sexta-feira, 7 de junho de 2013

«Cultura de suspeita» afeta migrantes

Novo documento da Santa Sé com orientações para a ação da Igreja evoca «condições desumanas» em que vivem milhões de refugiados

O Vaticano apelou hoje ao fim da “cultura de suspeita” perante as pessoas que saíram do seu país, lembrando em particular a "gravidade" da situação dos 100 milhões de refugiados, deslocados e apátridas em todo o mundo.
“A conotação negativa dos requerentes de asilo e dos próprios refugiados aumentou a xenofobia, às vezes até o racismo, o medo e a intolerância a seu respeito, e uma cultura de suspeita a partir da assunção generalizada de uma possível correlação entre o asilo e o terrorismo, que ainda tem repercussões sobre a situação dos refugiados e de outras pessoas deslocadas à força”, alerta o novo documento de orientações pastorais “Acolher Cristo nos refugiados e nas pessoas deslocadas à força”.
O texto foi elaborado pelo Conselho Pontifício para os Migrantes e Itinerantes (CPPMI) e o Conselho Pontifício ‘Cor Unum’, responsável pela coordenação das organizações caritativas na Igreja Católica.
“Consciente da gravidade da situação dos refugiados e das condições desumanas nas quais muitos deles vivem, a Igreja, para além do seu próprio compromisso, considera sua tarefa consciencializar a opinião pública sobre este grave problema”, assumem das duas instituições da Santa Sé, que alertam para a “diminuição da hospitalidade e do acordo a receber um número considerável de refugiados por um período de tempo indefinido”.
O documento lembra que a migração mudou e vai a aumentar nas próximas décadas, tornando mais difícil o trabalho de distinguir entre migração voluntária e forçada.
“Quando se aborda o problema dos requerentes de asilo e dos refugiados, o primeiro ponto de referência não deve ser a razão de Estado ou a segurança nacional, mas a pessoa humana”, sustentam os Conselhos Pontifícios, num texto dividido em quatro partes e 124 pontos.
Segundo o Vaticano, o problema dos refugiados e de outras pessoas deslocadas à força só pode ser resolvido “se existirem as condições para uma reconciliação genuína”, o que “significa reconciliação entre as nações, entre os vários setores de uma comunidade nacional, no interior de cada grupo étnico e entre os diversos grupos étnicos”.
O documento divulgado esta manhã recorda que a Igreja sempre evocou o direito à “reunificação de famílias separadas por causa da fuga de um ou mais dos seus membros, devido à perseguição” e destacou a importância de respeitar “o direito à liberdade religiosa dos refugiados”.
“Se tivéssemos caridade, seria impossível permanecer silenciosos diante de imagens inquietadoras de campos de refugiados e de pessoas deslocadas internamente, no mundo inteiro”, observam os responsáveis da Santa Sé.
O texto realça que o cuidado para com os necessitados, entre os quais migrantes, refugiados e itinerantes, foi sempre uma parte “essencial” do cristianismo.
“Através deste Documento, esperamos sensibilizar todos os cristãos, os pastores e igualmente os fiéis, acerca dos seus deveres em relação aos refugiados e às outras pessoas deslocadas à força”, pode ler-se.
Para a Santa Sé, é necessário um compromisso efetivo das instituições da Igreja Católica para “oferecer respostas adequadas às necessidades dos refugiados e de outras pessoas deslocadas à força, abordando comportamentos de discriminação, xenofobia ou racismo e promovendo políticas que salvaguardem, fortaleçam e tutelem os seus direitos”.
OC



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