terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Por que imigração está causando 'crise humanitária sem precedentes' em Nova York

 

Um homem passa por uma placa que diz: 'Eu amo Nova York'

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"Vim para Nova York sonhando com um futuro melhor."

É o que diz sorrindo Beruska*, de 22 anos, sentada ao lado de uma sacola cheia de doações de alimentos e produtos de higiene em uma sala do Museu Metropolitano de Arte de Nova York, mais conhecido como MET.

É um dos museus mais famosos do mundo, onde anualmente é realizado o Met Gala, evento beneficente que reúne celebridades internacionais com seus vestidos extravagantes.

Beruska, por sua vez, é venezuelana e está grávida de 9 meses. Há dois anos, ela saiu do Equador caminhando rumo aos Estados Unidos.

No trajeto, ela passou sete dias na selva, foi roubada no México, atravessou o Rio Bravo (conhecido como Rio Grande nos EUA), e chegou ao território americano no início de novembro — sem nada.

"Parecia que ia morrer ali. De tanto chorar, comecei a sentir dor no estômago", diz ela à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC, na sala aquecida do museu, enquanto a temperatura do lado de fora chegava perto de 0 °C.

Agora, ela dorme em um dos hotéis — alguns com até quatro estrelas — designados pela prefeitura de Nova York para receber os mais de 22 mil migrantes que chegaram à cidade desde abril passado: muitos são venezuelanos fugindo da crise econômica em seu país; outros estão tentando escapar da insegurança na América Central.

Hotel The Row no bairro Hell Kitchen, em Manhattan

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O hotel The Row, no bairro Hell's Kitchen, em Manhattan, é um dos que abriga migrantes que chegam a Nova York

Em outubro, o prefeito de Nova York, Eric Adams, declarou estado de emergência quando os abrigos começaram a lotar devido ao grande número de migrantes — que, em sua maioria, depois de cruzar a fronteira no Texas ou no Arizona, chegaram de ônibus a Nova York.

Esses ônibus são custeados por organizações beneficentes e, agora, sobretudo, por governos estaduais republicanos que querem dar um golpe político ao transferir o desafio da imigração para territórios democratas, como Nova York.

A cidade chegou a montar uma tenda gigante na Randalls Island durante quase um mês, como forma de ampliar a oferta de alojamento.

'Crise humanitária'

A cidade de Nova York enfrenta "uma crise humanitária sem precedentes", informou o gabinete do prefeito em um comunicado ao prorrogar o estado de emergência em 21 de novembro.

"Se os solicitantes de asilo continuarem chegando no ritmo atual, a população total dentro do sistema de abrigos ultrapassará 100 mil pessoas no próximo ano", alertou.

Trata-se de um número nunca antes registrado nos abrigos da cidade, segundo as autoridades locais.

Funcionários do governo da cidade de Nova York desmontam uma tenda montada na Randalls Island para abrigar migrantess. Foto de 18 de novembro de 2022

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O governo da cidade de Nova York montou uma grande tenda na Randalls Island por quase um mês para abrigar os migrantes

Historicamente, a cidade de Nova York sempre foi um farol para os migrantes. É o que mostra seu símbolo: a Estátua da Liberdade.

No século 19, a estátua deu as boas-vindas a milhares de migrantes de vários continentes que buscavam na cidade americana um novo lar.

Mas essa nova onda de migrantes que cruzam a fronteira sul dos Estados Unidos está colocando à prova sua reputação de "cidade-santuário": as autoridades locais se recusam a aplicar as duras políticas de migração do governo federal.

Por lei, Nova York deve dar refúgio a quem solicitar.

"Não estamos dizendo a ninguém que Nova York pode abrigar todos os migrantes da cidade. Não estamos incentivando as pessoas a enviar oito, nove ônibus por dia. Estamos dizendo que, como cidade-santuário e com direito à moradia, vamos cumprir nossa obrigação", declarou Adams em setembro.

Migrantes atravessando o Rio Grande em Eagle Pass, no Texas

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Mais de dois milhões de migrantes foram detidos na fronteira entre os Estados Unidos e o México no ano passado, um número recorde que preocupa politicamente o governo de Joe Biden.

