sábado, 8 de agosto de 2026

Espanha impõe controles de fronteira a viajantes vindos da Itália em meio a disputa sobre imigração

 

Centenas de migrantes foram fotografados em fila em uma praia em Ceuta para receber ajuda humanitária

Getty Imagem 

Henry Moore

A Espanha adotou controles de fronteira para todo o tráfego aéreo e marítimo proveniente da Itália, em meio ao agravamento das tensões entre os dois países da União Europeia (UE).

As medidas — que começaram a valer à meia-noite deste sábado (08/08) no horário local e durarão um mês — vêm uma semana depois de a Itália ter introduzido restrições semelhantes após a entrada de cerca de 78 mil imigrantes do Marrocos em Ceuta, cidade espanhola localizada no litoral norte da África.

Com a imposição dos controles fronteiriços, pessoas que entram na Espanha provenientes da Itália precisarão passar por checagem de documentos — algo que não acontece normalmente devido à criação da área de livre circulação na Europa, chamdada de Espaço de Schengen.

Na sexta-feira (07/08), a Espanha exigiu que a Itália revertesse as verificações até domingo. Roma disse que elas permaneceriam em vigor pelo menos até 15 de agosto — quando, segundo o governo italiano, a Espanha "espera uma nova onda de imigração" em Ceuta.

A crise colocou o líder de esquerda Espanha, Pedro Sánchez, em conflito com a primeira-ministra conservadora da Itália, Giorgia Meloni — que há muito tempo defende regras de migração mais rígidas para a UE.

A Itália não compartilha uma fronteira terrestre com a Espanha. Seu governo afirmou na semana passada que a decisão de suspender temporariamente o acordo de livre circulação de pessoas do Espaço Schengen visava impedir que qualquer um dos migrantes que entraram em Ceuta viajasse para a Itália.

Madri rejeitou essa posição, dizendo que ela se baseava em "argumentos espúrios" que careciam de qualquer fundamento, pois os migrantes que entraram em Ceuta não tinham como entrar na área Schengen.

Em sua resposta à ameaça espanhola na sexta-feira, o governo italiano afirmou que não aceitaria "ultimatos". Acrescentou que não pretendia "em hipótese alguma reconsiderar a decisão de suspender a aplicação do Acordo de Schengen para cidadãos de países terceiros que chegam da Espanha, pelo menos até 15 de agosto e, em qualquer caso, até que os riscos de segurança e terrorismo para a Itália sejam completamente eliminados".

Autoridades italianas afirmaram que as autoridades locais que realizam as verificações fazem "todo o possível" para garantir o máximo conforto tanto para os cidadãos espanhóis quanto para os de outros países europeus que chegam à Itália vindos da Espanha.

Roma também reiterou que os cidadãos espanhóis estão isentos de verificações adicionais ao chegarem à Itália, sendo essas etapas extras aplicáveis ​​apenas a residentes de países não pertencentes à UE.

No entanto, o jornal El País noticiou que vários terminais aeroportuários registraram longas filas e tempos de espera nos últimos dias, com passageiros provenientes da Espanha sendo direcionados a uma fila específica para verificações.

As contramedidas que Madri decidiu impor na sexta-feira incluem verificações de passaporte, nacionalidade e visto para passageiros italianos e visitantes de outros países que chegam da Itália "em meio à persistente pressão migratória irregular" que o país vem enfrentando, segundo um comunicado do governo espanhol.

As verificações permanecerão em vigor até 7 de setembro, "a menos que uma mudança nas circunstâncias que levaram à sua adoção justifique a modificação desse período".

O líder de esquerda Espanha, Pedro Sánchez, e a primeira-ministra conservadora da Itália, Giorgia Meloni

Crédito,NurPhoto via Getty Images

Legenda da foto,A crise colocou o líder de esquerda Espanha, Pedro Sánchez, em conflito com a primeira-ministra conservadora da Itália, Giorgia Meloni

Suspensões temporárias do acordo de Schengen não são inéditas. A Itália também mantém controles em sua fronteira com a Eslovênia.

A decisão da Itália de suspender o acordo de Schengen por um mês foi apoiada pela Finlândia e pela Dinamarca, enquanto a República Tcheca pediu a suspensão temporária da Espanha da zona de livre circulação.

