quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

ADiretoria da Signis Brasil se reúne em São Paulo para planejar ações de 2026

 

A Diretoria da Signis Brasil que reune todos os veiculos de inspiração catolicoa esteveram  reunidos em São Paulo os dias 10 e 11 de fevereiro na Missão Para o  encontro de planejamento e alinhamento estratégico. A reunião teve como objetivo principal avaliar as ações desenvolvidas ao longo do último período, além de projetar iniciativas e fortalecer a missão da entidade no campo da comunicação.

Durante o encontro, os diretores refletiram sobre os desafios atuais da comunicação no Brasil, especialmente no contexto das transformações digitais e da necessidade de promover uma comunicação ética, democrática e comprometida com os valores humanos e cristãos. Também foram discutidas parcerias institucionais, formação de comunicadores e a ampliação da presença da Signis Brasil em diferentes regiões do país.

A pauta incluiu ainda a organização de eventos, projetos formativos e ações voltadas à articulação com outras entidades da Igreja e da sociedade civil. Segundo a diretoria, o momento foi marcado pelo espírito de comunhão, escuta e compromisso com a missão da Signis, que integra a rede mundial de comunicadores católicos.

Ao final da reunião, os participantes reafirmaram o compromisso de fortalecer a atuação da Signis Brasil como espaço de diálogo, formação e promoção de uma comunicação que contribua para a cultura do encontro e da paz.

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Parceria internacional fortalece pesquisas sobre migração, direitos humanos e saúde

 

*Por Tatiane Vargas

A cooperação acadêmica entre a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) e a Universidade de Southampton, no Reino Unido, tem se consolidado como uma importante iniciativa internacional voltada à produção de conhecimento socialmente relevante sobre migração, direitos humanos e saúde pública. Iniciada em 2019, a parceria envolve a pesquisadora da ENSP Maria do Carmo Leal e a professora e pesquisadora Pia Riggirozzi, da Universidade de Southampton, e vem contribuindo para o fortalecimento de agendas interdisciplinares e para o aprimoramento de políticas públicas voltadas a populações migrantes. 

A aproximação entre as instituições teve origem em interesses de pesquisa convergentes, especialmente diante da intensificação dos fluxos migratórios venezuelanos para a América do Sul. O diálogo inicial foi impulsionado pelas pesquisadoras Pia Riggirozzi e Maria do Carmo Leal, em articulação com Zeni Lamy, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), com quem Pia já desenvolvia estudos sobre saúde, desigualdades de gênero e acesso a sistemas públicos de proteção social para mulheres em situação de vulnerabilidade no Brasil. 

De acordo com Maria do Carmo Leal, desde o início, a cooperação foi orientada por objetivos claros, como a produção de conhecimento aplicado, o fortalecimento de abordagens interdisciplinares e a contribuição direta para o aprimoramento das políticas públicas de saúde, especialmente no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). 

Pia Riggirozzi e Maria do Carmo Leal.

Pesquisa ReGHID e impacto social

Um dos principais resultados dessa parceria foi o desenvolvimento da pesquisa ReGHID, que entrevistou mais de duas mil venezuelanas e se destaca pela relevância social e pela abordagem inovadora ao analisar o impacto da migração na saúde de mulheres migrantes venezuelanas no Brasil, com foco no acesso aos serviços do SUS. O estudo contribuiu para ampliar o debate sobre migração no campo acadêmico brasileiro, combinando metodologias qualitativas e quantitativas, diferentes tradições teóricas e análises sobre governança nacional, regional e políticas públicas. 

Além da produção científica, a pesquisa adotou metodologias participativas e visuais, que resultaram na criação de um documentário e de um fotolivro, ampliando o alcance dos resultados para além da academia. A parceria também gerou publicações conjuntas, relatórios de impacto, eventos científicos e atividades de formação, além de promover intercâmbio contínuo de estudantes e pesquisadoras(es). 