A maioria dos que tentam cruzar a fronteira a pé são venezuelanos, nicaraguenses e cubanos, segundo dados do Departamento de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP, na sigla em inglês).

Mais de 150 mil venezuelanos conseguiram entrar em território americano pela fronteira com o México durante o último ano fiscal, um aumento de 293% em relação ao ano anterior.

É por isso que, em meados de outubro, o governo de Joe Biden decretou que "os venezuelanos que entrarem nos Estados Unidos sem autorização por áreas localizadas entre os portos de entrada serão devolvidos ao México".

Táxis em rua de Manhattan, Nova York

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O CBP afirma que, desde que essa medida foi aplicada, houve uma queda significativa de 35% de setembro (33.804) a outubro (22.044) no número de venezuelanos que tentavam cruzar a fronteira.

O governo também criou um sistema para que 24 mil venezuelanos cheguem legalmente, nos moldes do sistema criado para receber os ucranianos que fogem da invasão russa.

Em geral, as autoridades processam os migrantes na fronteira — eles são então liberados e autorizados a se movimentar pelos EUA enquanto aguardam o processo judicial de solicitação de asilo, que em alguns casos pode levar anos.

Evento do Projeto Rousseau para fornecer doações a migrantes no MET em Nova York

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Em 19 de novembro, foi realizado um evento do Projeto Rousseau no MET para ajudar os migrantes em Nova York


"Estou bem no hotel. Tenho comida e um lugar para dormir", diz ela agradecida, enquanto carregava um bolo de Ação de Graças doado aos mais de 250 imigrantes que participaram do evento de "Dia da Comunidade" no MET.

Mas ela sabe que a ajuda que recebe hoje não vai durar para sempre.

Ela conta que fez uma consulta médica em um hospital por causa da gestação quando chegou a Nova York. E foi orientada a voltar quando sentisse dor. Mas ela não sabe quais são os próximos passos em relação à sua cobertura de saúde, um dos grandes desafios para os recém-chegados ao país.

Apesar do seu otimismo e do fato de o marido ter acabado de arrumar um emprego em uma rede de fast food, Beruska se pergunta se essa renda será suficiente para criar e sustentar sua filha em uma cidade com tantos obstáculos para que migrantes sem documentação possam conseguir trabalho, seguro de saúde e um teto.


Só com a roupa do corpo

"Uma pergunta: vocês trouxeram roupas masculinas?", indaga um rapaz durante uma noite fria em Manhattan, em meados de novembro.

A pergunta é dirigida a Yajaira "Yaya" Saavedra, que chegou pouco antes com dois carros carregados de caixas e sacolas na esquina do hotel The Row, uma das acomodações ocupadas por migrantes na área de Hell's Kitchen, em Nova York.

Membros do restaurante La Morada oferecem doações para imigrantes em uma noite fria de novembro em Manhattan

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Membros do restaurante La Morada oferecem doações para imigrantes em uma noite fria de novembro em Manhattan

A mulher de 34 anos é dona do La Morada, um restaurante familiar de comida mexicana no Bronx.

Mas ela diz que metade de sua operação é dedicada agora à distribuição de doações.

"Desde abril, estamos ajudando as pessoas que vêm para Nova York. Às terças e quintas, saímos para distribuir. Recebemos doações, mas compramos a maioria", afirma à BBC News Mundo.

Junto a um grupo de colaboradores, ela distribui alimentos e principalmente roupas nos hotéis e abrigos em que os migrantes estão hospedados, porque a maioria deles chega só com a roupa do corpo.

"Esta é uma das cidades mais ricas do mundo. Se eu, com o pouco dinheiro que tenho, ajudo, creio que o governo pode fazer mais. A cidade deve oferecer moradia às pessoas. Isso é desumano", diz ela, apesar da ajuda prestada pela cidade.

"Este país não pode existir sem migrantes", acrescenta "Yaya", que chegou aos Estados Unidos cruzando a pé a fronteira há três décadas.

Grupo de colaboradores do restaurante La Morada que distribui doações duas vezes por semana para migrantes em Nova York

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Um grupo de colaboradores do restaurante La Morada distribui doações duas vezes por semana para migrantes em Nova York

Nessa mesma esquina, na 8ª avenida com a rua 44, surge Sara, de 17 anos, com um bebê de pouco mais de 1 ano.

