O ex-magnata de segunda ordem Daniel Vorcaro. (Foto: Rubens Cavallari/Folhapress)
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, financiou uma rede internacional de prostituição que recrutava inclusive refugiadas de guerra para festas com “autoridades” do velho Estado e pessoas de seu círculo, segundo reportagem publicada pelo monopólio de imprensa UOL em 13 de outubro. As conversas obtidas pelo veículo apontam investimentos de pelo menos R$ 4,3 milhões e mostram o magnata escolhendo mulheres, dando ordens e decidindo pagamentos.
Entre 2023 e 2025, Vorcaro e seus intermediários discutiam a seleção e a permanência das mulheres no grupo. Nos diálogos, ele e o promotor de eventos Diogo Batista as chamavam de “escravas”; as mais jovens eram apelidadas de “creche”. A Polícia Federal (PF) apura a contratação de estrangeiras e possíveis ilegalidades na operação. Além de Batista, que recebia R$ 120 mil mensais do banqueiro, a reportagem cita entre os principais investigados o empresário de eventos Leonardo Serrano.

A guerra como argumento para reter uma refugiada
Uma das jovens era uma ucraniana de 19 anos, levada ao grupo em outubro de 2023, durante uma festa de Halloween. No mês seguinte, Vorcaro avisou que deixaria de pagar hospedagem e passagens de quem decidisse permanecer no Brasil. Ela ficou. Ao receber de Batista a informação de que havia três refugiadas ucranianas no grupo, o banqueiro respondeu: “Tem que sobrar alguma refugiada pra mim”.

Em dezembro, quando Vorcaro perguntou quantas estrangeiras ainda estavam ali, Batista explicou a situação da jovem: “Ela não tem pra onde ir. Estão bombardeando a cidade dela”. O intermediário também escreveu “Segurei ela”, explicando que a jovem pretendia buscar refúgio na Itália, e propôs incorporá-la à agência do grupo. O perigo dos bombardeios entrava na negociação para mantê-la à disposição do banqueiro.

A agência também aparecia nas conversas como meio de afastar os nomes dos organizadores das contratações. Vorcaro recebeu, em dezembro de 2023, um contrato que previa R$ 1,5 milhão pela compra de 50% da Allure Eventos. Em janeiro de 2024, Batista informou que o documento estava assinado. Felipe Nisti Cataldo, dono da empresa, disse ao UOL que a negociação não avançou; a Allure negou qualquer relação societária, comercial ou contratual com Vorcaro e qualquer envolvimento nas práticas noticiadas.

Após a publicação, Vorcaro negou ter explorado ou desrespeitado mulheres e contestou a autoria, a autenticidade e o contexto de parte das mensagens. Serrano e Batista não responderam aos contatos do UOL.
Os convidados da velha ordem
A estrutura servia às festas pelas quais o dono do Master cultivava seu trânsito entre os figurões do velho Estado. No Halloween de 2023, na boate Madame Satã, em São Paulo, Fábio Faria, ex-ministro de Jair Bolsonaro, cuidava dos convites ao mundo político. Mensagens divulgadas pela revista Piauí mencionaram Davi Alcolumbre, Rodrigo Pacheco e Dias Toffoli. Vorcaro anunciava uma proporção de 120 mulheres para 20 homens. Os três negaram ter comparecido; Faria afirmou ter apenas transmitido os convites.

Outras mensagens, sobre uma festa no triplex de Vorcaro em 28 de fevereiro de 2025, relatam que um funcionário emprestou um quarto a um ministro acompanhado de cinco mulheres. Dias depois, uma intermediária cobrou R$ 10 mil por uma acompanhante que teria ficado com “Kassio”. Investigadores relacionaram as referências a Kassio Nunes Marques, hoje presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). As conversas não comprovam por si só sua presença. O ministro negou o encontro e afirmou não ter autorizado ninguém a agir em seu nome.
Indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) por Jair Bolsonaro, Nunes Marques prometera, na sabatina de 2020, valorizar a família e os valores morais e cívicos brasileiros. Hoje comanda a instituição que apregoa a “lisura” da farsa eleitoral. Nos preparativos das festas do banqueiro, a ordem era recolher os celulares. Ao organizar o Halloween de 2023, Vorcaro resumiu sua preocupação: “Se vazar, eu tô morto”.



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