quinta-feira, 30 de abril de 2026

Nas rotas da migração: venezuelanos no Brasil e latinos indocumentados nos Estados Unidos

 

Foto wikipedea 

 Por Josué Carlos Souza dos Santos, doutorando na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP, Gilvete de Lima Gabriel, professora da Universidade Federal de Roraima, e Rebecca Tarlau, professora da Stanford University

A possibilidade de realizar uma pesquisa com um tema que ganha novos acontecimentos simultâneos a todas as fases de seu desenvolvimento, de pré-projeto à tese feita, é um grande desafio. O ano de minha entrada no programa de pós-graduação em educação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP foi em 2022, um momento com duplo desafio a respeito da migração de venezuelanos ao Brasil: os acontecimentos sócio-históricos desde o aumento do fluxo de refugiados e migrantes venezuelanos na fronteira Brasil-Venezuela que se localiza no estado de Roraima, no ano de 2016 (e os períodos pré e pós esse ano e seus desdobramentos), e os acontecimentos concomitantemente à escrita de minha tese doutoral, de 2022 até o presente momento.

Ciente de que muitos autores nas ciências humanas e sociais analisam assuntos relacionados à migração, como o que é um refugiado e migrante, além de apontarem questões mais específicas sobre os dispositivos legais de amparo e acolhida à essas pessoas e até mesmo nos achados presentes nas convenções internacionais, optamos – eu e minhas orientadoras – abordar a migração subjecti parte subjecti (“sujeito pelo sujeito”), tomando como problemática o seguinte questionamento: O que significa aos venezuelanos ser um migrante e/ou refugiado no Brasil?

No coração dos estudos decoloniais – ou, ouso dizer, contracoloniais – a subjetividade se localiza no centro, ao contrário das abordagens positivas que viam a pesquisa como neutra e os sujeitos como meros indivíduos percentuais. Na abordagem fenomenológica que escolhemos, os sujeitos são participantes e suas histórias de vida, suas narrativas autobiográficas e também suas opiniões, são ciência viva, dinâmicas, móveis e constituem conhecimento. Ademais, as hipóteses descartadas, os itinerários trocados, os “achados marginais” que aparecem nas bordas e até mesmo as mudanças de planos também são pesquisa, são metodologias da experiência e mostram um conjunto de fenômenos que buscam não necessariamente respostas prontas, mas compreensão, análise, problematização e investigação. Abrem-se, portanto, à outras perguntas, e com elas possibilidades e continuidades narrativas.

Com isso em mente, no ano de 2025 realizei a pesquisa de campo em um grande abrigo humanitário na cidade de Boa Vista, capital de Roraima. O Rondon 1 é considerado o maior abrigo humanitário da América Latina e no período da coleta de dados estava em sua capacidade máxima de lotação: 2.300 pessoas. Aliando os estudos de/com narrativas autobiográficas (dos participantes) e etnografia (do pesquisador), realizei conversas em grupos-reflexivos e desenvolvi questões norteadores e complementares que ajudaram a mediar esses encontros, sempre tomando como referência o objetivo da investigação.

Se distanciando de um protocolo formal de entrevistas onde o pesquisador pergunta e o pesquisado responde, essas questões norteadoras permitiam ir e voltar de caminhos epistemológicos relacionais ao fenômeno de sua migração e que surgiam a partir de suas próprias vivências, tal qual a pedagogia social de Paulo Freire onde o sujeito também compartilha conhecimento a partir de sua vida e contexto e ajudando assim a construir em conjunto as metodologias de seu aprendizado. Esses desdobramentos foram: trajetórias educacionais, opiniões políticas, migração a outros países tendo o Brasil como segunda opção (como aos Estados Unidos), questões de gênero e suas especificidades, entre outras. A primeira questão norteadora foi: “Quais experiências marcaram a minha vida na Venezuela e no Brasil?”. A segunda questão foi: “O que essas experiências fizeram comigo?” e a terceira questão foi: “O que faço agora com o que isso me fez?”.

