sábado, 12 de setembro de 2026

Guineenses resgatados no Brasil em situação de escravidão

 Uma operação realizada pelo Governo brasileiro resgatou 479 trabalhadores de condições análogas à escravidão, em agosto, incluindo 75 mulheres e 13 crianças e adolescentes, bem como 66 migrantes, alguns da Guiné-Bissau.


Os dados, agora divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil, cita entre as vítimas 66 migrantes provenientes da Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Venezuela, Burkina Faso, Senegal e Guiné-Bissau.

A "Operação Resgate VI" contou com apoio da Polícia Federal e do Ministério Público do Trabalho (MPT), que realizaram 231 ações fiscais.

A região sudeste do país concentrou o maior número de trabalhadores resgatados, com 267 casos, dos quais 208 ocorreram em Minas Gerais e 58 em São Paulo.

Entre os casos está o de uma mulher de 51 anos na cidade de São Paulo, que vivia na residência da empregadora desde os 10 anos e trabalhou durante cerca de 40 anos sem registo formal ou pagamento regular de salários.

Ainda criança, passou a ser responsável por todos os afazeres domésticos da casa, "como lavagem de quintal e louça e arrumação do imóvel, e por cuidar da família da empregadora, incluindo o preparo de refeições" e a passar a ferro as roupas. 

Os auditores-fiscais também identificaram que a mesma mulher trabalhou numa clínica de um dos membros da família sem qualquer registo formal de emprego.

À lupa: Sabia que há milhões de escravos no mundo?

01:53

Explorados em Minas Gerais

No estado de Minas Gerais, trabalhadores foram resgatados de condições análogas a escravidão numa fazenda, na colheita de batata, sendo a maioria senegaleses e do Burkina Faso.

Os auditores-fiscais identificaram que as vítimas trabalhavam na colheita manual de batatas sem registo formal de trabalho, sem acesso a instalações sanitárias, água potável, equipamentos de proteção individual e local adequado para refeições.

"Também foram identificadas irregularidades relacionadas à jornada de trabalho, transporte dos trabalhadores e às condições gerais de saúde e segurança do trabalho", cita o comunicado, sem adiantar detalhes sobre a situação dos guineenses.

O meio rural concentrou 57,5% das fiscalizações e 292 trabalhadores resgatados, enquanto as atividades urbanas representaram 36,5% das ações, com 178 resgates, e o trabalho doméstico teve nove trabalhadores resgatados.

Entre as atividades com mais trabalhadores encontrados em condições análogas à escravidão estão a construção em geral, com 85 resgatados, o cultivo de café, com 53, de cebola, com 47, e de batata, com 44.

Os empregadores foram obrigados a interromper as atividades, rescindir os contratos e regularizar retroativamente os vínculos, além de pagar mais de 1,4 milhões de reais (cerca de 236,1 mil euros) em verbas salariais e rescisórias.

Segundo o Governo brasileiro, os trabalhadores receberam ainda o seguro-desemprego especial, correspondente a seis parcelas de um salário mínimo.

https://www.dw.com/pt

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Migrantes no DF podem buscar apoio, capacitação e orientação para acessar serviços públicos

 

Diferentes serviços do GDF podem ser acessados por migrantes que procuram atendimento | Foto: Divulgação

Para quem chega a um novo país, conhecer os serviços disponíveis e encontrar caminhos para se integrar à comunidade pode ser um desafio. No Distrito Federal, migrantes podem buscar atendimento para receber orientação, apoio e encaminhamentos de acordo com suas necessidades.

Entre os serviços disponíveis estão apoio para integração social, orientações sobre acesso a direitos, capacitações e atividades voltadas à autonomia e inclusão. O atendimento também pode ajudar o migrante a identificar outros serviços públicos adequados à sua situação.

A capacitação é uma das frentes de atendimento e pode contribuir para ampliar oportunidades de inserção social e profissional. As atividades podem abordar temas relacionados a qualificação, cidadania, direitos e acesso a serviços.

Também é possível buscar orientação sobre documentação e regularização migratória. Nesses casos, o atendimento auxilia na identificação do serviço responsável e no encaminhamento adequado. 