"Outro diferencial do ReGHID foi o compromisso com a coprodução de conhecimento, envolvendo organizações da sociedade civil e atores institucionais, o que ampliou a relevância social da pesquisa e seu potencial de incidência sobre políticas públicas", apontou Maria do Carmo. 

Cooperação internacional e desafios contemporâneos 

Para as pesquisadoras, parcerias acadêmicas internacionais são fundamentais no atual cenário de migração internacional, marcado por crises humanitárias prolongadas, respostas políticas restritivas e pressões crescentes sobre os sistemas públicos de saúde. Desta forma, essas colaborações permitem comparar experiências, identificar boas práticas e produzir evidências robustas a partir de uma perspectiva de direitos humanos. 

No campo da saúde pública, esse tipo de cooperação é essencial para enfrentar desafios que ultrapassam fronteiras nacionais, como a proteção da saúde de populações em mobilidade e a redução de desigualdades estruturais que afetam especialmente os países sul-americanos. 

Consolidação da parceria e perspectivas futuras 

Em 2026, a parceria ganha novo fôlego com a vinda da professora Pia Riggirozzi ao Brasil, para ministrar o Curso de Verão na ENSP/Fiocruz 'Migração Internacional na América Latina, Gênero e Saúde', com a participação das pesquisadoras da Escola, Maria do Carmo Leal e Thaiza Gomes. "A realização do curso marca um momento importante de consolidação da cooperação institucional. A iniciativa fortalece o diálogo Sul–Norte, amplia oportunidades de formação avançada e estimula novas agendas de pesquisa conjuntas, incluindo desdobramentos inovadores do Projeto ReGHID", explicou Thaiza, pesquisadora visitante da ENSP/Fiocruz. 

"As perspectivas futuras incluem o desenvolvimento de novas pesquisas sobre migração, gênero, saúde e governança; a formação de jovens pesquisadoras(es) em contextos internacionais; a ampliação de redes globais de colaboração; e o fortalecimento do diálogo internacional sobre direitos humanos e saúde. A parceria também aposta na incidência política, utilizando dados e evidências produzidos pela pesquisa para formular recomendações e informar políticas públicas mais justas e inclusivas no campo da saúde e da migração", ressaltou Pia Riggirozz. 

Para Maria do Carmo Leal, com base na experiência acumulada ao longo dos últimos anos, a cooperação entre a ENSP/Fiocruz e a Universidade de Southampton se consolida como uma iniciativa estratégica que alia excelência científica, compromisso ético e impacto social, contribuindo para respostas mais equitativas aos desafios contemporâneos da saúde pública.

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https://informe.ensp.fiocruz.br/ 


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Comunidade global quer eliminar trabalho infantil abordando as causas profundas

 

Cerca de 61% do total das crianças que trabalham estão no setor da agricultura

A partir desta quarta-feira, o mundo se reúne em Marraquexe, Marrocos, para a 6ª Conferência Mundial sobre a Erradicação do Trabalho Infantil.

O encontro da comunidade internacional abordará as causas profundas do problema persistente que afeta 138 milhões de crianças. A erradicação visa alcançar a meta 7, do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8, que trata de trabalho decente.

Partilha de boas práticas

Para falar sobre o tema, a ONU News, conversou, de Genebra, com a diretora do Departamento de Governo e Tripartitismo da Organização Internacional do Trabalho, OIT, Vera Paquete-Perdigão.

“A conferência, ela mesma, é um momento de partilha de boas práticas. É um momento de poder-se criar melhores conexões entre diferentes regiões do mundo e ver como é que os diferentes países podem abordar a questão. O que é boa prática num pode não ser no outro, mas há algo sempre para partilhar.”

Durante o evento na capital marroquina será apresentada a campanha “cartão vermelho ao trabalho infantil”, que movimenta pessoas e setores para lutar contra esta mazela em todo o mundo, exigindo ações concretas.

