terça-feira, 7 de junho de 2011

CARTA ABERTA À SOCIEDADE BRASILEIRA

SPM - Serviço Pastoral dos Migrantes

Em Janeiro de 2010, um grande terremoto devastou o Haiti, deixando milhões de pessoas sem casas, escolas, hospitais, água potável, remédios, alimentos, etc. Toda a infra-estrutura ficou abalada, e as condições mínimas de sobrevivência das pessoas ficaram gravemente comprometidas. À época, essa tragédia foi amplamente divulgada pela imprensa internacional.
Os problemas do Haiti vêm de longa data. Por décadas, o país foi governado por ditaduras, que eram sustentadas por ingerências vindas de fora, impossibilitando as iniciativas de democratização e de justiça no Haiti.
Após o terremoto de Janeiro de 2010, houve grande mobilização em favor do Haiti em muitos países. A ONU empreendeu medidas práticas e eficazes no que se refere à distribuição de alimentos, através de programa específico para esta finalidade.
Para isto contou com o apoio especial do Brasil, dado que o Brasil já comandava as “Forças de Estabilização” existentes no país há mais tempo. Com o apoio das forças de estabilização, foi sendo lentamente empreendido o trabalho de reconstrução do país devastado pelo terremoto, recuperando minimamente a infra-estrutura básica para o funcionamento dos serviços públicos.
Com a nomeação do novo Arcebispo da Arquidiocese de Porto Príncipe, e a tomada de posse do novo presidente, eleito em segundo turno das eleições, está sinalizada a proposta da normalidade das instituições públicas.
Entretanto, estas iniciativas nem de longe foram suficientes para garantir as condições mínimas de vida à população, e evitar a emigração de milhares de haitianos para diversos países em busca de reconstruir suas vidas e a de suas famílias. No Brasil, centenas de haitianos chegam semanalmente nos Estados do Acre, Rondônia, e, principalmente, no Amazonas, onde se concentram na capital Manaus.
O poder público mostra-se indiferente. Os imigrantes haitianos que chegam pela fronteira do Estado do Amazonas não recebem por parte dos governos federal, estadual ou municipal, ajuda em relação à moradia e alimentação. Estão sendo assistidos pela Igreja Católica e movimentos sociais. Porém, hospedam-se de forma provisória e sem previsão de alimentação suficiente para os próximos dias. Suas possibilidades de inclusão social,econômica e cultural ficam agravadas pelo fato de não dominarem a língua portuguesa, e de não possuírem formação qualificada para ingressar no mundo do trabalho.
As comunidades religiosas Scalabrinianas e o Serviço Pastoral dos Migrantes têm feito grandes esforços para acolher humanitariamente nossos irmãos haitianos que chegam a Manaus, São Paulo e Paraná. No entanto, não tem condições de atender a todos. Ademais, seus esforços e possibilidades estão no limite, pois não encontram em todas as igrejas, na municipalidade e, inclusive no Estado Brasileiro, a solidariedade necessária às garantias da dignidade humana desses imigrantes.
Por isso, conclamamos, mais uma vez, toda a sociedade brasileira a fazer um urgente gesto concreto de solidariedade ao Haiti, promovendo políticas de acolhida digna em favor de sua população imigrante que procura desesperadamente reconstruir suas vidas, seus sonhos, sua dignidade humana em Manaus-AM, Porto Velho-RO ou em outros lugares do território nacional.
Igualmente pedimos solidariedade aos irmãos africanos que chegam de diferentes países do continente, na sua maioria jovens. Eles optam pelo Brasil mas ao chegarem ficam desorientados, sem condições legais para se documentar e totalmente abandonados pelo Estado, aumentando o número dos que vivem sem rumo.
Nosso clamor inspira-se na fé de que somos cidadãos de um mundo sem fronteiras, participantes de um único povo de Deus a caminho da terra prometida.
A construção da cidadania e a solidariedade aos imigrantes é responsabilidade de todos nós!

Dom Demetrio Valaentini
Presidente do Serviço Pastoral dos Migrantes

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