Diante dos resultados coletados nessa investigação, sistematizei as várias narrativas dos migrantes venezuelanos em 8 (oito) eixos que ajudam a cumprir o objetivo da pesquisa. Esses eixos são: eixo 1 – da abundância à escassez; eixo 2 – migração, trajetórias, viagens; eixo 3 – formação performativa: aprendizados e experiências; eixo 4 – ser migrante e mãe solo no Brasil; eixo 5 – ser homem, trabalhador e com profissão; eixo 6 – nós, migrantes; eixo 7 – sigo adiante; e eixo 8 – narradores. Com base nesses eixos e na etnografia que constituí a partir de minhas vivências com eles no abrigo, sistematizo nos parágrafos seguintes os resultados da pesquisa.

As vidas dos venezuelanos são constituídas em um espaço-tempo que transcende o geográfico. Estando no Brasil, mas com raízes da/na Venezuela que os faz retornar à sua nação (fisicamente, pois muitos vão e voltam por diferentes motivos, ou simbolicamente), sua existência em Roraima, no Brasil, se localiza em um entrelugar, como aponta o pesquisador Homi Bhabha, onde a cultura é produzida no ‘entre’ duas ou mais culturas outras. Um encontro e choque que resulta em uma nova cultura, viva, pulsante, móvel, fluida, que percorre caminhos simultâneos a outros processos simbólicos, estruturais e temporários de construções e desconstruções que possibilitam reconhecimentos.

Nesse contexto, a migração é categoria social. Seus movimentos migratórios podem ser definidos como transmovimento migratório híbrido, composto, complexo e contínuo, que não termina quando cruzam uma fronteira internacional, quando adentram noutra nação, e até mesmo quando chegam no abrigo, mas continuam se perpetuando nos entrelugares da migração e além dela, nas diversas nuances que compõem seu cotidiano, quando fazem suas escolhas com base na cultura de origem e na cultura de acolhida (culturas híbridas), quando significam seus acontecimentos, quando vão e voltam da Venezuela ao Brasil (e vice versa, evidenciando uma migração transnacional).

A presença do migrante venezuelano se anuncia no espaço público, nas ruas, nas escolas, nos centros e nas periferias através de seu status migratório (refugiados ou residentes temporários), de sua autodeterminação, para além dos documentos obtidos (seja como residente temporário ou como refugiado), do idioma adquirido e suas variantes – como por exemplo o portunhol – variante linguística legitimada por seus falantes-hablantes que surge do encontro do português do Brasil com o Espanhol da Venezuela – e através das marcas de sua migração percebidas em seus olhares, suas falas e seus gestos, um atrelamento à uma imagem de alguém que rasga os riscos e as margens fragilizadas da adaptação indócil de existência, buscando um lugar de pertença na sociedade de acolhida, e por consequência, no mundo.

Se movimentando nos movimentos dos venezuelanos e naqueles que a pesquisa me permitia fazer, e sobretudo atento ao que dizia os venezuelanos e venezuelanas em suas narrativas que os EUA são uma rota de migração comum entre os outros migrantes (e até mesmo prioritária, levando o Brasil a ser a segunda ou até mesmo terceira opção de rota migratória), tive a oportunidade de realizar o doutorado sanduíche no estado norte americano da Califórnia, especificamente na Universidade de Stanford, logo após a imersão de campo no Brasil.

Naquela pesquisa, busquei compreender o acolhimento de imigrantes latinos no contexto norte americano, sobretudo considerando as complexas e controversas manobras do governo federal vigente naquele país, tensionando e questionando as narrativas necropolíticas que surgem de uma agenda extremista com valores que verticalizam os direitos humanos à margem da sociedade. O termo ‘indocumentados’ é amplamente utilizado em substituição ao termo ‘ilegal’, pois, conforme ouvi muitas vezes no campo, ‘No one is illegal on stolen land’. Refere-se às pessoas em processo de regularização de seu status documental no país.

Nos EUA, escolhemos abordar o tema sob o ponto de vista das estratégias político-educacionais para a integração local de imigrantes latinos na Califórnia tomando como base minha inserção como Educador de Cidadania voluntário em um centro de imigração, o Immigration Institute of Bay Area (IIBA), contribuindo dessa forma com outro objetivo da educação conforme a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) no Brasil: a extensão universitária, quando saímos dos muros institucionais das Universidades e adentramos a sociedade com contribuições significativas – uma extensão de nossas vivências educacionais e pedagógicas. Os objetivos da educação brasileira, conforme a LDB, são: ensino, pesquisa e extensão e possuem a intencionalidade de promover formação crítica, produção de conhecimento e impacto social.

