificações até domingo. Roma disse que elas permaneceriam em vigor pelo menos até 15 de agosto — quando, segundo o governo italiano, a Espanha "espera uma nova onda de imigração" em Ceuta.

A crise colocou o líder de esquerda Espanha, Pedro Sánchez, em conflito com a primeira-ministra conservadora da Itália, Giorgia Meloni — que há muito tempo defende regras de migração mais rígidas para a UE.

A Itália não compartilha uma fronteira terrestre com a Espanha. Seu governo afirmou na semana passada que a decisão de suspender temporariamente o acordo de livre circulação de pessoas do Espaço Schengen visava impedir que qualquer um dos migrantes que entraram em Ceuta viajasse para a Itália.

Madri rejeitou essa posição, dizendo que ela se baseava em "argumentos espúrios" que careciam de qualquer fundamento, pois os migrantes que entraram em Ceuta não tinham como entrar na área Schengen.

Em sua resposta à ameaça espanhola na sexta-feira, o governo italiano afirmou que não aceitaria "ultimatos". Acrescentou que não pretendia "em hipótese alguma reconsiderar a decisão de suspender a aplicação do Acordo de Schengen para cidadãos de países terceiros que chegam da Espanha, pelo menos até 15 de agosto e, em qualquer caso, até que os riscos de segurança e terrorismo para a Itália sejam completamente eliminados".

Autoridades italianas afirmaram que as autoridades locais que realizam as verificações fazem "todo o possível" para garantir o máximo conforto tanto para os cidadãos espanhóis quanto para os de outros países europeus que chegam à Itália vindos da Espanha.

Roma também reiterou que os cidadãos espanhóis estão isentos de verificações adicionais ao chegarem à Itália, sendo essas etapas extras aplicáveis ​​apenas a residentes de países não pertencentes à UE.

No entanto, o jornal El País noticiou que vários terminais aeroportuários registraram longas filas e tempos de espera nos últimos dias, com passageiros provenientes da Espanha sendo direcionados a uma fila específica para verificações.

As contramedidas que Madri decidiu impor na sexta-feira incluem verificações de passaporte, nacionalidade e visto para passageiros italianos e visitantes de outros países que chegam da Itália "em meio à persistente pressão migratória irregular" que o país vem enfrentando, segundo um comunicado do governo espanhol.

As verificações permanecerão em vigor até 7 de setembro, "a menos que uma mudança nas circunstâncias que levaram à sua adoção justifique a modificação desse período".

O líder de esquerda Espanha, Pedro Sánchez, e a primeira-ministra conservadora da Itália, Giorgia Meloni

Crédito,NurPhoto via Getty Images

Legenda da foto,A crise colocou o líder de esquerda Espanha, Pedro Sánchez, em conflito com a primeira-ministra conservadora da Itália, Giorgia Meloni

Suspensões temporárias do acordo de Schengen não são inéditas. A Itália também mantém controles em sua fronteira com a Eslovênia.

A decisão da Itália de suspender o acordo de Schengen por um mês foi apoiada pela Finlândia e pela Dinamarca, enquanto a República Tcheca pediu a suspensão temporária da Espanha da zona de livre circulação.

A maioria dos imigrantes que chegaram a Ceuta na semana passada retornaram ao Marrocos em poucos dias. Acredita-se que cerca de 100 pessoas tenham morrido durante a travessia.

Cerca de 1.400 menores, alguns deles "meninos e meninas muito jovens", ainda permanecem em Ceuta.

A Espanha não anunciou a chegafa uma segunda onda de travessias vindas de Marrocos.

Mas segundo uma reportagem do serviço da BBC em árabe, dezenas de publicações foram feitas no Facebook convocando uma segunda travessia em meados de agosto. Alguns desses posts anunciavam a venda de equipamentos de natação.

Seis dos grupos onde as postagens estavam sendo publicadas tinham mais de 100.000 seguidores. A Meta afirma ter removido as publicações que violam sua política.

O gabinete do primeiro-ministro espanhol disse ao jornal El País que estava monitorando a situação, mas afirmou que não esperava uma repetição das cenas da semana passada.

Gráfico composto mostrando o enclave espanhol de Ceuta na costa norte-africana. O painel superior é um mapa de satélite que localiza Ceuta entre Marrocos e Espanha, com legendas incluindo Benzú, Tarajal e a Península de Almina, e um mapa embutido mostrando sua posição entre a Espanha e Marrocos. O painel inferior mostra dezenas de migrantes no mar e reunidos em rochas perto de uma cerca de fronteira, ilustrando uma rota ao redor da fronteira costeira. Gráfico da BBC usando imagens da Getty Images.

Ainda não está claro exatamente por que dezenas de milhares de imigrantes tentaram atravessar para Ceuta, mas o Comissário Europeu para as Migrações, Magnus Brunner, sugeriu que as redes criminosas que espalham desinformação foram as culpadas – uma afirmação com a qual o governo espanhol concordou.

A onda de travessias recente ocorreu após a Suprema Corte da Espanha decidir que imigrantes interceptados no mar enquanto tentam chegar a Ceuta ou Melilla, outro enclave espanhol, não podem ser sumariamente devolvidos a Marrocos.

Marrocos, por sua vez, atribuiu a culpa pela crise ao tribunal, com uma fonte governamental não identificada informando à imprensa local que "o elemento dissuasor do sistema entrou em colapso e a barragem cedeu, não sob o peso dos criminosos, mas sim sob a decisão de um juiz".