“Esta iniciativa foi já promovida há algum tempo, há mais de 10 ou 20 anos. Foi a primeira vez que foi lançada. Foi lançada com esse espírito e é retomada aqui na lógica de basear-se numa metáfora inspirada do desporto. Isso mostrando a tolerância zero e a mobilização universal. Esses dois pontos. Tal como o cartão vermelho no futebol significa uma falta grave, que nos leva à expulsão de um jogador, aqui a campanha utiliza esse símbolo também para demonstrar que chega. Para demonstrar um stop. É preciso parar e não se pode aceitar e continuar a aceitar o trabalho infantil.”

Redução de 20 milhões 

Uma das metas da iniciativa é acelerar o fim da forma de trabalho. Cerca de 87 milhões de crianças que trabalham estão na África, o que representa 21% do total. Para a especialista este é um dado que é preciso investigar juntamente com as conexões ao setor produtivo.

“Então, primeiro é poder pôr o assento na agricultura. O segundo é a questão ligada também a tudo que tem a ver com a educação, como eu estava a dizer. Poder ter acesso. Mas também ligar a luta contra o trabalho infantil à questão da proteção social. Neste momento, sabemos de um grande avanço em termos de cobertura social, mas ainda temos muitas crianças, por volta de 1,8 milhões, que não têm acesso à proteção social.”

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© Unicef/Srikanth Kolari
 
OIT estima que 138 milhões de crianças estão a trabalhar

Cerca de 61% do total das crianças que trabalham estão no setor da agricultura. Acima de 59 milhões operam no continente africano. 

Para Vera Paquete-Perdigão, uma análise mais profunda da situação ajuda a entender que o número real não é devidamente contabilizado. Outra questão é a de meninas envolvidas no trabalho doméstico cujos dados corretos mudariam a proporção.

“Como eu disse, uma das coisas que vai ter dentro desta conferência, e que vai ter um painel sobre isso, é poder trabalhar na questão do setor da agricultura. Como é que nós podemos eliminar mais o trabalho infantil? Temos que pensar, como disse, temos que formalizar o trabalho, temos que ter trabalho digno para os pais, sabendo que na agricultura muitas das vezes temos pequenos produtores.” 

Proteção social

A conferência deverá ainda fazer uma reflexão sobre a proteção social numa realidade em que um terço das crianças vítimas do trabalho infantil não frequenta a escola. Estes menores não estão cobertos por proteção social.

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© Unicef/Demissew Bizuwerk
 
Cerca de 87 milhões de crianças que trabalham estão na África

Segundo a OIT, em quatro anos houve uma redução de 20 milhões de meninos em situação de trabalho infantil. 

A agência quer atuar para garantir trabalho decente para adultos e famílias, além de abordar aspectos como a ratificação da Convenção 138. O tratado que estabelece a idade mínima para o trabalho infantil ainda não foi ratificado universalmente. 

A 6ª Conferência Mundial sobre a Erradicação do Trabalho Infantil visa ainda abordar a implementação da Convenção 182, que se opõe às piores formas de trabalho infantil.


https://news.un.org/pt


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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Crise econômica em Misiones eleva fluxo de trabalhadores argentinos para o Rio Grande do Sul

Foto: Perfil da CEDOC

Entre 400 e 500 trabalhadores cruzam diariamente a fronteira, a cidade de Alba Posse, na província de Misiones, é uma das afetadas pelo impacto social e crise econômica. Segundo dados oficiais da prefeitura, os trabalhadores cruzam diariamente a fronteira para o Brasil em busca de emprego em áreas rurais, principalmente nas colheitas de uva e maçã na região de Caxias do Sul (RS). Mudança no perfil migratório O fenômeno migratório deixou de ser uma atividade restrita a jovens em busca de renda temporária. Atualmente, o fluxo é composto majoritariamente por chefes de família que se deslocam por meses para garantir o sustento doméstico. Em períodos de feriados prolongados, o volume de travessias chega a atingir 5.000 pessoas em um único final de semana.