A maioria dos imigrantes que chegaram a Ceuta na semana passada retornaram ao Marrocos em poucos dias. Acredita-se que cerca de 100 pessoas tenham morrido durante a travessia.

Cerca de 1.400 menores, alguns deles "meninos e meninas muito jovens", ainda permanecem em Ceuta.

A Espanha não anunciou a chegafa uma segunda onda de travessias vindas de Marrocos.

Mas segundo uma reportagem do serviço da BBC em árabe, dezenas de publicações foram feitas no Facebook convocando uma segunda travessia em meados de agosto. Alguns desses posts anunciavam a venda de equipamentos de natação.

Seis dos grupos onde as postagens estavam sendo publicadas tinham mais de 100.000 seguidores. A Meta afirma ter removido as publicações que violam sua política.

O gabinete do primeiro-ministro espanhol disse ao jornal El País que estava monitorando a situação, mas afirmou que não esperava uma repetição das cenas da semana passada.

Gráfico composto mostrando o enclave espanhol de Ceuta na costa norte-africana. O painel superior é um mapa de satélite que localiza Ceuta entre Marrocos e Espanha, com legendas incluindo Benzú, Tarajal e a Península de Almina, e um mapa embutido mostrando sua posição entre a Espanha e Marrocos. O painel inferior mostra dezenas de migrantes no mar e reunidos em rochas perto de uma cerca de fronteira, ilustrando uma rota ao redor da fronteira costeira. Gráfico da BBC usando imagens da Getty Images.

Ainda não está claro exatamente por que dezenas de milhares de imigrantes tentaram atravessar para Ceuta, mas o Comissário Europeu para as Migrações, Magnus Brunner, sugeriu que as redes criminosas que espalham desinformação foram as culpadas – uma afirmação com a qual o governo espanhol concordou.

A onda de travessias recente ocorreu após a Suprema Corte da Espanha decidir que imigrantes interceptados no mar enquanto tentam chegar a Ceuta ou Melilla, outro enclave espanhol, não podem ser sumariamente devolvidos a Marrocos.

Marrocos, por sua vez, atribuiu a culpa pela crise ao tribunal, com uma fonte governamental não identificada informando à imprensa local que "o elemento dissuasor do sistema entrou em colapso e a barragem cedeu, não sob o peso dos criminosos, mas sim sob a decisão de um juiz".

O grande número de pessoas nadando para Ceuta ao mesmo tempo também levantou questionamentos sobre por que os guardas na fronteira do Marrocos não tentaram impedir os imigrantes,

Os dois enclaves são há muito tempo um pomo da discórdia diplomática entre a Espanha e o Marrocos, que não reconhece a soberania espanhola sobre eles.

https://www.bbc.com/portuguese

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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

PF investiga agenciadores de imigração ilegal para os EUA

 

 Antônio Lima/Gov AM

A Polícia Federal tem intensificado o combate aos grupos que promovem a imigração ilegal em Minas Gerais. Só em 2026 já foram deflagradas nove operações com esse objetivo no Estado.

A mais recente foi a Operação Ponto Final,  realizada esta semana em Governador Valadares, no leste mineiro, onde foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão.

Segundo a Polícia Federal, a investigação aponta que o grupo atuava há anos, aliciando pessoas interessadas em entrar ilegalmente nos Estados Unidos.  Mais de 50 vítimas teriam sido agenciadas, entre elas idosos, jovens, adolescentes e até crianças.  

As investigações indicam que os migrantes eram levados por rotas clandestinas até a fronteira entre o México e os Estados Unidos.  Alguns conseguiram entrar no país, outros foram presos pelas autoridades norte-americanas e deportados.

A Polícia Federal também identificou casos de pessoas que entregaram altas quantias em dinheiro, além de veículos, imóveis e outros bens, mas sequer embarcaram para a viagem, acumulando prejuízos financeiros.

Em outras situações, segundo a investigação,  os agenciadores aproveitavam a vulnerabilidade das vítimas na região de fronteira para exigir novos pagamentos antes da travessia.