Para facilitar o atendimento, é recomendado reunir os documentos disponíveis, mesmo que estejam vencidos, além de protocolos e comprovantes relacionados à situação migratória.

Serviço

► Apoio e orientação a migrantes
Telefone: (61) 2244-1232
e-mail: getpam@sejus.df.gov.br

► Regularização e documentação migratória
Telefone: (61) 2024-7402
e-mail: delemig.drex.srdf@pf.gov.br

► Atendimento: segunda a sexta-feira, das 8h às 18h.
Para registro migratório, é preciso agendamento.

https://agenciabrasilia.df.gov.br/

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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

‘Brasil faz diferente de Trump’, diz ministro sobre imigrantes serem bem-vindos ao mercado de trabalho

 

Ministro do Trabalho, Luiz Marinho, fala com jornalistas em Campo Grande. (Foto: Marcos Ermínio, Jornal Midiamax)

Cumprindo agenda em nesta terça-feira (8), o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, disse que o Brasil segue na contramão da política de extradição adotada pelo governo dos Estados Unidos, sob o comando do presidente Donald Trump.

O gestor disse que o mercado de trabalho brasileiro está ‘de braços abertos’ aos imigrantes.

“O Brasil costuma fazer diferente do presidente Trump, que está expulsando os imigrantes. Nós estamos de braços abertos para os imigrantes, estabelecendo todo o processo de qualificação e dialogando com as empresas sobre as contratações”, afirmou.

Segundo o 12º Relatório Anual do OBMigra (Observatório das Migrações Internacionais), o Brasil abriga mais de 2 milhões de imigrantes internacionais, entre residentes, temporários, refugiados e solicitantes de reconhecimento da condição de refugiado. São cerca de 200 nacionalidades diferentes, representadas por indivíduos em todas as unidades da federação. 

Venezuelanos, haitianos, cubanos e angolanos são os grupos em destaque. É estimada a residência de 680 mil venezuelanos no Brasil no início de 2026, com maior participação de mulheres e crianças (0 a 14 anos).

Dados do Atlas dos Trabalhadores Migrantes no Brasil apontam que o número de vínculos formais de trabalhadores migrantes saltou de 43 mil, em 2002, para 272 mil, em 2023.

Apesar do crescimento, a inserção profissional ainda ocorre, em grande parte, em atividades marcadas por baixos salários e elevada rotatividade, segundo o Tribunal Superior do Trabalho.

Setores como construção civil, confecção e frigoríficos concentram essas contratações, e 71% dos trabalhadores migrantes formais recebem até dois salários mínimos.

O acesso à informação, segundo magistrados que atuam na Justiça do Trabalho, é um dos principais instrumentos para prevenir situações de exploração e violação de direitos.

https://midiamax.com.br/

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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Onda de anti-imigração também chegou à América do Sul?



 Foto / X / @SubseInterior

Renan Rebello  

A retórica e as práticas migratórias do governo de Donald Trump encontraram eco em países como Argentina, Chile e Colômbia. Alinhados aos Estados Unidos, esses governos também adotaram uma postura de rigidez em relação aos imigrantes. A adaptação da atual política estadunidense ao cenário sul-americano reacende o debate sobre a integração regional.

Nesse sentido, Beatriz Bandeira de Mello, doutora em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em entrevista à Sputnik Brasil, aponta que esse tipo de posicionamento pode com o tempo corroer um dos pilares mais fortes entre os países sul-americanos, que é justamente a circulação de pessoas.

"Eu acho que corrói muito a nossa sociedade e não contribui em nada para a nossa região. Com esses tensionamentos, frações da sociedade que às vezes não têm essa percepção e enxergam [a imigração] como ameaça. Então, é muito perigoso a gente ir por esse caminho de criminalizar, de enrijecer as normas e tudo mais", disse.

A especialista pontua que a proximidade ideológica com Washington de líderes como Abelardo de la Espriella (Colômbia), Javier Milei (Argentina) e José Antonio Kast (Chile) fortalece a criminalização dos fluxos migratórios. Como reflexo dessa convergência política, a população venezuelana torna-se ainda mais vulnerável e exposta a abusos no continente.

