Haitianos em São Paulo. Foto: HÉLVIO ROMERO / ESTADÃO
Por Giovana Frioli
A imigração haitiana no Brasil é alvo de desinformação, com alegações falsas sobre acesso ao Bolsa Família. Em 2025, apenas 11.751 famílias haitianas recebiam o benefício, representando 0,06% do total. A migração aumentou após o terremoto de 2010 no Haiti. Haitianos enfrentam condições precárias de trabalho, especialmente no Sul do Brasil. A Polícia Federal investiga a Aviatsa por trazer imigrantes com vistos falsificados. O fluxo migratório atual é de cerca de 600 haitianos por semana.
A imigração haitiana no Brasil tem sido tema de
desinformação nas redes sociais, com vídeos distorcendo a realidade dos
imigrantes e disseminando ideias xenofóbicas. Exemplos encontrados pelo Estadão
Verifica no Instagram afirmam que a chegada de pessoas do Haiti estaria
descontrolada e que todos os migrantes teriam acesso ao Bolsa Família - o que
não é verdade, de acordo com dados oficiais e especialistas.
Um dos vídeos analisados pelo Verifica é do pré-candidato à
Presidência Renan Santos (Missão), que foi contatado mas não respondeu. Ele
afirmou que “boa parte dos imigrantes vivem de assistencialismo” e que mais de
100 mil haitianos receberiam o Bolsa Família.
Mas isso é enganoso: o número de participantes do Bolsa
Família é bem menor do que o mencionado. Em setembro de 2025, 11.751 famílias
haitianas eram contempladas com o benefício, segundo números do Ministério do
Desenvolvimento Social e Assistência Social concedidos via Lei de Acesso à
Informação (LAI). Elas representam apenas 0,06% do total de beneficiários e
3,5% do número de estrangeiros que recebem o auxílio.
ambém não há fundamento em dizer que os imigrantes em geral
vivem de benefícios e assistencialismo no Brasil – dados apontam que a
nacionalidade haitiana foi a segunda com mais registros em empregos formais no
País ao final de 2024. Eles convivem com condições precárias de trabalho e
falta de acesso a políticas públicas, de acordo com relatórios e pesquisadores
da área.
Migração haitiana no Brasil ocorre por fragilidades sociais
Um dos principais motivos para a migração haitiana ao Brasil
é o terremoto de 2010, que matou mais de 200 mil pessoas na ilha. Na época, o
exército brasileiro estava na linha de frente da Missão das Nações Unidas para
a Estabilização do Haiti (Minustah), que ocorreu entre 2004 a 2017. Por isso, o
País tornou-se um dos principais destinos de migrantes que necessitavam de
acolhimento.
O professor Luís Felipe Aires Magalhães, de Políticas
Públicas da Universidade Federal do ABC (UFABC) e coordenador adjunto do
Observatório das Migrações em São Paulo (Nepo/Unicamp), explica que a maior
parte da migração internacional ao Brasil vem de pessoas do Sul Global, com um
perfil vulnerável.
“No caso do Haiti, devido a um processo de esgotamento e
deterioração das condições econômicas, sociais e políticas”, ressaltou.
Até 2010, antes do terremoto, o número de haitianos que
vinha ao Brasil era inexpressivo. Em 2012, a então presidente Dilma Rousseff
afirmou, no Haiti, que o Brasil estava aberto para receber imigrantes, com
autorização de 100 vistos mensais.
Um mês antes, o governo havia instituído a concessão de
visto por razões humanitárias aos haitianos, condicionado ao prazo de cinco
anos. O limite de concessão de vistos, contudo, caiu um ano depois.
A maior vinda de imigrantes foi registrada em 2016, um ano
antes da promulgação da Lei de Imigração, no ano de 2017. A legislação
determinou que a migração é um direito humano e garantiu direitos iguais, à
vida, à liberdade, à segurança e à propriedade. Ela ainda determinou acesso a
políticas públicas, serviços, programas e benefícios sociais, educação,
trabalho, moradia, seguridade social, serviço bancário e assistência jurídica.
Atualmente, os relatórios da Organização Mundial das Nações
Unidas (ONU) registram que o Haiti sofre uma crise humanitária e vive um dos
piores momentos de instabilidade política. O país opera sob “níveis alarmantes
de violência” e insegurança alimentar, segundo nota de março de 2026. Segundo a
ONU, mais de 1,4 milhão de pessoas tiveram que se deslocar de seus locais de
origem.
Os dados do Observatório das Migrações Internacionais
(OBMigra) mostram que, em fevereiro de 2026, 123.364 haitianos tinham
autorização de residência ativa no País. A maior parte deles, 77.815, têm
registro de trabalho. Outros 22.572 estão sob condição de “Reunião Familiar” e
12.466 em “Acolhida Humanitária”. Há motivos para concessão de registro que
ainda incluem estudos, religião, refúgio e outros.
O OBMigra notificou que, em janeiro de 2026, houve 2.219
novos registros de haitianos no Sistema de Registro Nacional Migratório
(Sismigra). No mesmo mês em 2025, haviam sido 1.150 pessoas. Já em janeiro de
2024, 772.
Número de haitianos no Bolsa Família representa 0,06% do
total
Em setembro de 2025, havia 11.751 famílias haitianas
beneficiárias do programa, segundo dados do MDS divulgados em novembro via LAI.
