Entre 2000 e 2024, entraram no Brasil 34.038 angolanos, segundo dados do Sistema de Registro Nacional Migratório (SisMigra). Parte dessa população foi objeto da tese de doutorado “Imigrantes angolanos em São Paulo: uma análise sobre a inserção no mercado de trabalho e a reprodução da vida em São Paulo”, defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A pesquisa analisa como a entrada desses imigrantes no mercado de trabalho brasileiro, marcada pela precarização e pela exploração, relaciona-se com formas de acumular riqueza que vêm desde o período colonial.
A geógrafa Priscilla Pachi,
autora da pesquisa, explica que a maior parte dos imigrantes angolanos só
consegue acesso a trabalhos informais, como serviços de limpeza e construção —
ainda que tenham formação acadêmica em seu país de origem. Ela aponta que, pela
baixa remuneração nessas posições em comparação a outros trabalhadores no
Brasil, os imigrantes angolanos precisam realizar ainda mais atividades. “Eles
continuam entrando no mercado de trabalho em atividades precárias, mal
remuneradas, o que contribui para uma inserção também precária dentro da
sociedade brasileira no que tange à habitação, ao consumo e aos espaços que
eles frequentam”, afirma.
Priscilla Pachi
Priscilla argumenta que esses imigrantes também são atingidos pelo racismo. Ao chegarem no Brasil, eles não acreditam que há preconceito racial no país: “eles falam que aqui realmente descobrem que são pretos”. Entre os entrevistados, a precarização do trabalho não é algo novo, já que a situação é uma realidade em Angola. Por outro lado, o racismo estrutural que sofrem no Brasil é, sim, uma questão de dificuldade nova. Para Priscilla, a combinação entre racismo e precarização do trabalho permite afirmar que o “Brasil continua se construindo com a destruição de Angola”, por meio da “superexploração” desses imigrantes.
Durante a pesquisa, a geógrafa entrevistou 21 angolanos residentes em São Paulo e cinco empregadores de imigrantes angolanos. Os participantes das entrevistas foram conhecidos por meio da Casa de Angola, um centro cultural para preservar e valorizar a história angolana. As entrevistas revelaram que os imigrantes angolanos não recebem nenhum benefício trabalhista ou salarial em comparação a outros estrangeiros residentes no território nacional — apesar de os angolanos serem falantes de português. “A empresa que os contrata não tem o custo do ensino do idioma, então é vantagem para o contratante. Porém, os angolanos não são promovidos ou não têm um upgrade”, relata a pesquisadora.Por que o Brasil?
Apesar de ter sido colonizada
por Portugal, assim como o Brasil, Angola passou por um processo de
independência com consequente guerra civil que, somados, duraram cerca de 40
anos. Essa instabilidade política, conforme aponta a geógrafa, dificultou o
acesso da população a direitos básicos, como saúde e educação. “Imagine quatro
décadas de destruição. Isso afeta o país de uma maneira que vemos o reflexo até
hoje”, destacou.
Priscilla explica que hoje, em
Angola, a educação pública é oferecida apenas até a criança completar seis anos
de idade. Após esse período, muitas famílias passam a ser responsáveis pela
educação de seus filhos, o que se torna uma demanda financeira alta. O Brasil
também oferece uma gama de cursos de ensino superior que não são oferecidos na
Angola com preços mais acessíveis, os quais alguns imigrantes também buscam quando
decidem se mudar. “Uma família chega com três ou quatro filhos sem ter o custo
do ensino e ainda com a garantia de que essa criança vai comer na escola e vai
ter um material. Isso é um impacto absurdo”, aponta a geógrafa.
A pesquisa também apontou
dificuldades no acesso à saúde em Angola. Segundo relatos dos entrevistados,
embora o sistema seja público, ele não oferece as mesmas condições encontradas
no Brasil, como encaminhamento para especialistas e acesso gratuito a
medicamentos. Priscilla aponta que há ainda mulheres que vêm ao Brasil em busca
de tratamentos de fertilização, muitas vezes por não encontrarem esse tipo de
atendimento em Angola. Neste caso, são geralmente mulheres de famílias com
maior poder aquisitivo ou que conseguiram economizar para realizar o
procedimento no país.
De acordo com a pesquisadora,
sua tese dá luz às questões raciais sofridas pelos imigrantes angolanos no
Brasil que impactam suas inserções no mercado de trabalho, além de refletir
sobre como mudar essa realidade. “Os imigrantes angolanos não vieram para cá
para se manterem iguais ou ficarem piores. Que consigamos, de fato, promover
melhoria na qualidade de vida deles”, destaca.
*Gabriela César, do Serviço de
comunicação Social da FFLCH. Com edição do Jornal da USP
https://jornal.usp.br/
www.miguelimigrante.blogspot.com


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