"Assim como Kast, Abelardo de la Espriella também tem adotado uma retórica muito agressiva de criminalizar esses migrantes. Acontece que, à medida em que são eleitos esses governos mais alinhados com as diretrizes de governo Trump, começa-se a adotar essa retórica mais agressiva contra os migrantes, principalmente contra esses fluxos migratórios, tendo os venezuelanos como os bodes expiatórios", comenta.

Passageiros embarcam em avião da Aerolíneas Argentinas, no Aeroporto Jorge Newbery. Buenos Aires, 24 de novembro de 2023 - Sputnik Brasil, 1920, 26.02.2024

Discurso anti-imigração são feitos a partir de falácias

Outro ponto levantado por Bandeira de Mello é que a culpabilização de imigrantes para os problemas estruturais do país, também é seguida por ideias sobre aumento da criminalidade, que supostamente afetariam a economia interna.

"Os políticos alinhados com esse discurso de que os migrantes dizem que são um grande problema do desenvolvimento econômico, então que fechar fronteiras seria a solução [e essa ideia] vem associada à retórica de criminalização também, de que os imigrantes vêm cometer crimes, o que tem sido muito usado por Milei", destaca.

A analista internacional também pontua que Buenos Aires e Bogotá, ao dificultarem as regras de migração entre cidadãos do Mercosul e de seus estados associados, desrespeitam diretamente os acordos de integração no âmbito da América do Sul.

"Hoje a gente tem essa facilidade de poder transitar entre os países, principalmente no Mercosul e nos países associados. O que acontece é que os países, por exemplo, Argentina e Colômbia, que são os dois exemplos mais chaves, que têm falado mais sobre isso abertamente, eles têm tentado, digamos, 'burlar' essa regra", observa.

Washington anuncia o fim das operações de imigração do ICE em Minnesota - Sputnik Brasil, 1920, 30.04.2026

EUA como padrão a ser seguido é algo contraditório

Segundo a análise de Bandeira de Mello, é contraditória a postura anti-imigração dos EUA, visto que o país foi historicamente construído por fluxos migratórios. Essa dinâmica torna-se ainda mais complexa quando replicada por nações latino-americanas, que adotam diretrizes estadunidenses em detrimento de suas próprias realidades regionais.

"Eu acho que é muito perigoso a gente incorporar esses discursos enlatados dos EUA que, em si, foi um país formado por migrações, é extremamente contraditório. A gente não pode assumir esses discursos enlatados e acreditar que fechar fronteiras e infringir as nossas normas é a melhor saída para lidar com a questão migratória, que é muito central em toda a América Latina", conclui.

A influência dos EUA na América Latina vai além das pressões econômicas e militares. O alinhamento automático à Casa Branca faz governos locais replicarem diretrizes de Washington internamente. Contudo, ao adaptar essas estratégias, como na gestão migratória, essas nações agravam suas próprias crises humanitárias e institucionais.

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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Iniciativa para combater a solidão de mulheres imigrantes promove piquenique

 

O local escolhido foi o Parque Eduardo VII, no centro de Lisboa.Foto: Canva

Por  Amanda Lima

Às vezes, tudo o que precisamos é de um lugar seguro para conversar, rir, descansar e lembrar que não estamos sozinhas". Este é o convite da "Not Alone. Not Anymore" ("Não Sozinha. Não Mais", em tradução literal), movimento lançado recentemente pelo Diásporas.pt para combater a solidão entre mulheres imigrantes em Portugal.

Será um piquenique gratuito em Lisboa, no dia 12 de setembro, a partir das 15:00. As integrantes definem o encontro como um "espaço de partilha, conexão e novas amizades". O local escolhido foi o Parque Eduardo VII, no centro da cidade.

As orientações são as seguintes: levar uma manta para sentar no gramado, comida e/ou bebida para compartilhar com as demais mulheres e não esquecer o próprio copo. As crianças são "muito bem-vindas", para que as mães imigrantes também possam participar deste convívio.

"Venha como você é. Há sempre espaço para mais uma mulher nesta roda", complementa o convite. A campanha ressalta que "nenhuma de nós deveria atravessar a vida sozinha". Como o DN Brasil mostrou em entrevista recente, a iniciativa busca combater a solidão por meio da construção de redes de acolhimento, pertencimento e apoio.

