sexta-feira, 6 de novembro de 2026

'Quase todo meu dinheiro está preso no banco': brasileiros que foram para o Paraguai são afetados pela crise no país



A brasileira Renata de Brito, de 44 anos, tomou um susto quando abriu o aplicativo do Ueno Bank, no Paraguai, e não conseguiu mais acessar sua conta, na terça-feira (3/11).

Era no banco que ela guardava todas as suas economias e recebia os pagamentos feitos pelos seus clientes na lanchonete que mantém na cidade de Hernandarias, perto da fronteira com o Brasil.

"Me falaram que estava bloqueado quando tentaram fazer um pagamento para mim. Quando fui ver, não acessava mais nada. Estou muito preocupada pelo meu negócio", diz Renata, que usava a maquininha de pagamentos do banco.

A crise no Ueno Bank levou o presidente paraguaio, Santiago Peña, a afirmar nesta quinta (5/11) que renunciaria ao cargo. No entanto, o Congresso não chancelou sua renúncia, preferindo seguir com a análise de um pedido de impeachment — que voltará a ser analisado em sessão nessa sexta-feira (6/11).

A instituição sofreu intervenção do Banco Central do Paraguai na terça após ser constatado que seu índice de solvência caiu para menos da metade do mínimo exigido. O banco era um dos principais do Paraguai: segundo dados da própria instituição, tinha 3 milhões de clientes, o equivalente a 60% da população adulta do país. São pessoas que estão com suas economias bloqueadas.

Também havia milhões de dólares em recursos públicos, especialmente da previdência social, administrados pelos bancos.

O Fundo de Garantia de Depósitos do Paraguai cobre depósitos de até 228 milhões de guaranis por pessoa (cerca de R$ 211 mil). O Banco Central do país chegou a garantir o ressarcimento e afirmou que ainda precisa avaliar se conseguirá cobrir valores acima desse limite.

O economista Alexandre Barros da Costa, pesquisador que acompanha a economia paraguaia na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) e Universidade Federal do Paraná (UFPR), estima que a crise no Ueno pode afetar dezenas de milhares de brasileiros que moram no país.

Isso porque, segundo Costa, o banco atrai imigrantes pela facilidade de abertura de contas.

"A falta de burocracia e o cadastro rápido fizeram com que ele se tornasse a primeira opção para milhares de estudantes de medicina, pequenos comerciantes da fronteira, produtores rurais, investidores", diz o economista.

"E essa paralisação gera crise imediata no pagamento de aluguel, mensalidade, alimentação dessas pessoas."

Renata de Brito diz que escolheu o banco justamente pela facilidade e por ser uma empresa disseminada no país. "Era um banco que patrocinava clubes de futebol, com muita propaganda. Então, essa facilidade atraía", diz ela, que se mudou para o país para ter uma vida mais tranquila após ser afetada pelas enchentes no Rio Grande do Sul.

Segundo a brasileira, ela já havia pago todas as contas que venciam esse mês. Mas ela teme que até o fim de novembro, quando precisa pagar a parcela de um apartamento que comprou, não tenha seu dinheiro de volta. O pouco que ela tem em recursos físicos é para manter o caixa do seu negócio, uma lanchonete.

"O meu plano B é tentar realocar recursos que ainda recebo no Brasil devido à venda de um sítio", explica.

Segundo estimativas do Ministério das Relações Exteriores, em 2025 havia 270 mil brasileiros vivendo no Paraguai, a maior comunidade na América do Sul, e a terceira no mundo, atrás apenas de EUA e Portugal.

Mas tem havido uma onda recente de brasileiros indo ao Paraguai, como revelado pela BBC News Brasil em abril deste ano, motivados por questões econômicas e políticas.

Uma dessas pessoas é a empresária Erika Silva, 41 anos, que está de malas prontas para se mudar de vez de São Paulo para o Paraguai.