O prefeito Lucas Gerhardt aponta que a migração é reflexo direto do enfraquecimento das atividades produtivas em Misiones. A erva-mate, um dos pilares da economia local, registrou uma queda acentuada no preço pago ao produtor, reduzindo a competitividade de pequenos e médios agricultores.

Além do setor agrícola, a indústria madeireira também enfrenta retração. Estima-se que as serrarias da região tenham dispensado aproximadamente 50% de sua mão de obra devido à baixa no consumo interno e à redução das exportações argentinas.

Embora a migração ofereça uma alternativa de renda, as autoridades locais alertam para o impacto social da fragmentação familiar. Relatos colhidos pela prefeitura junto aos trabalhadores destacam a necessidade do deslocamento como medida de sobrevivência diante da ausência de postos de trabalho e da perda do poder de compra na Argentina.

Três Passos News

https://www.observadorregional.com.br/

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Número de imigrantes com carteira assinada bate recorde no RS em 2025: "Sinto como se estivesse no meu país"

 Luis Alcides Barreto Lezama é um dos mais de 29 mil venezuelanos empregados no RS.

Por Mathias Boni

Em um Estado que há séculos já conhece a força do trabalho de imigrantes, a presença de trabalhadores de fora do país tem sido cada vez mais importante para o setor produtivo também nos dias atuais. Em 2025, o Rio Grande do Sul bateu o recorde de imigrantes contratados, terminando o ano com 53,6 mil estrangeiros empregados formalmente.

O número de trabalhadores imigrantes no Rio Grande do Sul vem crescendo ano a ano. Conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) compilados pela Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS), em dezembro de 2022, eram 26.148 contratados no Estado, menos da metade do registrado em dezembro de 2025.

— Vivemos um momento no Rio Grande do Sul de redução de natalidadeenvelhecimento da população, e há uma demanda forte por trabalhadores em diversos setores. Nesse contexto, os imigrantes, além das contribuições com suas culturas e experiências próprias, também têm ajudado a enfrentar a escassez de mão de obra que há no Estado — afirma Juliano Florczak Almeida, chefe da seção de Informação e Pesquisa da FGTAS.

Sofrendo grave crise humanitária há mais de uma década, os venezuelanos seguem como o maior grupo de internacionais atuando no mercado de trabalho gaúcho — o Rio Grande do Sul é o terceiro Estado que mais recebe imigrantes do país por meio do programa de interiorização da Operação Acolhida, ficando atrás de Paraná e São Paulo. Dos 53,66 mil imigrantes trabalhando formalmente no Estado, 29.473 são nacionais da Venezuela, ou cerca de 55% do total.

Um dos venezuelanos contratados no Rio Grande do Sul em 2025 foi Luis Alcides Barreto Lezama, 35 anos. Ele é natural do estado venezuelano de Bolívar, que faz fronteira com Roraima, e onde ainda vivem sua mãe, seu pai e seu filho.

Em 2023, ele atravessou a fronteira com o Brasil em Pacaraima em busca de sustento, após vários meses com dificuldades para arranjar emprego. Por indicação de conhecidos, acabou vindo tentar a sorte em Porto Alegre. Após um período exercendo atividades informais, atuando como pintor, foi contratado em junho do ano passado como auxiliar de açougue em uma unidade do supermercado Asun na Capital.

— No começo, sofri muito, principalmente pela dificuldade da língua. Mas, depois que fui aprendendo português, as coisas foram melhorando, e hoje me sinto como se estivesse no meu país. Precisava buscar uma oportunidade de vida melhor para mim e para a minha família e vim para o Brasil tentar isso. Hoje, o que mais pesa para mim é sentir falta da família, mas estou aqui também por eles — destaca Luis, que pretende continuar morando em Porto Alegre pelos próximos anos, ainda sem saber o que vai acontecer na Venezuela após a recente derrubada de Nicolás Maduro.