O projeto é da Academia Comum, integrante da associação Diásporas, que reuniu mulheres de diferentes nacionalidades para refletir sobre os desafios da migração. Outros eventos presenciais estão sendo programados para os próximos meses.

https://dnbrasil.dn.pt/

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sábado, 5 de setembro de 2026

Brasil e Tailândia trocam experiências sobre políticas migratórias e proteção a refugiados

 

Intercâmbio entre Brasil e Tailândia abordou integração local, sistema de refúgio e acolhida humanitária. Foto: Cacau Bispo/MJSP

O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) recebeu, nessa segunda-feira (31), representantes do governo da Tailândia para uma reunião técnica de intercâmbio de conhecimentos sobre migração, refúgio e integração local de pessoas refugiadas. O encontro foi promovido pelo Departamento de Migrações (Demig), da Secretaria Nacional de Justiça (Senajus), no Palácio da Justiça, em Brasília (DF).

A visita técnica bilateral permitiu o compartilhamento de experiências dos dois países na formulação e implementação de políticas migratórias e de proteção internacional. A programação incluiu apresentações sobre a Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia (PNMRA), o funcionamento e as práticas do sistema brasileiro de refúgio e o modelo de proteção adotado pela Tailândia.

Para o diretor do Demig, Victor Semple, o intercâmbio permite compartilhar conhecimentos entre os países. “A cooperação internacional também se constrói por meio da troca de soluções, experiências e desafios. Esse diálogo permite conhecer diferentes respostas para questões que são comuns aos países e, ao mesmo tempo, compartilhar as experiências desenvolvidas pelo Brasil na proteção de migrantes, refugiados e apátridas”, afirmou.

Política Migratória

Durante o encontro, o Demig apresentou a experiência brasileira na construção da Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia. Prevista na Lei de Migração, a PNMRA busca articular as ações desenvolvidas pelo Governo Federal em cooperação com estados, Distrito Federal e municípios, além de ampliar a participação da sociedade civil, de organismos internacionais, de entidades privadas e das próprias populações migrantes, refugiadas e apátridas.

Entre seus objetivos estão o fortalecimento da integração local e da inclusão social, a promoção do trabalho decente e da inclusão produtiva, a articulação entre diferentes áreas e níveis de governo e o aprimoramento de políticas públicas orientadas por dados e evidências.

A apresentação também destacou a importância da coordenação entre os entes federativos para responder aos diferentes contextos migratórios e ampliar o acesso de migrantes, refugiados e apátridas a direitos e serviços públicos.

Sistema Brasileiro de Refúgio

Outro eixo da reunião foi o funcionamento do sistema brasileiro de refúgio. A delegação conheceu aspectos da Lei nº 9.474/1997, que estabelece os mecanismos para a implementação do Estatuto dos Refugiados no País e que incorporou ao ordenamento jurídico brasileiro os parâmetros internacionais de proteção.

Além das hipóteses de perseguição previstas nos instrumentos internacionais, a legislação brasileira reconhece como refugiadas pessoas obrigadas a deixar seus países em razão de grave e generalizada violação de direitos humanos, conceito inspirado na Declaração de Cartagena.

Desde a criação do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), cerca de 170 mil pessoas foram reconhecidas como refugiadas no Brasil. Entre janeiro e julho de 2026, o País registrou 34.346 novas solicitações de reconhecimento da condição de refugiado e 2.534 deferimentos.

Também foram apresentadas estratégias utilizadas pelo Conare para dar mais eficiência à análise dos pedidos, entre elas procedimentos simplificados para determinadas situações de grave e generalizada violação de direitos humanos e mecanismos voltados a grupos expostos a formas específicas de perseguição ou violência. Entre as práticas apresentadas à delegação tailandesa também estiveram ações de reunião familiar, missões direcionadas à população indígena Warao e medidas de modernização do Sistema do Comitê Nacional para os Refugiados (Sisconare).

