quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Qual o peso dos imigrantes na eleição alemã?


Dos mais de 600 deputados federais alemães, 37 têm ascendência estrangeira, assim como um em cada dez eleitores. Entenda qual a importância desse grupo nas legislativas do país.Quem possui cidadania alemã e tem no mínimo 18 anos, pode ajudar a decidir, neste domingo (24/09), o próximo chanceler federal da Alemanha - não importa se a família da pessoa é de Colônia, Cazaquistão, Turquia ou Polônia.

Uma em cada dez pessoas com direito ao voto na Alemanha - e que também pode se candidatar a eleições no país - tem origem estrangeira. Isso quer dizer que ela ou ele, ou pelo menos um dos pais, nasceu sem direito ao passaporte alemão.

Desde que o partido populista de direita AfD (Alternativa para a Alemanha) passou a se concentrar intensamente no tema, os partidos e a imprensa alemã estão voltando suas atenções para o maior grupo de pessoas de raízes estrangeiras com direito ao voto no país: o dos descendentes de alemães nascidos no Leste Europeu, conhecidos na Alemanha como Aussiedler.

Segundo a pesquisa Mikrozensus 2016, realizada pelo Departamento Federal de Estatísticas da Alemanha (Destatis), esse grupo soma 3,1 milhões de pessoas e também inclui alemães e seus descendentes que viviam no Leste Europeu e nos territórios da antiga União Soviética.

O segundo maior grupo de eleitores com raízes estrangeiras é o dos alemães com ascendência turca. O Destatis estima que sejam cerca de 730 mil pessoas aptas a votar.

Participação eleitoral reduzida

"Afinal, como se vota?" Aydan Özoguz (SPD), comissária do governo federal alemão de Migração, Refugiados e Integração, ouviu essa pergunta de forma recorrente. A participação eleitoral de alemães com origem migratória estaria "até 20 pontos percentuais abaixo" da taxa da população de eleitores como um todo, disse a política à DW. Özoguz incentiva o projeto "Vote D", que visa a levar às urnas cidadãos que acabaram de obter a cidadania alemã, assim como filhos maiores de idade de imigrantes.

Os pais de Özoguz são turcos, ela nasceu em Hamburgo. Atualmente, a própria vice-presidente do Partido Social-Democrata faz campanha, assim como Cemile Giousouf, comissária de Integração da bancada da CDU/CSU no Parlamento alemão. Elas são duas entre 37 deputados federais com ascendência estrangeira, de um total de 631 parlamentares.

No âmbito do projeto Pathways, que compara oito países europeus, pesquisadores da cidade de Bamberg situam a representação política de migrantes na Alemanha numa posição mediana: "Os primeiros lugares são ocupados pelo Reino Unido e pela Holanda; Itália e Espanha se situam nos últimos lugares", explica o cientista político Lucas Geese.

Para o pesquisador, apesar de a Alemanha não ser a última colocada, é um problema que a metade dos cidadãos com origem migratória que vivem no país não possuam a cidadania alemã. Ele acredita que haja uma "exclusão sistemática do processo político de formação de opinião pública" dessa população. A culpa, segundo Geese, é de um "modelo de cidadania extremamente rígido, se comparado com outros países".

Ódio racista

A comissária de Integração do governo federal, Aydan Özoguz, acredita que o debate sobre migração na Alemanha avançou, mas que ainda há muito a fazer. "Como migrante, sou alvo fácil para representantes da direita e para radicais de direita".
Özoguz defende que haja mais parlamentares de origens diferentes e de mais orientações religiosas na Alemanha: "Quando existem pessoas [no Parlamento] que são afetadas, isso modifica o teor da discussão" - e talvez também a percepção: a caixa da cantina do Parlamento alemão não queria acreditar que Karamba Diaby (SPD), nascido no Senegal, é deputado federal.

Cemile Giousouf deseja "que, em algum momento, a origem migratória não desempenhe papel tão importante". "Na Alemanha, um país de imigrantes, este é um tema fundamental." Em 2013, Giousouf se tornou a primeira deputada federal da CDU com origem turca. Já o SPD, o Partido Verde e A Esquerda já tem mais legisladores com ascendência estrangeira há mais tempo.

