segunda-feira, 26 de agosto de 2024

'É problemática, precipitada e cria pânico em comunidades', diz defensor público sobre restrição de imigrantes sem visto no Brasil

Mais de 480 imigrantes seguem retidos no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) - Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil

Nesta segunda-feira (26), entra em vigor uma medida que restringe a entrada de imigrantes sem visto no Brasil. A decisão foi tomada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública depois de investigações da Polícia Federal apontarem fraudes em pedidos de refúgio.

Segundo a PF, imigrantes sem visto compram passagens de avião para algum país vizinho ao Brasil, mas com escala aqui. No momento desta conexão, chegando em solo brasileiro, eles solicitam refúgio. O objetivo seria, no fim, migrar para Estados Unidos ou Canadá.

Para o defensor público federal João Chaves, a medida não é eficiente e pode provocar outros problemas, como o aumento do contrabando de imigrantes. Ele conversou com o jornal Central do Brasil nesta sexta-feira (23).

"Os 'coiotes' [traficantes de pessoas] podem se utilizar disso para aumentar a cobrança de pessoas migrantes e criar novas estratégias ou novos trajetos migratórios. Essa medida é muito preocupante. O combate a fraudes e o contrabando de migrantes não pode se dar pela violação de direitos humanos, dentre eles o direito de solicitar proteção no Brasil", explica o especialista.

Chaves também conta que a medida do governo pode aumentar ainda mais o estigma sobre imigrantes, mas tranquiliza refugiados que já estão no Brasil: "não há impacto nas pessoas que vivem no Brasil, os direitos das pessoas que já estão no Brasil, das refugiadas e de todos os migrantes segue idêntico".

O que pode, sim, acontecer, segundo ele, é familiares dos refugiados que estão no país serem barrados no aeroporto e não poderem se estabelecer, conviverem juntos.

O defensor público federal também explica qual a situação dos mais de 480 imigrantes que já estavam retidos no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) e como o poder público está tratando o caso especificamente.

Brasil de Fato: Qual a sua avaliação dessa medida? Ela é eficiente para combater o tráfico de pessoas, que é o objetivo anunciado pelo Ministério da Justiça?

João Chaves: Não, essa medida não é eficiente e é, na verdade, um retrocesso na política migratória brasileira. É a maior mudança que nós temos na nossa política de refúgio nos últimos 25 anos. Ela é muito problemática, pois restringe o direito de pessoas solicitarem refúgio no Brasil, o que é um direito humano e reconhecido tanto no direito internacional como na lei brasileira.

Além disso, essa medida, por impedir todas as solicitações de refúgio, suspender o direito, pode até mesmo aumentar o contrabando de imigrantes, que é o trabalho dos chamados "coiotes". Ou seja, criando dificuldades, os coiotes podem se utilizar disso para aumentar a cobrança de pessoas migrantes e, além disso, criar novas estratégias ou novos trajetos migratórios. Essa medida é muito preocupante, pois o combate a fraudes e o contrabando de migrantes não pode se dar pela violação de direitos humanos, dentre eles o direito de solicitar proteção no Brasil.

Como a gente consegue combater esse contrabando de imigrantes sem violar os direitos humanos, como você acabou de dizer?  

O combate ao contrabando de imigrantes – é o trabalho desses coiotes – deve ser feito a partir de investigação e cooperação internacional nos países de origem, tentando entender quais redes têm aliciado e cooptado pessoas para darem todas as suas economias em busca de jornadas tão longas e perigosas. Além disso, deve haver um trabalho de informação e conscientização sobre os riscos da migração irregular.

A Defensoria Pública da União, por exemplo, preparou um extenso material de informação com vídeos e áudios para as redes sociais alertando os migrantes sobre os riscos. O mais importante é dizer que, se a pessoa está no território brasileiro, ela tem direito a solicitar refúgio. Não é automático, essa solicitação vai ser analisada pelo Conare, que é o Comitê Nacional para os Refugiados, mas ela tem direito ao menos de ser escutada, ouvida, e não simplesmente devolvida a um país onde ela pode correr riscos.

Nesse momento, o Aeroporto de Guarulhos tem 481 imigrantes retidos. Como o poder público tem lidado com essa questão e qual deve ser o destino dessas pessoas?

Essas pessoas ficam retidas não porque a Polícia Federal esteja deportando até o momento, mas porque não há capacidade de processamento das solicitações. O que a Defensoria recomendou foi um procedimento acelerado para diminuir essas retenções. E, além disso, enquanto elas estão na área restrita, que seja fornecida alimentação, um mínimo de dignidade para o acolhimento com cobertores, já que é um local muito frio, e banheiros, já que sequer há condições de manter higiene pessoal. Infelizmente, não temos ainda respostas. Há um compromisso do Ministério da Justiça e da Polícia Federal de aumentar a capacidade de processamento, mas é fundamental pensar que não se trata de uma crise pontual.

