terça-feira, 12 de abril de 2011

Fukushima – nas “rotas alteradas” um desafio à migração



Não há meio de comunicação que não estivesse noticiando, nas últimas semanas, a catástrofe que se abateu sobre o Japão. As imagens são fortes, indicam destruição, mortos e uma usina nuclear se desfazendo. Contra as imagens não há o que dizer e, de fato, ficamos impactados com o volume da tragédia e o sofrimento do povo. E frente aos efeitos da catástrofe nuclear, todos nós estamos correndo riscos de contaminação, tendo em vista que a nuvem radiativa formada a partir do desastre segue ao sabor dos ventos fazendo seu caminho.


Os números são inexatos – neste momento são mais de 8 mil mortos e quase 10 mil desaparecidos - porque divulgados com parcialidade e sempre incompletos. Mas é preciso lembrar que o número das vítimas diretas do terremoto/tsunamis e desastre nuclear disputa espaço com as notícias de que a Bolsa de Valores (o índice Nikkei) caiu assustadoramente nos últimos dias - mais de 10%, e as empresas japonesas amargam prejuízos. O que os números não revelam é o drama humano de vidas perdidas ou colocadas em extrema vulnerabilidade, famílias que perderam quase todas as suas referências de uma vida sem tribulações: moradia, trabalho, acesso aos equipamentos públicos, laser, vida religiosa... e que só lhes restou migrar para não morrer ou sofrer lentamente os impactos da invisível, porem não menos danosa radiação.

O terremoto e os tsunamis estão dentro da ‘normalidade’ geológica da região, ainda que assuste a magnitude no tremor e o tamanho das ondas. Ainda assim podem ser enquadrados dentro dos riscos habituais que corre a população que vive numa área tão instável. O inexplicável é sem dúvida alguma, a catástrofe que se seguiu, com as explosões e falência da usina nuclear de Fukushima. Será mesmo inexplicável?


A escolha da matriz energética é uma ação do governo, foi uma opção entre outras! E as consequências decorrentes de falhas no funcionamento de qualquer uma delas trás algum tipo de consequência. Nas demais matrizes existentes (eólicas, das marés, solar, hidráulica, geotérmica, etc.), as repercussões acabam circunscritas a uma região ou na pior das hipóteses a um país. Contudo, não é isso o que ocorre com um desastre nuclear, e Chernobyl já havia mostrado como é incontrolável o processo de difusão da radiação uma vez lançada na atmosfera. Engana-se quem imagina um único ponto no céu que viaja carregando a morte (a idéia de nuvem). O que se tem é um fluxo radioativo que, ao sabor dos ventos poderá chegar a milhares de quilômetros do Japão.


Desde as primeiras notícias do desastre na usina nuclear, intensificou-se a movimentação populacional na região. População que já estava sobre o impacto do terremoto/tremores secundários e dos tsunamis que se seguiram. Mesmo que se tenha falado em áreas de exclusão (espaço para a formação de um perímetro seguro), isso não significou redução no sofrimento das pessoas ou a possibilidade de retomada da normalidade de suas vidas.


Os estrangeiros que viviam e trabalhavam na região da tragédia nuclear estão sendo repatriados, com maior ou menor eficiência por seus países de origem. É obvio que estão deixando para trás empregos, projetos pessoais, sonhos e muitos sequer conseguirão voltar ao Japão para retomar o caminho que vinham percorrendo. Em cada país é preciso acompanhar de perto como e em que medida de prontidão esse socorro humanitário está sendo prestado. Isso se agrava na medida em que a radiação avança sobre outras regiões do Japão.


São em torno de 270.000 os brasileiros e brasileiras que vivem no Japão, trazer os que desejam voltar ao Brasil ou apoiar os que decidirem permanecer por lá, é uma grande questão. Assegurar que seus direitos humanos sejam respeitados é um desafio do qual não podemos fugir. A ajuda humanitária precisará se dar de forma diversificada e ao mesmo tempo precisará contar com as parcerias e colaboração que pudermos oferecer. Neste sentido cabem ações de organismos internacionais, governos e da sociedade civil, em favor de todos quantos, seja qual for a nacionalidade, estiverem expostos às consequências destas catástrofes, sejam elas naturais ou decorrentes da ação humana.


Iniciamos essa reflexão com o poema “Rosa de Hirochima” de Vinicius de Morais. Nele estão refletidos alguns dos mais vulneráveis à bomba atômica: crianças, meninas e mulheres. De fato, estão fora deste poema os homens e os idosos. Durante a Grande Guerra Mundial os homens jovens e adultos estavam nos exércitos e morriam nas batalhas, enquanto os idosos pereciam de fome, frio ou das inúmeras doenças resultantes desta realidade. A atenção do poeta, foi colocada no futuro prejudicado por um presente de destruição. A radiação penetra no interior das células, altera o DNA e por diversos caminhos destrói a vida, seja por meio do câncer – em suas diversas formas, seja pela má-formação fetal. O curso da vida é colocado em Xeque.


Além do desafio da solidariedade, temos outros apelos aos quais não podemos deixar de dar respostas, dentre eles destacamos três:


a) A humanidade precisa realmente da matriz energética baseada em metais radiativos a cuja exposição, seja pela radiação emanada por uma usina defeituosa, seja a partir de resíduos que por séculos continuam ativos, produzem enfermidades e morte?

b) Os sistemas de alerta para catástrofes naturais precisam estar assegurados como um direito coletivo a ser implementado com uma efetiva política pública de segurança para toda a população. Junto com os sistemas preventivos, obviamente devem estar os mecanismos de amparo e proteção às vítimas, inclusive assegurando-lhes todos os direitos fundamentais da pessoa humana. Como efetivar isto como política de Estado, principalmente quando já se sabe do risco de aumento das catástrofes em razão das mudanças climáticas?

c) A migração forçada por catástrofes, sejam elas naturais e/ou provocadas pela imprevidência humana, notadamente dos governos e da especulação que transforma tudo em mercadoria, não precisa ser marcada pela perda de direitos e ruptura da própria dignidade. A migração, mesmo nestas circunstâncias, não retira direitos ou obrigações cidadãs, mas exige um olhar que vá além dos limites das políticas estabelecidas e que supere qualquer outra forma de entrave que dificulte a assistência, a acolhida e a garantia de direitos. De fato será que não chegou a hora de pensarmos prá valer na cidadania universal?

Ir. Rosita

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