quarta-feira, 22 de julho de 2026

Nova tragédia evidencia dramas da rota migratória mais letal do mundo

Mar das Ilhas Canárias /Foto: Canva

Pelo menos 106 migrantes morreram ou estão desaparecidos após uma embarcação que seguia da Gâmbia para a Espanha permanecer à deriva por 25 dias no Oceano Atlântico. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), o barco transportava 144 pessoas, entre elas mulheres e crianças. Apenas 38 sobreviveram.

A embarcação partiu da localidade de Bufalo, no interior da Gâmbia, com destino ao arquipélago espanhol das Ilhas Canárias. De acordo com o porta-voz do ACNUR, Matthew Saltmarsh, a embarcação apresentou problemas mecânicos poucos dias após o início da viagem, ficando sem propulsão e à mercê das correntes marítimas.

Embarcação ficou sem água e alimentos

Segundo relatos dos sobreviventes, o barco ficou sem combustível, sem sistema de localização por GPS e sem provisões de água e alimentos. Com o passar dos dias, os passageiros passaram a enfrentar desidratação, fome e exaustão, sendo obrigados a consumir água do mar para tentar sobreviver.

Os sobreviventes desembarcaram em 14 de julho, em Nouadhibou, na Mauritânia. As operações de busca realizadas pela Guarda Costeira entre os dias 14 e 18 de julho resgataram cerca de 390 pessoas em diferentes embarcações. As buscas pelos desaparecidos ligados a esse caso se estenderam por cinco dias, e dois sobreviventes morreram pouco depois de chegarem à terra firme.

“Não é um número pequeno, mas nossos pensamentos estão com aqueles que não conseguiram sobreviver”, afirmou Saltmarsh, ao lamentar mais uma tragédia nas rotas migratórias do Atlântico.

Uma das rotas migratórias mais perigosas

O ACNUR alerta que a rota entre a África Ocidental e as Ilhas Canárias continua sendo uma das mais letais do mundo para migrantes. Segundo o órgão, o elevado número de mortes está relacionado às longas distâncias percorridas, às condições imprevisíveis do oceano, ao uso de embarcações precárias e superlotadas e à dificuldade de realizar operações rápidas de resgate.

O tema também foi abordado recentemente pelo Papa Leão XIV durante sua viagem à Espanha e, posteriormente, a Lampedusa, ao recordar o drama enfrentado por pessoas que deixam seus países em razão de conflitos, da fome e das consequências das mudanças climáticas.

O ACNUR voltou a defender a criação de corredores humanitários seguros e destacou os desafios enfrentados pelas equipes de patrulhamento em uma área marítima de grandes dimensões.

Chegadas diminuem, mas tragédias continuam

O porto de Nouadhibou concentra atualmente a assistência aos sobreviventes que chegam à Mauritânia, embora enfrente limitações para atender a demanda. Os casos mais graves de desnutrição e desidratação foram encaminhados para hospitais da região. Desde o início de 2026, a Mauritânia registrou 17 desembarques entre Nouadhibou e a capital, Nouakchott, totalizando 2.147 pessoas resgatadas.

Apesar da redução no número de migrantes que chegam às Ilhas Canárias, o risco da travessia permanece elevado. Dados da ONU indicam que as chegadas por mar ao arquipélago caíram 61% em comparação com o mesmo período de 2025, somando cerca de 4.400 pessoas até 15 de julho deste ano. Em toda a Europa, as principais rotas marítimas registraram pouco mais de 40 mil chegadas, frente às 65.407 contabilizadas no primeiro semestre de 2025.

Distâncias maiores aumentam os riscos

Segundo o ACNUR, o reforço da fiscalização nas rotas tradicionais levou traficantes de pessoas a deslocarem os pontos de partida para áreas mais ao sul da África Ocidental, como o Senegal e regiões da Gâmbia.

Com isso, embarcações improvisadas e sem equipamentos de segurança são obrigadas a percorrer mais de 2 mil quilômetros em mar aberto. As longas distâncias, a ausência de comunicação e a dificuldade de acesso a operações de resgate aumentam significativamente o risco de naufrágios e mortes durante a travessia.

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