A migração no mundo aumenta ano após ano, e é um fenômeno natural da vida. A migração irregular também, em especial porque os países, especialmente os países ricos, dos chamados norte-global, Estados Unidos e [da] Europa, criam dificuldades à circulação de imigrantes. Então, o Brasil não é o país desejado, mas é o país possível, onde as pessoas conseguem ter seus direitos reconhecidos.

Essa é uma medida que pode aumentar ainda mais o estigma em relação aos imigrantes?

Sim, há uma preocupação muito grande com relação a isso. O Brasil tem uma população relativamente pequena de imigrantes, menos de 1% da nossa população. E temos mais de 100 mil pessoas refugiadas. A forma como a medida foi anunciada foi precipitada, é uma medida, como eu disse, ilegal, bastante questionável e cria um pânico nas comunidades.

É muito importante dizer que as pessoas que estão no Brasil têm direitos e serão defendidas pela Defensoria e pelas entidades da sociedade civil. Mas que não se crie a ideia de que o Brasil mudou radicalmente a sua lei de migração. Foi um ato do Ministério da Justiça que certamente será questionado pela Defensoria e outros órgãos e esperamos que haja uma alteração e a normalização dessa política.

Essa medida para restringir a entrada de imigrantes sem visto no Brasil pode impactar quem já está vivendo aqui? Como fica a situação dessas pessoas?

Não, não há impacto nas pessoas que vivem no Brasil. Nós sabemos que há toda uma discussão envolvendo a reunião familiar, de pessoas que estão no Brasil e querem que seus familiares venham ou esperam que seus familiares venham. Isso, sim, pode ter um impacto indireto, já que as pessoas não poderão ser sequer escutadas pela Polícia Federal de acordo com essa nova medida adotada, mas os direitos das pessoas que solicitam refúgio, [que] já estão no Brasil, das refugiadas e de todos os migrantes segue idêntico.

Vale-se salientar que o Brasil é um exemplo mundial sobre acolhimento a pessoas migrantes. E eu posso dizer que, num país que tem tantos casos de violações graves de direitos humanos, quanto a pessoas em situação de rua, indígenas, a proteção a migrantes é um bom exemplo e deve ser aumentada e não restringida ou reduzida, como ocorreu na última decisão do governo federal.

brasildefato.com.br

www.miguelimigrante.blogspot.com


sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Guia para aprimorar o acolhimento de Refugiados e Migrantes é lançado em São Paulo

 

Texto: Marianne Seixas
Fotos: Anderson Paiva

Nesta quinta-feira (28), foi lançado o “Guia para Acolhimento de Pessoas Refugiadas e Migrantes: Padrões Internacionais e a Experiência do Sistema Único de Assistência Social no Município de São Paulo”, formulado com o objetivo de aprimorar a promoção de políticas públicas de acolhimento.

“O Guia tem a perspectiva de trazer um direcionamento, um alinhamento e um apoio para o trabalho que a gente desenvolve dentro da nossa rede de acolhimento com migrantes e refugiados”, ressaltou a coordenadora de Proteção Social Especial de SMADS, Vanessa Helvécio, durante a fala de abertura.

Fruto da colaboração entre o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), o Guia representa um esforço conjunto para estabelecer diretrizes objetivas e eficazes para o acolhimento dessas populações.

O representante da ACNUR no Brasil, Davide Torzilli, exaltou o nível do documento. “Fico muito feliz com a qualidade desse Guia. Esse Guia é inovador porque, pela primeira vez, a gente coloca a experiência internacional, alinhada à experiência do SUAS [Sistema Único de Assistência Social]”.

O evento de lançamento teve lugar no Salão Nobre da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (Praça Ramos de Azevedo, 254). Com o objetivo de proporcionar um espaço adequado para o diálogo e a colaboração entre os diversos atores envolvidos no acolhimento de pessoas refugiadas e migrantes, foi preparada uma mesa temática para ampliar e aprofundar a discussão sobre as necessidades específicas dessas populações no contexto brasileiro. Especialistas, representantes governamentais, organizações da sociedade civil e membros da comunidade foram convidados para debater desafios, compartilhar boas práticas e propor soluções para atendimento mais digno e eficiente.

