Ação conjunta de 11 de junho entre o Tático Ostensivo Rodoviário, a Polícia Rodoviária Federal e o Exército Brasileiro para o resgate humanitário dos imigrantes até a Operação Acolhida (Foto: PRF) Mais de 7,6 mil cubanos solicitaram refúgio ao Brasil por Roraima entre janeiro e abril de 2026, segundo dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) e da Polícia Federal. Com 7.687 solicitações registradas no período, os cubanos lideram os pedidos de proteção internacional no Estado e superam os venezuelanos, que somaram 3.017 requerimentos nos quatro primeiros meses do ano.
Os números reforçam uma mudança no perfil migratório observado em Roraima, historicamente marcado pela chegada de venezuelanos. Em 2025, os cubanos já haviam ultrapassado os vizinhos sul-americanos nos pedidos de refúgio: foram 20.861 solicitações de cidadãos de Cuba, frente a 14.898 de venezuelanos.
Crise econômica e climática impulsiona saída de cubanos
Para a socióloga e professora da Universidade Federal de Roraima (UFRR), Márcia Maria de Oliveira, o aumento da presença de cubanos na rota migratória que passa pela Guiana e chega a Roraima está ligado a uma combinação de fatores econômicos, climáticos e políticos.
Segundo ela, a situação econômica de Cuba se agravou nos últimos anos em razão da crise nas principais atividades produtivas do país, como a agricultura, além dos impactos causados por eventos climáticos extremos.
“A situação econômica de Cuba está muito grave. Além disso, um outro elemento importante é a crise climática, que tem sido decisiva na obrigação de migrar de camponeses e trabalhadores das principais economias de sustentação e exportação do país. A ilha vem sendo devastada por seguidos ciclones que destroem a infraestrutura da produção agrícola e pelas secas prolongadas ou cheias irregulares”, explicou.
A pesquisadora também cita os efeitos do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, que além de restrições financeiras e comerciais que acontecem há quase 60 anos, aplicou sanções para venda de petróleo e combustível para Cuba neste ano.
Conforme dados das Nações Unidas, ações resultaram em esgotamento do sistema energético com interrupções diárias de mais de 20 horas no fornecimento de eletricidade, além de afetar a produção de alimentos e o abastecimento de medicamentos
. “Todos estes fatores empurram a população para a migração”, resumiu a professora.
Rota pela Guiana se consolidou nos últimos anos
O fluxo de cubanos por Roraima não é novo. Márcia Maria lembra que muitos médicos e professores da UFRR, por exemplo, são migrantes cubanos que participaram de antigos convênios entre a instituição e o Governo Cubano na década de 1990.
Apesar disso, a rota entre Cuba, Guiana e Brasil começou a ganhar força entre 2018 e 2019 e se consolidou como uma alternativa utilizada por migrantes.
Segundo a professora, muitos cubanos viajam de avião até Georgetown, capital da Guiana, país que não exige visto para cidadãos cubanos. A partir dali, seguem por via terrestre até a fronteira brasileira.
Ela explica que muitos migrantes solicitam refúgio no Brasil e, posteriormente, tentam programas de reassentamento em países como Espanha, Estados Unidos e Canadá.
“A rota aérea de Cuba para a Guiana e depois por via terrestre até Roraima consolidou-se como um dos principais e mais caros corredores de migração irregular e tráfico de pessoas na América do Sul”, afirmou.
Conforme relatos reunidos pela pesquisadora, os valores cobrados pelos atravessadores variam entre US$ 2.800 e US$ 10 mil, podendo chegar a US$ 15 mil (mais de 75 mil reais na cotação atual) em alguns casos.
Vulnerabilidades
A especialista alerta que os principais riscos da viagem estão relacionados à atuação de redes clandestinas de transporte, mais conhecidos como coiotes, e ao tráfico de pessoas. “Os migrantes conduzidos por coiotes sofrem todo tipo de violência, extorsão e riscos à própria vida”, afirmou.
Segundo ela, há registros de abusos físicos, sequestros, abandono em áreas isoladas e exploração financeira ao longo do trajeto. A pesquisadora também destaca que muitos cubanos têm acesso limitado a informações sobre os riscos da migração irregular, o que aumenta sua vulnerabilidade.
Abordagens se concentram na BR-401
As rotas clandestinas de transporte de migrantes já vinham sendo monitorada pela PRF. Balanço da corporação aponta que, entre 2024 e maio de 2026, 189 imigrantes foram alvo de resgate humanitário em 24 abordagens flagrantes. No mesmo intervalo, 31 suspeitos de atuarem como “coiotes” foram presos, entre eles brasileiros.
Um levantamento feito pela reportagem da Folha detalha ainda que no último mês, de 17 de maio a 11 de junho, pelo menos 240 imigrantes em situação de documentação irregular foram abordados em operações realizadas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), Exército Brasileiro e Polícia Militar de Roraima. Desse total, 191 eram cubanos, o equivalente a cerca de 97% dos casos registrados.
No dia 22 de maio, agentes da PRF abordaram mais 21 migrantes na BR-401, sendo 18 cubanos, dois chineses e um haitiano. Dois foram presos pela promoção de imigração ilegal
Conforme a PRF, a rodovia consolidou-se como o ponto final de uma extensa rota migratória, onde muitos estrangeiros são encontrados em condições precárias, em veículos superlotados e apresentando sinais de desnutrição, além de exaustão física e emocional. Os imigrantes resgatados são levados para a Polícia Federal para realização da documentação ou para a Operação Acolhida.
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