Segundo a coordenadora-geral do Conare, Amarílis Tavares, a atuação brasileira busca conciliar eficiência administrativa e proteção. “O desafio é assegurar respostas adequadas a um volume expressivo e diverso de solicitações sem perder de vista a finalidade central do sistema de refúgio, que é garantir proteção a quem dela necessita”, destacou.

Acolhida e integração

A reunião também apresentou ações brasileiras voltadas à acolhida e à integração local, como o Programa Nacional de Acolhida Humanitária por Patrocínio Comunitário, instituído pela Portaria MJSP nº 1.242, de 22 de junho de 2026.

O programa estabelece uma via complementar de admissão e acolhida humanitária, com participação de organizações da sociedade civil. O modelo prevê apoio desde a preparação para a chegada ao Brasil até a integração local, incluindo acolhimento, moradia temporária, regularização documental, acesso aos serviços públicos, ensino da língua portuguesa e apoio à inserção sociolaboral.

Até julho de 2026, cinco organizações da sociedade civil habilitadas haviam disponibilizado capacidade para acolher 1.319 pessoas. Desse total, 553 já haviam sido recebidas no Brasil por meio da iniciativa.

Cooperação técnica

Ao final da programação, representantes da Tailândia apresentaram aspectos do sistema migratório e de refúgio do país, permitindo a comparação de práticas, estruturas institucionais e conhecimentos adotados pelos dois governos.

Para a representante do Conselho Nacional de Segurança da Tailândia, Taksaporn Noikaew, a visita técnica reforçou o potencial de cooperação entre os dois países. “A Tailândia está atualmente revisando suas políticas de gestão migratória e valorizamos muito a experiência brasileira nas áreas de proteção a refugiados, promoção da autonomia e soluções duradouras. Apesar das diferenças entre os contextos dos nossos países, identificamos diversas oportunidades de aprendizado mútuo e cooperação.”

A visita integra iniciativa coordenada pelo Demig/Senajus/MJSP, com facilitação do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) e do Ministério das Relações Exteriores (MRE), voltada ao intercâmbio de conhecimentos e à cooperação técnica em migração, refúgio e integração local.

https://www.gov.br/

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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Radiografia da deportação: brasileira relata drama de retorno forçado ao país em meio à caça a imigrantes nos EUA

 

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. | Crédito: Saul Loeb / AFP

Era junho de 2025 quando a brasileira Alice, que morava no Havaí, nos Estados Unidos, teve que encarar, pela primeira e definitiva vez, o cerco dos agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) do país. Ao atender o telefone, ouviu de um dos agentes do agrupamento: “A gente está em frente à sua casa.” Primeiro, Alice achou que a ligação fosse um trote. Depois, entendeu que as autoridades a estavam obrigando a se apresentar ao ICE em data marcada, com a bagagem pronta, a filha de sete anos e o companheiro. Uma semana depois do primeiro contato, Alice largou tudo e comprou a passagem de volta para o Brasil.

Antes daquela ligação, Alice acumulava quase 11 anos de vida no arquipélago. Chegou aos Estados Unidos pelo Ciência sem Fronteiras, passou por Michigan, voltou como turista e se fixou no Havaí. A filha, hoje com oito anos, é nascida estadunidense. Os longos anos por lá foram frutíferos: Alice abriu uma empresa de faxina, financiou o carro e pagava regularmente os impostos. Ao custo de muito trabalho. “Aqui o negro tem que ralar para sobreviver. Você consegue ter qualidade de vida, consegue comprar um carro, tem um poder de compra melhor, mas trabalha tanto quanto no Brasil”, explica, em conversa com o Brasil de Fato

Para consolidar de vez a estabilidade nos EUA, faltava o green card. Sem documento, Alice recorreu à ideia de se casar com um amigo, para que pudesse obter a autorização definitiva. Uma denúncia feita em 2022 estremeceu o plano. Ao descobrirem a irregularidade, os agentes do serviço de cidadania e imigração cancelaram o processo de regularização da brasileira. Alice não foi presa nem recebeu carta de deportação, e seu advogado avaliou que, com mais de dez anos nos EUA, uma filha e nenhuma passagem criminal, o risco de expulsão era baixo.