“Isso é, de verdade, cuidar de gente. É cuidar das pessoas. É o que a Secretaria de Assistência Social tem como pauta para a cidade. Muito obrigada a cada um de vocês que estão aqui para, junto com a gente, participar de uma discussão para que possamos avançar ainda mais na nossa politíca de acolhimento", enalteceu a Chefe de Gabinete de SMADS, Ciça Santos.

Atendimentos na Rede Socioassistencial para imigrantes

A rede socioassistencial da Prefeitura dispõe de cinco serviços de acolhimento que ofertam vagas preferencialmente para imigrantes. São eles: Centro de Acolhida Especial (CAE) para Mulheres Imigrantes, CAE para Família "Ebenezer" – ambos na Penha –, Centro de Acolhida (CA) para Adultos "São Mateus", CA Imigrantes "Bela Vista" e CA Imigrantes "Pari", na região central.

Ao todo, estes serviços dispõem de 690 vagas de acolhimento. Além dos equipamentos específicos para imigrantes, esse público pode utilizar todos os serviços da rede socioassistencial.

Atualmente, há 3.309 imigrantes acolhidos na rede socioassistencial da prefeitura. As três nacionalidades mais acolhidas são a angolana, com 1.725 imigrantes, afegã, com 232, e venezuelana, com 451.

https://capital.sp.gov.br/

www.miguelimigrante.blogspot.com

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Violação de direitos humanos: Defensoria Pública da União alerta órgãos sobre imigrantes retidos em Guarulhos

 

retidos na área de acesso restrito do Aeroporto Internacional de São Paulo, na cidade de Guarulhos (SP), e junho deste ano. • 

A Defensoria Pública da União (DPU) emitiu um alerta de necessidade de melhoria no atendimento dos imigrantes no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos (SP), após acompanhar o local nos últimos meses e constatar grave violação aos direitos humanos. Mais de 550 imigrantes estavam em uma área restrita do aeroporto, muitos com sintomas gripais, sem cobertores, agasalhos, alimentação adequada e com acesso restrito a banhos e higiene, de acordo com a defensoria.

O documento foi enviado, na última sexta-feira (16), para o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), a Polícia Federal (PF), a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a Secretária de Justiça e Cidadania do governo de São Paulo e a Prefeitura de Guarulhos. A CNN entrou em contato com os órgãos requisitados e seus posicionamentos estão no final desta matéria.

Em dezembro de 2023, a DPU já havia enviado uma recomendação aos órgãos envolvidos, ao constatar a retenção de 485 imigrantes no aeroporto, que incluiam gestantes, crianças e menores desacompanhados, em condições que violavam os diretos humanos: “Sem assistência à saúde, sem acesso à alimentação e higiene adequada e em retenção indevida por dias ou semanas“, segundo o texto. A Defensoria reforçou que a situação vem se agravando desde a pandemia da Covid-19 e as recomendações não foram integralmente acolhidas.

Na última quinta-feira (15), a DPU relata que crianças e adolescentes estavam dormindo no chão e havia uma crescente demanda por atendimento de saúde. Em meio às baixas temperaturas na cidade de Guarulhos (SP), “muitos não receberam cobertores e passam as noites sem qualquer agasalho”, afirma o órgão. A Defensoria entende que o atendimento aos migrantes é inadequado, inadmissível, degradante e expões pessoas à risco de vida.

A Defensoria ainda informa que recebeu a notícia, por ela não confirmada, do falecimento de um migrante nacional de Gana, que teria sido levado ao hospital para receber tratamento médico após se sentir mal na área restrita.

À CNN, Secretaria Nacional de Justiça (Senajus), do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), confirmou a morte do imigrante no dia 13 de agosto. o MJSP solicitou auxílio do Itamaraty para entrar em contato com as repartições consulares do país de origem do migrante na tentativa de localizar familiares.

O órgão entente que os esforços da PF são insuficientes para liberar com agilidade as pessoas de outras nacionalidades com solicitação de refúgio e que não há estrutura adequada para prestar assistência durante o período de espera, como alimentação regular, proteção contra o frio e hospedagem.

Entre as recomendações do documento, está o estabelecimento do prazo de 24 horas para permanência dos migrantes na área, por parte da PF, e a adoção de um procedimento chamado admissão excepcional ou entrada condicional para acelerar a admissão. O procedimento permitiria que a pessoa fosse admitida no território nacional após ser identificada e, dentro de um prazo de oito dias, completasse a solicitação de refúgio.

