quinta-feira, 9 de abril de 2026

Haitianos no Brasil: desinformação distorce dados de acesso a Bolsa Família e trabalho de imigrantes

  

Haitianos em São Paulo. Foto: HÉLVIO ROMERO / ESTADÃO

Por Giovana Frioli

A imigração haitiana no Brasil é alvo de desinformação, com alegações falsas sobre acesso ao Bolsa Família. Em 2025, apenas 11.751 famílias haitianas recebiam o benefício, representando 0,06% do total. A migração aumentou após o terremoto de 2010 no Haiti. Haitianos enfrentam condições precárias de trabalho, especialmente no Sul do Brasil. A Polícia Federal investiga a Aviatsa por trazer imigrantes com vistos falsificados. O fluxo migratório atual é de cerca de 600 haitianos por semana.

A imigração haitiana no Brasil tem sido tema de desinformação nas redes sociais, com vídeos distorcendo a realidade dos imigrantes e disseminando ideias xenofóbicas. Exemplos encontrados pelo Estadão Verifica no Instagram afirmam que a chegada de pessoas do Haiti estaria descontrolada e que todos os migrantes teriam acesso ao Bolsa Família - o que não é verdade, de acordo com dados oficiais e especialistas.

Um dos vídeos analisados pelo Verifica é do pré-candidato à Presidência Renan Santos (Missão), que foi contatado mas não respondeu. Ele afirmou que “boa parte dos imigrantes vivem de assistencialismo” e que mais de 100 mil haitianos receberiam o Bolsa Família.

Mas isso é enganoso: o número de participantes do Bolsa Família é bem menor do que o mencionado. Em setembro de 2025, 11.751 famílias haitianas eram contempladas com o benefício, segundo números do Ministério do Desenvolvimento Social e Assistência Social concedidos via Lei de Acesso à Informação (LAI). Elas representam apenas 0,06% do total de beneficiários e 3,5% do número de estrangeiros que recebem o auxílio.

ambém não há fundamento em dizer que os imigrantes em geral vivem de benefícios e assistencialismo no Brasil – dados apontam que a nacionalidade haitiana foi a segunda com mais registros em empregos formais no País ao final de 2024. Eles convivem com condições precárias de trabalho e falta de acesso a políticas públicas, de acordo com relatórios e pesquisadores da área.

Migração haitiana no Brasil ocorre por fragilidades sociais

Um dos principais motivos para a migração haitiana ao Brasil é o terremoto de 2010, que matou mais de 200 mil pessoas na ilha. Na época, o exército brasileiro estava na linha de frente da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), que ocorreu entre 2004 a 2017. Por isso, o País tornou-se um dos principais destinos de migrantes que necessitavam de acolhimento.

O professor Luís Felipe Aires Magalhães, de Políticas Públicas da Universidade Federal do ABC (UFABC) e coordenador adjunto do Observatório das Migrações em São Paulo (Nepo/Unicamp), explica que a maior parte da migração internacional ao Brasil vem de pessoas do Sul Global, com um perfil vulnerável.

“No caso do Haiti, devido a um processo de esgotamento e deterioração das condições econômicas, sociais e políticas”, ressaltou.

Até 2010, antes do terremoto, o número de haitianos que vinha ao Brasil era inexpressivo. Em 2012, a então presidente Dilma Rousseff afirmou, no Haiti, que o Brasil estava aberto para receber imigrantes, com autorização de 100 vistos mensais.

Um mês antes, o governo havia instituído a concessão de visto por razões humanitárias aos haitianos, condicionado ao prazo de cinco anos. O limite de concessão de vistos, contudo, caiu um ano depois.

A maior vinda de imigrantes foi registrada em 2016, um ano antes da promulgação da Lei de Imigração, no ano de 2017. A legislação determinou que a migração é um direito humano e garantiu direitos iguais, à vida, à liberdade, à segurança e à propriedade. Ela ainda determinou acesso a políticas públicas, serviços, programas e benefícios sociais, educação, trabalho, moradia, seguridade social, serviço bancário e assistência jurídica.

