terça-feira, 23 de agosto de 2022

Mais de mil migrantes já morreram no Mediterrâneo em 2022, diz Acnur

 

Credit...Foto: MSF/Candida Lobes

Mais de mil migrantes morreram em travessias no Mar Mediterrâneo desde o início do ano, de acordo com balanço divulgado nessa segunda-feira (22) pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur).

Segundo as últimas estimativas, exatas 1.004 pessoas perderam a vida ao tentar cruzar o Mediterrâneo para chegar à Europa de janeiro de 2022 até o último dia 21 de agosto.

O documento indica ainda que outros 73.928 refugiados chegaram por mar desde o início do ano na Itália, Grécia, Espanha, Chipre e Malta.

Do número total, 50.760 migrantes desembarcaram no território italiano, em comparação com os 35.480 registrados no mesmo período do ano passado, conforme dados do Ministério do Interior da Itália. O número vem subindo rapidamente, já que o verão no Hemisfério Norte é mais propício para travessias.

Hoje, inclusive, mais de 100 migrantes que foram resgatados pelo navio "Geo Barents", operado pela ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF), no Mediterrâneo vão desembarcar no porto italiano de Taranto.

A embarcação, que saiu da Turquia há cinco dias, conta com 106 pessoas a bordo, incluindo 26 mulheres e 42 crianças. "Apesar da resposta rápida, o navio vai ter de navegar mais de um dia para chegar ao porto de segurança designado", explicou a MSF nas redes sociais.

Recentemente, um relatório da agência de refugiados da ONU apontou que, entre 2014 e 2021, mais de 24.400 pessoas perderam a vida ou desapareceram tentando atravessar o Mar Mediterrâneo. (com agência Ansa)


jb.com.br

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Imigração: o que é e as causas

 


Você sabe o que é imigração? O termo remete à entrada de um ou grupo de estrangeiros em uma nação. O nome tem origem no latim "immigratus" cujo significado é "se mudar para". Nesse caso, são considerados imigrantes aqueles que entram em uma região estrangeira ou em um Estado longe do habitual, com o objetivo de permanecer, independente da causa ou do movimento ser voluntário ou forçado.


As pessoas que viajam para outro(s) país(es) diferente(s) da origem, na condição de passageiro e/ou turistas, não são imigrantes. Isso porque o termo faz referência a quem estabelece residência fixa em uma região não nativa. Existem alguns livros sobre refugiados e imigrantes que ajudam a entender o conceito.

As causas da imigração


• Causas da imigração

Seja espontâneo ou forçado, diferentes motivos podem ocasionar imigrações. A decisão de uma pessoa se deslocar para outra região que não é a sua origem pode ser motivada por fatores como:

• Guerras e conflitos políticos

Muitas pessoas são obrigadas a se deslocarem para outra região em função de guerras e conflitos políticos. Existem locais que possuem guerras civis (em uma mesma nação) ou guerra entre países distintos que, na maioria dos casos, resultam em feridos e até mortes de inocentes. Para evitar consequências, a população recorre ao deslocamento.

Imigrantes em deslocamento.

Busca por emprego é uma das causas da imigração. (Ilustração: Adobe Stock)


• Economia

Uma das causas da imigração diz respeito à economia. Existem regiões com péssimas condições econômicas que levam as pessoas a se deslocarem para outros locais em busca de melhores oportunidades de emprego e condições de vida digna. Há também regiões que incentivam a imigração com objetivo de manter a competição no mercado, como é o caso do Canadá.

• Perseguição religiosa

No Brasil, a Constituição Federal garante a liberdade de consciência e de crença, além de assegurar o livre exercício dos cultos religiosos. Essa, porém, não é a realidade de muitas regiões no mundo. Há locais com regimes autoritários que proíbem as pessoas de exercerem a crença e, aqueles que não obedecem, sofrem perseguições e até são assassinados. Em busca da liberdade religiosa, a decisão de migrar é vista como a saída.

• Desastres naturais

Os desastres naturais também são razões que explicam o deslocamento geográfico das pessoas. Muitas são obrigadas a deixarem suas casas em função de mudanças climáticas e até por fenômenos da natureza como tsunamis, ciclones e terremotos. Com base na organização internacional IDMC (Centro de Monitoramento de Deslocamento Interno), as nações mais pobres estão entre mais vulneráveis a desastres ambientais por ter menos recursos de enfrentamento.

• Outra causa

Muitas pessoas também são forçadas ou optam pela imigração com o objetivo de buscar oportunidades de estudo. Para esses casos, é importante que as instituições estejam preparadas para a promoção da diversidade nas escolas, com o objetivo de incluir alunos, de diferentes culturas, crenças e valores, na convivência com o novo espaço educativo.



Dados sobre refugiados


De acordo com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), 89,3 milhões de pessoas em todo o mundo foram deslocadas à força no final de 2021. Isso aconteceu por motivos como: conflito, violência, perseguição, violação de direitos humanos ou ações que perturbem gravemente a ordem pública.

Entre os principais países de acolhida estão:

• Turquia (3,8 milhões de refugiados);
• Colômbia (1,8 milhões de refugiados);
• Uganda (1,5 milhões de refugiados);
• Paquistão (1,5 milhões de refugiados);
• Alemanha (1,3 milhões de refugiados).