Ela saiu da Venezuela caminhando com seu companheiro.

"Vim porque quero dar um futuro melhor para minha filha. Também estou procurando um futuro para mim, quero estudar", ela afirma, enquanto recebe algumas mudas de roupa para a filha.

"Graças a Deus estou em Nova York. Aqui poderei alcançar meu objetivo", diz esperançosa.

Ela explica que passou alguns dias no Texas, mas sabia que receberia mais ajuda na Big Apple.

Sara com a filha bebê no colo

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Sara tem 17 anos e chegou a Nova York com o companheiro e a filha bebê há pouco mais de um ano

Osiris Pulgar, de 21 anos, está em busca de uma comida quente — e compartilha da mesma opinião.

"Vim para Nova York porque sei que aqui eles priorizam a ajuda mais do que em outros estados", diz ela, depois de passar um tempo com a filha de 4 anos e o companheiro no Texas, onde não se sentiam bem-vindos.

"Estou procurando um emprego para fazer qualquer coisa, faxina, qualquer coisa. Não consigo encontrar. Preciso dos papéis e aprender inglês. Mas não vou desistir. Quero dar à minha filha o que não pude ter", afirma.

Osiris Pulgar com o companheiro em Manhattan, Nova York

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Osiris, que também é venezuelana, diz que em Nova York eles priorizam a ajuda aos migrantes mais do que em outros lugares dos EUA

Os papéis a que Osiris se refere é o pedido de asilo nos Estados Unidos. Após ser aprovado, garantiria a ela permissão para trabalhar.

"Tenho esperança e fé de que as coisas vão melhorar aqui", diz ela. "Não hesitaria em me mudar para outro estado se conseguisse um emprego."

'O sonho americano não existe'

Pelo menos uma dúzia de migrantes com quem a BBC News Mundo conversou em Nova York repetem com otimismo que buscam um futuro melhor do que o que seus países podem oferecer. E pretendem atingir seus objetivos trabalhando. Eles também reiteram que arrumar emprego não é fácil.

"Vamos progredir trabalhando", diz confiante Lorena, uma colombiana de 43 anos que chegou a Nova York com a filha Loraine, de 12 anos, que é venezuelana.

Lorena

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Lorena chegou a Nova York com a filha Loraine após atravessar a selva e a América Central

Ela conta que a filha mais nova ficou na Venezuela com a avó, porque não tinha dinheiro para levar toda a família. E reza para que possa trazê-la logo.

"Vamos ver como fazemos com os papéis. Temos um agendamento [com a migração] para 2024", diz ela.

Karen e a filha Eliexy

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Karen e a filha Eliexy chegaram a Nova York vindas da Venezuela há três meses

Karen Barrolleta, de 41 anos, conta que chegou com a família da Venezuela há cerca de três meses — e mora com o marido e a filha, Eliexy Ramos, de 14 anos, em um dos hotéis destinados a migrantes perto da Times Square, em Manhattan.

"Muita gente chega aqui em busca do sonho americano, mas o sonho americano não existe. Não vão te receber com uma casa ou um carro. Se você não trabalhar, ninguém vai te dar de mão beijada. Tudo na vida que vale a pena custa e se conquista trabalhando", enfatiza.

Resistir na cidade mais cara dos EUA

Nova York é a cidade mais cara dos Estados Unidos — 8,5 milhões de pessoas vivem aqui; só em Manhattan são cerca de 1,7 milhão.

O índice de custo de vida é 237,8% mais alto do que a média nacional, de acordo com o Council for Community and Economic Research.

Museu Metropolitano de Arte de Nova York, o MET

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Tudo é caro na cidade, desde comida até transporte público e moradia. A renda média per capita é de quase US$ 77 mil.

A taxa de desemprego da cidade com ajuste sazonal foi de 5,9% em outubro de 2022, uma alta de 0,3% em relação a setembro e uma queda de 2% em relação a outubro do ano passado. A taxa de desemprego nacional está próxima de 3,7%.