Conforme a PF, a investigação continua para identificar todos os envolvidos, dimensionar a atuação do grupo e apurar a participação de outros beneficiários do esquema criminoso.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Metade dos africanos já pensou em emigrar, sobretudo jovens instruídos. Europa é o principal destino

 

A migração, causada por razões climáticas, conflitos ou alterações climáticas, tem tido "aumentos significativos"

AMPE ROGÉRIO/LUS

Metade dos africanos inquiridos já ponderou emigrar, sobretudo jovens instruídos, revelou esta quarta-feira um relatório do Afrobarometer, assinalando também forte apoio dos países ao comércio global e ao papel da China no continente.

Os cidadãos dos países da África Ocidental (34%), Central (24%) e Austral (23%) têm uma maior probabilidade de migrarem, sendo que a Gâmbia (53%) e a Libéria (51%) são os dois países onde os cidadãos são os mais propensos, segundo o relatório “Beyond Borders: Citizen Perspectives on a Shifting Global Order” (Além das Fronteiras: Perspetivas dos Cidadãos sobre uma Ordem Global em Transformação), tornado público em Acra, Gana, e que se baseia em dados de inquéritos representativos a nível nacional de 38 países africanos.

A migração, causada por razões climáticas, conflitos ou alterações climáticas, tem tido “aumentos significativos”.

Em contrapartida, o Togo (de 30% para 23%), São Tomé e Príncipe (de 35% para 31%) e o Maláui (de 28% para 25%) são os únicos países que registaram declínios significativos na proporção de pessoas que disseram ter pensado em sair do seu país.

Segundo o documento, os cidadãos que emigram são na sua maioria homens, que estão na casa dos 18 e 35 anos, e são mais instruídos. Também se revela que o desejo de migrar é mais popular nas áreas urbanas do que rurais.

Os dados revelam que menos pessoas querem ficar no continente africano, que desceu cerca de nove pontos percentuais, e mais pessoas olham além do continente, sendo o primeiro destino a Europa (29%), seguida da América do Norte (28%).

Quase metade dos inquiridos expressou que ter pessoas a mudarem-se para o seu país para trabalhar durante muito tempo é bom para a economia, à exceção de alguns países, como o Gabão (74%), África do Sul (69%) e República Popular do Congo (63%).

“Em África, ao contrário do resto do mundo, são, na verdade, os mais instruídos, os mais qualificados e os mais ricos que expressam a resistência mais forte aos imigrantes”, declarou a diretora de comunicação do Afrobarometer, Josephine Sanny, na divulgação do documento.

A maioria dos entrevistados defendeu a abertura das economias ao comércio e favoreceu conexões globais, mas o conhecimento sobre o Acordo de Livre Comércio Continental Africano (AfCFTA, na sigla inglesa) permanece residual.

Segundo dados do inquérito, 62% dos inquiridos consideram que os governos devem facilitar o comércio internacional, uma preferência maioritária em 32 das nações analisadas, embora países como Angola, Gâmbia, Madagáscar e Mauritânia ainda prefiram trocas limitadas.

Além disso, 66% apoiam a expansão das relações comerciais a nível global, sendo o Maláui e o Mali as únicas exceções que priorizam esta abertura mundial.

Em relação às potências globais, mais de 60% dos inquiridos veem a China como uma influência positiva.

Já os Estados Unidos continuam a ser vistos como uma influência positiva, mas desceram seis pontos percentuais e aumentou outros sete na influência negativa.

Além destas potências globais, a União Europeia é a terceira a ter uma influência positiva, seguida das antigas potências coloniais, da Índia e da Rússia.

A influência a nível de organismos, como a União Africana e outras organizações económicas regionais, é vista pelos entrevistados como favorável.

A opinião da maioria dos inquiridos face a organismos internacionais, como a ONU e o seu Conselho de Segurança, regista 71% a afirmarem que o seu país deveria ter uma maior influência no poder de decisão, à exceção de Angola, segundo Sanny.

“Cada vez mais africanos dizem que os países ricos e desenvolvidos são os principais responsáveis pela ação climática”, concluiu a diretora de comunicação.

No relatório apresentam-se as opiniões dos cidadãos relativamente ao comércio transfronteiriço e à integração económica, à migração, ao papel e à influência de África na governação global e às perceções sobre a influência das principais potências globais no continente.

https://observador.pt/

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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Mulheres moldam novas dinâmicas migratórias na Europa e Ásia Central

© OIT/Chalalai Taesilapasathit Relatório aponta que as migrantes continuam enfrentando desigualdades estruturais, insegurança no status legal e desqualificação profissional.

