Quatro anos após o início do conflito, cerca de 10 milhões de ucranianos vivem longe de suas casas. Entre deslocados internos e refugiados no exterior, cresce a necessidade de assistência humanitária, à medida que aumentam as dificuldades econômicas e psicológicas. Apesar de tudo, permanece forte o desejo de voltar.
Stefano Leszczynski - Vatican News
A guerra na Ucrânia entra no seu quinto ano, deixando para trás não só territórios disputados, mas acima de tudo vidas destruídas e comunidades desintegradas. Casas, escolas, hospitais e infraestruturas energéticas continuam sendo atingidos, com um impacto direto na população civil. De acordo com a Missão de Monitoramento dos Direitos Humanos das Nações Unidas na Ucrânia, 2025 foi o ano mais letal para os civis: mais de 2.500 pessoas perderam a vida e mais de 12 mil ficaram feridas. Números que confirmam que o conflito ainda está longe de uma solução e que testemunham a intensificação dos ataques e as consequências sobre as infraestruturas essenciais.
Dez milhões de pessoas longe de casa
Cerca de 10 milhões de ucranianos vivem atualmente longe de suas casas. Desses, 3,7 milhões são deslocados internos: deixaram as zonas de combate, mas permaneceram dentro das fronteiras nacionais. Outros 5,9 milhões procuraram proteção no exterior. “Os fluxos de refugiados ucranianos para o exterior ainda são uma realidade”, explica Elisabeth Haslund, porta-voz do ACNUR na Ucrânia. A principal razão continua sendo a falta de segurança, agravada pela crise energética causada pelos bombardeios contínuos contra as infraestruturas. De acordo com dados do Eurostat, em 2025, na União Europeia – juntamente com os quatro países associados ao espaço Schengen (Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça) – foram emitidas 670 mil autorizações de residência temporária a cidadãos ucranianos, 12% menos do que em 2024.
A emergência dentro das fronteiras ucranianas
Dentro do país, pelo menos 11 milhões de pessoas precisam de assistência humanitária. Por trás desse número escondem-se necessidades concretas: comida, alojamento, cuidados médicos, apoio psicológico, acesso a serviços básicos. A maioria dos deslocados internos ainda se concentra nas regiões orientais, particularmente em Kharkiv e Dnipro, na tentativa de permanecer o mais próximo possível de suas casas. A capital, Kiev, também está sob pressão devido ao fluxo contínuo de refugiados. Um dos problemas mais urgentes continua sendo o alojamento, especialmente para idosos e pessoas frágeis. Entre as prioridades do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados está justamente o apoio habitacional e sanitário para aqueles que não têm alternativas.
O caso italiano: integração fracassada
Os refugiados ucranianos apresentam características peculiares também no contexto italiano. “Os ucranianos e ucranianas na Itália nunca deram a impressão de querer se estabelecer de forma permanente”, explica Filippo Ungaro, porta-voz do ACNUR na Itália. Muitas crianças continuaram a acompanhar as aulas das escolas ucranianas on-line e o nível de conhecimento da língua italiana permanece relativamente baixo. Um outro elemento crítico diz respeito ao registro no cartório: muitos não estão registrados, perdendo assim o acesso aos serviços sociais municipais e aos subsídios para o aluguel. Muitas vezes, eles dependem de redes informais de parentes e amigos.
Uma resiliência que não deve ser normalizada
Na segunda metade de 2025, os riscos para a população deslocada e outros grupos vulneráveis aumentaram. No entanto, apesar dos bombardeamentos e das dificuldades diárias, as pessoas continuam a ir trabalhar e a levar os filhos à escola. Uma resiliência ostensiva que, no entanto, não deve tornar-se normalidade. Por trás da aparente capacidade de adaptação esconde-se uma pressão constante, sobretudo em nível psicológico. 42% dos refugiados relatam dificuldades relacionadas à saúde mental, com porcentagens ainda mais elevadas entre idosos, doentes crônicos e famílias monoparentais.
O desejo de retornar e as dificuldades econômicas
Apesar de tudo, cerca de 1,4 milhão de refugiados retornaram à Ucrânia, permanecendo no país por pelo menos três meses. Um sinal da vontade generalizada de retornar, quando as condições permitirem. De acordo com a última pesquisa sobre intenções realizada pelo ACNUR, 61% dos refugiados no exterior e 73% dos deslocados internos esperam voltar um dia para casa.
No entanto, também cresce o número daqueles que se declaram resignados por não poderem retornar aos seus locais de origem. O ACNUR contribuiu para a reparação de mais de 55 mil habitações danificadas pelos combates. Mas as dificuldades financeiras, agravadas pelos recentes cortes na cooperação internacional, limitam a capacidade de intervenção: menos recursos significam menos pessoas ajudadas. A linha de frente continua a se mover lentamente. Mas a divisão mais profunda não é apenas geográfica: ela atravessa a vida de milhões de pessoas suspensas entre a espera pela paz e a necessidade de reconstruir um futuro longe de casa.




Em Melkadida, no sudeste da Etiópia, a pressão de 200 mil refugiados sobre um deserto já frágil parecia anunciar fome, conflito e erosão irreversível, mas um arranjo entre comunidades locais, cooperativas mistas, irrigação solar e manejo do solo recuperou mais de mil hectares e reescreveu a economia regional duradoura ali.
