quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Europeus migram para o Litoral catarinense em busca de novas oportunidades de emprego


A oportunidade de trabalho no exterior levou, por muito tempo, milhares de brasileiros aos países da Europa. Mas a crise que assola o Velho Mundo tem obrigado os europeus a fazer o caminho inverso. Nos últimos dois anos, segundo a Polícia Federal em Itajaí, a quantidade de imigrantes vindos da Europa que chegaram à região dobrou. 
Espanhóis, italianos e portugueses têm redescoberto o Brasil - e a nossa região - e encontram na facilidade de comunicação e na oferta de empregos uma oportunidade de driblar a crise. Assim como há mais de 500 anos, o país volta a representar a promessa de uma vida melhor.
- Há muito descontentamento na Europa desde a instalação do Euro. Tive muita sorte no Brasil, demonstrei meu valor e achei pessoas interessadas no meu trabalho. Sinto-me privilegiado porque hoje tenho dois países - diz o chef italiano Amedeo Scavello, 38 anos, que saiu da Calábria para viver em Balneário Camboriú. 
Scavello já havia morado em São Paulo e Porto Seguro, mas acabou conquistado pelo ar europeu do Sul. Como ele, a portuguesa Pâmela Abreu, 44 anos, também tinha São Paulo como primeira escolha - mas não adaptou-se à cidade e a trocou por Balneário Camboriú. Pâmela deixou em março a Ilha da Madeira para viver com o marido, que já estava há um ano no Brasil. Coordenador de marketing, ele encontrou aqui as oportunidades que já não tinha na terra-natal.
- A crise econômica é muito grave, o governo vem aumentando impostos, o preço de tudo aumentou e as pessoas têm dificuldade em pagar as contas. Com isto, o dinheiro não roda, muitos comércios fecham. Não há trabalho e o desemprego continua a subir - relata Pâmela. 

Formada em Turismo, ela coordenou por 12 anos um resort cinco estrelas e fala fluentemente inglês, francês e espanhol - mas o currículo tem sido empecilho na hora de buscar emprego. Para viver, Pâmela tem feito uso da habilidade em terapias naturais.

- Não sei se é porque as pessoas não me conhecem, ou porque imaginam que vou querer um salário muito alto, mas me surpreendi com a dificuldade que estou tendo em trabalhar na minha área. 
Na agência do Ministério do Trabalho, em Itajaí, é comum aparecerem europeus em busca de informações para retirada da carteira de trabalho. Deise Cristina da Silva, chefe substituta da agência, diz não ter uma estimativa de quantos já fizeram a retirada do documento, mas lembra de ter atendido pelo menos três solicitações nas últimas semanas. A maioria dos estrangeiros, segundo ela, acaba em empregos com menor qualificação do que teriam na Europa.

- Atendemos um casal de portugueses que tinha um açougue, mas tiveram que fechar e vieram trabalhar como empregados. Também um espanhol que conseguiu emprego no porto, como tradutor. 

Delegado chefe da Polícia Federal em Itajaí, Luciano Raizer explica que, embora existam acordos com alguns países que facilitam a entrada e permanência dos estrangeiros no Brasil, para trabalhar regularmente por aqui é preciso ter visto especial:
- Se a intenção é trabalho, é preciso solicitar o visto ainda no país de origem, no consulado brasileiro.
Oportunidade convence estudantes a ficar

Enquanto parte dos europeus que chegam à região vêm em busca de trabalho, outros escolheram o Litoral Centro-Norte para a experiência de um intercâmbio de estudos no exterior - e não pensam em voltar. A falta de emprego nos países de origem é apontada como o principal motivo para que se mantenham longe de casa.

Italiana, Manuela Cendron, 23 anos, sempre gostou de viajar. Acabou escolhendo Balneário Camboriú para cursar a faculdade de Turismo três anos atrás. Prestes a ingressar nos últimos semestres de estudos, conta que desistiu da ideia de exercer a profissão na Itália:

- Meus pais e meus amigos me aconselham a arrumar trabalho aqui, porque não tem emprego para ninguém lá. As pessoas têm estudo, mas a concorrência está muito elevada.

David Ganzon, 23, passa por situação parecida. Espanhol, chegou à Univali como intercambista no curso de Comércio Exterior, cinco meses atrás. Conseguiu uma vaga de estágio em uma empresa de logística, em Itajaí, e está convencido a permanecer no Brasil:
- Com a situação da Europa em crise, o elevado desemprego, penso que devo ficar.
Crise é consequência de má administração
A crise europeia está diretamente ligada à má administração pública, segundo a professora Cláudia Beatriz Batschauer da Cruz, mestre em Estudos Europeus. Investimentos grandes e desnecessários feitos durante décadas, aliados ao excesso de mão de obra no funcionalismo público, afetaram principalmente países como Grécia, Portugal, Irlanda e Itália.

- Endividados, os países não puderam mais emitir moeda e gerar inflação. Se viram sem saída - explica Cláudia.

Como resultado, subiram os índices de desemprego e, consequente, o endividamento da população. Nos países mais atingidos pela crise, são comuns os protestos contra a perda de vagas de trabalho. Quem está empregado também sofre com a suspensão de benefícios.
Segundo Claudia, embora nem todos os europeus consigam empregos condizentes com a formação que têm, a falta de mão de obra qualificada no Brasil representa uma boa oportunidade de se manter ou se inserir no mercado de trabalho.
Para entrar no Brasil

- Estrangeiros que entram no país podem usar permissão para turismo, que é válida por 90 dias, ou visto de trabalho, que deve ser solicitado antes do embarque, junto ao consulado brasileiro no país de origem
- Quem entra como turista, mas decide trabalhar, precisa solicitar visto, sair do país e entrar novamente
- Nem toda profissão pode ser exercida livremente por estrangeiros no Brasil. Médicos e engenheiros, por exemplo, precisam de documentação especial para trabalhar na área
- Imigrantes ilegais estão sujeitos a multa e, quando notificados, têm oito dias para deixar o país
O SOL DIÁRIO

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