Como já tem feito negócios de importação e exportação no país, ela abriu uma conta no Ueno Bank e tem deixado um valor baixo para gastos pontuais quando está no país. Agora, o recurso está bloqueado.

"Como era pouco, está tudo bem. Não vou voltar atrás de ir para lá, porque pior que está aqui no Brasil não fica", avalia.

Segundo a empresária, há muitos brasileiros com recursos presos, mas a maioria não tinha toda a economia investida no Ueno, justamente por ser um banco digital.

Mas, diz ela, isso não mudou "o pensamento dos brasileiros que se mudaram". Em geral, são pessoas em busca de pagar menos impostos e insatisfeitas com a política brasileira.

Perguntada se o envolvimento de Peña na crise poderiam levar a uma reavaliação sobre as expectativas sobre o Paraguai, Erika afirma que não.

"O meu único receio é se assumir um político de esquerda. Vou ser sincera, se isso acontecer, aí eu não vou mais investir no Paraguai", diz.

Impacto na economia paraguaia

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, fala ao microfone, usando terno e gravata escuros
Legenda da foto,O escândalo do Ueno Bank fez Peña anunciar que deixaria o cargo

Segundo o economista Alexandre Barros da Costa, ainda vai levar um tempo para saber com precisão a extensão total dos danos da crise do Ueno à economia paraguaia.

Mas o pesquisador avalia que os danos tendem a ser mais de curto prazo.

"É fato que agora, no curto prazo, haverá um choque na economia paraguaia pela redução do consumo das famílias e pelo impacto nos pequenos comerciantes que dependem dessa massa salarial bloqueada no Ueno para girar o negócio."

"Mas, apesar dessa crise, os dados macroeconômicos do Paraguai como um todo estão estáveis. Não há que se falar em desespero em termos de macroeconomia. Não avalio que o sistema financeiro enfrenta uma crise em função dessa intervenção", defende.

Segundo Costa, o crescimento do Paraguai nos últimos anos, acima da média da região, está também ligado ao processo de bancarização do país, com a entrada de milhões de pessoas no sistema bancário.

"Os depósitos privados das pessoas físicas e jurídicas no sistema bancário têm saltado 19% ao ano. É um ambiente de inclusão financeira, de fintechs e bancos digitais que impulsionaram a abertura massiva de contas e contribuíram com crescimento do PIB paraguaio."

Para o professor, chamar o caso Ueno de "Master paraguaio", em comparação com a crise do banco de Daniel Vorcaro no Brasil, é pertinente em alguns aspectos, especialmente no que diz respeito à alocação de recursos públicos da previdência e o modis operandi de uma fraude, se ela for comprovada.

"São bancos que utilizaram dessa proteção financeira do Fundo Garantidor pra atrair investimentos e, depois, quando 'quebra', quem arca são bancos sérios do mercado financeiro que aportam dinheiro no fundo. E claro que esses bancos terão que recompor o fundo e pode repassar para os clientes. Então, a sociedade arca sim pela má gestão", diz.

"Mas o impacto proporcional no Paraguai tende ser significativamente maior e socialmente mais grave que o Master, embora ache que a economia paraguaia não se desestabilizará", completa.

Reportagens na imprensa paraguaia indicam que os recursos públicos paraguaios no Ueno somam cerca de 850 milhões de dólares, representando quase 2% do PIB.

Agora, no país, tem havido uma corrida a outros bancos para pessoas que tinham conta no Ueno tentarem novo acesso ao sistema financeiro.

A brasileira Renata de Brito tem corrido para abrir uma nova conta e conseguir uma nova maquininha, enfrentando as filas que tomaram conta das agências pelo país.

Ela espera que haja uma resolução no país, com mobilização para devolução dos recursos nos próximos dias. "Mas sinceramente não sei se renúncia do presidente vai ajudar nessa resolução", diz, aflita.

Escândalo no Paraguai

A intervenção no banco é o desfecho de um escândalo que tem marcado o governo do presidente Santiago Peña desde que ele assumiu o cargo, em 2023.