Dessa forma, entendemos que as vivências dos imigrantes latinos – que também são conhecidos/as como comunidade Latinx – são fortalecidas e experenciadas por alguns fatores. Primeiro, a influência de seus grupos-referência como fundamentais na inserção local na comunidade de acolhida. A Dra. Gilvete Gabriel, em um estudo anterior, sistematizou os grupos-referência como aqueles que visam estruturar a maneira de ser, de pensar e de agir da pessoa desde a sua mais tenra idade, e constituem, de fato, referências, quando ela está confrontada com um problema na sua vida.

Os grupos-referência dos imigrantes latinos indocumentados na Califórnia são: a família, o grupo instituído nas classes de cidadania no IIBA, as amizades com outros imigrantes, o grupo-religioso (considerando que muitos frequentam espaços religiosos como templos e igrejas), e os grupos institucionais formados nos projetos que fazem parte. Todos esses grupos se continuem redes de apoio de compartilhamento de informações úteis de sobrevivência, como oportunidades, vagas de trabalho, distribuições grátis de comida e itens não alimentares e outras comunicações.

Segundo, a língua é um mecanismo de adaptação em uma nova cultura (o aprendizado do inglês) e ao mesmo tempo representa a sobrevivência de outros elementos culturais anteriormente praticados (o espanhol). A junção das duas línguas identificadas na pesquisa de campo, convertidas no Spanglish, se torna ao mesmo tempo uma variante linguística e um dialeto popular – semelhante ao Portunhol, no Brasil -, uma nova linguagem que representa resistência, adaptação e sobrevivência.

Terceiro, percebemos que a educação como prática de liberdade implica articular o campo educacional às lutas sociais mais amplas. Estratégias político-educacionais para a integração local de imigrantes latinos devem contribuir para a construção de uma cidadania, mesmo em contextos de status migratório ainda sob avaliação (no caso dos indocumentados), ao fomentar a consciência crítica sobre direitos/reformas trabalhistas, acesso a serviços públicos, saúde, moradia e participação política local (entre outras).

Retornando ao Brasil e inspirado por tantas vivências, pelos achados da pesquisa e pelo calor latino dos migrantes e imigrantes tanto na fronteira brasileira com a Venezuela, no seio da Amazônia, quanto no frio intenso da Califórnia, muitas são as considerações nesses estudos e que apontam (in)conclusões, onde a pesquisa tem um fim e ao mesmo tempo nunca termina.

Bagunceira das epistemologias constituídas, essa pesquisa nos permitiu observar como se constitui o dia a dia de migrantes e refugiados venezuelanos em um abrigo humanitário no Brasil e ensinar-aprender com imigrantes latinos em um centro de imigração californiano. Mas, além disso, ser um imigrante em suas migrações, alguém de passagem, em movimento alteritário, dialógico, que transita entre fronteiras físicas e não-físicas, simbólicas, descobrindo, coletando dados e os interpretando dentro das limitações de um determinado espaço-tempo sócio-histórico, e de nossas próprias limitações. Essas vivências se converteram em experiências, e essas provocaram essas considerações.

(Com um agradecimento especial à Dra Gabriel, que me orienta no doutorado no Brasil e à Dra. Tarlau, que me orientou no doutorado sanduíche na Califórnia – e que são co-autoras nessa escrita —, à Capes pela bolsa no Brasil e ao Centro Lemann/Stanford University pela bolsa no doutorado sanduíche nos Estados Unidos. A pesquisa no Brasil teve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da FFCLRP-USP em 8 de dezembro de 2024 sob o parecer nº 7.275.352 e CAAE nº 82766724.9.0000.5407. A pesquisa nos Estados Unidos teve aprovação do Centro Lemann, da Stanford Graduate School of Education e do Immigration Institute of Bay Area.)

https://jornal.usp.br/

www.miguelimigrante.blogspot.com

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