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) defende o processamento dos pedidos e liberação das pessoas solicitantes de asilo idealmente em até 48 horas e afirma que nos últimos dias, tem acompanhado um considerável aumento no número de pessoas que chegam em busca de proteção internacional e solicitam a condição de refugiado. O aumento no número de voos e de circulação de pessoas tem levado também ao aumento acima da capacidade normal de atendimento, motivo pelo qual elas têm permanecido por mais tempo no local, segundo a agência.

O que dizem os órgãos

Conare, por meio do MJSP, informa que está acompanhando o crescimento do fluxo de viajantes que chegam no aeroporto e que, desde o mês de julho tem sido observado um incremento no fluxo de viajantes que chegam em trânsito internacional, mas deixam de seguir viagem, não podendo ingressar no Brasil por falta de visto. O comitê entende que as pessoas pedem refúgio para entrar no Brasil, ainda que sem a documentação pertinente.

A Senajus informa que está estudando medidas estruturantes para esta questão, como discutido na audiência pública realizada na semana passada na Comissão Mista de Migrações Internacionais e Refúgio do Congresso Nacional.

Nesta segunda-feira (19), a Polícia Federal informou que existem 466 viajantes na área de inadmitidos.

Prefeitura de Guarulhos informou que não recebeu nenhum ofício ou notificação sobre o caso dos imigrantes que estão na área de inadmitidos e que o atendimento dessas pessoas só possível em território brasileiro, isto é, quando forem liberadas da área restrita.

Anac disse que recebeu a notificação e se manifestará nos autos do processo. O governo de São Paulo não retornou o contato até a publicação dessa matéria.

https://www.cnnbrasil.com.br/


www.miguelimigrante.blogspot.com

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

29% dos migrantes e refugiados são pais solo no Brasil

 Os dados da pesquisa feita pelo projeto “Ven Tu Puedes!”, da ONG Visão Mundial, mostram que 58% dos homens que chegaram ao Brasil são pais e 29% são pais solo sem rede de apoio; apenas 4% tem rede de apoio e outros 60% são chefes de família.

Imagem: Adobe Stock

 

ONG Visão Mundial desenvolveu o projeto “Ven Tu Puedes!”, em tradução para o português “venha você pode”, que visa promover interação segura e soluções duradouras para migrantes e refugiados venezuelanos no Brasil. O projeto também fez uma pesquisa com essas pessoas, no período de outubro de 2023 a julho de 2024, consultando 1.973 homens que chegaram no país.

Os dados mostram que 58% dos homens que chegaram ao Brasil são pais e 29% são pais solo sem rede de apoio; apenas 4% tem rede de apoio e outros 60% são chefes de família. Sobre a empregabilidade, a pesquisa mostrou que 57% dos migrantes ou refugiados homens empregados no Brasil são pais.

Em 2023, o Brasil reconheceu 77.193 pessoas como refugiadas, o maior número no país. Isto representa um aumento de 117% em relação a 2022, quando o Brasil recebeu 50.355 pedidos de refúgio. Em 2023, 58.3628 solicitações de refúgio foram feitas por pessoas de 150 países. As principais nacionalidades solicitantes foram venezuelanas (50,3%), cubanas (19,6%) e angolanas (6,7%).

Os estados com mais pedidos de refúgio em 2023 foram Roraima (71.198), Amazonas (19.663) e Acre (6.565). 72% dos pedidos vieram da região Norte, 8,9% da região Sudeste, 6,4% da região Sul e 1,7% do Centro-Oeste.

O Brasil também acolheu mais de 125 mil migrantes e refugiados venezuelanos através da Operação Acolhida. Os dados são do Governo Federal.

 

Refúgio no Brasil

A partir dos números divulgados, a diretora do Departamento de Organismos Internacionais do Ministério das Relações Exteriores, embaixadora Gilda Motta, observou que tem crescido o número de pessoas em todo o mundo que buscam refúgio no Brasil e que, apesar das limitações e desafios sócio-econômicos, o país tem avançado na na legislação que trata do sistema de proteção aos refugiados no território, baseado no respeito à dignidade humana e aos direitos humanos.

“Temos concedido vistos humanitários a pessoas afetadas pelas situações de crises no Afeganistão, na Síria, no Haiti e na Ucrânia. Estabelecemos a Operação Acolhida, desde 2017, para receber e integrar outros venezuelanos que querem se estabelecer no Brasil”, diz.

Projeto “Ven Tu Puedes!

Desde o início da ação, em 2018, já são mais de 7.200 pessoas no geral beneficiadas pelo projeto. Desse contingente, 70% estão em Boa Vista (RR). As demais estão em São Paulo (SP) e em Manaus (AM). O objetivo do projeto é fortalecer a família, a partir da geração de renda. Por meio de capacitações e apoio, auxiliam chefes de família, homens e mulheres, a terem um meio de subsistência e, assim, prover um ambiente mais seguro a seus filhos.