Por três anos, nada aconteceu. Até que a volta de Donald Trump ao poder, em janeiro do ano passado, mudou os cálculos. Quando os agentes do ICE voltaram a procurá-la, o advogado que a brasileira contratou por US$ 1.500 não encontrou nenhum processo aberto no nome de Alice, mas alertou que a legislação estadunidense já não era mais aplicada como antes. “Ele disse que tinha pessoas com 20, 30 anos sendo deportadas sem o direito de defesa”, relata Alice. 

“Fiquei com medo de buscar minha filha na escola. Saí imediatamente da casa em que estava. Em menos de uma semana, larguei tudo, e os amigos foram lá tirar as coisas que eu tinha”, diz. Alice chegou a se esconder na casa de uma amiga naturalizada estadunidense, a única disposta a recebê-la, porque os agentes rondavam os endereços de quem pudesse abrigá-la. Chegou a cogitar morar no carro para não expor ninguém. A filha não tinha visto para entrar no Brasil, e Alice se desdobrou para resolver a documentação antes de entrar.

A volta ao país natal não encerrou o sofrimento da família. “Minha filha chegou ao Brasil sem falar português. É filha de brasileiro, entendia, mas não falava. Sofreu muito, chorava muito. Eu entrei em depressão. A gente está até hoje tomando remédio”, relata Alice, que agora vive em Fortaleza, para onde o pai da criança também conseguiu se mudar meses depois. “Foi desumano tudo o que aconteceu.”

Cerco implacável

Alice não é um caso isolado. Somente no último mês de agosto, o ICE prendeu cerca de 51 mil pessoas, segundo dados do Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês), responsável pela política linha-dura do governo Trump. Esse é o maior registro de prisões em um único mês desde que Trump endureceu a política de deportação. 

“Isso é a prova de promessas feitas e cumpridas na prática. Sob a liderança do presidente Trump, o ICE trabalha incansavelmente, todos os dias, para deter e deportar imigrantes ilegais das comunidades americanas”, comentou o secretário do DHS, Markwayne Mullin. “Se você está no país ilegalmente, VÁ EMBORA AGORA”. 

Os números são altos, crescentes e dão conta da quase completa falta de critério da gestão republicana. As prisões e deportações ignoram se as vítimas já são alvos ou não de processos na Justiça estadunidense, como foi o caso de Alice. Em junho, foram 43 mil detenções, enquanto as de julho somaram 49 mil, segundo registros analisados pelo jornal The New York Times. O número de voos de remoção bateu recorde em julho, com ao menos 329 saídas do país, segundo monitoramento da organização Human Rights First

A caça a pessoas em situação irregular virou um fim em si mesmo. Segundo a análise feita pelo NYT, a parcela de pessoas presas e que já tinham condenação anterior por crime violento caiu para menos de 4%. O argumento da Casa Branca, agora, é que a situação irregular, por si só, é o crime a ser combatido. Na prática, o combate desconsidera o direito ao contraditório. 

Para o professor Rafael Ioris, que leciona História Latino-Americana na Universidade de Denver, o que alterou foi, sobretudo, a escala. “Quando o Trump assume, a média de prisões não chegava nem a 10 mil por mês. Hoje, é de cinco vezes mais”, contextualiza, em conversa com o Brasil de Fato. A imigração foi peça central nas duas eleições do republicano, mas o segundo mandato, até o momento, mostra que a engrenagem ganhou força. “O governo Trump 2.0 é muito mais bem organizado, eficiente, agressivo e muito mais ostensivo. O ICE está muito mais aparelhado e financiado”, diz Ioris. 

Há dois caminhos principais pelos quais o ICE ficou mais robusto. Primeiro, o salto de 21 mil para 29 mil funcionários, do início do segundo mandato de Trump até o último mês de julho, segundo o Escritório de Gestão de Pessoal. Segundo, o fato de que o organismo passou a se apoiar, ainda mais, em polícias estaduais e municipais. O programa que delega a agentes locais o poder de prender imigrantes, conhecido como 287(g), já responde por cerca de 14% das detenções. “Trump está colocando muito mais pressão, forçando para que polícias locais cooperem”, diz Ioris, salientando que nem mesmo estados e cidades governados por democratas escapam à empreitada de Trump.