Gráfico mostra a série histórica da migração haitiana no Brasil de 2000 a 2025. O número de 193 mil representa os registros totais somando os anos. Foto: Visualização do Banco Interativo SISMIGRA do Observatório das Migrações em São Paulo (NEPO/UNICAMP).

Atualmente, os relatórios da Organização Mundial das Nações Unidas (ONU) registram que o Haiti sofre uma crise humanitária e vive um dos piores momentos de instabilidade política. O país opera sob “níveis alarmantes de violência” e insegurança alimentar, segundo nota de março de 2026. Segundo a ONU, mais de 1,4 milhão de pessoas tiveram que se deslocar de seus locais de origem.

Os dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) mostram que, em fevereiro de 2026, 123.364 haitianos tinham autorização de residência ativa no País. A maior parte deles, 77.815, têm registro de trabalho. Outros 22.572 estão sob condição de “Reunião Familiar” e 12.466 em “Acolhida Humanitária”. Há motivos para concessão de registro que ainda incluem estudos, religião, refúgio e outros.

Dados do OBMigra de fevereiro de 2026 sobre haitianos com registro ativo no Brasil. Foto: Dados do painel DataMigra do OBMigra.

O OBMigra notificou que, em janeiro de 2026, houve 2.219 novos registros de haitianos no Sistema de Registro Nacional Migratório (Sismigra). No mesmo mês em 2025, haviam sido 1.150 pessoas. Já em janeiro de 2024, 772.

Número de haitianos no Bolsa Família representa 0,06% do total

Em setembro de 2025, havia 11.751 famílias haitianas beneficiárias do programa, segundo dados do MDS divulgados em novembro via LAI.

Naquele mês, 334.012 famílias estrangeiras recebiam o Bolsa Família. A nacionalidade venezuelana é a com mais beneficiários, 205.526. Na sequência, vêm Bolívia (25.227), Angola (14.031), Paraguai (12.731) e Cuba (12.465).

O Haiti, que era o 6º da lista, representou 3,5% do total de estrangeiros beneficiários do programa. Em setembro, havia no total 19 milhões de famílias contempladas pelo Bolsa Família em todo o Brasil. Ou seja, o número de haitianos representou apenas 0,06% dos participantes.

A quantidade de beneficiários haitianos caiu na comparação com dezembro de 2024, quando havia 15.568 famílias no programa.

Quantidade de haitianos representa 0,06% do total de beneficiários do PBF. Foto: Lyon Santos/MDS

É importante ressaltar que o Bolsa Família é concedido por família, o que significa que uma mesma unidade familiar pode incluir múltiplos indivíduos.

O Verifica questionou o MDS sobre o número de haitianos beneficiados em fevereiro de 2026, mas não recebeu retorno até a publicação da checagem.

Segundo o relatório de 2025 sobre a situação socioeconômica da população haitiana no Brasil, elaborado pelo OBMigra e pela Agência da ONU para Refugiados (Acnur), a maioria das famílias haitianas no Cadastro Único (64%), em 2022, tinha renda per capita inferior a R$ 218, revelando uma situação de pobreza ou extrema pobreza.

O documento aponta, a partir dos registros entre 2020 a 2022, que em comparação às outras nacionalidades no CadÚnico, como Bolívia, Venezuela e Paraguai, os haitianos têm um percentual menor de acesso ao Bolsa Família ou ao Benefício de Prestação Continuada (BPC).

O especialista Guimarães explica que, ao contrário do que é propagado nas redes sociais, não há um acesso em larga escala de benefícios sociais aos imigrantes.

“Nós temos uma lei imigratória pouquíssimo regulamentada, pouco articulada entre os entes federativos, União, Estados e Municípios. Isso transfere muitas das responsabilidades que deveriam ser do Estado para a sociedade civil, e que consagra isso no artigo 120 da lei”, explicou.

