Com a globalização dos nossos tempos, o capital ganhou como nunca
a capacidade de se movimentar para qualquer parte
Alguns dos melhores professores vinham de qualquer
parte da Grécia Antiga para trabalhar em Atenas. No século XV, a Espanha
contratava Colombo e muitos outros italianos para comandar os seus navios. Mais
tarde, na Revolução Industrial, a França e a Alemanha recrutaram técnicos e
engenheiros ingleses para melhorar os seus métodos de produção fabril.
A
verdade é que, com a globalização dos nossos tempos, o capital ganhou como
nunca a capacidade de se movimentar para qualquer parte do planeta. Mas a
mão-de-obra não. Enfrenta ainda hoje obstáculos de natureza social e política.
E tem piorado com a crise e o desemprego, como provam as últimas eleições
europeias.
Desde
1993, com a liberalização plena do movimento de capitais, uma empresa
portuguesa não precisa de autorização do Governo para INVESTIR
na Europa. Se pretender dar emprego,
aqui, a um cidadão estrangeiro, não temos Le Pen, mas os burocratas entram em
ação. E os preconceitos também.

A
nossa política de imigração tem muitas características absurdas que são comuns
à maioria das nações desenvolvidas: quanto maior é a qualificação do imigrante,
maior é a resistência e a desconfiança. Mas levámos mais longe esta atitude
defensiva.
A
socióloga e especialista em demografia, responsável da Pordata, Maria João
Valente Rosa concordava, numa recente conversa que tivemos, que Portugal
desperdiçou "uma oportunidade histórica no seu passado recente com a
entrada de muitos imigrantes do Leste", porque "duvidamos das suas
qualificações e, muitas vezes, colocamos essas pessoas em trabalhos totalmente
desqualificados".
As
fronteiras abriram-se naturalmente na década passada a cientistas do Leste.
Chegaram os engenheiros que precisamos e as médicas que não temos. Uns, para a
construção civil. Outras, para cuidar dos nossos filhos. Ou seja, para carregar
tijolos e mudar fraldas.
O
desleixo e a mal disfarçada proteção aos empregos dos locais formaram o caldo
de cultura para que ninguém olhasse para o problema com vontade de o resolver.
Por isso foram os primeiros a debandar, quando a crise fechou ainda mais o
mercado de trabalho. Segundo as últimas estatísticas disponíveis, no ano
passado, não chegava a 4% da população residente o número de estrangeiros com
presença regular em Portugal - uma das mais baixas taxas da Europa e da própria
OCDE.
O
problema é que, embora não o queiram, as sociedades europeias estão cada vez
mais dependentes das migrações para o seu dinamismo populacional. No caso
português, além de saldos naturais negativos (morrem mais pessoas do que
nascem), o saldo migratório também se tornou negativo nos últimos anos. É o
tiquetaque da bomba demográfica que ameaça implodir os sistemas de segurança
social e as dinâmicas econômicas que os suportam.
Dinheiro Vivo
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