Peña figurava como acionista da Ueno Holding, que reúne empresas como a Ueno Seguros, a itti e o Grupo Vázquez, principal acionista do Ueno Bank.

No início de 2025, o presidente afirmou que havia deixado de ser acionista da holding e negou qualquer ligação com o banco.

"Eu fui investidor, sou economista, me especializei em Finanças e fiz um investimento há seis anos na empresa Credi Centro, que posteriormente se transformou na Ueno Holding. Nunca foi o banco Ueno. Não tenho nenhuma ligação com o banco Ueno", declarou a um grupo de jornalistas em abril de 2025.

Pouco depois de tomar posse, Peña nomeou Carlos Carvallo, então presidente-executivo do Ueno Bank, para comandar o Banco Central do Paraguai. A decisão foi criticada por pessoas que apontaram um conflito de interesses.

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quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Amnistia Internacional eleva para 50 casos de maus-tratos por militares a migrantes em Ceuta

 

EPA/REDUAN

A ONG apela a uma investigação rápida, imparcial e exaustiva sobre os abusos documentados, "afastando preventivamente" os militares envolvidos e determinando as responsabilidades penais e disciplinares correspondentes.

A Amnistia Internacional (AI) denunciou esta quinta-feira mais 28 casos de espancamentos, humilhações e abusos por militares contra migrantes que permanecem em Ceuta depois da entrada em largo número em julho, elevando para 50 os casos documentados.

A ONG apela a uma investigação rápida, imparcial e exaustiva sobre os abusos documentados, "afastando preventivamente" os militares envolvidos e determinando as responsabilidades penais e disciplinares correspondentes.

Após consultar o Ministério Público de Ceuta e o Ministério da Defesa, a organização diz não ter conhecimento de que algum soldado esteja a ser investigado ou tenha sido afastado do serviço, nem de que tenha sido concedida proteção contra possíveis represálias às vítimas ou testemunhas destas "violações dos direitos humanos".

De acordo com o novo relatório, 18 destes casos ocorreram após o anúncio do Ministério da Defesa de abrir uma investigação interna na sequência da primeira denúncia da organização não-governamental (ONG) - investigações sobre as quais a organização afirma não ter obtido qualquer informação do Governo.

Na sequência dessas primeiras denúncias da AI, e das informações publicadas pelo elDiario.es, vários tribunais de Ceuta deram início a investigações.

Além das agressões por parte de membros das forças armadas, esta nova publicação, realizada na sequência de uma nova visita à cidade autónoma entre 23 e 26 de outubro, regista sete casos de maus-tratos por parte da Polícia Nacional e da Guarda Civil.

Neste novo relatório, a organização documentou mais 10 casos — quatro dos quais envolvendo menores — de tortura e tratamento cruel, desumano ou degradante anteriores ao anúncio de uma investigação por parte do Ministério da Defesa, entre os quais se destacam quatro especialmente graves, que podem constituir atos de tortura.

Todos seguem um padrão semelhante, que começa com sequestro e o transporte num veículo militar para zonas isoladas e a utilização de abraçadeiras para imobilizar as mãos das vítimas.

De acordo com o relatório, foi o que aconteceu a M., um jovem de 20 anos que ganhava a vida a fazer mímica nas ruas de Ceuta e que foi levado durante 15 minutos para uma zona isolada, onde ficou rodeado por 16 ou 17 soldados que se riram dele e o obrigaram a tirar toda a roupa.

A organização refere que um dos militares o filmou com o telemóvel e ordenou que dançasse. Sem conseguir reagir, espancaram-no e um dos soldados pegou numa arma, carregou-a e, apontando-a, gritou: "Se não dançares, vou enterrar-te aqui mesmo".

A organização documentou espancamentos e agressões ocorridos após a publicação da primeira investigação, com socos, pontapés, golpes com bastões e uso de "taser" por parte de militares, geralmente da força regular, contra pessoas que se encontravam indefesas a dormir na rua.