Inclusão à educação


As pessoas que sonham em voltar a estudar, mas não possuem condições de arcar com o valor integral das mensalidades, podem encontrar por meio do Educa Mais Brasil a oportunidade de estudar com menor custo. O programa de inclusão à educação dispõe de chances especiais para diferentes níveis do conhecimento como: graduação, pós-graduação, cursos técnicos e muito mais.

educamaisbrasil.com.br
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segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Fórum reúne empresas em São Paulo para dinamizar apoio do setor privado às pessoas refugiadas

  

Projeto Reinventar, da BRK Ambiental e da Foxtime Recursos Humanos, formou refugiadas venezuelanas para atuarem como encanadoras e/ou instaladoras hidráulicas. © Divulgação/Fellipe Abreu

Para celebrar o marco de 50 empresas e organizações membros e mais de um ano de atividades, o Fórum Empresas com Refugiados promoverá seu 1º Encontro Anual, na cidade de São Paulo, na próxima quarta-feira, dia 24 de agosto. O evento é o primeiro presencial realizado pela iniciativa da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e o Pacto Global da ONU no Brasil, lançada em junho de 2021.

Na programação, estão confirmados painéis de Cristina Betts, CEO da Iguatemi; Welington Alves, Country Manager da Sitel; Daniela Sandoval, Vice-Presidente de Assuntos Corporativos e Regulação da BRK Ambiental; Ana Menegotto, Vice-Presidente de Recursos Humanos da Sodexo On-Site Brasil; Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, entre outros. O evento ocorre no Quality Hotel Paulista, das 8h30 às 17h, com entrada gratuita.

As vagas são limitadas. Inscrições e programação completa estão disponíveis neste link.

Durante o encontro, haverá o lançamento de um guia voltado às empresas para a promoção de políticas de diversidade nos ambientes de trabalho. O objetivo do evento é fomentar a aprendizagem e troca de experiências; divulgar as ações e compartilhar as boas práticas das empresas participantes, e sensibilizar e engajar outras companhias e público em geral sobre a importância e os benefícios da inclusão e contratação de pessoas refugiadas e migrantes. Boas práticas na contratação e apoio à inclusão de pessoas refugiadas são divulgadas na plataforma online Empresas com Refugiados.

O evento terá ainda palestras com representantes de empresas referências no tema, oficinas temáticas e capacitação. Para abordar a interseccionalidade, haverá painel de Vivian Broge, Diretora de Recursos Humanos da Iguatemi S.A; Raphael Pagotto, Secretário Adjunto do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, e Flávia de Moura Muniz, Especialista de Empoderamento Econômico da ONU Mulheres.

Já as oficinas para abordar a contratação de pessoas refugiadas em São Paulo e estratégia de interiorização contarão com nomes como Manoel Magno Barros de Sousa Lopes, Tenente-Coronel coordenador do Centro de Coordenação para a Interiorização em Boa Vista; João Marques, CEO da Emdoc/Programa de Apoio a Recolocação de Refugiados (PARR); e Pe. Paolo Parise, Membro da diretoria da Missão Paz.

Para aprofundar ainda mais o tema, também será promovida a primeira edição do treinamento avançado voltado a empresas que já contratam pessoas refugiadas. Serão abordados aspectos como onboarding, desenvolvimento de carreira e interculturalidade.  A capacitação foi desenvolvida com apoio da Tent Partnership for Refugees, BRF, Renner, Sitel e Sodexo.

Haverá também estandes para divulgação e venda de produtos desenvolvidos por empreendedores refugiados e migrantes. A banda Os Escolhidos dará o tom do evento. O grupo formado por refugiados e migrantes da República Democrática do Congo canta diferentes gêneros musicais e irá se apresentar no período da manhã.

Os parceiros estratégicos do 1º Encontro do Fórum Empresas com Refugiados são Emdoc, EY, IFC, Foxtime, Moverse, PNUD e Tent Partnership for Refugees, com apoio de Lojas Renner SA e Iguatemi.

Sobre o Fórum Empresas com Refugiados

Em um ano, o Fórum promoveu mais de 20 atividades, entre eventos, rodas de conversa e capacitações online, impactando mais de 2 mil pessoas. A iniciativa aprofunda o engajamento do setor privado iniciado na Plataforma Empresas com Refugiados, que em três anos apoiou a divulgação de mais de 500 vagas de emprego enviadas por cerca de 200 empresas que atuam no país. Além disso, as empresas e organizações com boas práticas divulgadas na plataforma contrataram ou deram apoio para a contratação de mais de 7,3 mil pessoas refugiadas e migrantes, além de promoverem a capacitação de mais de 1,2 mil pessoas refugiadas.

Serviço:

1º Encontro Anual do Fórum Empresas com Refugiados

Quando: 24 de agosto

Horário: 8h30 às 17h

Quanto: gratuito

Onde: Quality Hotel Paulista: Alameda Lorena, 360, Jardim Paulista, São Paulo

Inscrições e programação completa: https://bit.ly/encontroanualforum

acnur.org

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Campanha multivacinação chega a abrigos de refugiados e migrantes da Venezuela em Boa Vista

 

UNICEF/BRZ/Josiele Oliveira

O UNICEF, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de Boa Vista, o Subcomitê Federal de Acolhimento e Interiorização, a Força-Tarefa Logística Humanitária da Operação Acolhida e a Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (Adra), promove, a partir desta segunda-feira, ações integradas para fortalecer a cobertura vacinal entre a população refugiada e migrante na capital de Roraima, em particular crianças e adolescentes. A ação, que ocorre até 12 de setembro em oito abrigos da Operação Acolhida, em Boa Vista, vai reforçar o trabalho realizado pelo município. A campanha de multivacinação coordenada pela Secretaria de Saúde envolve um calendário com 14 imunizantes de rotina, como vacinas contra sarampo, rubéola e difteria.