Preferência pela esquerda

Com base em pesquisas internacionais, o cientista político Andreas Wüst diz que eleitores com origem migratória tem preferência por partidos da chamada "esquerda política". As legendas seriam especialmente abertas a membros com ascendência estrangeira e suas agendas políticas.

Já o pesquisador Dennis Spies, de Colônia, afirma que migrantes sabem exatamente quem de sua comunidade está representado no Bundestag. Para a eleição federal alemã deste ano, Spies estuda para quem os eleitores migrantes dão seu voto e por quê. Ele se dedica aos dois maiores grupos de eleitores com origem migratória: os teuto-russos e os alemães de ascendência turca.

AfD e o Leste Europeu

Dennis Spies aponta que os teuto-russos - migrantes alemães e seus descendentes originários dos países criados após o fim da União Soviética - são uma peculiaridade alemã. Desde seu primeiro dia na Alemanha, explica o pesquisador, eles são considerados alemães e podem votar.

O ex-chanceler alemão Helmut Kohl, morto em junho deste ano e conhecido por sua atuação na reunificação alemã, se empenhou para que os teuto-russos fossem reconhecidos após o fim da União Soviética. O grupo ficou agradecido à CDU de Kohl e, durante muito tempo, foram considerados eleitores fieis. Porém, desde a acolhida de estrangeiros durante a crise de refugiados em 2015-2016, muitos desses eleitores se distanciaram do partido. "Os ciúmes têm influência aí", constatou Spies, em entrevista à DW.
Nas eleições dos parlamentos regionais, a AfD marcou pontos em circunscrições onde vivem muitos teuto-russos. Dennis Spies explica que "a AfD tem um programa eleitoral em russo, um grupo de teuto-russos, placas em russo e fala diretamente aos teuto-russos". Nenhum outro partido se dedicaria tanto aos teuto-russos, diz Spies.

O estudo do Conselho de Especialistas de Fundações Alemãs para Integração e Migração (SVR) contou uma preferência de 45,2% dos teuto-russos pela dobradinha CDU/CSU - uma taxa bem menor que a registrada em pesquisas anteriores.

Alemães de origem turca

Em 1994, quando Cem Özdemir entrou para o Parlamento alemão, um cidadão se queixou junto ao governo: "Desde quando um turco pode sentar aí em cima?", indagou, durante discurso do então chanceler conservador Helmut Kohl.

Uma política do SPD e o "suábio da Anatólia", Özdemir, foram os primeiros alemães de ascendência turca no Parlamento alemão. Hoje, 11 parlamentares são de origem turca - nenhum grupo de migrantes tem representação maior no Bundestag.

Segundo o estudo do SVR, os alemães de origem turca costumam se identificar com o Partido Social-Democrata. Quase 70% são eleitores do SPD, segundo os números da pesquisa, que seriam consequência da época dos chamados "trabalhadores convidados".
Para Aydan Özoguz, no âmbito do acordo de trazer para a Alemanha mão de obra turca nos anos 1960, trabalhador significava sindicato e, por consequência, SPD. O partido defendia a introdução da dupla cidadania e os direitos dos migrantes, linha mais tarde também seguida pelo Partido Verde e pela legenda A Esquerda.

Diferentes imigrantes

O cientista político Dennis Spies afirma que "o poder político dos migrantes [na Alemanha] é reduzido. O grupo cresce, mas é fortemente dividido". Cerca de um terço dos eleitores com origem russa vem da Ucrânia, um grupo menor do Cazaquistão e a maioria da própria Rússia. "Se você perguntar a eles o que eles acham de Putin, metade vai dizer que o ama e a outra metade, que o odeia. Isso também vale para [o presidente turco] Erdogan e eleitores com raízes turcas", explica Spies.

"Não existe 'O' eleitor migrante. Por que alguém que vem da Ucrânia e que vive na Alemanha há 20 anos teria a mesma preferência política que alguém que mudou para cá vindo do sudeste da Turquia? Por que essas pessoas devem ser comparáveis a migrantes que vieram para a Alemanha da Itália nos anos 1950?", indaga o estudioso.
A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.

 www.miguelimigrante.blogspot.com

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