Segundo a Organização Internacional para as Migrações, há cerca de 586 mil venezuelanos vivendo no Brasil. De 2016 até junho de 2024, 9% de todos os atendimentos em unidades públicas de saúde foram para pacientes venezuelanos.

 

Sobre a Visão Mundial (World Vision)

A World Vision, conhecida no Brasil como Visão Mundial, é uma organização humanitária cristã dedicada a trabalhar com crianças, famílias e suas comunidades para atingir todo o seu potencial, combatendo as causas da pobreza e da injustiça. A Visão Mundial serve a todas as pessoas, independentemente de religião, raça, etnia ou gênero. A organização está no Brasil desde 1975 atuando por meio de programas e projetos nas áreas de proteção, educação, advocacy e emergência, priorizando crianças e adolescentes que vivem em situações de vulnerabilidade. Para mais informações acesse aqui.

Observatorio3setor.org.br

www.miguelimigrante.blogspot.com

terça-feira, 20 de agosto de 2024

Panamá deporta primeiro grupo de migrantes com antecedentes criminais em acordo com os EUA

 

Um migrante colombiano, com as mãos e os pés algemados, sobe em um avião no aeroporto Albrook Gelabert, na Cidade do Panamá, em 20 de agosto de 2024, durante sua deportação — Foto: ARNULFO FRANCO/AFP

Panamá deportou nesta terça-feira 29 colombianos com antecedentes criminais que ingressaram no país pela inóspita selva de Darién, localizada na fronteira entre a Colômbia e o Panamá, ao aplicar pela primeira vez um acordo sobre migração assinado com os Estados Unidos em julho.

Temos o primeiro voo do convênio financiado pelos Estados Unidos — disse à imprensa o vice-ministro panamenho de Segurança, Luis Felipe Icaza, acompanhado por funcionários americanos, assim que decolou, ao amanhecer, o voo fretado com os 29 deportados rumo a Bogotá.

Antes de embarcar no avião Fokker 50, o grupo formou uma fila na lateral da pista e cada um foi verificado com detectores de metais. Os 29 deportados, que não transportavam bagagem, foram algemados nos pés e mãos, por isso subiram lentamente as escadas do avião.

Icaza disse que "na sexta-feira ou no sábado" o próximo voo poderá partir no âmbito do memorando que o Panamá assinou com os EUA em 1º de julho, dia em que José Raúl Mulino tomou posse como novo presidente. Com o acordo, Washington comprometeu-se a financiar com US$ 6 milhões (R$ 32,5 milhões) a deportação e expulsão do país centro-americano dos migrantes que atravessam Darién.

Na primeira fase, serão deportados migrantes com antecedentes criminais, mas o acordo contempla a deportação de qualquer pessoa que entre no Panamá pela selva de Darién e esteja a caminho dos EUA.

— O memorando abrange qualquer pessoa, não apenas os criminosos — disse a responsável de Segurança Interna dos Estados Unidos na América Central, Marlene Piñeiro, que testemunhou o processo de deportação juntamente com outras autoridades americanas e panamenhas.

Este é o primeiro grupo de migrantes deportados sob o acordo, embora o Panamá tenha enviado pelo menos alguns voos charter para a Colômbia no início deste ano, que transportavam cidadãos desse país com antecedentes criminais.

Sem voos para a Venezuela


A selva de Darién, com 266 km de extensão e 575 mil hectares de superfície, tornou-se nos últimos anos um corredor para migrantes da América do Sul que tentam chegar aos Estados Unidos. Mais de 520 mil pessoas, a maioria venezuelanos, atravessaram o local em 2023. Este ano, mais de 230 mil fizeram a travessia, segundo dados oficiais panamenhos.

— A frequência desses voos dependerá muito dos fluxos [de migrantes] e da documentação [contatos com os países de destino] — disse o diretor de Migração do Panamá, Roger Mojica.

Migrantes colombianos algemados fazem fila no aeroporto Albrook Gelabert, na Cidade do Panamá, em 20 de agosto de 2024, enquanto são examinados com detectores de metais antes de sua deportação — Foto: ARNULFO FRANCO/AFP
Migrantes colombianos algemados fazem fila no aeroporto Albrook Gelabert, na Cidade do Panamá, em 20 de agosto de 2024, enquanto são examinados com detectores de metais antes de sua deportação — Foto: ARNULFO FRANCO/AFP

O responsável esclareceu que por enquanto não é possível enviar deportados para a Venezuela, país de onde provém mais de 60% dos migrantes que atravessam o Darién, devido à crise diplomática entre Panamá e Caracas após a questionada reeleição do presidente Nicolás Maduro.