“A queda na cobertura vacinal já é uma realidade no Brasil, e também no estado de Roraima. Esse declínio coloca milhões de crianças, adolescentes e suas famílias em risco. Para protegê-los de doenças perigosas e evitáveis, é essencial garantir que tenham acesso à vacinação de rotina”, afirma Ana Spiassi, consultora de Saúde e Nutrição do UNICEF em Roraima.

Dados recentes do UNICEF e da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que a pandemia de covid-19 alimenta o maior retrocesso contínuo nas vacinações em três décadas.

“A vacinação é uma das formas mais efetivas e eficazes para dar acesso à saúde aos refugiados e migrantes que chegam ao Brasil. Por isso, o trabalho pela vacinação deve ocorrer logo na entrada dessas pessoas no País, como já é feito, assim como um trabalho ativo para garantir uma cobertura vacinal também nos abrigos, beneficiando a saúde de toda a sociedade”, afirma o coronel Alexandre Henrique Monteiro Ramos, à frente da Coordenação de Saúde da Acolhida.

Entre os profissionais envolvidos na campanha, estão enfermeiros e monitores de saúde e nutrição que atuam nos abrigos mobilizando a comunidade e na organização de filas durante a vacinação. A Força-Tarefa Logística Humanitária da Operação Acolhida coordena toda a ação de logística relacionada à ação, estando responsável na Coordenação Municipal de Imunizações pelo armazenamento, o transporte e a distribuição dos imunizantes.

“Quando uma comunidade se vacina, todos ficam protegidos contra a volta de doenças que não queremos que ameacem novamente as famílias do município. Nossa campanha faz todos os esforços para chegar aos públicos mais vulneráveis e com dificuldades de se vacinar, incluindo, entre outros, a população refugiada e migrante”, afirma Cláudio Galvão, secretário de Saúde de Boa Vista.

Além dos abrigos, está em curso mais uma rodada de vacinação em 16 ocupações espontâneas de refugiados e migrantes da Venezuela em Boa Vista, envolvendo a Secretaria Municipal de Saúde, o UNICEF, a Agência da ONU para Migrações (OIM) e a Fundação Panamericana para o Desenvolvimento (Fupad). A ação promove uma segunda rodada de aplicações das vacinas contra o coronavírus, a febre amarela e a influenza, e tríplice viral.

O trabalho de imunização do UNICEF recebe o financiamento do programa Acelerador de Acesso a Tecnologias da Covid-19 sobre vacinas, tratamentos e diagnósticos (Access to COVID-19 Tools Accelerator) e do Escritório para População, Refugiados e Migração do Departamento de Estado dos Estados Unidos (PRM, na sigla em inglês).

UNICEF e o apoio na cobertura vacinal
Desde 2019, o UNICEF disponibiliza equipes de saúde e nutrição em Boa Vista, atuando de forma fixa ou móvel para atender a população nos abrigos da Operação Acolhida e em ocupações espontâneas da cidade. O objetivo é garantir, entre outras atividades, a rápida identificação e encaminhamento de casos suspeitos de covid-19 e o monitoramento da cobertura vacinal entre a população migrante e refugiada da Venezuela. Em 2021, foram realizadas 20.564 entrevistas com 3.102 encaminhamentos para avaliação médica como estratégia para garantir o controle rápido de surtos de covid-19 em abrigos.

O Fundo também apoia cinco Unidades Básicas de Saúde (UBS) em Boa Vista, com 15 profissionais que atuam para garantir o atendimento à comunidade brasileira e venezuelana.


unicef.org


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sábado, 20 de agosto de 2022

Migrante venezuelano atua na OIM Brasil ajudando conterrâneos

A Agência da ONU para as Migrações (OIM) conta a história do venezuelano Heldrid Couttiller, migrante que hoje atua na OIM Brasil no suporte a refugiados e migrantes compatriotas.

Ele entrou em 2018 para a equipe de interiorização, apoiando a estratégia do governo brasileiro que leva voluntariamente refugiados e migrantes venezuelanos de Roraima para outras localidades do país.

Trabalhando na agência, Couttiller já pegou 46 voos com embarque em Boa Vista, percorreu mais de 1,3 mil quilômetros de estrada por ônibus e 56 quilômetros a pé feitos entre embarques e desembarques. 

Há quatro anos, quando ainda morava na Venezuela, Heldrid Couttiller não imaginava que um dia faria parte de centenas de histórias de reencontros no Brasil. Pouco depois de chegar em território brasileiro, ele começou a atuar no suporte a refugiados e migrantes venezuelanos que, igualmente a ele, viram no país uma oportunidade de recomeçar. 

Em 2018, ao ir para Boa Vista, capital roraimense, Heldrid trouxe na mala a esperança de ajudar a família e o currículo, descrevendo anos de experiência no Ministério Público venezuelano em casos de proteção de mulheres, crianças e grupos mais vulneráveis. À época, a resposta humanitária ao fluxo migratório da Venezuela, por meio da Operação Acolhida, dava os primeiros passos. 