O diretor de RH do Asun, Maurício Echeverria, destaca que “a contratação de imigrantes é vista como um fator enriquecedor para o negócio“.

— Pessoas oriundas de outras culturas promovem a diversidade, a inclusão, visões e perspectivas diferentes. Vale lembrar que a nossa fundadora, Dona Asunción, era imigrante. Atualmente, temos em nossos quadros de colaboradores pessoas vindas de países como Venezuela, Haiti, Peru, Uruguai e Cuba, sendo algumas delas ocupando cargos de liderança — afirma.

Ferramenta de acolhimento e integração

Especialistas em migração internacional sempre destacam que a integração na sociedade de recebimento é parte fundamental do processo de acolhimento de imigrantes, principalmente quando se trata de refugiados, como é o caso da maioria dos venezuelanos no Brasil. Imigrantes são considerados refugiados quando fogem de seu país em razão de fundados temores de perseguição relacionados a questões de raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um determinado grupo social ou opinião política, como também devido à grave e generalizada violação de direitos humanos, situação verificada na Venezuela, e por isso demandam mais atenção em seu acolhimento.

Ao lado de mais de 100 países, o Brasil é signatário da Convenção da ONU de 1951 sobre o Estatuto de Pessoas Refugiadas, se comprometendo a acolher e apoiar a inclusão em seu território dessas pessoas, que foi regulamentada pela Lei 9474/97. Para fomentar a integração de refugiados e imigrantes como um todo, uma das principais ferramentas de inclusão é justamente o emprego. Além de permitir ao imigrante auferir uma renda para se manter, também o insere no fluxo da sociedade de acolhida e propicia uma interação mais próxima com habitantes locais, a partir do contato com colegas de trabalho.

— A inclusão dessas pessoas ocorre primordialmente pelo acesso a trabalho decente, contribuindo para sua autonomia e integração local. Por isso é tão importante que as empresas estejam engajadas, de forma que as oportunidades de emprego também possam chegar a estas pessoas, complementando o mercado de trabalho nas regiões onde se encontram — aponta Paulo Sérgio Almeida, oficial de Meios de Vida e Inclusão Econômica na Agência da ONU para Refugiados (Acnur).

No Rio Grande do Sul, as admissões de imigrantes em 2025 abrangeram os seguintes setores, segundo a FGTAS:

  • Indústria: 23.186
  • Agropecuária: 17.034
  • Serviços: 10.659
  • Comércio: 10.627
  • Construção civil: 2.818

* Esses números não consideram os desligamentos, que, junto das contratações, formam o saldo de 53,6 mil trabalhadores estrangeiros empregados no RS

Ao lado de mais de 100 países, o Brasil é signatário da Convenção da ONU de 1951 sobre o Estatuto de Pessoas Refugiadas, se comprometendo a acolher e apoiar a inclusão em seu território dessas pessoas, que foi regulamentada pela Lei 9474/97. Para fomentar a integração de refugiados e imigrantes como um todo, uma das principais ferramentas de inclusão é justamente o emprego. Além de permitir ao imigrante auferir uma renda para se manter, também o insere no fluxo da sociedade de acolhida e propicia uma interação mais próxima com habitantes locais, a partir do contato com colegas de trabalho.

— A inclusão dessas pessoas ocorre primordialmente pelo acesso a trabalho decente, contribuindo para sua autonomia e integração local. Por isso é tão importante que as empresas estejam engajadas, de forma que as oportunidades de emprego também possam chegar a estas pessoas, complementando o mercado de trabalho nas regiões onde se encontram — aponta Paulo Sérgio Almeida, oficial de Meios de Vida e Inclusão Econômica na Agência da ONU para Refugiad

os (Acnur).