Hotel Wolcott, Nova York

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O Hotel Wolcott em Midtown, Manhattan, abriga vários dos migrantes que chegaram a Nova York nos últimos meses

Conseguir emprego não é uma tarefa fácil para os migrantes. E é muito mais complicado sem documentação ou treinamento.

Por exemplo, no setor de construção em Nova York, os trabalhadores precisam de dois cursos que custam entre US$ 100 e US$ 400.

"Oferecemos cursos gratuitos. Não é uma autorização de trabalho, mas é uma preparação para que possam entrar nessa rede de construção", explica Yesenia Mata, diretora executiva da La Colmena, organização que ajuda e representa a comunidade e os trabalhadores migrantes em Staten Island, em Nova York.

Yesenia Mata, diretora-executiva da La Colmena

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Yesenia Mata dirige a La Colmena, uma organização que capacita migrantes para que tenham mais oportunidades de conseguir um emprego em Nova York

"A missão é garantir que os trabalhadores e as trabalhadoras migrantes possam, por meio da educação, se defender sozinhos no trabalho", explica.

Desde abril passado, Mata conta que o fluxo de migrantes aumentou significativamente. E que o sotaque venezuelano predomina nas consultas que são feitas todas as manhãs na sede da organização.

"Temos uma lista de espera de 300 pessoas para os cursos", acrescenta.

"A necessidade do trabalhador migrante que está aqui há algum tempo é muito diferente da necessidade de quem acaba de chegar", pontua Mata, contando que a organização introduziu cursos para os migrantes que chegaram nos últimos meses, para ajudá-los a se inserir na sociedade de Nova York.

"Muitos dizem que o migrante não é forte. Mas uma pessoa que passou por tanto para chegar aqui é muito forte, resiliente. Os migrantes precisam de uma oportunidade para se superar", afirma.

Evento do Projeto Rousseau para fornecer doações a migrantes no MET em Nova York

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Evento do Projeto Rousseau para fornecer doações a migrantes no MET em Nova York

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Enquanto isso, na sala do MET, Beruska não perde o sorriso caloroso, apesar de tudo o que passou para chegar a Nova York.

"Valeu a pena", repete em voz alta.

"Saí do Equador porque tinha muita criminalidade, e da Venezuela, por causa da crise que já se conhece. Espero em Nova York começar uma nova vida com meu marido e minha princesa, que vai nascer em breve", diz ela.

"Estou pensando em chamar minha filha de Victoria. Chegar aqui é uma vitória."

*Vários entrevistados preferiram não revelar o sobrenome por medo de represálias.

- Este texto foi publicado em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-63832514

bbc.com

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segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Vulnerabilidade de imigrantes que pedem retorno agravou-se este ano

 


O Chefe da Missão da Organização Internacional para as Migrações (OIM) disse que os imigrantes que recorreram este ano ao apoio ao retorno ao país de origem, 92% dos quais brasileiros, “estão em situação de extrema vulnerabilidade”.

O Programa de Apoio ao Retorno Voluntário e à Reintegração (ARVoRe VIII), que resulta da cooperação entre o Governo Português e a Organização Internacional para as Migrações (OIM) tem como objetivo garantir que os imigrantes em Portugal que necessitam e queiram regressar voluntariamente ao seu país de origem possam fazê-lo de forma digna e segura, e ser apoiados também na sua reintegração à chegada.

Ao longo dos vários anos de existência do programa, Vasco Malta diz que “situações de vulnerabilidade sempre existiram”, por isso as pessoas precisavam do apoio para regressar.

Mas “aquilo a que temos assistido nos últimos meses [entre janeiro e outubro deste ano] são pessoas que estão, ou sem abrigo, ou são vítimas de violência doméstica ou de tráfico de seres humanos, e que infelizmente estão numa situação limite”, frisou o responsável da missão da OIM em Portugal.

E “o que temos analisado nestes últimos meses, no que diz respeito ao retorno, é situações de maior e extrema vulnerabilidade”, acrescentou em declarações à Lusa.

Tudo isto para a OIM, adiantou o responsável, “é muito preocupante” e decorre de três fatores identificados pela maioria das pessoas que recorrem ao programa: desemprego ou dificuldade de acesso ao mercado de trabalho, dificuldades de regularização e situação económica em que vivem.