Ataques que provocaram, conforme documentado pela ONG de forma gráfica e com relatórios médicos e testemunhos, fraturas nos membros e nas órbitas oculares, contusões, feridas erosivas, hematomas na zona lombar ou lacerações na cabeça compatíveis com golpes de cassetete, entre outras lesões.

Testemunhos como o de R., que, no passado dia 24 de outubro, acordou enquanto dormia na estrada de Sidi Embarek ao sentir o contacto de um taser no peito, com o qual lhe foram aplicadas várias descargas que provocaram tonturas, vómitos e desmaio. Ou como o do tunisino M., de 40 anos, que às sete da manhã se encontrava a dormir na praia de Benítez com outros três rapazes marroquinos quando chegaram quatro soldados e lhe deram socos na cara até causarem uma contusão que o deixou durante duas semanas sem visão num olho.

Agressões que as autoridades também perpetraram, de acordo com a investigação, contra migrantes menores de idade, alguns dos quais relataram abusos por parte de militares, tais como golpes com cassetetes enquanto dormiam na rua, roubos e destruição de telemóveis e outros pertences, incluindo a documentação, bem como ameaças, agressões e humilhações.

Na publicação, a AI questiona a atuação policial na sede da ONG No Name Kitchen, em 22 de outubro, e a "falsa acusação" de ter fornecido "spray" de pimenta a migrantes, como parte de uma escalada para "silenciar quem ajuda e presta ajuda humanitária".

Critica ainda a posição "especialmente preocupante" do Ministério Público de Ceuta neste caso, que solicitou prisão preventiva para dois ativistas, atitude que "contrasta radicalmente com a falta de proatividade" na investigação sobre as torturas e maus-tratos por parte dos militares.

DN/Lusa

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Visita canônica à Missão Paz do Superior Regional da Região Nossa Senhora Mãe dos Migrantes Padre Alexandre De Nardi Biolchi CS destaca a importância da ação evangelizadora junto aos migrantes e refugiados

                                   


 Foto Miguel Ahumada

Nos dias 3 e 4 de novembro de 2026, a Missão Paz, em São Paulo, recebeu a visita canônica do Superior Regional da Região Nossa Senhora Mãe dos Migrantes, Pe. Alexandre De Nardi Biolchi, CS. O encontro representa um momento de acompanhamento, reflexão e avaliação da caminhada missionária e pastoral da instituição, especialmente diante dos desafios da realidade migratória.

A visita canônica também constitui uma oportunidade para reafirmar a importância da Missão Paz na ação evangelizadora e no compromisso da Congregação com migrantes e refugiados.

A Missão Paz representa uma presença concreta da Igreja junto às pessoas que deixam seus países em busca de proteção, trabalho e novas oportunidades. Seu trabalho transforma os valores do Evangelho em práticas cotidianas de acolhida, escuta, solidariedade e promoção da dignidade humana.

Inspirada pelo carisma scalabriniano, a instituição coloca a pessoa migrante no centro de sua ação pastoral. A evangelização acontece no encontro com o outro, no reconhecimento de sua história, no respeito à sua cultura e na atenção às suas necessidades humanas, sociais e espirituais.

Celebrou missa  juntos aos padres da Igreja Nossa Senhora da Paz durante a homilia Padre Alexandre , diz acolher um migrante significa também reconhecer nele a presença de Cristo. Por meio de seus diferentes serviços, a Missão Paz oferece não apenas atendimento e orientação, mas também um espaço de convivência, esperança e reconstrução de projetos de vida.

Durante a visita, converso com as lideranças da igreja acolheu as demandas para desenvolver os trabalhos em conjunto com todas as comunidades que desenvolvem trabalho e lançou um desafio em três palavras importantes   Formação, Comunicação, Comunhão.