Quando se recorda de quando chegou à Agência da ONU para as Migrações (OIM), a lembrança ainda é muito viva. “Lembro bem. O meu contrato em um antigo trabalho com dados tinha acabado, então deixei meu currículo na Organização, sonhando com uma oportunidade. Primeiro pensei que não teria chances, mas acabei sendo chamado para uma entrevista. Nossa, que surpresa! Hoje estou há três anos na OIM”, recorda. 

Heldrid entrou para a equipe de interiorização, apoiando a estratégia do governo brasileiro que leva voluntariamente refugiados e migrantes venezuelanos de Roraima para outras localidades do país. Durante os anos na OIM, esteve na parte de operações, revisão documental, acompanhamento de viagens e, agora, no atendimento a famílias, as apoiando para que o processo de mudança seja feito de maneira segura e digna, protegendo seus direitos. 

“Passei a ter muito contato com compatriotas venezuelanos por aqui. Quando eles têm dúvidas, sempre explico todos os procedimentos da viagem e dos processos. E eles me agradecem. Eu e minha família passamos por isso, migramos e recebemos ajuda. Não posso ser egoísta e não ajudar outras pessoas”, declarou.  

Atendimento - Com o passar dos anos, muitos momentos marcaram Heldrid durante as viagens que realizou pelo trabalho, como o que ele e a tripulação de uma aeronave se mobilizaram para um bebê receber atendimento médico em Brasília para recolocação de uma sonda alimentícia que havia se deslocado. Assim como o de uma criança que foi para São Paulo junto com a mãe para o tratamento oncológico.  

“Vi muitos reencontros também. Lembro de uma mãe com cinco filhos, que iria para Goiânia. Ajudei a segurar e acalmar uma das crianças durante todo o voo. Era de madrugada quando chegamos na casa do pai deles, que era o receptor. Quando se viram e se abraçaram, me emocionei muito. São momentos que marcam”, acrescenta.  

Volta na Terra- Mesmo acompanhando tantas histórias de vida, Heldrid se surpreendeu com a própria: em decorrência dos deslocamentos de avião, ônibus, carro e outros meios de transporte com as famílias até os seus destinos, recebeu uma notificação no celular informando que havia percorrido trajetos equivalentes a uma volta e meia no Planeta Terra! 

O aplicativo contabilizou 46 voos realizados com embarque em Boa Vista, mais de 1,3 mil quilômetros de estrada por ônibus e 56 quilômetros a pé feitos entre embarques e desembarques. Ao todo, foram 58 mil quilômetros percorridos.  

“Nunca imaginei algo assim! Saindo de Boa Vista, foram dezenas de voos, sem contar as trocas de avião numa mesma viagem, que geralmente são três ou quatro. E muitos quilômetros caminhados durante as viagens... Não me lembrava de ter andado tanto! É realmente um marco”, celebra. 

Para o futuro, Heldrid planeja continuar apoiando os compatriotas com o trabalho realizado na OIM. “Fiquei encantado com o Brasil. Estou feliz aqui”, completou. 

As atividades da OIM em apoio à Estratégia de Interiorização contam com o apoio do Escritório de População, Refugiados e Migração (PRM) do Departamento de Estado dos Estados Unidos da América. 

brasil.un.org

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sexta-feira, 19 de agosto de 2022

REDE CLAMOR REALIZA SUA PRIMEIRA ASSEMBLEIA, EM BRASÍLIA

 


Teve início, no fim da manhã desta quinta-feira, 18, a primeira assembleia da Rede Clamor Brasil. Iniciativa criada pelo Conselho Episcopal Latino Americano (Celam) em 2017, tem sido estruturada nacionalmente desde 2020. Participa do encontro o bispo da diocese de Ourinhos (SP), dom Eduardo Vieira dos Santos, designado recentemente pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) como bispo referencial da rede.

O encontro, realizado no Centro Cultural Missionário (CCM), em Brasília (DF), vai até amanhã com representações de entidades que atuam no atendimento a migrantes e refugiados, vítimas de tráfico de pessoas, e no enfrentamento ao tráfico.

O objetivo da instituição, de acordo com a irmã scalabriana Rosita Milesi, que é membro da equipe de coordenação, é ser “uma rede articuladora e potencializadora das organizações da Igreja trabalham com migrantes e refugiados”.

No Brasil, de acordo com a religiosa, são mais de 100 organizações ou serviços da Igreja funcionando no atendimento a migrantes, refugiados e enfrentamento ao tráfico de pessoas. Assim, a Rede Clamor visa “articular essas organizações, apoiá-las, oferecer oportunidade para que possam também entre si ver as maiores necessidades e contribuir reciprocamente nesse trabalho”, numa efetiva articulação e soma de forças.

Durante a assembleia, os participantes irão conhecer e aprofundar o estatuto da Rede elaborado em âmbito continental e que possui um capítulo específico sobre as redes nacionais.

“Nós vamos partilhar com os participantes, refletir sobre esta orientação que o próprio estatuto nos dá, que é, em última análise, a finalidade e como que a Rede Clamor pode incidir e pode colaborar para que avancemos nos trabalhos de enfrentamento ao tráfico de pessoas e de atenção a migrantes, refugiados”, explicou irmã Rosita.  

