Crianças imigrantes têm dificuldade para acompanhar ensino; rede não contempla suas necessidades
Do início
de sua colonização, em 1530, até a década de 1930, quando deixou de incentivar
a vinda de imigrantes estrangeiros, o Brasil fez a fama de país da imigração,
sinônimo de acolhimento de vários povos em busca de novas oportunidades. A
partir dos anos 2000, com a crise econômica internacional e o início do período
de estabilidade da economia brasileira, especialmente a partir de 2003, o país
voltou a viver um novo ciclo. Daí que até 2010, conforme dados do IBGE, a
população estrangeira cresceu 86,7%. Segundo dados da Polícia Federal,
referentes a janeiro passado, vivem no Brasil atualmente 1.033.257
estrangeiros.
A política brasileira para
o acesso de imigrantes à escola pública é considerada avançada. Uma criança
estrangeira pode ser matriculada sem a exigência de documentação. Em
compensação, ainda não existe nos sistemas de ensino estaduais e municipais um
planejamento pedagógico para esse acolhimento e muito menos disciplinas
específicas para esse fim nos cursos de licenciatura ou outros voltados à
formação de professores.
"Muita
gente nem sabe que existem imigrantes na sala de aula. E em geral, a formação
acaba sendo feita por organizações e centros que recebem imigrantes",
afirma a professora da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade
Católica (PUC) de São Paulo Leda Rodrigues. Docente no Programa de Estudos
Pós-Graduados em Educação, ela pesquisa principalmente os efeitos da
desigualdade social no acesso ao ensino superior brasileiro.
Segundo
Leda, sem formação adequada, os professores não têm como desenvolver um
trabalho pedagógico que, entre outras coisas, proporcione aprendizado às
crianças brasileiras e estrangeiras a partir do estudo das diferenças culturais
e de linguagem existentes entre os dois grupos. "Essa troca de informações
traz muitos benefícios, permite que as crianças brasileiras aprendam com as
estrangeiras e vice versa. Mas é preciso preparo para este trabalho. A academia
ainda sabe muito pouco sobre isso, que começa a ser discutido nos cursos de
especialização, em pesquisas, nos trabalhos de conclusão de curso. Mas a
universidade vai ter de contemplar isso na formação."
Muitas crianças
imigrantes, conforme a professora, acabam aprendendo mais pelo próprio esforço
e envolvimento da família do que pelo que recebe dos professores. "Há
crianças bolivianas que frequentam as aulas e, por repetição, aprendem a língua
e os conteúdos e até vão bem. Os pais que acompanham as lições de casa reclamam
na escola", diz Leda.
A situação afeta sobretudo
crianças vindas da Bolívia, Peru, Paraguai e outros países latino-americanos,
além de africanas, que vieram com os pais em busca de melhores condições de
vida do que as que tinham em sua terra natal. Estrangeiros em melhores situação
econômica, como chineses, japoneses, árabes, além de europeus e americanos, em
sua maioria procuram escolas particulares, com preparo para essa inclusão, para
matricular seus filhos.
O
tema, no entanto, ganha cada vez mais importância em todo o mundo quando a
questão dos refugiados ocupa grande parte da agenda de muitos países. Em muitos
deles, sobretudo europeus, têm sido organizados congressos e outros encontros
para troca de informações e discussão de saídas. E as universidades, em seus
programas de pós-graduação, começam a estudar as imigrações, a integração
desses estrangeiros em seus novos espaços e a inserção social dadas às grandes
diferenças culturais.
"Os temas colocados
são os que de fato estão na escola, bem como os conceitos que estão por trás
disso. Antes se falava em aculturação, com o imigrante tendo de aceitar a
cultura imposta pela nação que recebe. Para contornar a imposição da língua,
alemães e italianos que vieram para o sul do país acabaram criando núcleos para
manter viva sua língua e cultura, que tornaram-se cidades. Hoje se discute como
essa cultura deve ser aceita pelo povo que recebe o imigrante".
Para
discutir alfabetização e escolarização do imigrante, imigração atual e práticas
escolares e a educação e imigração atual no Brasil, o grupo de pesquisa sobre
movimentos migratórios e educação do programa de pós-graduação da PUC-SP está
organizando um seminário
internacional. O encontro, com a presença confirmada de especialistas
estrangeiros, ocorre entre 1º e 3 de março.
O
curso é aberto a professores e alunos de graduação em educação e professores da
rede pública de ensino. "Não vamos trazer a solução, mas discutir
alternativas para esses desafios", diz Leda.
Rede Brasil Atual
Nenhum comentário:
Postar um comentário