Talvez pelos mesmos motivos, o número de pedidos de retorno também disparou para valores idênticos aos do ano pandemia de convid-19, 2020.

Entre janeiro e outubro deste ano o total de pessoas inscritas neste programa acendeu a 752, dos quais 687 eram de nacionalidade brasileira. Dos que pediram apoio ao retorno e reintegração nestes dez primeiros meses do ano 261 já regressaram ao país de origem, que no caso de 243 destes é o Brasil.

Já em igual período de 2021 apenas havia 288 imigrantes inscritos, dos quais 219 brasileiros.

Em alguns casos, há mesmo uma conjugação dos três fatores.

Mas para a OIM há ainda um quarto fator que conduz a tudo isto, “uma falta de preparação no processo migratório”.

“O que temos constatado é que muitas destas pessoas vêm iludidas, com aquilo que viram em algumas redes sociais ou grupos de Whatsapp, com uma realidade social e económica que claramente não é aquela que encontram em Portugal, e isso explica por que razão 30% das pessoas que nos procuram estão ainda no primeiro ano de migração e 37% no segundo ano”, defendeu Vasco Malta.

Outras pessoas, tal como tem sido noticiado, “foram vítimas de algumas redes e burladas, pagam uma determinada quantia a alguém para dar andamento aos seus processos e, infelizmente, essas entidades acabam por ficar com o dinheiro sem dar qualquer tipo de andamento o processo”, referiu também.

Perante estas situações e a vulnerabilidade dos imigrantes brasileiros que pedem o retorno, em setembro último, a missão da OIM em Portugal deslocou-se ao Brasil para encontros com o Governo e instituições do país ligadas ao processo migratório e alertou-as para todos estes aspetos.

O objetivo da deslocação “era alertar para três aspetos” disse à Lusa Vasco Malta.

Um deles era falar sobre o projeto de apoio ao retorno voluntário e os seus números, outro era alertar para a importância ao nível das políticas públicas de ajudar as pessoas que regressam no âmbito do programa ao Brasil e um terceiro era alertar para “a necessidade de uma maior orientação e sensibilização para uma emigração segura e informada para Portugal”, especificou.

“Sabemos que o Brasil tem um programa de informação, por exemplo, com os Estados Unidos da América e alertamos para a necessidade efetiva de se criar, não diria um programa exatamente igual, mas a possibilidade de aqueles cidadãos que querem viajar para Portugal que o fizessem de forma informada”, referiu.

Segundo Vasco Malta, as autoridades brasileiras manifestaram abertura para ouvirem a OIM, que da parte do Governo foi o Ministério das Relações Exteriores.

Mas o que está a ser feito agora é que a OIM Portugal em articulação com a missão da OIM no Brasil estão a procurar dar continuidade a essas conversas bilaterais, “para garantir que este tópico do retorno possa estar na agenda política e no desenho das políticas públicas” brasileiras, concluiu, ou seja, para já não há ainda uma resposta.

recordeuropa.com

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Chef francês defende visto para imigrantes em situação irregular que trabalham em restaurantes

 

O chef francês Thierry Marx, em entrevista à RFI © Patricia Lecompte/RFI

Thierry Marx é um ícone da gastronomia francesa e conhecido pelo seu engajamento em causas sociais. Ele falou sobre a proposta em uma entrevista ao "Jornal do Domingo", publicação que circula apenas nos finais de semana. 

"Temos 200 mil vagas abertas no setor da restauração e não podemos contratar estrangeiros. A situação é a mesma na hotelaria", lembrou Thierry Marx. Os dois setores enfrentam dificuldades de recrutamento desde a pandemia e a demanda deve crescer, segundo o chef francês. "Quando você não acha confeiteiros ou cozinheiros na França, o único jeito é procurar fora do país", ressalta.

"Por isso pedimos a rápida regularização de nossos assalariados estrangeiros reconhecidos pela sua competência, e que, de um dia para o outro, acabam em situação irregular", disse o chef francês. 