A  reflexão  sobre a missão evangelizadora ganha especial importância diante de uma realidade marcada por deslocamentos humanos, desafios de integração, vulnerabilidade social e busca por direitos. A experiência da Missão Paz demonstra que a evangelização não se limita aos espaços tradicionais de celebração religiosa, mas se realiza também nas ruas, nos espaços de acolhida e no cotidiano daqueles que mais necessitam de apoio.

A visita do Pe. Alexandre De Nardi Biolchi reforça, assim, a importância de fortalecer a presença missionária scalabriniana e renovar o compromisso com uma Igreja em saída, que acolhe, escuta e caminha ao lado dos migrantes.

Mais do que uma instituição de acolhimento, a Missão Paz é um espaço de encontro entre culturas, povos e histórias de vida. Sua ação evangelizadora testemunha que anunciar o Evangelho significa também defender a vida, promover a justiça, construir fraternidade e reconhecer a dignidade de cada pessoa, independentemente de sua origem .

Miguel Ahumada

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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Cresce circulação de notícias falsas contra migrantes, alerta ONU

 

Marcelo Camargo/Agência Brasil

Marcelo Camargo/Agência Brasil

Marcelo Camargo /Agencia Brasil 

A ONU alerta para o aumento da circulação de notícias falsas e informações distorcidas sobre migrantes. Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e a ACNUR, Agência da ONU para Refugiado, o uso crescente da inteligência artificial generativa tem acelerado a produção e a divulgação desse tipo de conteúdo, que contribui para ampliar a polarização social e a desconfiança da população.

A diretora-geral da Organização Internacional para as Migrações da ONU, Amy Pope, reforçou que informações falsas, as chamadas fake news,  “transformam ansiedade em suspeita e pessoas em alvos”. Como consequência, os migrantes ficam mais expostos a situações de risco.

Desafios e propostas

Durante encontro em Genebra, Amy apresentou três medidas para enfrentar esses desafios.

A primeira é ampliar a cooperação entre países que fazem parte das mesmas rotas migratórias. A proposta é criar caminhos regulares e seguros para os migrantes, reforçar a proteção nas fronteiras e garantir condições dignas para quem retorna ao país de origem.

A segunda medida é investir antecipadamente em comunidades afetadas por enchentes e perdas na agricultura. O objetivo é garantir condições para que as pessoas possam permanecer em suas regiões ou migrar com segurança, quando necessário.

Por fim, defendeu que as pessoas afetadas pela migração sejam ouvidas nas decisões. Também pediu o uso de dados confiáveis e de tecnologias que protejam informações pessoais e evitem a discriminação.

Segundo a ONU, mais de 304 milhões de pessoas vivem fora do país onde nasceram. Desse total, 168 milhões são trabalhadores migrantes.

Quase metade são mulheres e meninas, muitas delas expostas a riscos maiores de discriminação, abuso e exploração.

Edição:

Fabio Cardoso / Eliane Gonçalves

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sábado, 31 de outubro de 2026

Mais da metade das crianças migrantes nos EUA enfrentam processos sem ter advogado, diz instituto

  

Presidente Donald Trump é conhecido por defender restrições para imigrantesCrédito: KENT NISHIMURA / AFP

Mais da metade dos processos migratórios envolvendo crianças imigrantes desacompanhadas concluídos nos Estados Unidos entre janeiro e agosto de 2026 ocorreram sem representação jurídica. Segundo estimativa do Vera Institute of Justice, divulgada em 15 de outubro deste ano, 55% dos casos foram encerrados sem que os menores tivessem um advogado no processo.

Sem assistência jurídica, crianças e adolescentes podem ter dificuldades para compreender as audiências, apresentar provas e contestar decisões que determinem a saída deles do país. O problema envolve tanto a falta de profissionais para acompanhar os processos, quanto as dificuldades enfrentadas pelos menores para exercer os direitos previstos na legislação americana.

Segundo o instituto, mais de 770 mil crianças enfrentaram processos de deportação em tribunais de imigração dos EUA nos últimos 12 meses. Mais da metade não tinham advogado.