 Relatório da ONU Mulheres mostra que elas representam 54% dos migrantes na região, deslocando-se em busca de educação, trabalho digno e segurança; apesar disso, enfrentam barreiras como super qualificação profissional, empregos informais e vulnerabilidade ao tráfico humano. 

Uma das características socioeconômicas do século 21 são as migrações. Na Europa e na Ásia Central, esse fenômeno assume diversas formas e sobreposições, pois a região é um local de origem, trânsito e destino. 

Nesse cenário, as mulheres são agentes fundamentais na redefinição das dinâmicas de deslocamentos. De acordo com o novo relatório da ONU Mulheres, elas representam 54% de todos os migrantes nessa área.

Migração não é neutra

O estudo revela que mais de 13 milhões de mulheres nascidas na Europa e na Ásia Central vivem no exterior, enquanto a região abriga mais de 9,5 milhões de migrantes de várias partes do mundo. 

Elas se deslocam cada vez menos motivadas por razões familiares, e mais em busca de educação, trabalho digno, oportunidades econômicas e segurança. 

Para a diretora regional da ONU Mulheres para a Europa e Ásia Central, Belén Sanz Luque, o relatório desmente a visão de que a migração é neutra em relação ao gênero. As mulheres estão moldando a região como estudantes, trabalhadoras, cuidadoras, empreendedoras, refugiadas e líderes comunitárias.

Uma mulher com um suéter cinza está sentada em uma mesa de escritório, gesticulando enquanto conversa com outra mulher que usa gorro e casaco de inverno.
ONU News/Ganna Radomska Katerina Gracheva (à esquerda) é consultora em questões de integração de migrantes e trabalha na Alemanha

Complexo contexto geopolítico

A alteração nos padrões migratórios ocorre em um complexo contexto geopolítico: a guerra na Ucrânia, tensões geopolíticas no Sul do Cáucaso e dinâmicas pós-conflito nos Bálcãs Ocidentais.

Segundo o relatório, entre 2022 e 2024, as mulheres representaram 61% dos migrantes que chegaram à União Europeia vindos da Moldávia e 56% dos partidos da Ucrânia. 

Os principais locais de destino são Alemanha, Itália, República Tcheca, Espanha e Portugal, respectivamente.

Super qualificação profissional

As migrações femininas são motivadas pelo avanço na educação e na carreira profissional. No entanto, elas enfrentam barreiras para encontrar empregos compatíveis com suas qualificações.

Mais da metade dos estudantes no exterior vindos da Turquia e dos Bálcãs Ocidentais são mulheres, contudo, 55% das mulheres migrantes são hiper qualificadas para seus empregos em Kosovo.

Já na Albânia, 50% enfrentam super qualificação, enquanto na Macedônia do Norte, quase 45% ocupam cargos abaixo de seus níveis de formação acadêmica.

Embora a migração abra novos caminhos para a independência, o relatório aponta que as migrantes continuam enfrentando desigualdades estruturais, insegurança no status legal e desqualificação profissional.

Trabalho informal

O envelhecimento populacional tem gerado demanda nos setores de cuidados de longa duração, trabalho doméstico, hotelaria e comércio varejista. 

De acordo com os dados do estudo, entre 30% e 50% das mulheres migrantes do Quirguistão e do Tadjiquistão trabalham nessas áreas. 

Por serem empregos frequentemente informais, elas enfrentam riscos de roubo de salários, condições ruins de trabalho, exploração e violência de gênero. 

Na Turquia, embora representem uma parte significativa da população migrante, recebem apenas 27,2% das autorizações de trabalho emitidas.

Uma figura em silhueta fica atrás de uma porta de vidro fosco com lâminas horizontais, enquanto uma pessoa no primeiro plano a filma.
IOM A maioria dos casos de tráfico de pessoas para exploração sexual envolve mulheres

Tráfico humano

O relatório identifica o tráfico humano como uma crise profundamente marcada pelas questões de gênero na região.

Em Kosovo, 93% das vítimas de tráfico identificadas são mulheres e meninas.

82% das vítimas identificadas entre 2019 e 2023 eram do sexo feminino na Turquia, com mais da metade dos casos envolvendo exploração sexual, seguida de exploração laboral.

Outros países com estatísticas expressivas de exploração de mulheres como resultado de tráfico humano são Montenegro, com 81%, e a Albânia, com 74%.