A escola de gastronomia do chef francês Thierry Marx Charlie Dupiot

"Modelo de integração francesa falhou"

O ministro francês da Indústria, Roland Lescure, elogiou a iniciativa do chef francês. "Parabéns pela coragem de trazer à tona uma situação real, que muitas vezes as pessoas têm dificuldade em reconhecer", declarou.

"O modelo de integração francês falhou", completou, em uma entrevista ao programa "Questões Políticas", da emissora francesa France Inter. "Essa regularização de trabalhadores que atuam em setores de alta demanda é de interesse econômico e social", reiterou.

O governo francês apresentou, há cerca de um mês, o novo projeto de lei sobre a Imigração, mas ele deve ser analisado pelos deputados franceses apenas em =2023. Um das medidas prevê a criação de um visto para profissões com falta de mão de obra.

Na entrevista, Thierry Marx também denunciou "a lentidão administrativa" e a suspensão dos vistos sem justificativa. "A criação de um visto para essas profissões facilitaria a burocracia e traria mais segurança para as empresas", acrescentou, mencionando outros setores, como o da construção.

"Misturar problemas de segurança com a questão da integração das pessoas que não cometeram infrações e são uma verdadeira força para as empresas, não me parece a melhor solução. É como na cozinha: misturar tudo nem sempre dá bom resultado".

(Com informações da AFP)

rfi.fr

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sábado, 3 de dezembro de 2022

Comissão de Direitos Humanos debate acolhida de refugiados afegãos

 Sessão Deliberativa. Dep. Orlando Silva(PCdoB - SP)

Foto Pablo Valadares/ Câmara do Deputados


A Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados promove audiência pública nesta quarta-feira (30) sobre a acolhida humanitária para refugiados afegãos. O pedido para a realização do debate é do deputado Orlando Silva (PCdoB-SP). Ele alerta para o crescimento do número de refugiados afegãos fruto dos últimos 20 anos de conflito naquele país. "Estima-se que apenas no ano de 2021, com a retomada de poder pelo Taliban, um total de 1,3 milhão de afegãos fugiu do país", afirmou.

O Brasil expediu portaria em 2021 autorizando a concessão de visto temporário e de residência para fins de acolhida humanitária para nacionais afegãos, apátridas e pessoas afetadas pela situação de instabilidade institucional gerada naquele país, com grave violação de direitos humanos ou de direito internacional humanitário.

"Esse documento é de suma importância àquela população, uma vez que surge como uma possibilidade a mais para as pessoas deslocadas daquele país, não excluindo outras modalidades de visto previstas pela Lei de Migração, nem, obviamente excluindo a possibilidade de solicitar refúgio", disse Orlando Silva.

Entre os convidados para a audiência pública desta tarde está o presidente da Comissão Mista Permanente sobre Migrações Internacionais e Refugiados do Congresso Nacional, deputado Túlio Gadelha (Rede-PE).

Fonte: Agência Câmara de Notícias

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Família de refugiados recorre à Justiça para registrar filho em Joinville

 


Uma família de refugiados, radicada em Joinville, precisou recorrer à Justiça para registrar o filho. A criança nasceu no Brasil, em setembro deste ano, e ainda não havia conseguido obter seu registro, mesmo passados mais de dois meses.

Inconformados com o impasse burocrático, os pais buscaram apoio no Judiciário. Eles ingressaram com uma ação. O processo foi julgado procedente pelo juízo da 2ª Vara da Fazenda Pública da comarca de Joinville.

Toda pessoa nascida em território nacional tem direito ao registro. O prazo normalmente é de 15 dias, mas pode ser estendido em até três meses para nascimentos em longas distâncias.

Ultrapassado esse período, segundo a legislação, o registro só poderá acontecer por determinação judicial. Aos refugiados, garante a lei brasileira, são conferidas as mesmas garantias.

Decisão

Na decisão, o magistrado ressaltou que não deve haver discriminação frente a condição de refugiados. “O titular deste protocolo possui os mesmos direitos de qualquer outro estrangeiro em situação regular no Brasil e deve ser tratado sem discriminação de qualquer natureza”, concluiu o juiz.

omunicipiojoinville.