No Rio Grande do Sul, as admissões de imigrantes em 2025 abrangeram os seguintes setores, segundo a FGTAS:

  • Indústria: 23.186
  • Agropecuária: 17.034
  • Serviços: 10.659
  • Comércio: 10.627
  • Construção civil: 2.818

* Esses números não consideram os desligamentos, que, junto das contratações, formam o saldo de 53,6 mil trabalhadores estrangeiros empregados no RS

Diferentes perfis

Uma das principais empresas do país no setor da construção civil, a construtora Tenda também é uma companhia que favorece a contratação de colaboradores de outros países. De atuação nacional, a empresa tem, em seus quadros, 75 imigrantes trabalhando somente no Rio Grande do Sul, o que representa cerca de 20% da vertical da regional. Entre eles, estão o venezuelano Lino Daniel Guzmán Mota, 22 anos, e o cubano Rodolfo Enrique Ojeda Millán, 36, que trabalham atualmente em uma obra em Canoas.

Dos dois, o primeiro a chegar ao Brasil foi Lino. Em 2023, ele também atravessou a fronteira em Pacaraima com o objetivo de encontrar o irmão, que já estava morando em Manaus.

Jovem, o venezuelano não chegou a ter uma formação além do Ensino Médio — situação da maioria dos imigrantes. Em razão disso, vivia de trabalhos informais. Quando até esses rarearam, Lino se tornou mais um venezuelano a buscar melhores condições de vida em terras brasileiras.

— Encontrei meu irmão em Manaus, mas não me adaptei muito à cidade e acabei vindo para o Rio Grande do Sul porque ouvi dizer que aqui tinha mais empregos. Aqui estou muito feliz, tenho uma companheira com quem eu moro em Esteio. Quero continuar aqui, mas também tenho o sonho de voltar para a Venezuela e encontrar um país melhor do que o que eu deixei — afirma.

Bruno Todeschini / Agencia RBS
22% dos imigrantes empregados no RS têm idade entre 18 e 24 anos, faixa etária de Lino Daniel.Bruno Todeschini / Agencia RBS

Já o cubano Rodolfo Enrique tinha uma longa trajetória profissional em seu país de origem antes de vir ao Brasil. Como 10% dos imigrantes que trabalham no Estado, possui Ensino Superior completo: em Cuba, se formou médico e se especializou em urologia, acumulando 18 anos de experiência entre estudos e prática profissional. Nos últimos anos, estava servindo como brigadista na Venezuela, até que, em 2024, também decidiu tentar a sorte no Brasil.

Entre viagens de ônibus e caminhadas, sua jornada de vinda ao Brasil durou oito dias — Rodolfo também acabou vindo ao Rio Grande do Sul por ter ouvido que, no Estado, haveria mais oportunidades de emprego. Trabalhando há cerca de dois meses na obra em Canoas, o cubano demonstra estar feliz e empolgado com sua nova vida, mas tem o sonho de conseguir exercer a medicina no Brasil.

— Estou juntando dinheiro e tentando melhorar meu português para fazer a prova do Revalida, seria um sonho ser médico aqui no Brasil. Estou muito feliz aqui, fui muito bem recebido e sou muito agradecido ao povo brasileiro, quero fazer minha vida aqui no Brasil. A única dificuldade é a falta da família, isso não tem nada que diminua — ressalta.

Bruno Todeschini / Agencia RBS
Cubanos, como Rodolfo, são 6% dos estrangeiros no mercado de trabalho gaúcho.Bruno Todeschini / Agencia RBS

Cidades com mais imigrantes contratados

Antes ainda do que Porto Alegre, Caxias do Sul, município fundado a partir da chegada de imigrantes italianos no final do século 19, é a cidade gaúcha com o maior número de imigrantes contratados. Ao final de 2025, eram 8.588 atuando no mercado formal do município da Serra.