Bispo referencial

Nomeado recentemente para a função de bispo referencial da Rede, dom Eduardo Vieira do Santos partilhou que sua expectativa é “conhecer os membros, o trabalho que é feito, quais são as entidades que trabalham com migrantes, com refugiados, com a realidade do tráfico de pessoas” e dessa maneira, poder colaborar.

cnbb.org.br/

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Catar: a Copa da vergonha alheia

 A Fifa argumenta que um megaevento como a Copa pode trazer melhorias à população do país-sede. Não traz, e é ilusão pensar que regimes autoritários sejam movidos rumo a uma maior abertura só porque o mundo está de olho.

Apesar de promessas de reformas no Catar, foram denunciados novos casos de retrocessos, especialmente de violação sistemática dos direitos humanos
© Ulmer/IMAGOApesar de promessas de reformas no Catar, foram denunciados novos casos de retrocessos, especialmente de violação sistemática dos direitos humanos

Philipp Lahm, ex-capitão do Bayern e da Alemanha campeã mundial em 2014, foi enfático em recente entrevista para o Kicker, o mais prestigiado portal de esportes do país, ao declarar que não pretende viajar ao Catar, preferindo acompanhar os jogos da Copa do Mundo em sua casa pela TV.

Durante a conversa com o repórter, ainda criticou a escolha do emirado como sede do Mundial: "A situação dos direitos humanos num país deveria desempenhar papel preponderante na escolha para sediar um evento como esse. Nesse quesito, porém, o Catar é um dos piores do mundo e cabe questionar quais foram os critérios que afinal determinaram sua escolha", concluiu.

Pano rápido.

A cada ano, milhares de migrantes saem de países mergulhados em crises econômicas, como Paquistão, Índia, Nepal e Bangladesh, rumo aos ricos emirados do Golfo Pérsico, entre os quais o Catar, para escapar da miséria de sua pátria e prover um sustento mínimo para suas famílias que ficaram para trás.

Sonho do migrante por vida melhor logo vira pesadelo

O emirado do Catar ocupa uma área minúscula, de apenas 11,5 mil km², e é um dos Estados mais ricos da região, com suas gigantescas reservas de petróleo e gás natural. Dos seus 2,8 milhões de habitantes, estima-se que 2,2 milhões sejam trabalhadores estrangeiros, que representam 78,6% da população total (Dados do Banco Mundial, 2020).

De 2006 até 2020, a população praticamente triplicou por conta da vinda de trabalhadores estrangeiros alocados em boa parte nas obras da construção civil. Uma vez tendo chegado ao Catar, o sonho do migrante por uma vida melhor rapidamente se transforma num pesadelo: jornadas de trabalho muito longas, acomodações insalubres e anti-higiênicas, insegurança jurídica e extrema dependência do empregador.

A ONG Anistia Internacional publicou um relatório em agosto de 2021 de acordo com o qual morreram aproximadamente 15 mil trabalhadores estrangeiros entre 2010 e 2019, sendo que em 70% dos casos a causa mortis não foi devidamente esclarecida. Vale lembrar que no Catar, em caso de falecimento do trabalhador estrangeiro, não é feita a autópsia para determinar a causa da morte. O Comitê Organizador local da Copa do Mundo alega, entretanto, que até fevereiro de 2021 morreram apenas 34 trabalhadores em obras da construção dos hipermodernos estádios padrão Fifa.

Reformas superficiais e insuficientes

Enquanto as denúncias sobre a violação dos mais elementares direitos humanos no Catar se multiplicavam na mídia, o emirado investiu no ponto fraco de amplos setores do Ocidente: sua venalidade. Entrou em grande estilo no mundo dos negócios bilionários em que se transformou o futebol. Adquiriu direitos de TV para transmissão de jogos de futebol, comprou grandes clubes como Paris Saint-Germain e se tornou o principal patrocinador de outros, como o Bayern de Munique.

Operários enfrentam longas jornadas de trabalho, acomodações insalubres e insegurança jurídica
© Maya Alleruzzo/AP Photo/picture allianceOperários enfrentam longas jornadas de trabalho, acomodações insalubres e insegurança jurídica

Apesar de contínuas promessas da monarquia absolutista do Catar de implementar melhorias nas condições de trabalho dos operários estrangeiros, organizações defensoras dos direitos humanos lamentam que, poucos meses antes do pontapé inicial da Copa, as reformas preconizadas foram feitas de modo superficial e insuficiente, além do que sua efetivação não é controlada por algum órgão governamental e muito menos por agências independentes.

Pelo contrário. Foram denunciados novos casos de retrocessos, especialmente no que se refere à violação sistemática dos direitos humanos: "Na prática, não houve melhoria alguma nas condições de vida dos migrantes", constataram os autores de um relatório recente da Anistia Internacional.

"Futebol deveria ser para todos"

Hansi Flick, técnico da seleção alemã, lamenta os efeitos negativos que estão impactando esta polêmica Copa no Catar e se manifestou no jornal Frankfurter Rundschau: "Tenho muitos conhecidos que gostariam de ir, mas por motivos diversos não viajarão. Preços altíssimos, homofobia inaceitável, violação dos direitos humanos, exclusão de minorias. O futebol deveria ser para todos, mas essa Copa não é para o torcedor comum."