O grande número de pessoas nadando para Ceuta ao mesmo tempo também levantou questionamentos sobre por que os guardas na fronteira do Marrocos não tentaram impedir os imigrantes,

Os dois enclaves são há muito tempo um pomo da discórdia diplomática entre a Espanha e o Marrocos, que não reconhece a soberania espanhola sobre eles.

https://www.bbc.com/portuguese

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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

PF investiga agenciadores de imigração ilegal para os EUA

 

 Antônio Lima/Gov AM

A Polícia Federal tem intensificado o combate aos grupos que promovem a imigração ilegal em Minas Gerais. Só em 2026 já foram deflagradas nove operações com esse objetivo no Estado.

A mais recente foi a Operação Ponto Final,  realizada esta semana em Governador Valadares, no leste mineiro, onde foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão.

Segundo a Polícia Federal, a investigação aponta que o grupo atuava há anos, aliciando pessoas interessadas em entrar ilegalmente nos Estados Unidos.  Mais de 50 vítimas teriam sido agenciadas, entre elas idosos, jovens, adolescentes e até crianças.  

As investigações indicam que os migrantes eram levados por rotas clandestinas até a fronteira entre o México e os Estados Unidos.  Alguns conseguiram entrar no país, outros foram presos pelas autoridades norte-americanas e deportados.

A Polícia Federal também identificou casos de pessoas que entregaram altas quantias em dinheiro, além de veículos, imóveis e outros bens, mas sequer embarcaram para a viagem, acumulando prejuízos financeiros.

Em outras situações, segundo a investigação,  os agenciadores aproveitavam a vulnerabilidade das vítimas na região de fronteira para exigir novos pagamentos antes da travessia.

Conforme a PF, a investigação continua para identificar todos os envolvidos, dimensionar a atuação do grupo e apurar a participação de outros beneficiários do esquema criminoso.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Metade dos africanos já pensou em emigrar, sobretudo jovens instruídos. Europa é o principal destino

 

A migração, causada por razões climáticas, conflitos ou alterações climáticas, tem tido "aumentos significativos"

AMPE ROGÉRIO/LUS

Metade dos africanos inquiridos já ponderou emigrar, sobretudo jovens instruídos, revelou esta quarta-feira um relatório do Afrobarometer, assinalando também forte apoio dos países ao comércio global e ao papel da China no continente.

Os cidadãos dos países da África Ocidental (34%), Central (24%) e Austral (23%) têm uma maior probabilidade de migrarem, sendo que a Gâmbia (53%) e a Libéria (51%) são os dois países onde os cidadãos são os mais propensos, segundo o relatório “Beyond Borders: Citizen Perspectives on a Shifting Global Order” (Além das Fronteiras: Perspetivas dos Cidadãos sobre uma Ordem Global em Transformação), tornado público em Acra, Gana, e que se baseia em dados de inquéritos representativos a nível nacional de 38 países africanos.

A migração, causada por razões climáticas, conflitos ou alterações climáticas, tem tido “aumentos significativos”.

Em contrapartida, o Togo (de 30% para 23%), São Tomé e Príncipe (de 35% para 31%) e o Maláui (de 28% para 25%) são os únicos países que registaram declínios significativos na proporção de pessoas que disseram ter pensado em sair do seu país.

Segundo o documento, os cidadãos que emigram são na sua maioria homens, que estão na casa dos 18 e 35 anos, e são mais instruídos. Também se revela que o desejo de migrar é mais popular nas áreas urbanas do que rurais.

Os dados revelam que menos pessoas querem ficar no continente africano, que desceu cerca de nove pontos percentuais, e mais pessoas olham além do continente, sendo o primeiro destino a Europa (29%), seguida da América do Norte (28%).

Quase metade dos inquiridos expressou que ter pessoas a mudarem-se para o seu país para trabalhar durante muito tempo é bom para a economia, à exceção de alguns países, como o Gabão (74%), África do Sul (69%) e República Popular do Congo (63%).

“Em África, ao contrário do resto do mundo, são, na verdade, os mais instruídos, os mais qualificados e os mais ricos que expressam a resistência mais forte aos imigrantes”, declarou a diretora de comunicação do Afrobarometer, Josephine Sanny, na divulgação do documento.

A maioria dos entrevistados defendeu a abertura das economias ao comércio e favoreceu conexões globais, mas o conhecimento sobre o Acordo de Livre Comércio Continental Africano (AfCFTA, na sigla inglesa) permanece residual.

Segundo dados do inquérito, 62% dos inquiridos consideram que os governos devem facilitar o comércio internacional, uma preferência maioritária em 32 das nações analisadas, embora países como Angola, Gâmbia, Madagáscar e Mauritânia ainda prefiram trocas limitadas.

Além disso, 66% apoiam a expansão das relações comerciais a nível global, sendo o Maláui e o Mali as únicas exceções que priorizam esta abertura mundial.

Em relação às potências globais, mais de 60% dos inquiridos veem a China como uma influência positiva.

Já os Estados Unidos continuam a ser vistos como uma influência positiva, mas desceram seis pontos percentuais e aumentou outros sete na influência negativa.

Além destas potências globais, a União Europeia é a terceira a ter uma influência positiva, seguida das antigas potências coloniais, da Índia e da Rússia.

A influência a nível de organismos, como a União Africana e outras organizações económicas regionais, é vista pelos entrevistados como favorável.

A opinião da maioria dos inquiridos face a organismos internacionais, como a ONU e o seu Conselho de Segurança, regista 71% a afirmarem que o seu país deveria ter uma maior influência no poder de decisão, à exceção de Angola, segundo Sanny.

“Cada vez mais africanos dizem que os países ricos e desenvolvidos são os principais responsáveis pela ação climática”, concluiu a diretora de comunicação.

No relatório apresentam-se as opiniões dos cidadãos relativamente ao comércio transfronteiriço e à integração económica, à migração, ao papel e à influência de África na governação global e às perceções sobre a influência das principais potências globais no continente.

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