Na foto de 2019, Pharaday Bresier, haitiano que queria ser jogador de futebol, em frente a uma galeria em São Paulo.  Foto: HÉLVIO ROMERO / ESTADÃO

“A União não dá conta de prover políticas públicas específicas para migrantes”, afirmou.

Santa Catarina concentra mais trabalhadores haitianos

A maior parte dos registros de haitianos está localizado em São Paulo: são 33.265. Em Santa Catarina, há 30.630 registros, e no Paraná, 22.443. Os dados do relatório de 2025 do OBMigra com a Acnur revelam que esses são os Estados que mais absorveram contingentes de trabalhadores haitianos.

O documento mostra que, ao final de 2024, havia 45.192 haitianos no mercado formal de trabalho no Brasil, a segunda nacionalidade de estrangeiros com maior prevalência. Santa Catarina se destaca como o principal destino, concentrando 32,5% (14.679) do total de trabalhadores vindos do Haiti no País. Até 2018, a Região Sudeste tinha a maior concentração do grupo, mas foi ultrapassada posteriormente pela Região Sul.

De acordo com o professor Guimarães, a atração de trabalhadores haitianos para o Sul se iniciou com o recrutamento da força de trabalho no Norte do Brasil ou em São Paulo.

“Empresas principalmente de limpeza pública urbana, construção civil e da agroindústria trouxeram imigrantes para cidades do Sul, como Chapecó, Navegantes, Itajaí e Curitiba”, explicou.

Ele explica que os haitianos vieram, sobretudo, para trabalhar em setores em expansão no País, como empreiteiras e frigoríficos de carne suína, bovina e de aves. O relatório do OBMigra com a Acnur ressalta (página 45) a importância da agroindústria e da construção civil na absorção dessa população na Região Sul.

Os trabalhadores haitianos convivem, contudo, com condições precárias de trabalho, segundo o documento técnico. Eles enfrentam jornadas excessivas, falta de pagamento e horas extras, barreiras linguísticas e discriminação racial. O texto aponta que a situação explica a falta de progressão salarial desses trabalhadores.

Guimarães, que pesquisou a superexploração do trabalho de haitianos em Santa Catarina, ressaltou que os imigrantes são alocados em trabalhos mais precários em comparação aos brasileiros, com menos acesso a direitos e sindicalização, além de maior vulnerabilidade.

Segundo o pesquisador, foram identificadas estratégias de violações: má abrigamento da força de trabalho, com condição precária de alojamentos de imigrantes; alocação discriminatória, com trabalho mais exaustivo e degradante; e contratos com cláusulas em que o trabalhador abre mão de direitos trabalhistas sem saber, devido ao pouco domínio do português.

Ao Estadão, Advogados Sem Fronteiras afirmaram que haitianos estão numa situação de desespero para fugir de um país com alta criminalidade e chegam com documentos rasgados e até mesmo irregulares. Foto: Reprodução/EPTV

PF vai investigar companhia aérea que trouxe imigrantes com vistos falsificados

Como noticiou o Estadão, a Polícia Federal informou que iria investigar a Aviación Tecnológica S.A. (Aviatsa) por contrabando de imigrantes e falsificação de documentos, após 118 refugiados haitianos permanecerem retidos no aeroporto de Campinas no dia 12 de março.

Em nota ao jornal, a Aviatsa afirmou que operou o voo em conformidade com as normas da aviação civil internacional, “transportando passageiros devidamente identificados e portadores de passaporte válido”.

Já o Ministério de Relações Exteriores disse, na ocasião, que foi informado de que 113 haitianos chegaram ao Brasil portando vistos falsificados. “Não se trata de vistos humanitários, mas sim de vistos de reunião familiar”, afirmou.

À reportagem, a Polícia Federal disse que identificou um fluxo migratório atual de aproximadamente 600 de pessoas vindas do Haiti por semana, com cerca de três operações semanais de voos ao Aeroporto de Viracopos. A corporação não respondeu sobre a qual período o número corresponde ou se há dados sobre vistos com irregularida

https://www.estadao.com.br/estadao
www.miguelimigrante.blogspot.com


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