Confrontado pela reportagem sobre a situação no país, Flick declarou: "Uma tomada de posição a esse respeito por parte da seleção nacional será um desafio para todos os envolvidos. Vamos nos reunir agora em setembro e pensar bem no que nós, provavelmente em conjunto com outras seleções, podemos fazer."

Fora as protocolares conclamações de praxe pela confraternização de todos os povos através do futebol, nada mais poderá ser feito. A Fifa adora argumentar que um megaevento como uma Copa do Mundo pode trazer melhorias para a população do país-sede. Não traz, e é ilusão pensar que regimes políticos autoritários possam ser movidos rumo a uma maior abertura lenta e gradual do regime só porque o mundo inteiro está de olho.

Ao fim e ao cabo o dirigente máximo da Fifa, Gianni Infantino, vai confraternizar com patrocinadores e políticos de toda sorte nos camarotes VIP dos estádios construídos à custa de milhares de vidas para comemorar, como ele costuma dizer, "a melhor copa do mundo de todos os tempos".

Para muitos, e especialmente para os operários migrantes que ergueram os luxuosos templos do futebol no Catar, será apenas a Copa da vergonha alheia.

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Gerd Wenzel começou no jornalismo esportivo em 1991 na TV Cultura de São Paulo, quando pela primeira vez foi exibida a Bundesliga no Brasil. Atuou nos canais ESPN como especialista em futebol alemão de 2002 a 2020, quando passou a comentar os jogos da Bundesliga para a OneFootball de Berlim. Semanalmente, às quintas, produz o Podcast "Bundesliga no Ar". A coluna Halbzeit é publicada às terças-feiras.

DW

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quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Santa Catarina: Governo promete instalação da Cátedra da Diáspora, Migrações e Estudos Interculturais em 2022


Santa Catarina: Governo promete instalação da Cátedra da Diáspora, Migrações e Estudos Interculturais em 2022

O governante adiantou estas informações em declarações à imprensa no final de um encontro que manteve hoje com o reitor da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), Arlindo Barreto e a presidente da Câmara Municipal de Santa Catarina, Jassira Monteiro, e de visitar as instalações do Pólo III da Uni-CV, situado em Achada Falcão, no município de Santa Catarina, onde vai ficar sedeada a referida cátedra.

Jorge Santos avançou que a criação e implementação da cátedra, que faz parte do Plano Estratégico da Diáspora 2022-2026, vai ser ainda este ano, após a assinatura de um memorando entre a Uni-CV e o Governo.

No encontro, adiantou que se discutiu a necessidade de o País ter uma Cátedra da Diáspora, Migrações e Estudos Interculturais, em vez de um Centro de Investigação e Estudos da Diáspora, Migrações e Interculturalidades, como inicialmente desenhada pelo Governo.

“Uma cátedra, porque é uma unidade autónoma da Uni-CV para estudos da nossa diáspora que é imensa e espalhada por todo o mundo (…) e estudar a dinâmica dessas nossas comunidades que representam dois terços da nossa população”, explicou.

“O objectivo principal desta cátedra é justamente estudar, investigar, conhecer e ter todo o conhecimento dessas nossas comunidades. E a partir desses estudos produzir conhecimentos e recomendações científicas necessárias para a construção de políticas públicas a nível nacional e local para criar os instrumentos de ligação entre a nossa diáspora e o País a nível económico, social, cultural, desportiva e em todas as áreas de actividades”, reforçou.

Na ocasião, Jorge Santos justificou a escolha de Santa Catarina para albergar a Cátedra da Diáspora, Migrações e Estudos Interculturais com o facto de o município ser um dos “epicentros mais importante da Diáspora cabo-verdiana”.

Daí, assegurou que a própria Uni-CV, através da Faculdade de Educação e Desporto (FAED), tem todas as condições quer a nível da infra-estrutura e da capacidade humana para receber este projecto que conta com parceiros nacionais e internacionais.

O ministro Jorge Santos, que esteve acompanhado da secretária de Estado do Ensino Superior, Eurídice Monteiro, notou ainda que, associado a este projecto, estão outros elementos como cursos, formações, mestrados em assuntos que dizem respeito à diáspora mormente línguas, sobretudo a portuguesa e crioula.

Por outro lado, disse acreditar que este projecto vai permitir a internacionalização da Uni-CV, em particular da FAED, tendo em conta que muitos cabo-verdianos que estão em África, na Europa e nos Estados Unidos da América vão querer estudar na Uni-CV e a mesma entrar em contacto com as universidades que acolhem a comunidade cabo-verdiana.

Por seu vez, a chefe do executivo municipal de Santa Catarina congratulou-se com a escolha desse município santiaguense para albergar a sede deste projecto, sustentando que a mesma se justifica pelo facto de o concelho que dirige ser um dos “maiores epicentros da diáspora cabo-verdiana”.

Por isso, lembrou que a edilidade se engajou desde a primeira hora por acreditar que a referida cátedra, enquanto unidade de investigação científica aplicada à diáspora cabo-verdiana, na Uni-CV, vai permitir a internacionalização do município de Santa Catarina e da sua história.

asemana.publ.cv/

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O que é a síndrome de Ulisses, que afeta os migrantes

 

Ilustração de mulher com mão na cabeça, que está abaixada
Os migrantes podem passar por vários tipos de luto, mas certas condições podem causar a síndrome de Ulisses

"Não se deve expulsar as pessoas da sua terra ou do seu país, não à força", dizia o poeta argentino Juan Gelman (1930-2014).