Naquele mês, 334.012 famílias estrangeiras recebiam o Bolsa
Família. A nacionalidade venezuelana é a com mais beneficiários, 205.526. Na
sequência, vêm Bolívia (25.227), Angola (14.031), Paraguai (12.731) e Cuba
(12.465).
O Haiti, que era o 6º da lista, representou 3,5% do total de
estrangeiros beneficiários do programa. Em setembro, havia no total 19 milhões
de famílias contempladas pelo Bolsa Família em todo o Brasil. Ou seja, o número
de haitianos representou apenas 0,06% dos participantes.
A quantidade de beneficiários haitianos caiu na comparação
com dezembro de 2024, quando havia 15.568 famílias no programa.
É importante ressaltar que o Bolsa Família é concedido por
família, o que significa que uma mesma unidade familiar pode incluir múltiplos
indivíduos.
O Verifica questionou o MDS sobre o número de haitianos
beneficiados em fevereiro de 2026, mas não recebeu retorno até a publicação da
checagem.
Segundo o relatório de 2025 sobre a situação socioeconômica
da população haitiana no Brasil, elaborado pelo OBMigra e pela Agência da ONU
para Refugiados (Acnur), a maioria das famílias haitianas no Cadastro Único
(64%), em 2022, tinha renda per capita inferior a R$ 218, revelando uma
situação de pobreza ou extrema pobreza.
O documento aponta, a partir dos registros entre 2020 a
2022, que em comparação às outras nacionalidades no CadÚnico, como Bolívia,
Venezuela e Paraguai, os haitianos têm um percentual menor de acesso ao Bolsa
Família ou ao Benefício de Prestação Continuada (BPC).
O especialista Guimarães explica que, ao contrário do que é
propagado nas redes sociais, não há um acesso em larga escala de benefícios
sociais aos imigrantes.
“Nós temos uma lei imigratória pouquíssimo regulamentada,
pouco articulada entre os entes federativos, União, Estados e Municípios. Isso
transfere muitas das responsabilidades que deveriam ser do Estado para a
sociedade civil, e que consagra isso no artigo 120 da lei”, explicou.
“A União não dá conta de prover políticas públicas
específicas para migrantes”, afirmou.
Santa Catarina concentra mais trabalhadores haitianos
A maior parte dos registros de haitianos está localizado em
São Paulo: são 33.265. Em Santa Catarina, há 30.630 registros, e no Paraná,
22.443. Os dados do relatório de 2025 do OBMigra com a Acnur revelam que esses
são os Estados que mais absorveram contingentes de trabalhadores haitianos.
O documento mostra que, ao final de 2024, havia 45.192
haitianos no mercado formal de trabalho no Brasil, a segunda nacionalidade de
estrangeiros com maior prevalência. Santa Catarina se destaca como o principal
destino, concentrando 32,5% (14.679) do total de trabalhadores vindos do Haiti
no País. Até 2018, a Região Sudeste tinha a maior concentração do grupo, mas
foi ultrapassada posteriormente pela Região Sul.
De acordo com o professor Guimarães, a atração de
trabalhadores haitianos para o Sul se iniciou com o recrutamento da força de
trabalho no Norte do Brasil ou em São Paulo.
“Empresas principalmente de limpeza pública urbana,
construção civil e da agroindústria trouxeram imigrantes para cidades do Sul,
como Chapecó, Navegantes, Itajaí e Curitiba”, explicou.
Ele explica que os haitianos vieram, sobretudo, para
trabalhar em setores em expansão no País, como empreiteiras e frigoríficos de
carne suína, bovina e de aves. O relatório do OBMigra com a Acnur ressalta
(página 45) a importância da agroindústria e da construção civil na absorção
dessa população na Região Sul.
Os trabalhadores haitianos convivem, contudo, com condições
precárias de trabalho, segundo o documento técnico. Eles enfrentam jornadas
excessivas, falta de pagamento e horas extras, barreiras linguísticas e
discriminação racial. O texto aponta que a situação explica a falta de
progressão salarial desses trabalhadores.
Guimarães, que pesquisou a superexploração do trabalho de
haitianos em Santa Catarina, ressaltou que os imigrantes são alocados em
trabalhos mais precários em comparação aos brasileiros, com menos acesso a
direitos e sindicalização, além de maior vulnerabilidade.
Segundo o pesquisador, foram identificadas estratégias de
violações: má abrigamento da força de trabalho, com condição precária de
alojamentos de imigrantes; alocação discriminatória, com trabalho mais
exaustivo e degradante; e contratos com cláusulas em que o trabalhador abre mão
de direitos trabalhistas sem saber, devido ao pouco domínio do português.
PF vai investigar companhia aérea que trouxe imigrantes
com vistos falsificados
Como noticiou o Estadão, a Polícia Federal informou que iria
investigar a Aviación Tecnológica S.A. (Aviatsa) por contrabando de imigrantes
e falsificação de documentos, após 118 refugiados haitianos permanecerem
retidos no aeroporto de Campinas no dia 12 de março.
Em nota ao jornal, a Aviatsa afirmou que operou o voo em
conformidade com as normas da aviação civil internacional, “transportando
passageiros devidamente identificados e portadores de passaporte válido”.
Já o Ministério de Relações Exteriores disse, na ocasião,
que foi informado de que 113 haitianos chegaram ao Brasil portando vistos
falsificados. “Não se trata de vistos humanitários, mas sim de vistos de
reunião familiar”, afirmou.






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