— Estamos impedidos de fazer qualquer movimento para a Venezuela — disse Mojica, aludindo ao fato de Caracas ter proibido, alguns dias depois das eleições de 28 de julho, a entrada de todos os aviões panamenhos em seu espaço aéreo.

oglobo.globo.com

www.miguelimigrante.blogspot.com

sábado, 17 de agosto de 2024

Parceria acadêmica promove prevenção e tratamento de tuberculose para migrantes e refugiados

 Por 

Atendimento de migrante em Centro de Acolhimento de Migrante – Foto: Projeto TB Migrantes – PAHO – CON20 -00014129

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), um quarto da população mundial está infectada com o Mycobacterium tuberculosis, o bacilo responsável pela tuberculose. Diante dessa realidade, a OMS recomenda o uso de diferentes métodos de triagem, como medida preventiva contra a doença. No entanto, o Brasil ainda carece das ferramentas específicas necessárias para implementar essas estratégias de forma eficaz, o que eleva o risco de desenvolvimento da tuberculose, especialmente entre grupos mais vulneráveis, como migrantes internacionais, refugiados e apátridas (Mira).

Diante da vulnerabilidade enfrentada por esses grupos, especialistas brasileiros e estudantes de pós-graduação da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP, em parceria com a Rede Brasileira de Pesquisa em Tuberculose (Rede-TB), orientados pelo professor Ricardo Alexandre Arcêncio, da EERP e presidente da Rede-TB, se uniram para promover a implementação de tecnologia para rastreio e adesão ao tratamento da tuberculose nessas comunidades por meio do Projeto Mira-TB. A tecnologia utilizada para rastreio e adesão ao tratamento é o aplicativo VDOT ou “tratamento  diretamente observado por vídeo”, desenvolvido por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, utilizado para observar e validar a tomada de medicação do paciente sem que ele precise ir até uma unidade de saúde.

O projeto é desenvolvido em cinco cidades brasileiras, São Paulo, Rio de Janeiro, Boa Vista, Brasília e Foz do Iguaçu. Nessas cidades os profissionais realizam a busca em locais como abrigos de acolhimento, por exemplo, onde residem os migrantes internacionais, refugiados e apátridas. Logo depois, é feito o tratamento para os imigrantes que possuem a doença ativa, por meio do esquema básico com os medicamentos  rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol, explica o professor.

Imagem: Homem branco, trajando terno cinza, com cabelos curtos e barba cerrada
Ricardo Alexandre Arcêncio – Foto: Arquivo pessoal

O tratamento preventivo para aquelas pessoas que convivem com o doente de tuberculose é o ponto principal do estudo, segundo o professor. “Esse tratamento não é protocolo do Ministério da Saúde. O projeto adota a terapêutica profilática reduzida, um esquema em que o paciente toma o medicamento uma vez por semana durante 12 semanas, evitando que ele adquira a doença”. 

A unidade da USP em Ribeirão Preto, como Centro Colaborador da OMS, além de coordenar o projeto, também fornece toda a infraestrutura necessária para expandir os resultados e maximizar o impacto das ações de combate à tuberculose. “Os alunos acompanham o desenvolvimento dos resultados do projeto e firmam acordos de cooperação com os municípios brasileiros que aderem à pesquisa”, diz o professor. 

A enfermeira Natacha Martins Ribeiro, aluna de pós-graduação em Saúde Pública pela EERP, destaca o caráter inovador do cuidado com essa população e chama a atenção para as condições em que vivem os refugiados. “É preciso se colocar no lugar de um refugiado para entender a situação que aquela pessoa está passando, o mínimo de dignidade que essa pessoa merece é o acesso à saúde, educação e alimentação.” A enfermeira acredita que o projeto tem potencial para ser implementado em outros países e grandes instituições que trabalham com essas populações. 

*Estagiária sob supervisão de Ferraz Junior e Rose Talamone

https://jornal.usp.br/campus-ribeirao-preto

www.miguelimigrante.blogspot.com

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Pedidos de refúgio no aeroporto de Guarulhos devem crescer mais de 130% este ano

 Bruno Spada/Câmara dos Deputados

Audiência Pública – Debate sobre os desdobramentos da diligência realizada no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em junho de 2024, para observação da situação dos imigrantes.
Reunião da Comissão Mista Permanente sobre Migrações Internacionais e Refugiados

O delegado da Polícia Federal Rodrigo de Jesus disse aos integrantes da Comissão Mista sobre Migrações e Refugiados que há a expectativa de 10 mil pedidos de refúgio no aeroporto de Guarulhos este ano, o que representaria um aumento de mais de 130% em relação ao ano passado. Luana Medeiros, diretora do Departamento de Migrações do Ministério da Justiça, disse que a existência de 300 pessoas inadmitidas no aeroporto era uma situação excepcional e passou a ser comum.

