Dados do Ministério
da Justiça mostram que o número de imigrantes que solicitam o VISTO
de
permanência no Brasil dobrou em quatro anos, chegando a 30 mil pedidos anuais.
Eram 15 mil em 2010. Apesar do aumento, os dados podem ainda estar
subnotificados, já que só consideram os pedidos oficiais, e muitos entram de
maneira clandestina.

"O País tem se
mostrado no cenário internacional como uma potência emergente. Por que as
pessoas não viriam?”, afirma a professora do Instituto de Relações
Internacionais da USP, Deisy Ventura.
O aumento da
procura, no entanto, não significa que os imigrantes queiram se estabelecer
para sempre no Brasil, afirma Deisy. “O imigrante que está chegando ao País
atualmente não tem a pretensão de ficar de maneira definitiva. Ele, na verdade,
vem em busca de trabalho e quando consegue juntar alguma coisa, mostra o desejo
de voltar ao seu país de origem”.
É o caso do
haitiano Widlet Alcine, 22 anos. No Brasil desde 2011, ele veio à procura de
uma vida melhor. “Sinto falta do meu país, mas lá estava muito difícil de
trabalhar e poder ter um padrão melhor”. Para conseguir vir para o Brasil, o
imigrante teve que ficar longe de sua esposa e da sua filha durante dois anos.
“Eu falava com elas todos os dias, mas foi muito difícil ficar longe e eu tive
que trabalhar muito até poder trazer elas para cá”.
Antes de chegar ao
Brasil, Alcine passou por vários lugares como República Dominicana, Equador e
Peru. No Brasil, chegou a morar no Rio de Janeiro, mas diz que prefere São
Paulo. O imigrante tem o sonho de ser advogado e conta que, apesar de sua vida
no País ser melhor do que era no Haiti, não pretende ficar. “A vida é assim, se
eu achar que não tenho condições de ficar no Brasil, vou embora com a minha
família”.
Por onde começar
Assim que Alcine
chegou a São Paulo, foi encaminhado para a Paróquia Nossa Senhora da Paz,
localizada na região central da cidade. É para lá que também foram outros 2.500
conterrâneos dele somente neste ano. Referência em serviços de assistência a
imigrantes e refugiados, a igreja recebeu cinco mil deles somente em 2014.
“Ao chegar aqui,
nós fazemos um cadastro com todos os dados do imigrante, além de pedir o
contato de um parente no país de origem”, afirma o padre Paolo Parise, um dos
quatro padres da paróquia responsáveis por esse trabalho.
Ele conta que o
principal desejo dos atendidos é a conquista de um emprego, sonho que a igreja
ajuda a realizar. “Desde janeiro até agosto, tivemos 1862 imigrantes
contratados pelas 615 empresas cadastradas. Nós fazemos a intermediação e
selecionamos apenas as empresas idôneas, para evitar que os imigrantes caiam
nas mãos de coiotes.”
Mudança no Estatuto do Estrangeiro
De acordo com dados
do Registro Nacional de Estrangeiros, cerca de 1,7 milhão de imigrantes vivem
no País atualmente sob o Estatuto do Estrangeiro, criado em 1980, época da
ditadura militar, que impõe uma série de restrições para essas pessoas. Por
isso, no último dia 29, o Ministério da Justiça apresentou um projeto que
propõe uma nova Lei de Migrações.
O anteprojeto foi
construído por uma comissão de especialistas e pretende substituir o estatuto
atual. Uma das principais mudanças na lei é a permissão para que VISTOS
de
trabalhos de até dois anos sejam emitidos para quem vem ao País a procura de
emprego e não só para quem já vem com um emprego formal.

Segundo Deisy, que
é um dos membros da comissão que elaborou o projeto, o imigrante não será mais
tratado como um tema de segurança nacional e sim de direitos humanos. “Com a
nova lei, as pessoas teriam direitos por serem pessoas. O projeto propõe que
haja facilidade na regularização migratória, justamente para o Estado saber
quem são e onde estão os imigrantes”.
Para a professora,
o Estatuto atual é defasado e atrasado, pois dá ao Estado total poder para
decidir sobre quem pode entrar ou permanecer no País. “O estatuto proíbe os
imigrantes de realizarem ações públicas, como passeatas e manifestações. É uma
lei que pratica a violações de diversos direitos dos imigrantes”, afirma Deisy.
Outra mudança
destacada pela professora é a criação de um órgão que agregaria todos os
setores responsáveis pelos imigrantes. “Em minha opinião e na dos
especialistas, o trabalho não é o único direito que deve ser respeitado. Quando
o governo parar de vincular direitos ao trabalho, o mercado de exploração
ilegal e do trabalho informal diminuirá”.
A vida na paróquia
Além de mediar o
contato do imigrante com as empresas, a paróquia Nossa Senhora da Paz também
conta com um abrigo com capacidade para atender 110 imigrantes. “Aqui, eles
recebem três refeições por dia, têm lugar para dormir, uma lavanderia para
lavar suas roupas. Para as crianças, temos carrinhos, uma sala de brinquedos.
Tentamos dar o maior suporte possível para eles”, conta padre Paolo.
Ele afirma que as pessoas acolhidas
não têm um prazo estipulado para sair do local. “Nós entendemos que cada caso é
um caso. Mas nossa prioridade são os que acabaram de chegar, por serem os mais
vulneráveis. Quando não temos vagas, encaminhamos para as entidades parceiras.
O importante é que qualquer um que chegar aqui na paróquia receberá
assistência”.
Ig
Nenhum comentário:
Postar um comentário