A saída de Kristi Noem do Departamento de Segurança Interna, em março, por conta de críticas à truculência das operações, abriu caminho para o senador republicano Markwayne Mullin. Ele chegou prometendo uma fiscalização mais discreta, embora mais eficaz. A meta do governo é chegar a pelo menos duas mil prisões por dia, o que já está no horizonte imediato. Isso só será possível, porém, com uma maior capacidade de detenção. O governo promete abrir 100 mil novas vagas em unidades prisionais estadunidenses. 

Um dos símbolos materiais do novo modus operandi do ICE será o uso, por parte dos agentes, de luvas capazes de aplicar choques elétricos, fabricadas pela empresa Compliant Technologies, do Kentucky. O ICE fechou o contrato, sem licitação, em agosto, no valor de US$ 16,7 milhões. Cada par deve custar cerca de US$ 2,5 mil e a entrega está prevista para março de 2027. Senadores democratas e entidades de direitos civis pediram o cancelamento da compra, dizendo que o dispositivo facilitará a prática de abusos mais difíceis de serem identificados. Foi em vão.

Entre idas e vindas, a imigração

Trump é mais vocal e abertamente combativo quanto à imigração. Mas a opinião pública estadunidense, historicamente, sempre encarou o tema com ambiguidade: ao mesmo tempo que apoia, majoritariamente, ações de fiscalização sobre imigrantes, não deixa de reconhecer, ainda que tacitamente, a necessidade que o país tem de aceitar a força de trabalho vinda de fora, central para a atividade econômica dos EUA.

“Sempre houve algum grau de arbitrariedade, porque é um assunto não só de polícia, mas político. Mas a escala com que isso acontece é muito nova, agora”, avalia Ioris. A pressão por cotas influencia a atuação nas ruas. “Você pode ser parado por uma questão de trânsito, passar no sinal vermelho, a polícia vem, pede seus documentos. Você pode, inclusive, ser cidadão, mas não ter como provar”, destaca. “Os policiais agem de maneira muito ideologizada”. 

Nos EUA, uma das questões centrais diz respeito à incerteza sobre se a dureza das operações traduz ou não a relação com a imigração, em si. Uma pesquisa do instituto Gallup mostrou que 73% da população do país ainda consideram a imigração benéfica aos EUA. Além disso, uma projeção da Universidade da Pensilvânia revelou que, caso os EUA deportem 10% dos imigrantes sem documento a cada ano, até 2028, o déficit federal poderia ser elevado em US$ 350 bilhões, com uma redução de 1% do PIB. Essas condições levariam a uma maior perda de poder econômico da população, já angustiada pela economia engasgada. 

“Desde o período Ronald Reagan [1981-1989], mesmo entre os republicanos, havia essa ambiguidade. Funciona muito bem, do ponto de vista eleitoral, vilificar o imigrante. Mas grandes empresários, especialmente na agricultura, compravam a narrativa e, por trás, faziam acordos com o governo para dar anistia, um visto de trabalho, porque precisam dessa mão de obra barata”, aponta Ioris.

O futuro próximo deverá confirmar o peso da pauta nas eleições de meio de mandato nos EUA, marcadas para o dia 3 de novembro. Para Ioris, ao menos atualmente, “a imigração deixou de estar na vitrine da discussão política”. “Pode ser que volte agora, mas há tantas outras coisas. As pessoas estão falando mais da inflação e da guerra no Irã”, diz o professor, citando alguns dos tópicos que rondam a cabeça do eleitorado estadunidense. O aumento das prisões ou eventuais episódios mais violentos podem recolocar o assunto no centro da pauta, mas Ioris pondera: “A não ser que haja uma nova morte, algo que ocupe as câmeras nas próximas semanas, eu não acho que vai ser um fato preponderante ou decisivo na eleição.”

Agora, já longe do território estadunidense, Alice tenta recompor a vida. Apesar das dificuldades, a filha vem aprendendo o português. “Estou tentando fazer uma limonada com os meus limões. Só agora estou conseguindo falar disso tudo”, diz a brasileira. A política implacável do governo Trump também renega a maioria dos que deixam os EUA ao silêncio.

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