segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Crescente imigração haitiana no Chile virou assunto de Estado

São conhecidos como "chiletianos", e vieram do Haiti ao Chile em várias levas, a princípio fugindo das consequências do terremoto de 2010 e da pobreza. Alguns já tiveram filhos aqui. No início, não eram muitos os que faziam o trajeto, em geral em avião, via República Dominicana. E instalar-se no Chile, se traziam algo de dinheiro, era relativamente fácil, devido à flexibilidade das leis migratórias.


"Cheguei no fim de 2015 com meu irmão. Nós não sabíamos falar espanhol e foi justo no meio do inverno. Tomei um susto com o frio, jamais tinha visto um cachecol na vida, pensei que não ia aguentar", conta à Folha, rindo, Baptiste Jeanot, 28, morador do bairro de Quilicura. De uns anos para cá, o lugar se encheu tanto de novos moradores vindos do Haiti que passou a ser conhecido como "Haitícura".

"Naquela época, logo depois da destruição de nosso país, os haitianos preferiam ir para os EUA ou a França, mas era mais caro e foi ficando mais difícil. Começou-se a falar do Chile, alguns vieram, familiares e amigos os seguiram, e formou-se essa onda", relata Jeanot. "Nós tivemos sorte, porque viemos no começo e não demorou para conseguirmos emprego num salão de beleza (os dois são cabeleireiros, hoje especializados em penteados afro)", completa.
Pela lei chilena, quando o imigrante consegue um contrato de trabalho, pode pedir um visto de residência temporária, mesmo tendo entrado inicialmente como turista.
Essa facilidade, porém, começou a rarear a partir do momento em que a imigração haitiana começou a crescer. Se em 2015, foram 9 mil os que deram entrada no país, em 2016, esse número saltou para 43.898. Em 2017, só até julho já haviam entrado 44.289 haitianos, segundo a última contabilidade do ministério de Relações Exteriores.
A primeira dificuldade é que já não há tantos postos de trabalho disponíveis, e a disputa passou a ser mais acirrada. "Estou trabalhando como gari, mas estudando para ser eletricista", contou Henri Jufré, que no último sábado (18), varria uma rua no bairro nobre de Las Condes.
Segundo, porque empregadores e uma verdadeira máfia de vendedores de contratos de trabalho resolveram ganhar dinheiro com a necessidade burocrática dos haitianos. Segundo a Folha apurou com distintos imigrantes, estes documentos podem hoje custar de 120 a 500 dólares, dependendo do empregador ou do vendedor de contratos. "Eu não tinha esse dinheiro, então pedi um adiantamento para o sujeito que ia me contratar e agora estou pagando com horas extra", diz Felice Santout, 32, empregada de uma casa noturna em Quilicura.
A terceira dificuldade passou a ser a moradia. Os haitianos buscam bairros humildes, onde já se instalaram conhecidos. Em geral, estão em Quilicura, Independencia e Estación Central. Neste último, a reportagem visitou uma casa em que várias famílias dividem os quartos. Em alguns moram casais ou pessoas sozinhas, mas, em outros, há famílias inteiras. O banheiro é pago à parte. Quem não tem para cobrir esse custo, usa baldes, depois descarregados num córrego. "Não é o ideal, mas estamos guardando dinheiro e sei que vamos conseguir algo melhor logo", diz Louis Michel, 42.
A quarta dificuldade é o preconceito, que vem crescendo com o aumento da chegada dos imigrantes. "Pedi emprego em vários escritórios, quero um estágio para ser secretária, achei que saber falar francês ajudaria. Mas o chileno não está acostumado com gente de fora, especialmente com gente de cor. Até agora não consegui", diz Jamile Placide, 27.
"Não somos uma sociedade racista, ao contrário, queremos ajudar, quando vemos as imagens do Haiti, quem não se comove?", diz a chilena Angela Urrua, 53, que fazia compras num mercado na região. "O problema é que você não sabe que doenças eles trazem, se vieram com delinquentes. O receio existe."
GASTRONOMIA E FUTEBOL
Apesar das dificuldades, o clima nas comunidades de haitianos é alegre. Há música em alto volume nas casas, e nas ruas de comércio da Estación Central vende-se uma mescla de gastronomias."Fazemos cazuela com plátano e frango, ou empanada chilena mas mais apimentada, a ideia é misturar mesmo", diz Juana Petersen, uma chilena casada há dez meses com um imigrante haitiano que tem um concorrido estande ali.
Já as crianças e adolescentes tem seu ídolo local, o jogador da seleção chilena Jean Beausejour, filho de pai haitiano e mãe chilena, descendente de indígenas mapuche.
ELEIÇÕES
Como o número de haitianos que chega só cresce e, desde 2010, apenas 6% dos que entraram deixaram o país, o assunto virou uma questão política.
Durante o governo de Michelle Bachelet, a chegada dos haitianos foi virando um assunto de Estado. Entre as promessas da mandatária que não terminaram de se concretizar estava a de tornar mais ágil a entrada dos haitianos, além de ações para que sua inserção na sociedade e no mercado de trabalho fossem mais fáceis.
Durante a campanha eleitoral, porém, esse foi um tema marginal. Para o favorito nas pesquisas, o centro-direitista Sebastián Piñera, a imigração pode continuar, mas deve haver mais controle na aceitação de imigrantes. "Já fazemos isso entre os países da Aliança do Pacífico, trocamos inteligência sobre quem cruza nossas fronteiras, é só ampliar essa investigação de antecedentes penais, usando dados da Interpol. Não sou anti-imigração, mas devemos escolher quem deixar entrar", disse em comício recente.
Já Guillier afirma que seguirá a política de Bachelet, ou seja, o país seguirá aberto, mas propõe que se combata a burocracia dos trâmites e de quem se favorece deles. Com informações da Folhapress.
Folhapress
www.miguelimigrante.blogspot.com


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