Mas existem em todo o mundo cerca de 281 milhões de migrantes internacionais (3,6% da população mundial), segundo dados da ONU de 2020.

Algumas pessoas emigram porque assim desejam, mas outras são obrigadas a emigrar. No final de 2019, as pessoas deslocadas à força já eram mais de 79,5 milhões, segundo a ACNUR, a Agência das Nações Unidas para os Refugiados.

Seja por vontade própria ou não, os migrantes podem sentir-se como dizia Gelman — uma "planta monstruosa", com raízes a milhares de quilômetros de distância do caule e das folhas.

E sempre haverá circunstâncias, na chegada ao seu destino, que reduzirão ou agravarão essa situação. Tudo isso, sem dúvidas, traz repercussões sobre a saúde mental.

A fronteira entre a saúde mental e o transtorno

O psiquiatra espanhol Joseba Achotegui é secretário da Associação Mundial de Psiquiatria e trabalha com temas relacionados à migração. Ele começou a observar certas mudanças em 2002.

"As fronteiras foram fechadas, foram criadas políticas mais rígidas contra a migração, as pessoas deixaram de ter acesso a documentos e havia uma enorme luta pela sobrevivência", contou ele à BBC News Mundo — o serviço de notícias em espanhol da BBC.

Essa nova situação trouxe reflexos na forma como chegavam os pacientes para consultá-lo. "Estavam indefesos, assustados, não conseguiam seguir adiante", segundo ele.

Concretamente, ele observou que muitos migrantes que passam por situações difíceis apresentavam "um quadro de reação de estresse muito intenso, crônico e múltiplo". Achotegui deu a esse quadro o nome de "síndrome de Ulisses".

O psiquiatra esclarece que não se trata de uma patologia, já que "o estresse e o luto são normais na vida", mas salienta a peculiaridade da síndrome que deixa o migrante, novamente, em uma fronteira — não geográfica, mas psicológica, entre a saúde mental e o transtorno.

Luto migratório x síndrome de Ulisses

Normalmente associamos a palavra "luto" ao sentimento que surge após a morte de um ente querido. Mas os psicólogos relacionam o termo a qualquer perda sofrida pelo ser humano, como sair de um trabalho, a separação de um casal ou mudanças no nosso corpo.

"Cada vez que experimentamos uma perda, precisamos nos acostumar a viver sem o que tínhamos e adaptar-nos à nova situação. Ou seja, é preciso trabalhar o luto", explica a psicóloga espanhola Celia Arroyo, especialista em luto migratório.

Assim, o luto migratório está associado a essa grande mudança na vida de uma pessoa. Mas tem características que o tornam especial, já que é um luto "parcial, recorrente e múltiplo".

Paisagem ampla de Caracas, com montanhas ao fundo e dia ensolarado
É possível sofrer luto pela língua, pelos costumes... ou pela paisagem

Parcial porque não é uma perda total, como ocorre com a morte de alguém; recorrente porque, como em qualquer viagem, pode ser reaberto com a comunicação com o país ou simplesmente olhando uma fotografia no Instagram; e múltiplo, porque não é só uma coisa que se perde, mas muitas.

Joseba Achotegui reuniu essas perdas em sete categorias.

A mais evidente costuma ser a perda da família e dos entes queridos. Existe também a perda de status social - algo que, segundo Arroyo, costuma ocorrer com a condição de migrante, mas se, além disso, "o país for xenófobo, surge uma grande adversidade".

Outro luto para o migrante é o da perda da terra: sentir falta, por exemplo, de uma paisagem montanhosa ou dos dias cheios de sol.

Some-se ainda o luto do idioma, que será mais forte nos casos de migração para um país onde se fala outra língua. Pode ser uma forte barreira, por exemplo, para trâmites burocráticos ou para mandar um simples correio eletrônico.

Existe também a perda dos códigos culturais. Ela pode representar algo simples como não ter com quem dançar uma música típica ou tomar uma bebida local do país de origem.

E, associada a essa perda, encontra-se a perda de contato com o grupo de pertencimento - aqueles com quem podemos falar nos mesmos códigos, que entenderão as nossas gírias e a forma de ver a vida.

A síndrome de Ulisses ocorre quando, além de precisar passar por estes lutos normais, o migrante enfrenta condições difíceis, segundo explica Achotegui.

Ilustração de mulher preocupada, com ícones de coração partido, cifrão e etc ao lado
Existem vários fatores que podem estressar um migrante no país que o acolhe

Fatores desencadeantes

"Quando há dificuldades ou a pessoa é rejeitada na sociedade que a acolhe, esta síndrome pode acontecer", explica Guillermo Fauce, professor de psicologia da Universidade Complutense de Madri, na Espanha, e presidente da organização Psicologia sem Fronteiras.

Chegar a um país novo com um trabalho estável é muito diferente de não ter nenhuma segurança; da mesma forma que ter ou não garantia de teto e comida, ou entrar com visto ou com status legal a definir. Ter ou não certas condições acrescenta pontos e estresse.

"A rejeição que pode causar mais impactos é não ter documentos ou não poder ter acesso a determinados recursos", afirma Fauce.

Já Achotegui explica que esta situação faz com que os migrantes não consigam seguir adiante, gerando tensão e problemas de sobrevivência - outro fator desencadeante da síndrome.