De acordo com a advogada e especialista em Direito Imigratório Nathasha Rocha, o sistema não assegura o pagamento de um defensor pelo governo para quem não tem condições de arcar com os custos. “A lei garante, sim, o direito de ter um advogado, mas ela não garante quem vai pagar por ele”, afirma.

Crianças desacompanhadas passam por processo específico

A primeira distinção necessária é entre crianças que chegam à fronteira sem um representante legal e aquelas que entram nos EUA acompanhadas pelos responsáveis. Segundo Nathasha, os procedimentos são diferentes, e as regras destinadas aos menores desacompanhados incluem o encaminhamento a um órgão de proteção.

Pela legislação americana, crianças identificadas nessa condição devem ser transferidas, em até 72 horas, para o Office of Refugee Resettlement (ORR), o Escritório de Reassentamento de Refugiados, vinculado ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos. O órgão é responsável por buscar um adulto que possa assumir os cuidados do menor no país.

“O ORR é uma autoridade, portanto, que fica dentro do Departamento de Saúde e não da Polícia de Imigração”, explica a advogada.

Até que um responsável seja aprovado, a criança pode permanecer em um abrigo sob custódia das autoridades. O adulto indicado, chamado de patrocinador, pode ser um parente ou alguém de confiança que já vive nos Estados Unidos. A liberação depende de verificações de identidade e antecedentes e, em alguns casos, de uma avaliação da residência.

Há casos, inclusive, de crianças que estão sendo mantidas em custódia por mais de 500 dias, por não terem ainda o seu processo de patrocínio, de fato, liberado

A advogada ressalta que a busca por um patrocinador não se confunde com a representação jurídica na corte. Enquanto o primeiro assume os cuidados do menor, o advogado é responsável por orientar a defesa durante o processo migratório. A falta de ambos pode tornar mais difícil reconstruir a história da criança e apresentar elementos relevantes para a análise do caso.

Por que o governo não fornece advogado gratuito?

Nos Estados Unidos, os processos de imigração são classificados como civis, e não criminais. A garantia constitucional de assistência jurídica custeada pelo Estado se aplica a processos criminais, mas não se estende automaticamente às cortes migratórias, inclusive nos casos envolvendo crianças.


Na corte de imigração, a lei garante que a pessoa tenha direito a um advogado, mas sem custo para o governo. Isso vale tanto para adultos quanto para crianças


Em 2008, o Congresso americano aprovou uma lei de proteção a vítimas de tráfico de pessoas que prevê que o governo assegure acesso à representação jurídica para menores desacompanhados “na maior medida possível”.


Na avaliação da advogada, a formulação é um dos principais obstáculos para garantir assistência a todas as crianças, pois estabelece uma diretriz, mas não uma obrigação de financiar universalmente os serviços jurídicos.


Historicamente, parte dessa assistência foi oferecida por organizações sem fins lucrativos que mantinham contratos com o governo federal. Segundo Nathasha, o encerramento, em 31 de julho de 2026, do contrato com o Acacia Center for Justice deixou mais de 20 mil crianças em risco de perder advogados.


A diferença entre os lados da audiência agrava o problema. Enquanto o menor pode comparecer sem alguém que conheça seu histórico e saiba apresentar argumentos em sua defesa, o governo conta com um representante jurídico para defender os próprios interesses.


“E, do outro lado da mesa, o governo sempre vai garantir um acusador. Então, o governo, sim, sempre vai estar representado por um advogado representante dos seus interesses”, diz a especialista.


Quais são os direitos das crianças nas audiências?

Mesmo sem advogado, crianças imigrantes têm direito ao devido processo legal. Isso inclui receber a notificação da audiência, ser ouvida pelo juiz, contar com intérprete em sua língua materna, apresentar provas e recorrer de decisões. Os menores desacompanhados também têm direito a uma análise inicial de pedidos de asilo por um agente de imigração antes da avaliação judicial.

