terça-feira, 29 de outubro de 2013

Novas rotas mais longas e perigosas

Para vergonha do mundo desenvolvido, o contrabando de seres humanos tem vindo a fazer cada vez mais vítimas. Só desde janeiro de 2013, cerca de 2000 pessoas afogaram-se junto à costa Sul da União Europeia – mais do que em todo o ano passado. O contrabando de emigrantes também se tornou um risco de segurança para os países de destino, que perderam o controlo das suas fronteiras. Por último, a imigração ilegal está a alimentar o sentimento de xenofobia, um fenómeno que é crescentemente explorado por políticos cínicos.
Os governos europeus gastam milhares de milhões de euros por ano, no combate ao problema. Vários Estados-membros da UE criaram agências especiais para lidar com a imigração ilegal. A Frontex, a agência de proteção das fronteiras da UE, está em funcionamento desde 2004. Tanto na UE como nos Estados Unidos, as fronteiras são patrulhadas e vigiadas com recurso às tecnologias mais recentes e mais avançadas, incluindo drones e satélites. Só na UE, trabalham na área da imigração ilegal mais de 300 ONG, em muitos casos subsidiadas por fundos públicos. Quais os efeitos? Praticamente nenhuns. O número de imigrantes ilegais que chegam ao continente continua a aumentar.
No seu livro sobre o contrabando de seres humanos, o autor marroquino Mehdi Lahlou descreve aquilo a que chama o “círculo vicioso” das políticas anti-imigração europeias. Os políticos, e também os órgãos de comunicação social, exploram as tragédias como o desastre de Lampedusa de 3 de outubro para empolar o problema da imigração, levando os governos a reduzir ainda mais as possibilidades de imigração legal. Por seu turno, esse facto obriga os emigrantes a procurar vias de acesso cada vez mais perigosas, aumentando a sua dependência dos passadores. Lahlou salienta que foi precisamente isso que aconteceu, quando a Espanha e a Itália introduziram os vistos para os cidadãos do Magrebe, no começo dos anos de 1990, e os britânicos conseguiram bloquear a rota do contrabando através de Gibraltar. Quase de imediato, foram ativadas novas rotas mais longas e mais perigosas: do Sara Ocidental para as Ilhas Canárias e através do Mediterrâneo para Itália.
A relação entre o passador e a pessoa contrabandeada termina no país de destino, ou seja, no local onde a relação traficante/escravo começa
O insucesso da Europa na resolução do problema do contrabando de seres humanos deve-se, em grande parte, a um entendimento errado. Para começar, existe uma confusão de terminologia, porque as expressões “tráfico de seres humanos” e “contrabando de seres humanos” são muitas vezes usadas indiferenciadamente no debate público europeu, quando, na realidade, refletem dois fenómenos completamente diferentes. O tráfico é uma forma de escravatura e o contrabando é voluntário. A relação entre o passador e a pessoa contrabandeada termina no país de destino, ou seja, no local onde a relação traficante/escravo começa.

 Press

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