Rodrigo de Jesus contou que, antes da pandemia, os números não chegavam a 2 mil pessoas por ano. Segundo ele, mais de 70% dos inadmitidos que pedem refúgio são indianos, nepaleses e vietnamitas.

O delegado relatou que uma situação comum é a do estrangeiro que pede refúgio após tentar ir para outro país depois de passar pelo Brasil. Ele é inadmitido no país de destino, volta ao Brasil e pede ajuda. Rodrigo e Luana disseram que este é um uso irregular da isenção de visto de trânsito oferecida pelo Brasil.

Segundo Rodrigo, apenas 1,4% das pessoas que pediram refúgio de janeiro de 2023 até hoje permanecem no sistema. A grande maioria saiu do país, muitas vezes por meio de organizações criminosas, ou está em situação irregular no território.

Dignidade
Luana Medeiros explicou que o governo se estruturou para atender mais pessoas por dia, mas afirmou que isso não vem sendo suficiente. Ela afirmou que está sendo estruturado um novo plano para lidar com a situação.

“A programação do aeroporto era para ter 20 pessoas. Então a gente tem que trabalhar com a concessionária, com as companhias... Para que quem for de fato inadmitido – que sempre vai existir, mas é um número residual – que seja de uma forma digna”, disse.

O deputado Túlio Gadêlha (Rede-PE) e a senadora Mara Gabrilli (PSD-SP) manifestaram preocupação com as condições de vida dos inadmitidos que permanecem no aeroporto por dias ou semanas. O deputado disse que foram relatadas dificuldades de alimentação, higiene e descanso.

“A gente precisa discutir, levar isso para o governo, para aumentar o efetivo de servidores. Para que a gente possa acabar com aquela situação desumana de pessoas nos corredores do aeroporto.”

Para o procurador da República Guilherme Rocha será necessário modificar a legislação para diferenciar quem realmente é refugiado, evitando situações que possam colocar as pessoas em risco quando há o envolvimento de organizações criminosas.

 

 

 

Reportagem – Silvia Mugnatto
Edição – Ana Chalub

Fonte: Agência Câmara de Notícias

www.miguelimigrante.blogspot.com

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Afeganistão: 1,4 milhão de meninas foram proibidas de ir à escola desde 2021

 Meninas estudam numa escola apoiada pela Unicef na província de Paktika, Afeganistão (arquivo)

Unicef/Sayed Bidel
 
Meninas estudam numa escola apoiada pela Unicef na província de Paktika, Afeganistão (arquivo)

Unesco revela que 2,5 milhões de estudantes estão impedidas de frequentar salas de aula; total representa 80% das meninas em idade escolar; diretora da agência afirma que direito à educação “não pode ser negociado ou comprometido”; ONU Mulheres alerta para “apagamento” da população feminina da vida pública.

Três anos após a tomada do poder pelas autoridades de facto do Talibã, o Afeganistão se tornou o único país do mundo onde o acesso ao ensino secundário e superior é estritamente proibido para meninas e mulheres.

De acordo com novos dados da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco, publicados nesta quinta-feira, 1,4 milhão de meninas afegãs foram deliberadamente privadas de escolaridade desde 2021.

Perigo para toda uma geração

Isso representa um aumento de 300 mil estudantes desde a contagem anterior realizada pela agência em abril de 2023.

A diretora-geral da Unesco, Audrey Azoulay, disse que “o Afeganistão é o único país do mundo que proíbe o acesso à educação às meninas com mais de 12 anos e às mulheres”.

Segundo ela, o direito à educação “não pode ser negociado ou comprometido” e a comunidade internacional deve permanecer “totalmente mobilizada para alcançar a reabertura incondicional de escolas e universidades para meninas e mulheres afegãs".

Três anos depois da tomada do poder pelo Talibã, os novos dados atestam a gravidade da situação educacional no Afeganistão. Em apenas três anos, as autoridades de facto quase eliminaram duas décadas de progresso na educação no Afeganistão. Para a Unesco, “o futuro de uma geração inteira está agora em perigo”.