Na prática, os direitos dessas crianças existem no papel, mas é o advogado de imigração quem transforma os direitos em um pedido concreto diante do juiz

Nas cortes migratórias, o juiz é responsável por decidir o caso, enquanto um advogado vinculado ao Departamento de Segurança Interna (DHS) representa os interesses do governo. Sem um defensor próprio, o menor precisa enfrentar um procedimento jurídico complexo sem assistência para organizar documentos, identificar argumentos legais ou contestar alegações.

A advogada destaca que a análise adequada depende também de alguém que conheça a trajetória da criança. Sem essa pessoa para ajudar a reconstruir sua história, informações importantes sobre as circunstâncias da chegada ao país ou os riscos de retorno podem não ser apresentadas de maneira suficiente ao juiz.

Quando uma criança pode ser deportada?

Uma decisão desfavorável pode resultar em uma ordem de remoção, que determina a saída da pessoa dos Estados Unidos. A possibilidade de contestar a decisão existe, mas depende das circunstâncias do processo, dos fundamentos jurídicos disponíveis e do cumprimento dos procedimentos e prazos aplicáveis.

Para Nathasha, a falta de advogado compromete também essa etapa, porque recorrer exige conhecimento técnico e a apresentação adequada dos argumentos. Uma criança que já enfrentou o processo inicial sem assistência pode continuar sem representação depois de receber uma decisão desfavorável.

A possibilidade de recorrer dessa decisão existe no papel, mas na prática não. Na prática, quem precisa de fato promover esse recurso é um advogado

A declaração não significa que toda criança sem advogado será deportada, mas evidencia o risco de que ela não consiga apresentar sua defesa de forma adequada ou contestar uma decisão contrária. O resultado depende da análise individual do caso e dos fundamentos que sustentam o pedido de permanência ou de proteção.

O que as famílias podem fazer para se preparar?

Entre as principais recomendações da advogada está manter o endereço atualizado perante as autoridades migratórias. As notificações das cortes são enviadas pelo correio, e deixar de recebê-las pode prejudicar o acompanhamento do processo e a participação nas audiências.

“É através do seu endereço atualizado que a corte de imigração tem a obrigação de se comunicar”, explica Nathasha.

A orientação é procurar um advogado de imigração assim que a família receber uma notificação, preferencialmente antes da primeira audiência. Caso não consiga assistência jurídica a tempo, a recomendação é comparecer à corte e pedir ao juiz um prazo adicional para encontrar um profissional.

“Ainda assim, a recomendação é que a família compareça na corte de imigração e vá à audiência e peça ao juiz um prazo extra para encontrar o seu advogado”, afirma.

A advogada também recomenda guardar certidões de nascimento, registros escolares, documentos de guarda e tutela e todas as notificações recebidas das autoridades.

As famílias devem ainda avaliar, com orientação jurídica, quem poderia cuidar dos filhos caso os responsáveis sejam detidos, considerando que as regras de guarda variam entre os estados.

A lista de prestadores de serviços jurídicos disponibilizada pelo Escritório Executivo para Revisão de Imigração (EOIR), órgão responsável pelas cortes migratórias, pode ajudar a localizar organizações e profissionais que oferecem atendimento gratuito ou de baixo custo.

Nathasha Rocha

advogada e especialista em Direito Imigratório


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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Organizações da sociedade civil se reúnem na Missão Paz para elaborar pautas migratórias

 

Foto Miguel Ahumada

Organizações da sociedade civil se reuniram na Missão Paz, dia (28) em São Paulo, para debater os desafios da migração e construir propostas voltadas à garantia dos direitos de migrantes e refugiados no Brasil. O encontro teve como objetivo fortalecer o diálogo entre instituições, compartilhar experiências e elaborar pautas migratórias que contribuam para a formulação de políticas públicas mais inclusivas.

