terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Novos imigrantes ocupam cidades do interior de São Paulo

Movimentação reflete inserção de pequenas e médias cidades no mercado internacional. Perfil inclui trabalhadores especializados e intensa mobilidade
Os novos grupos de imigrantes que chegam ao Estado de São Paulo começam a se fixar não só na capital, mas preenchem postos de trabalho em vagas criadas pela internacionalização de pequenas e médias cidades do interior. Além disso, eles tomam antigos postos ocupados pelos migrantes internos provenientes do Nordeste, cada vez mais raros por conta do desenvolvimento da região nos últimos anos.

A distribuição destes grupos no Estado compõe parte do Atlas Temático do Observatório das Migrações em São Paulo, lançado em dezembro pelo Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Unicamp. A análise inclui quem nasceu fora do Brasil e vive em São Paulo, sem contabilizar as novas gerações nascidas no País.

O Atlas aborda uma série de movimentos migratórios nacionais e internacionais, além do fenômeno da emigração, do mapeamento da população indígena e dados de economia, politicas públicas, e população e taxas de crescimento no Estado. Na análise sobre os fluxos internacionais, o estudo se divide em duas linhas, uma é a comparação histórica da distribuição de grupos que chegaram na virada do século 18 para o 19 e outra que mostra a ocupação em 2010 pelos grupos mais recentes, que começaram a chegar em meados do século 20 e ganharam novos contornos nas últimas décadas.

Bolivianos, paraguaios, chineses e coreanos estão entre os grupos mais numerosos do novo perfil de imigrante. Há representantes destas nacionalidades no Estado desde as décadas de 1940 e 1950, mas atualmente possuem um novo perfil. Hoje são trabalhadores especializados que não necessariamente criam raízes no País, optando por seguir o fluxo da demanda de um determinado setor.

“Eles estão ora em Americana, ora em São Paulo, ora na Argentina, ora na região metropolitana, ora de novo na Bolívia. Depende de onde o capital internacional está alocando recurso”, conta a coordenadora do estudo, Rosana Baeninger. “Essa mobilidade tem a ver com a dinâmica de nichos econômicos e com o mercado internacional.”

Para além das tradicionais confecções do Brás, podemos encontrar parte dos 22,6 mil imigrantes bolivianos de São Paulo trabalhando no setor têxtil de Americana e no pólo de produção de jeans de Indaiatuba. Os cerca de 4,2 mil paraguaios que vivem no Estado seguem caminho parecido.

“A rede para a construção do nicho econômico é uma rede de capital internacional. O empresário deixa de usar insumo de Americana, por exemplo, para importar da China. A isso soma-se a mão-de-obra que, para ajudar a a manter a lucratividade, precisa não demandar direitos trabalhistas.” diz Baeninger.

O custo é baixo, mas os empregados são qualificados para as funções no setor em que atuam e com experiência de trabalho. “Eles têm uma rede que vai movimentando também esse grupo, ligado a um nicho econômico. Tudo tem uma lógica com a qual vamos conviver nesses espaços, com uma rotatividades enorme de imigrantes. Alguns ficam, formam família aqui e a rede migratória vai se ampliando.”

O alto custo de vida em São Paulo é um dos fatores que impulsiona a interiorização. “A chegada pode ser na metrópole, mas com as redes que vão se tecendo e as mudanças na economia, eles podem ir pro interior e seguir na mesma atividade.”

Os coreanos, por exemplo, foram atraídos pelo negócio de joias e semijoias e se fixaram principalmente na região de Limeira, pólo de distribuição para a capital. Os chineses, que são cerca de 9,3 mil em todo o Estado, se dedicam ao comércio de baixo custo (como as lojas populares que vendem tudo a R$ 1,99) nas cidades de Campinas, Jundiaí e Ribeirão Preto.

O perfil abrange não só pequenos comerciantes, mas também estrangeiros altamente qualificados, como os executivos de grandes empresas que se concentram em São Paulo, Campinas e São José dos Campos. “O século 21 nos anuncia tanto na metrópole, como no interior, fluxos que mesclam alta e baixa qualificação e que não necessariamente ficam por aqui”, detalha Baeninger.


Antigos imigrantes

O movimento dos novos grupos de imigrantes é contrário ao das levas de estrangeiros que chegaram a São Paulo no início do século, incentivadas por meio de acordos entre governos a ocupar o território do Estado e substituir a mão-de-obra escrava durante a expansão cafeeira. Entre as levas mais numerosas, estavam as de italianos, portugueses, japoneses e espanhóis. O Atlas compara a distribuição geográfica destes grupos no final do primeiro período migratório, em 1920, com os dados do Censo de 2010. Os italianos formaram o grupo mais expressivo, com 398.797 imigrantes. Hoje são 15.388.

Ao contrário dos grupos de latinos, que a partir da capital, seguiram para o interior, a imigração mais antiga, que ocupava todo o interior, passou a se concentrar nas proximidades da região metropolitana e próximos às plantas de empresas internacionais das regiões de Piracicaba ou Sorocaba, por exemplo.

Os grupos de novos imigrantes também receberam incentivos, mas já em meados do século 20. Grupos de chineses chegaram ao país nos anos 1940, para trabalhar em colônias agrícolas do oeste do Estado. A empreitada não deu certo e os imigrantes passaram a investir nas hoje tradicionais pastelarias. Nos anos 1950, um acordo entre Brasil e Bolívia favoreceu a vinda de estudantes de medicina. A partir destas primeiras movimentações, formou-se a rede migratória que favorece a mobilidade dos grupos atuais.

Como é baseado nos dados do Censo de 2010, o mapa não registra, por exemplo, a recente movimentação de haitianos a partir de 2012. Com o desenvolvimento do Nordeste e a redução do fluxo migratório da região em direção a São Paulo, a alternativa das grandes empreitaras foi buscar os haitianos no Acre para trabalhar na construção civil de Campinas, Jundiaí e Limeira. Eles também são encontrados na indústria de calçados de Franca. A estimativa é que cerca de cem imigrantes do Haiti tenham se deslocado para cada uma destas cidades.
Stempo Real 

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