Pode-se acrescentar ao panorama não ter pessoas ao nosso redor para oferecer apoio, não apenas material (onde morar, comer e dormir), mas também emocional. "Muitos migrantes sofrem situações de solidão, eles estão isolados", destaca Achotegui.

Fauce assinala que existe também um apoio simbólico que, quando ausente, torna-se outro fator desencadeante. Trata-se do reconhecimento e da compreensão das condições do migrante pelo seu entorno, "que ele está passando por uma situação complicada, atravessando muitos lutos e que seja oferecido a ele um período de transição na sociedade que o acolheu".

Duas pessoas rindo em festa ao ar livre durante o dia
Os especialistas recomendam aos migrantes fazer laços com a comunidade de origem, mas também com a sociedade que os acolhe

Às vezes, pode-se pensar que "o pior" já passou ao cruzar a fronteira em más condições. Mas, no país de acolhida, a sensação de estar indefeso, sem direitos e os possíveis abusos trabalhistas e sexuais podem dar lugar a um quarto fator desencadeante: o medo.

Os especialistas consultados acrescentam que esta situação de vulnerabilidade pode ocasionar a síndrome de Ulisses, principalmente entre as mulheres.

O que pode acontecer e quando devemos estar alertas

Achotegui esclarece que os sintomas podem ser os mesmos de quando passamos por uma época ruim: dormir mal, dificuldade para relaxar, dores musculares ou de cabeça, tédio, nervosismo e tristeza.

Fauce destaca que, por um lado, o migrante pode entrar em uma espécie de estado depressivo e de tristeza, recolhendo-se em si mesmo, e, por outro lado, pode ficar hiperativo e ansioso, o que acaba consumindo energia.

Isso pode fazer com que a síndrome de Ulisses seja confundida com outras doenças mentais, como a depressão ou o estresse pós-traumático, e termine sendo medicada. Mas, neste caso, quando os obstáculos que deram origem à síndrome são solucionados (disponibilidade de trabalho, certa estabilidade, menos estresse etc.), a síndrome desaparece.

"Se o migrante segue em frente, consegue trabalho e atinge uma certa estabilidade, mas os sintomas continuam, existe aí algo mais a ser avaliado e é preciso intervir de outra forma, porque pode ser que haja outra coisa já no plano psiquiátrico, como um quadro depressivo", explica Achotegui.

Equipe feminina de futebol se alongando no campo
A prática de exercícios e a aproximação da comunidade de origem podem ajudar a reduzir o estresse

Por isso, quando o mal-estar se tornar permanente ou nos impedir de levar a vida adiante, é preciso soar o alarme.

Outros sinais de alerta destacados por Fauce são eventuais acessos de raiva, prejuízo às relações sociais ou "a tomada de atalhos, como o consumo de drogas ou álcool, gastos exorbitantes ou esportes de risco".

O que fazer ou não fazer

"É fundamental criar uma rede de apoio social, manter contato com outros imigrantes e compartilhar moradias", destaca Celia Arroyo. Para isso, é bom procurar migrantes da mesma nacionalidade ou grupos de apoio específicos.

Achotegui afirma que isso traz "menos risco de transtornos mentais", mas ficar muito ancorado na comunidade de origem pode causar menos progressos. "Se você não se integrar à sociedade de acolhida, o progresso será difícil. É questão de equilíbrio", explica ele.

Ou seja, o caminho é manter "as raízes" com água, mas sem esquecer as folhas, que devem ficar onde possam receber sol.

Achotegui também recomenda fazer exercícios e atividades que reduzam o estresse.

Já Fauce destaca que "cortes radicais não funcionam, nem decisões drásticas", seja com relação ao país de origem ou ao de acolhida, bem como às relações criadas nos dois países.

Arroyo destaca que, embora seja difícil fornecer um tempo preciso, se o sofrimento não for reduzido em três meses depois de atingir a estabilidade, é bom pedir ajuda psicológica.

O que os outros podem fazer

A sociedade de acolhida desempenha um papel importante, mas quem não passou por essa situação pode não entender o que significa o luto migratório, nem o estresse prolongado causado pela síndrome de Ulisses. Por isso, talvez não se saiba como ajudar, o que dizer ou o que fazer.

Celia Arroyo recomenda que o entorno do migrante permita que quem estiver nesta situação possa expressar-se livremente e falar do que acontece e como se sente.

"É importante não minimizar o sofrimento, nem gerar falsas esperanças" ante um futuro incerto quando, por exemplo, o visto e o trabalho não chegam. Como em qualquer luto, é preciso evitar frases como "logo vai passar", "não é para tanto", "isso é medo seu" ou "tudo vai acabar bem".

Achotegui sugere não se compadecer, nem vitimizar. "É preciso aproximar-se com respeito e até com certa admiração. O migrante é uma pessoa forte, alguém que está seguindo adiante."

Por outro lado, é importante respeitar sua cultura, mentalidade e visão de mundo.

Se a conexão emocional com alguém nesta situação for difícil, Fauce recorda que todos nós já sofremos alguma perda. Por isso, conectar-se àquela emoção que já tivemos é um bom exercício para criar empatia com o migrante.

E acreditar que, como escreveu a uruguaia Cristina Peri Rossi, emigrar - partir, enfim - é sempre se partir em dois.

Alicia Hernández @por_puesto - 

BBC News Mundo

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