Uma mulher de 31 anos está sentada perto da janela. Ela era empresária antes da tomada do Taleban
ONU Mulheres/Sayed Habib Bidell
 
Uma mulher de 31 anos está sentada perto da janela. Ela era empresária antes da tomada do Taleban

Risco maior de trabalho infantil e casamento precoce

Somando as meninas que já estavam fora da escola antes da introdução das proibições, existem agora quase 2,5 milhões de jovens impedidas de estudar, o que representa 80% das meninas afegãs em idade escolar.

O acesso ao ensino primário também caiu drasticamente, com menos 1,1 milhão de meninas e meninos frequentando as salas de aula. Esta queda é o resultado da decisão das autoridades de facto de proibir docentes do sexo feminino, agravando a escassez de professores.

A Unesco está alarmada com as consequências prejudiciais desta taxa de abandono escolar cada vez mais alta, que poderá levar a um aumento do trabalho infantil e do casamento precoce.

Retirada de direitos fundamentais

A representante da ONU Mulheres no Afeganistão, Alison Davidian, informou jornalistas em Nova Iorque na terça-feira sobre seu último relatório abordando a situação de mulheres e meninas desde que as autoridades de facto retornaram ao poder em agosto de 2021.

Ela descreveu esse período como “três anos de inúmeros decretos, diretivas e declarações visando mulheres e meninas, retirando-as de seus direitos fundamentais e eviscerando sua autonomia”.

Os decretos do Talibã proíbem que meninas tenham acesso à educação além da sexta série e impedem mulheres de trabalhar para organizações não governamentais.

“Apagamento” das mulheres

O relatório da ONU Mulheres detalha tendências com base em consultas com milhares de mulheres em todo o Afeganistão, desde o retorno do Talibã.

Davidian alertou que o “apagamento” das mulheres da vida pública se reflete nos níveis comunitário e familiar.

A representante da ONU Mulheres disse que “nenhuma mulher no Afeganistão está em posição de liderança em qualquer lugar que tenha influência política, seja em nível nacional ou provincial”.

Segundo ela, quando as mulheres estão envolvidas nas estruturas do Talibã, seus papéis são, em grande parte, monitorar a conformidade de outras mulheres com os decretos discriminatórios.



Onunew 


www.miguelimigrante.blogspot.com

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Saúde e populações migrantes: RESP debaterá tema no dia 21 de agosto; participe!


No dia 21 de agosto, às 13h, a Rede de Escolas de Saúde Pública da América Latina (RESP) vai promover o webinário Desafios na saúde para populações migrantes. O evento será transmitido pelo canal da RESP no Youtube


O webinário vai contar com as palestras do coordenador de Unidade de Saúde e Migração da Organização Internacional para as Migrações, Carlos Van der Laat; e da pesquisadora do Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Carelli (Claves/ENSP), Cristiane Andrade.

O evento será moderado pela professora e pesquisadora da Escola de Saúde Pública da Universidade da Costa Rica, Karol Rojas. 

"A migração não deve ser vista como um problema de saúde pública, pois ela é considerada um direito humano. A Lei Brasileira de Migração 13.445/2017 explicita a necessidade de não criminalização das migrações, bem como não discriminar suas motivações, reiterando a acolhida humanitária no país às pessoas migrantes. A partir desta legislação, também podemos encontrar o direito ao acesso aos serviços de saúde, assistência social, previdência social e ao trabalho digno, dentre outros. Portanto, é preciso que o nosso sistema de saúde pública esteja preparado para cuidar das pessoas migrantes, com respeito às culturas, às línguas, às histórias psicossociais de cada uma(um) que esteja no país. Por isso, a necessidade de políticas públicas de saúde para o acesso e a permanência no SUS, sobretudo, pensando na participação política de migrantes, refugiadas(os) e apátridas pelo direito à saúde", defendem as pesquisadoras do Claves/ENSP, Cristiane Andrade e Fernanda Ribeiro.

Segundo elas, os processos migratórios são heterogêneos e complexos, mesmo dentro de um grupo de migrantes de uma mesma nacionalidade: "O que tem sido reiterado pela literatura, de maneira geral, é que as pessoas pobres, negras, indígenas, mulheres e crianças, por exemplo, são as que mais são impactadas pelas opressões do racismo, sexismo, xenofobia e de outras violências nas suas trajetórias como migrantes. Neste sentido, fica cada vez mais evidenciada a importância de pensar o tema por meio dos subsídios dos estudos interseccionais e dos feminismos decoloniais, pois trazem as discussões das opressões e das inter-relações do colonialismo e das colonialidades nas vidas de migrantes ainda hoje".

nforme.ensp.fiocruz.br

www.miguelimigrante.blogspot.com