A reunião destacou a importância da articulação entre organizações sociais, e outros atores comprometidos com a defesa dos direitos humanos. Entre os temas centrais estão o acesso à documentação, principalmente agendamento na  polícia federal que vem causando grandes problemas no acesso ao  trabalho digno, à moradia, à saúde, à educação e aos serviços públicos,

A Missão Paz, reconhecida por sua atuação no acolhimento e na integração de migrantes e refugiados, constitui um espaço importante para a construção coletiva de iniciativas que respondam às necessidades dessa população.

A elaboração de uma agenda comum também busca ampliar a participação de migrantes e refugiados nas decisões que afetam suas vidas. Mais do que discutir problemas, a proposta é reunir demandas concretas e transformá-las em recomendações para o poder público e para a sociedade.

Em um cenário de mudanças políticas e sociais, a articulação das organizações da sociedade civil reforça a necessidade de uma política migratória baseada na dignidade humana, na igualdade de direitos e no reconhecimento da contribuição dos migrantes para o desenvolvimento econômico, social e cultural do país.

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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Bispos americanos rejeitam plano que exclui imigrantes sem residência do censo

 

Representação da fé cristã na Basílica São Pedro, no Vaticano. (Foto: Robert Cheaib / Pixabay)

A Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB) manifestou oposição formal às mudanças propostas pelo Departamento do Censo para a contagem de 2030. A organização religiosa defende que a exclusão de não-cidadãos sem status de residência permanente fere a dignidade humana e compromete a distribuição justa de recursos federais e cadeiras no Congresso americano.

Qual é a principal crítica dos bispos à nova regra do censo?

Os bispos argumentam que a proposta de contar apenas cidadãos e residentes permanentes legais para a divisão de cadeiras no Congresso nega o reconhecimento dessas pessoas como seres humanos. Em carta enviada ao Departamento de Comércio, a Conferência dos Bispos comparou a medida ao antigo 'Compromisso dos Três Quintos', uma norma da época da escravidão que não contava pessoas escravizadas de forma plena. Para a Igreja, a mudança ignora a dignidade intrínseca de cada indivíduo e rompe com o precedente legal de que todos os habitantes devem ser contados no levantamento oficial.

Como a exclusão de imigrantes pode afetar os serviços públicos?

A exclusão de milhões de pessoas da contagem oficial pode causar uma subcontagem populacional severa, afetando o cálculo para o repasse de verbas federais. Esses dados são fundamentais para distribuir recursos destinados à saúde, combate à pobreza, infraestrutura e apoio familiar. Se o governo ignora a presença física de uma parte da população, as comunidades onde eles vivem podem receber menos dinheiro do que realmente precisam para manter serviços que são utilizados por todos, prejudicando o bem comum e a precisão das políticas públicas planejadas pelo Estado.

O que o governo alega para querer mudar a forma de contagem?

O Departamento do Censo defende que imigrantes em situação irregular não devem ser incluídos na contagem para a divisão de cadeiras legislativas por não serem considerados 'habitantes verdadeiros' ou membros do corpo político do país. Segundo essa visão, essas pessoas não teriam vínculo ou lealdade suficientes aos Estados Unidos. O governo propõe usar registros fiscais para determinar a 'residência habitual' de cada pessoa entre janeiro e abril, limitando a contagem àqueles que possuem status de imigração legal, o que altera uma prática que vem sendo seguida desde o primeiro censo em 1790.

Quais outros pontos do questionário são motivo de preocupação?

Além da questão migratória, o órgão planeja retirar perguntas sobre raça, etnia e orientação sexual para aumentar as taxas de resposta e proteger a privacidade. Os bispos, no entanto, discordam dessa remoção. Eles sugerem manter as perguntas, mas incluir a opção 'prefiro não divulgar'. A justificativa da Igreja é que dados demográficos precisos são ferramentas essenciais para identificar e combater desigualdades causadas pelo racismo. Sem essas informações, ministérios católicos e o próprio governo teriam mais dificuldade para entender e atender as necessidades específicas de cada comunidade.

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