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sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

'Cores do Mundo': artistas plásticos refugiados fazem murais de 400m na Vila Leopoldina, Zona Oeste de São Paulo

 

Os painéis representam 32 nacionalidades diferentes e sete paisagens inspiradas nos países de origem dos pintores. 'Eles mostram, por meio da arte, a importância do acolhimento e da união entre os povos', disse diretora da ONG responsável pela mostra.




Artistas plásticos refugiados fazem murais de 400m na Zona Oeste de São Paulo — Foto: Reprodução

Um grupo de 15 artistas — sendo 11 refugiados —, produziu uma série de murais em um espaço de 400 metros de comprimento nos muros de um canteiro de obras na Vila Leopoldina, na Zona Oeste de São Paulo. As obras estão entre a Avenida Mofarrej e a Rua Othão.

Os painéis "representam 32 nacionalidades diferentes e sete paisagens inspiradas nos países de origem dessas pessoas. Contamos com o talento de artistas que mostram, por meio da arte, a importância do acolhimento e da união entre os povos", explicou Luciana Capobianco, presidente da ONG Estou Refugiado, que organizou a mostra.

A exposição ao ar livre recebeu o nome de "Cores do Mundo" e homenageia a coragem e a determinação de refugiados pelo mundo. "Precisamos acabar com a xenofobia ainda existente no país”, disse Luciana. Quem apoiou, patrocinou e cedeu o espaço para a intervenção artística foi a empresa Brookfield Properties, por meio de seu setor de ESG (Environmental, Social and Governance – em português, Ambiental, Social e Governança).

Artistas do mundo

Afeganistão: Mahboba Rezayi , Matin e Masuma

Angola: Landu Makanda e Paulo Chavonga

Argentina: TEC

Brasil: André Firmiano, Larissa Anne, Nene Surreal e Presto

República Democrática do Congo: Lavi Israel e Shambuyi

Geórgia: Dato Didishvili

Ucrânia: Maximiliano Moroz

Venezuela: Maria Eva

Segundo a ONG, "cada um dos murais retrata um personagem de um país diferente e a obra completa representa a diversidade dessas pessoas, que encontraram no Brasil a possibilidade de construir um novo futuro".

Foram representados os seguintes países: Afeganistão, Angola, Bangladesh, Burundi, Colômbia, China, Cuba, Etiópia, Filipinas, Gâmbia, Geórgia, Guiné Bissau, Haiti, Irã, Iraque, Líbia, Mali, Mauritânia, Mianmar, Moçambique, Nigéria, Palestina, Paquistão, República Democrática do Congo, República Dominicana, Senegal, Síria, Somália, Sudão do Sul, Togo, Ucrânia e Venezuela.

G1


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Chefe da ONU pede erradicação de formas de “escravidão contemporânea”

 

@ILO/J.Maillard
 

Trabalhadores domésticos compreendem uma parte significativa da força de trabalho global em empregos informais e estão entre os grupos de trabalhadores mais vulneráveis

As Nações Unidas marcam o Dia Internacional para Abolição da Escravidão neste 2 de dezembro. Este ano, a mensagem do secretário-geral da ONU destaca a necessidade de “identificar e erradicar as formas contemporâneas de escravidão”.

António Guterres cita tráfico de pessoas, exploração sexual, trabalho infantil, casamento forçado e uso de crianças em conflitos armados como formas de exploração moderna.

Reprodução do Livro A Escravidão na era da Memória.
Reprodução da capa do livro
 
Reprodução do Livro A Escravidão na era da Memória.

50 milhões de pessoas

Segundo o chefe da ONU, as últimas Estimativas Globais da Escravidão Moderna sobre trabalho forçado e casamento forçado revelam que, no ano passado, cerca de 50 milhões de pessoas foram escravizadas. E o número vem crescendo.

Guterres ressalta que os grupos mais marginalizados permanecem particularmente vulneráveis, incluindo minorias étnicas, religiosas e linguísticas, migrantes, crianças e pessoas com diversas identidades de gênero e orientações sexuais.

Ele afirma que a maioria dessas pessoas vulneráveis ​​são mulheres.

Para a celebração do dia, o secretário-geral das Nações Unidas apela aos governos e sociedades que se comprometam com a erradicação da escravidão.

