Presidente Donald Trump é conhecido por defender restrições para imigrantesCrédito: KENT NISHIMURA / AFP
Mais da metade dos processos migratórios envolvendo crianças imigrantes desacompanhadas concluídos nos Estados Unidos entre janeiro e agosto de 2026 ocorreram sem representação jurídica. Segundo estimativa do Vera Institute of Justice, divulgada em 15 de outubro deste ano, 55% dos casos foram encerrados sem que os menores tivessem um advogado no processo.
Sem assistência jurídica, crianças e adolescentes podem ter dificuldades para compreender as audiências, apresentar provas e contestar decisões que determinem a saída deles do país. O problema envolve tanto a falta de profissionais para acompanhar os processos, quanto as dificuldades enfrentadas pelos menores para exercer os direitos previstos na legislação americana.
Segundo o instituto, mais de 770 mil crianças enfrentaram processos de deportação em tribunais de imigração dos EUA nos últimos 12 meses. Mais da metade não tinham advogado.
De acordo com a advogada e especialista em Direito Imigratório Nathasha Rocha, o sistema não assegura o pagamento de um defensor pelo governo para quem não tem condições de arcar com os custos. “A lei garante, sim, o direito de ter um advogado, mas ela não garante quem vai pagar por ele”, afirma.
Crianças desacompanhadas passam por processo específico
Por que o governo não fornece advogado gratuito?
Nos Estados Unidos, os processos de imigração são classificados como civis, e não criminais. A garantia constitucional de assistência jurídica custeada pelo Estado se aplica a processos criminais, mas não se estende automaticamente às cortes migratórias, inclusive nos casos envolvendo crianças.
Na corte de imigração, a lei garante que a pessoa tenha direito a um advogado, mas sem custo para o governo. Isso vale tanto para adultos quanto para crianças
Em 2008, o Congresso americano aprovou uma lei de proteção a vítimas de tráfico de pessoas que prevê que o governo assegure acesso à representação jurídica para menores desacompanhados “na maior medida possível”.
Na avaliação da advogada, a formulação é um dos principais obstáculos para garantir assistência a todas as crianças, pois estabelece uma diretriz, mas não uma obrigação de financiar universalmente os serviços jurídicos.
Historicamente, parte dessa assistência foi oferecida por organizações sem fins lucrativos que mantinham contratos com o governo federal. Segundo Nathasha, o encerramento, em 31 de julho de 2026, do contrato com o Acacia Center for Justice deixou mais de 20 mil crianças em risco de perder advogados.
A diferença entre os lados da audiência agrava o problema. Enquanto o menor pode comparecer sem alguém que conheça seu histórico e saiba apresentar argumentos em sua defesa, o governo conta com um representante jurídico para defender os próprios interesses.
“E, do outro lado da mesa, o governo sempre vai garantir um acusador. Então, o governo, sim, sempre vai estar representado por um advogado representante dos seus interesses”, diz a especialista.
Quais são os direitos das crianças nas audiências?
Quando uma criança pode ser deportada?
O que as famílias podem fazer para se preparar?
Nathasha Rocha
advogada e especialista em Direito Imigratório

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