 

A Capital, segunda colocada na lista, tem 4.802 imigrantes contratados. Um fator de atração para os imigrantes em Caxias do Sul é a forte indústria do município, sempre em demanda por trabalhadores.

A venezuelana Thais Maria Ruíz, 35 anos, é uma das imigrantes que atua justamente no polo industrial de Caxias. Ela veio ao Brasil em 2021, atravessando a fronteira com o Brasil durante a noite, em um terreno pantanoso, sob chuva, levando pela mão as duas filhas, de 10 e quatro anos na época — o marido já estava no Brasil, tendo vindo em 2019 em busca de emprego. As mulheres representam 39% da força de trabalho estrangeira no RS.

Depois de atravessar a fronteira, Thais recebeu dinheiro do marido para vir de avião com as filhas até Porto Alegre, e depois até Santo Antônio da Patrulha, onde a família se estabeleceu inicialmente. Em busca de melhores opções, partiram para Caxias do Sul, onde Thais, formada em Gestão e Recursos Humanos na Venezuela, conseguiu um emprego como auxiliar de montagem hidráulica na fábrica B&P Componentes Hidráulicos e Mecânicos, uma multinacional do Grupo Bondioli & Pavesi.

— Não tinha nenhuma experiência na área, mas me deram essa oportunidade e eu abracei com tudo. Todos foram muito legais comigo, pacientes, me ensinaram o que eu precisava para o emprego. Agora estou fazendo um curso no Senac de recursos humanos, pois, quando tiver a chance, quero atuar nesta área aqui na empresa — destaca.

Paola Bello / Acnur
Thais veio para o Brasil com as filhas; marido já estava no país.Paola Bello / Acnur

Após Caxias do Sul e Porto Alegre, a cidade gaúcha com mais imigrantes contratados, com 3.350, é Erechim, também um município com forte influência da imigração em sua formação. Na sequência, vêm Passo Fundo (3.204) e Marau (1.753), todas no norte do Estado.

— Os benefícios são múltiplos, desde suprir a falta de profissionais em determinadas regiões, passando por uma menor rotatividade, já que pessoas refugiadas têm maior aderência às empresas que as contratam — aponta Paulo Sérgio Almeida, representante da Acnur.

— Imigrantes trazem inovação. Muitas vezes, suas histórias de resiliência e superação vão trazer mais motivação às equipes de trabalho, com impactos na produtividade. Por isso, a inclusão produtiva de pessoas refugiadas é um “ganha-ganha”, pois ganha a pessoa que consegue sua inclusão no mercado de trabalho com vistas a sua autonomia e ganha a empresa por alcançar um profissional que vai fazer a diferença nas suas atividades produtivas — reforça.

Em dezembro de 2025, a Acnur, em parceria com a FGTAS, lançou uma plataforma que busca a integração entre os imigrantes do Estado e empresas que buscam colaboradores.

Imigrantes no mercado de trabalho do RS

Mais dados sobre os 53.603 imigrantes trabalhando de carteira assinada no Rio Grande do Sul em 2025:

Nacionalidade:

  • Venezuelanos: 55%
  • Haitianos: 14%
  • Argentinos: 9%
  • Uruguaios: 6%
  • Cubanos: 6%
  • Senegaleses: 2%

Escolaridade:

  • Analfabetos: 2%
  • Fundamental incompleto: 12%
  • Fundamental completo: 12%
  • Médio incompleto: 9%
  • Médio completo: 51%
  • Superior incompleto: 2%
  • Superior completo: 10%

Idade:

  • Até 17 anos: 2%
  • De 18 a 24 anos: 22%
  • De 25 a 29 anos: 17%
  • De 30 a 39 anos: 30%
  • De 40 a 49 anos: 18%
  • De 50 a 64 anos: 10%
  • 65 anos ou mais: 1%

Gênero:

  • Masculino: 61%
  • Feminino: 39%

Fonte: FGTAS

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