As pessoas provenientes de grupos marginalizados enfrentam maior vulnerabilidade e barreiras sistêmicas ao tentar acessar proteção, justiça e apoio de longo prazo.

Governança migratória

Como resposta, a ONU Mulheres apresenta um conjunto de recomendações para transformar a governança migratória na Europa e Ásia Central em um modelo que considere os desafios enfrentados pelo gênero feminino.

Alinhado às especificidades regionais e aos sistemas de dados, cooperação regional e prestação de contas, para mitigar as desigualdades estruturais, propõe-se a padronização e expansão de indicadores migratórios detalhados que capturem realidades como o trabalho informal e as tarefas de cuidado.

Além disso, a aplicação efetiva de tratados internacionais em políticas nacionais que protejam os direitos trabalhistas e garantam o acesso universal à prevenção da violência de gênero. 

Políticas públicas

O documento enfatiza a necessidade de fortalecer a cooperação transfronteiriça no combate ao tráfico humano e na mobilidade de direitos sociais, assegurando a inclusão de mulheres migrantes na formulação de políticas públicas. 

Localmente, a agência indica a eliminação de entraves administrativos e contratuais nos Bálcãs Ocidentais e na Turquia, o combate à desqualificação profissional de refugiadas na Europa Oriental e a superação da apatridia na Ásia Central e no Sul do Cáucaso. 


https://news.un.org/pt

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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Migrantes escondidos em Ceuta enfrentam fome e medo: 'Só quero trabalhar'



Escondidos atrás de escadarias, nas colinas ou em galpões abandonados, eles aguardam a passagem da polícia ou do Exército.

Em Ceuta, após a chegada em massa de dezenas de milhares de migrantes na última quinta-feira (30) - a maioria dos quais já retornou ao território marroquino -, uma crise humanitária se agrava, com jovens passando fome e moradores divididos entre a solidariedade e o medo.

"A vida aqui segue dia após dia. As coisas vão bem com as pessoas, mas não com a polícia", declarou Muhad, um jovem de 20 anos que deixou Marrocos e fez a travessia a nado com seu amigo Achim, à emissora TVE.

Mohamed, de 19 anos, também estava com eles, mas não conseguiu; morreu a poucos metros da costa. "Eu gritava: 'Vamos, Mohamed', mas não pude ajudá-lo", relata o jovem.

A família da vítima ainda não sabe que o filho morreu, enquanto a família de Muhad desconhece que ele conseguiu chegar a Ceuta.

Há dias, parentes e amigos de ambos os lados da fronteira buscam

 desesperadamente notícias sobre as muitas pessoas desaparecidas.

Segundo a Associação Marroquina de Direitos Humanos (Amdh), o número de mortos ultrapassa 130, com dezenas de outros desaparecidos, embora as autoridades ainda não tenham divulgado números oficiais.

O centro de acolhimento de Ceuta permanece inacessível, superlotado e sob forte segurança. Consequentemente, a maioria das centenas de migrantes que ainda se recusam a deixar o enclave é forçada a viver escondida.

"Só estou tentando construir uma vida para mim. Minha mãe está no Marrocos e tenho um irmãozinho doente que precisa de insulina", diz Muhad, que espera se reunir com parentes na Holanda ou na Itália.

"Não vim aqui para roubar; quero trabalhar. Falo espanhol e italiano e tenho formação como eletricista. Agora, só me resta torcer por um golpe de sorte para não ser mandado de volta para casa", afirma.

Entre aqueles que permanecem no enclave, não estão apenas marroquinos, mas também sudaneses que fogem da guerra e muitos africanos subsaarianos em busca de asilo e tentando evitar a deportação.

Os sentimentos na comunidade de Ceuta são contraditórios: "Estamos acostumados a ajudar como podemos", explica Mohamed Ali, que distribui água aos jovens escondidos. "Eles chegam de roupa de banho, sem nada; muitos não comem há dias. Como negar a alguém uma garrafa de água ou um telefonema?", diz ele à Ceuta TV.

Outros, no entanto, admitem viver em um estado de incerteza. "Sentimo-nos inseguros; nunca vimos uma chegada em massa como essa e não sabemos o que esperar", diz Maria José, que reabriu sua padaria após três dias fechada.

