Annous Saint-Fleur, dono do bar Même Amour, frequentado pela comunidade haitiana em Cuiabá: “Aqui todos estão recebendo seguro-desemprego e esperando alguém contratá-los para alguma diária" (Foto: André Souza/G1)
Pelo menos seis
bairros de Cuiabá se
transformaram com a chegada das aproximadamente duas mil pessoas da comunidade
haitiana vivendo na capital mato-grossense. A maioria chegou durante os
preparativos para a Copa do Mundo de 2014 em busca de oportunidades de trabalho
e de um recomeço na vida após o terremoto que devastou o país caribenho em
2010.
Bairros como
Planalto, Jardim Eldorado, Carumbé, Bela Vista, Pedregal e Sol Nascente
concentram casas e condomínios residenciais ocupados pelos imigrantes, bem como
estabelecimentos e espaços de convivência frequentados majoritariamente por
eles, como bares, igrejas e até lan house.
Avenida dos Trabalhadores: haitianos se
concentraram na região (Foto: André Souza/G1)
O que esses
bairros têm em comum é a proximidade com a sede da Pastoral do Migrante,
entidade filantrópica de referência para os estrangeiros que aportam em Cuiabá,
e o fato de estarem todos no entorno da Avenida Dante Martins de Oliveira
(Avenida dos Trabalhadores), responsável pela ligação entre a parte leste da cidade
– com conjuntos residenciais de aluguel mais acessível - e o centro.
Há pelo menos
três anos, os imigrantes haitianos fazem parte da paisagem para quem passa pela
Avenida dos Trabalhadores: estão presentes nos pontos de ônibus, caminhando
pelas calçadas, em bares e lanchonetes, fazendo compras nos mercados e
trabalhando nos estabelecimentos da região, integrando-se aos poucos à
população local e constituindo a própria comunidade fora do Haiti.
Imigrantes haitianos fazem fila para serem atendidos na Pastoral do Migrante, em Cuiabá. Local serve de apoio para os estrangeiros em suas primeiras necessidades ao chegar à capital (Foto: André Souza/G1)
Estudo por
amostragem realizado em 2014 pela Secretaria estadual de Educação (Seduc)
revelou que 77% dos haitianos em Cuiabá escolheram a região da Avenida dos
Trabalhadores para viver.
A maioria – 36%
- optou pelo bairro Planalto; outros 16% escolheram o Carumbé; 11% foram para o
Bela Vista; 7%, para o Pedregal; 5%, para o Jardim Eldorado; e 2% optaram por
residir no Sol Nascente.
De olho nas necessidades dos imigrantes, lan house oferece serviços específicos para eles, como ligações telefônicas internacionais (Foto: André Souza/G1)Da Pastoral ate Lan House
Até chegar a esses bairros, parte significativa desses haitianos passou – e
ainda passa – pela sede da Pastoral do Migrante, entidade não-governamental que
oferece auxílio a estrangeiros.
Localizada no
bairro Carumbé, a unidade já recebeu mais de 2,5 mil haitianos desde os
preparativos para a Copa do Mundo em Cuiabá.
Isso porque,
entre as primeiras necessidades desses imigrantes na capital, está a obtenção
de um emprego. A Pastoral ajuda os estrangeiros a conseguirem a documentação
necessária, como a Carteira de Trabalho, e divulga vagas disponíveis em Mato
Grosso. "Eles vêm em busca de orientação todos os dias, eles batem aqui
para ver se tem vaga [de emprego]. Se você disser 'olha, tem uma vaga de
emprego', chove gente aqui", relata Marilete Mulinari Girardi, auditora do
Trabalho.
O contato com a
família que ficou no Haiti também é fundamental - e é aí que entram
estabelecimentos como a lan house Degaule El Muya, na Avenida das
Trabalhadores.
Além de
computadores com acesso à internet, o local oferece ligações telefônicas
internacionais para o Haiti e outros países, como França, Canadá, Estados
Unidos, Guiana, Peru, Venezuela, Equador, Chile e Senegal.
Cartaz em parede de lan house convida haitianos a se matricularem em curso gratuito de alfabetização de jovens e adultos (Ceja) (Foto: André Souza/G1)
Nas adjacências da Avenida dos Trabalhadores, o cruzamento das ruas 15 e 21 -
no bairro Jardim Eldorado - é mais um produto da concentração da comunidade
haitiana na região. Ali está um dos pontos de encontro diário dos estrangeiros,
o bar Même Amour, mantido pelo haitiano Annous Saint-Fleur, há três anos em
Cuiabá.
Segundo ele,
que abre o bar todos os dias e fecha geralmente à meia-noite, cerca de 90% dos
frequentadores são seus conterrâneos.
“Aqui todos
estão recebendo seguro-desemprego e esperando alguém contratá-los para alguma
diária”, revela o comerciante, que atende toda a freguesia pelo nome. E Annous
é uma referência para eles: estabilizado e há mais tempo em Cuiabá que a
maioria, ajuda-os com informações e contatos para encontrarem um lugar para
morar e outro para trabalhar.