No deserto semidesértico de Melkadida, no sudeste da Etiópia, a chegada de mais de 200 mil refugiados somalis entre 2009 e 2011 pressionou uma paisagem que já vivia no limite: pouca chuva, calor acima de 40 °C, solo com baixíssima matéria orgânica e infraestrutura praticamente inexistente. O cenário inicial reunia todos os fatores de uma crise prolongada.
A mudança veio quando uma resposta emergencial passou a ser tratada como estratégia de longo prazo. Com canais de irrigação, bombeamento por energia solar, recuperação de solo e cooperativas mistas entre refugiados e comunidades anfitriãs, a região saiu de uma trajetória de degradação contínua para um ciclo de produção agrícola, renda local e reorganização social.
Quando 200 mil pessoas chegam a um território já no limite
Antes do pico de deslocamento forçado, a região já enfrentava sinais severos de exaustão ambiental. A precipitação anual baixa, frequentemente abaixo do necessário para agricultura de sequeiro, combinada a temperaturas extremas, deixava o solo mais suscetível à compactação, à erosão e à perda de fertilidade. O problema não era só falta de água; era incapacidade do solo de absorver e reter água.
Com o crescimento acelerado dos campos em torno de Dollo Ado, a pressão por lenha, pastagens e água aumentou em ritmo muito superior à capacidade local de reposição.
Árvores foram derrubadas, a cobertura vegetal diminuiu e as tensões entre moradores e recém-chegados se intensificaram. Nesse contexto, o deserto não avançava apenas por causa do clima, mas também por um acúmulo de decisões de sobrevivência imediata.
Em vez de apostar apenas em assistência pontual, o desenho incluiu infraestrutura produtiva: cerca de 20 quilômetros de canais de irrigação e bombeamento movido a energia solar, solução coerente para uma área com muitas horas de sol e rede elétrica distante.
A escolha técnica veio acompanhada de uma escolha política: dividir terra, acesso e resultados em 50/50 entre refugiados e comunidade anfitriã. Essa regra reduziu o risco de exclusão econômica de um dos lados e ajudou a conter ressentimentos.
No deserto, onde recursos são escassos e disputados, esse tipo de governança compartilhada se tornou tão importante quanto a obra física.
Como o solo saiu da rota de colapso para voltar a produzir
A recuperação não se resumiu a levar água de um ponto a outro. Em solos com menos de 1% de matéria orgânica, a infiltração é baixa e a superfície tende a selar.
Sem correção de manejo, a irrigação pode inclusive piorar o quadro por salinização. Por isso, o pacote técnico incluiu rotação de culturas, devolução de biomassa ao solo e planejamento de irrigação para reduzir evaporação.
Com o tempo, os sistemas radiculares e os resíduos orgânicos ajudaram a abrir porosidade no terreno, elevando gradualmente a capacidade de infiltração e retenção hídrica.
Esse processo permitiu estabilizar ciclos produtivos em ambiente árido e expandir o cultivo para mais de mil hectares recuperados. Foi uma recuperação construída por etapas, não um “milagre instantâneo” no deserto.
Da sobrevivência à renda: cooperativas, mercados e energia
Com o solo mais funcional, 13 culturas passaram a ser plantadas, com casos de até três colheitas por ano. Milho, cebola, tomate, feijão, sorgo, melancia e outras lavouras mudaram a lógica econômica local: uma área antes dependente de importações começou a gerar excedente e comércio. Em paralelo, cooperativas mistas ganharam escala e participação social.
Outro eixo relevante foi o manejo de espécie invasora transformada em combustível. Grupos, inclusive cooperativas de mulheres, passaram a converter biomassa em briquetes, reduzindo dependência de lenha e criando nova renda.
Quando controle ambiental vira atividade econômica viável, a restauração deixa de depender só de projeto e passa a depender de interesse local contínuo. Esse foi um dos elementos que conectaram recuperação ecológica, segurança doméstica e autonomia financeira.
O que os satélites registraram e o que os números realmente mostram
As imagens de satélite passaram a mostrar, em poucos anos, um contraste forte entre áreas antes classificadas como solo nu e zonas com cobertura agrícola ativa.
Esse “antes e depois” ajudou a comprovar que a intervenção não ficou restrita ao discurso: houve mudança territorial observável. Em avaliação acadêmica, os indicadores também apontaram avanço em renda, cooperação produtiva e inclusão financeira para parte dos participantes.
Ao mesmo tempo, os resultados exigem leitura sem euforia. Nem todos entraram no mesmo ritmo: parte das cooperativas prosperou mais que outras, a governança foi desigual em alguns pontos e muitos refugiados continuaram dependentes de assistência alimentar.
A experiência mostra capacidade real de transformação no deserto, mas também deixa claro que escala, estabilidade e continuidade institucional são desafios permanentes.
O legado político e os riscos que ainda cercam o modelo
A experiência em Melkadida influenciou debates mais amplos sobre política de refúgio na Etiópia, com avanços em direitos e integração econômica, incluindo acesso a trabalho, serviços e instrumentos formais como contas bancárias.
No campo institucional, o caso reforçou a ideia de que refugiados podem atuar como agentes econômicos e não apenas como destinatários de ajuda.
Mas a sustentabilidade futura depende de variáveis críticas. O sistema hídrico local está ligado ao comportamento do rio que abastece a região, sujeito a variabilidade climática e disputas de uso a montante.
Se o fluxo reduzir de forma relevante, todo o arranjo produtivo do deserto fica pressionado. Em outras palavras: a prova de conceito foi dada; a prova de permanência ainda está em andamento.
A história de Melkadida não elimina a dureza da crise climática nem simplifica o drama do deslocamento forçado.
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