Setor privado e sociedade civil

Guterres quer mais ação e plena participação de todas as partes interessadas, incluindo o setor privado, sindicatos, sociedade civil e instituições de direitos humanos.

Ele adiciona que todos os países devem proteger e defender os direitos das vítimas e sobreviventes da escravidão.

O chefe da ONU também reconhece que o legado do comércio transatlântico de africanos escravizados deixa suas marcas até hoje, impactando as sociedades e impedindo o desenvolvimento equitativo.


Onunews


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quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

GOVERNO DA BAHIA E SERVIÇO JESUÍTA DISCUTEM ACOLHIMENTO A MIGRANTES E REFUGIADOS


 O secretário de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social da Bahia (SJDHDS), Carlos Martins, se reuniu, nesta quarta-feira (30), com representantes do Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados do Brasil. A reunião aconteceu presencialmente, com a participação de Roseane Trabuco, analista social de Redes e Incidência Sociopolítica da instituição, e virtualmente, com representantes da sede do escritório de Minas Gerais e Bahia, em Belo Horizonte.

O secretário estadual falou sobre o processo de transição, mas afirmou que o Governo da Bahia está aberto ao diálogo e parceria na questão de refugiados e fluxos migratórios. “Esse é um tema muito importante para a Bahia porque consideramos que, nos últimos quatro anos, o fluxo do Governo Federal desrespeitou o pacto federativo. Nossa esperança é que o novo governo retome para si o protagonismo não só com ajuda humanitária, mas com cidadania para essas pessoas”, afirmou Carlos Martins.

Os representantes do Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados do Brasil afirmaram que o objetivo é trabalhar em conjunto com governos estaduais e municípios. “O nosso trabalho tem sido no sentido de fortalecer a rede para garantir a promoção de políticas públicas para essas pessoas, que já chegam em situação de vulnerabilidade”, pontuou o pesquisador do serviço, Henrique Galhano Balieiro. “Estamos à disposição para atuar conjuntamente na promoção e garantia dos direitos e no acolhimento aos refugiados e migrantes”, disse Roseane Trabuco, analista social de Redes e Incidência Sociopolítica.

Uma nova reunião deve acontecer no começo do ano para articular a forma de trabalho conjunto entre a secretaria e a organização ligada à Igreja Católica.


ipolitica.blog.br


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Três homens, um leme e o nosso Natal

 


Falta menos de um mês para o Natal e a notícia dos três homens que passaram onze dias sentados no leme de um petroleiro que deixou a Nigéria e aportou nas Ilhas Canárias parece ter pouco a ver com isso. Mesmo assim a história emblemática dos três imigrantes, que milagrosamente sobreviveram ao frio, à água, ao sol e à desidratação, amontoados no recesso da popa do navio em contato com a água, é impressionante. Porque não podemos deixar de pensar no destino da família de Nazaré, um ícone para cada refugiado, migrante ou deslocado. O Deus cristão que se fez Homem, junto com Maria e José, foi um migrante e refugiado no Egito. Essa família teve que fugir para o Egito para escapar das cimitarras dos sicários de Herodes prontos para matar Jesus. Aquela família conheceu o exílio, a precariedade, os riscos da viagem, a distância de casa.

Não sabemos o que levou os três homens para a desesperada aventura de fugir na popa de um navio em pleno Atlântico agarrando-se ao enorme leme do petroleiro. Podemos apenas imaginar que a situação em que viviam os fez preferir o risco de serem engolidos pelo abismo ou de morrerem de fome, como acontece com tantos outros em suas mesmas condições.

Também foi relatado que os três homens, após receberem atendimento médico em Las Palmas, serão deportados à Nigéria por serem "passageiros clandestinos". A imagem que os retrata, desidratados e fracos sentados na lâmina do petroleiro, impressionou o mundo inteiro, e nos ajuda a não esquecê-los e a não nos esquecermos dos muitos migrantes que todos os dias desafiam as águas do grande cemitério chamado Mediterrâneo em busca de um porto seguro, fugindo da fome, da carestia, da miséria e das guerras. Seria um presente de Natal inesperado se eles pudessem ficar na na Europa. A Fundação italiana Casa dello Spirito e delle Arti está se mobilizando para tornar este sonho realidade.

Vatican News

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