“A maioria dos haitianos que eu conheço está
aqui [no Jardim Eldorado]. Mas, se você sair daqui e falar meu nome, todos me
conhecem”, aposta. Ao redor do bar de Annous estão condomínios e quitinetes
divididos por brasileiros e haitianos, que relatam preços de aluguel na ordem
de R$ 300.
A poucos metros
do bar, também se encontra a Igreja Presbiteriana do Jardim Eldorado, dedicada
à comunidade haitiana.
A igreja estava
fechada até janeiro de 2014, quando foi reaberta pelos presbiterianos na
capital graças à chegada do missionário haitiano Beethoven Charleston. Hoje, os
cultos de domingo chegam a reunir cerca de 120 pessoas.
Occen Saint-Fleur passa em frente à igreja presbiteriana da comunidade haitiana, no bairro Jardim Eldorado, em Cuiabá: ele se casou ali e, hoje, mora de aluguel em um imóvel logo ao lado (Foto: André Souza/G1)

Segundo o
pastor Charleston, o público é 100% haitiano e assiste às celebrações em
francês e crioulo. Quando algum pastor visitante comparece, Charleston entra em
ação para traduzir o sermão aos fiéis.
E este não é o
único templo cristão dedicado aos imigrantes em Cuiabá. Paralela à Avenida dos
Trabalhadores, a Avenida Gonçalo Antunes de Barros abriga uma unidade da
Assembléia de Deus que não deixa dúvidas sobre seu público-alvo: logo na
entrada um cartaz dá detalhes sobre o "pwogram" da igreja, com
horários de escola dominical, cultos e outras atividades. O templo foi fundado
em março de 2015 para atender aos fiéis haitianos que vivem nas proximidades.
Os cultos são realizados em português e traduzidos para o idioma crioulo.
Moradores do
'reduto'
E também é nesse "microcosmo" haitiano que se encontram relatos das dificuldades que grande parte desses imigrantes têm vivido em Cuiabá. Histórias como as de Occen Saint-Fleur, de 32 anos, e Ralph Françoise, de 25, refletem a realidade atual da imigração na capital.
Vivendo a
poucos metros do bar mora o irmão do proprietário do bar Même Amour, Occen.
Atualmente desempregado, ele chegou a Cuiabá em 2012 e tem cumprido uma
trajetória similar à dos conterrâneos na capital. "No Haiti sobrou pouco
trabalho depois do terremoto. Então eu vim para cá procurar uma vida melhor”,
conta.
Assim como a
maioria dos haitianos, o primeiro passo de Occen em Cuiabá foi procurar a
Pastoral do Imigrante, que recebe grande parte dos estrangeiros. Lá, ele chegou
a se hospedar por cerca de um mês até conseguir o primeiro emprego, de
pedreiro.
“Quando eu cheguei,
não tinha amigo, não conhecia ninguém. Eles me ajudaram muito”, lembra. Na
construção civil, Occen recebia salário de R$ 800, pagava o aluguel de R$ 300
em uma quitinete no bairro, pagava outras contas e, com o que sobrava – cerca
de R$ 400 – ajudava os familiares no Haiti, onde também deixou uma namorada.
Após um tempo
no Brasil, Occen custeou a viagem da namorada, com quem se casou em 2013 na
igreja presbiteriana da comunidade haitiana. Hoje, o casal reside em uma casa
alugada por R$ 400 por mês logo ao lado da igreja em que se uniu.
O imóvel, de
quatro cômodos, foi todo mobiliado pelos dois, mas atualmente é a esposa de
Occen, que trabalha como auxiliar de limpeza, a responsável pela renda do casal
- com seu salário de R$ 700. “Tem dois meses que eu estou sem emprego. Já
deixei vários currículos, mas, até agora, nada”, lamenta Occen, desempregado e
sem conseguir enviar mais dinheiro aos familiares em seu país.
É também no
Jardim Eldorado que vive Ralph Françoise, de 25 anos. Desde 2012, quando chegou
em Cuiabá ele divide uma quitinete de dois cômodos com dois primos – um deles
já residia no Jardim Eldorado antes de Ralph chegar.
Em junho ele se
envolveu em um acidente de trabalho em uma fábrica onde trabalhava e perdeu
parte de dois dedos da mão direita. Agora, vive na incerteza da indenização.
“Aqui eu não tenho ninguém para me ajudar nessas questões, para dizer se eu
tenho direito à indenização", reclama.
Ralph Françoise
já tem um advogado para tentar resolver o problema da indenização, mas, até lá,
enfrenta dificuldades para se manter. Antes do acidente, ele trabalhou na obra
de reforma do Aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande, região metropolitana
de Cuiabá.
A maior parte
da renda foi para os familiares no Haiti, onde deixou um filho de quatro anos.
Dos R$ 900 que ganhava na época, cerca de R$ 400 iam para pagar o aluguel e a
conta de energia. Hoje, ele mal tem dinheiro para manter ouvir a voz dos
familiares pelo telefone. “Um crédito de R$ 25 no celular dura só seis minutos.
Pela internet é mais fácil mesmo”.
G1 Matto Grosso
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