Por trás das histórias dos jovens escondidos nas ruas de Ceuta, há uma realidade mais ampla: a de uma fronteira que, há muito tempo, é um foco de tensão política.

Helena Maleno, porta-voz da ONG Caminando Fronteras, convida as pessoas a olharem além das chegadas dos migrantes.

"A narrativa sobre redes criminosas de tráfico de pessoas já não basta para mascarar as consequências de políticas que transformaram a mobilidade humana em uma ferramenta de pressão política entre nações", explica ela.

Ela também ressalta que muitos dos jovens marroquinos que chegaram à fronteira de Tarajal "já haviam manifestado demandas por justiça social durante protestos no Marrocos — as mesmas aspirações que agora depositam na emigração".

Maleno também chama a atenção para os muitos menores deixados sem proteção: "É inaceitável que crianças e adolescentes durmam na rua".  

https://ansabrasil.com.br/

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sábado, 1 de agosto de 2026

População de imigrantes sem status permanente nos EUA atinge 15,8 milhões, aponta estudo



 A população de imigrantes que vivem nos Estados Unidos sem residência permanente ou outro status migratório definitivo alcançou um novo patamar em 2024. É o que aponta um relatório divulgado nesta quarta-feira pelo Migration Policy Institute (MPI), que estima esse grupo em cerca de 15,8 milhões de pessoas, o maior número já registrado pela instituição.

Segundo o estudo, antes de 2019 esse contingente era estimado em aproximadamente 11 milhões de pessoas. O crescimento observado nos últimos anos foi impulsionado por uma combinação de fatores, entre eles a recuperação da economia americana após a pandemia, crises políticas e de segurança em diversos países das Américas e o aumento da chegada de migrantes pela fronteira sudoeste dos Estados Unidos.

De acordo com o relatório, entre 2019 e 2024 a população analisada cresceu cerca de 5 milhões de pessoas, o equivalente a uma média de aproximadamente 8% ao ano.

Mudança no perfil dos países de origem

Embora o México continue sendo o principal país de origem, com uma estimativa de 5,5 milhões de pessoas, sua participação relativa diminuiu ao longo dos últimos anos.

Em contrapartida, aumentou significativamente a presença de migrantes vindos da América Central e da América do Sul, especialmente de países como Equador, Colômbia, Venezuela, Guatemala e Honduras.

O estudo estima que, em meados de 2024, havia aproximadamente:

  • 4,3 milhões de pessoas originárias da América Central;
  • 2,2 milhões provenientes da América do Sul.

Esses números representam um crescimento expressivo em comparação com 2019.

Proteções temporárias

Outro ponto destacado pelo MPI é que uma parcela significativa dessas pessoas possuía, em 2024, algum tipo de proteção migratória temporária concedida pelas autoridades americanas.

Entre essas modalidades estavam programas como:

  • Status de Proteção Temporária (TPS);
  • DACA;
  • Autorizações de trabalho;
  • Programas de permanência humanitária.

O relatório estima que cerca de 6,3 milhões de pessoas, ou aproximadamente 40% da população analisada, estavam nessa situação, caracterizada pelo instituto como um status temporário que oferece autorização para permanecer e trabalhar no país por determinado período, mas que não representa um caminho automático para a residência permanente.

Mudanças recentes

O levantamento observa que, desde o início de 2025, diversas alterações nas políticas migratórias levaram parte dessas pessoas a perder algumas das proteções temporárias anteriormente disponíveis.

O estudo também cita decisões judiciais e mudanças administrativas que impactaram programas voltados a determinados grupos de imigrantes, modificando o cenário migratório nos Estados Unidos ao longo do último ano.

Fronteira registra queda nas chegadas

Apesar do crescimento acumulado da população analisada, o relatório aponta que as chegadas irregulares na fronteira entre Estados Unidos e México diminuíram entre 2023 e 2024.

Segundo o MPI, essa redução ocorreu após mudanças nas regras relacionadas aos pedidos de asilo implementadas pelo governo americano na época, além do reforço das ações de fiscalização por parte das autoridades mexicanas na região de fronteira.

O instituto ressalta que os dados representam estimativas baseadas em diferentes fontes estatísticas e metodologias de pesquisa utilizadas para acompanhar a evolução da população migrante nos Estados Unidos.

https://www.braziliantimes.com/

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