Maurício Cancilieri | Marina Lourenço
Ex-imigrantes costumam partilhar a mesma tensão: um choque de desejos e frustrações. Foto: BH Airport/Divulgacao/D. Mansur
"O que estou fazendo aqui? Será mesmo que eu deveria ter vindo?". Perguntas como essas são recorrentes na mente de quem decide voltar ao seu país de origem após viver como imigrante no exterior.
O retorno à terra natal é bem mais complexo do que pode parecer. Seja por razões voluntárias ou involuntárias, se tornar "ex-imigrante” é um processo intenso, cheio de emoções conflitantes.
Em meio a um embate entre expectativa vs. realidade, desejos viram frustrações, reflexões se tornam outras, e a sensação de se sentir em casa já não é mais a mesma. Sensações como essas fazem parte da síndrome do retorno, também chamada de choque cultural reverso.
"Eu costumo chamar de ‘ferida do retorno'", afirma a psicóloga intercultural Andrea Sebben, que elaborou uma pesquisa com 500 brasileiros que viveram no exterior e retornaram ao país.
"É uma idealização, porque quando a gente está fora, literalmente fora do contexto, a gente meio que rompe com a realidade. A gente se relaciona com o país de origem muito mais no nosso imaginário. E você não tem dados de realidade suficientes para saber como é morar no Brasil hoje. Os dados que você tem habitam absolutamente no que é imaginário", diz Sebben.
A psicóloga explica que o movimento de deixar o país costuma causar incertezas. Já o retorno gera uma quebra de familiaridade. É assim que surge o estado de ambivalência.
"Você sabe o que está perdendo. Mas você não sabe o que está ganhando. A perda é concreta, ela é dolorosa. Mas o que você está ganhando?", afirma a pesquisadora. "Isso se chama ambivalência. Eu quero ganhar, mas eu não quero perder. Eu quero conquistar, mas não quero abrir mão de nada."
Brasileiro, mas estranho no ninho
Com a síndrome do retorno, a pessoa sente que perdeu dois países de uma só vez: aquele no exterior (onde já se sentia em casa, apesar de ser imigrante), e aquele em que ela já não se reconhece, embora seja seu local de nascimento.
Há casos em que a pessoa decide retornar ao país para matar a saudade – da família, da comida ou simplesmente do bairro em que cresceu. Já em outras situações, não há escolha. É o que aconteceu com os mais de 3.000 brasileiros deportados nos Estados Unidos em 2025, por exemplo.
Foi também em 2025 que o Itamaraty publicou um guia online para os brasileiros regressos. Com dicas do que e como fazer ao retornar ao país, o manual propõe auxiliar ex-imigrantes. Os temas vão de reinserção profissional a transporte de animais.
"No período recente, nota-se um movimento de retorno de migrantes brasileiros ao território nacional. Por um lado, esse fluxo pode ser explicado pelo acirramento da retórica e das políticas anti-imigração, verificado em alguns países que tradicionalmente recebem os migrantes. Por outro, a dinamização do mercado de trabalho no Brasil constitui forte fator de estímulo ao regresso voluntário", aponta o manual.
Mesmo com contextos e motivos de regresso tão diferentes entre si, os ex-imigrantes costumam partilhar a mesma tensão: um choque de desejos e frustrações.
"A gente escuta muito isso: ‘Ah, eu esperava que voltando para o Brasil fosse acontecer A, B ou C…' E não acontece", conta a psicóloga Sebben. Ela também explica que a ambivalência emocional já se inicia quando a pessoa está no aeroporto.
Essa síndrome começou a ser estudada no início do século 20, a partir do abalo psicológico que militares e civis sentiam ao se mudarem de país em meio à Primeira Guerra Mundial.
Já no Brasil, as pesquisas sobre a síndrome engataram nos anos 1980, com o neuropsiquiatra Décio Nakagawa, que estudou a saúde mental dos decasséguis – brasileiros que tinham sido imigrantes no Japão. Nos relatos que colheu, o médico notou sintomas de depressão, ansiedade e não pertencimento.
O paradoxo de desconhecer o conhecido
"Eu sempre achava: ‘Ah, eu sinto falta do meu país, lá é minha terra, minha língua, vou conseguir fazer tudo mais fácil'. Não foi muito bem assim, não", conta a microempreendedora.
Ela morou dez anos na Alemanha e, em 2025, decidiu voltar ao Brasil porque sentia saudades da família, do clima e da cultura. Mas a adaptação não foi nada do que ela tinha imaginado. Daí, após sete meses de muita frustração com a mudança, a microempreendedora foi (de novo) para a Alemanha.
"Meu pensamento primeiro foi: ‘cheguei em casa'", diz ela. "Não era a mesma coisa. Porque eu acabei chegando no Brasil, mas sempre me lembrava como era o meu estilo de vida aqui [na Alemanha]."
Muita da dificuldade que Machado sentiu para se adaptar tem a ver com a mudança de rotina. "Como a gente estava em Florianópolis, então, tudo o que você precisava fazer era do norte da ilha até o centro. Era sempre muito trânsito, muito carro, parecia que estava sempre cheio. Isso aí foi uma das coisas que me pegou um pouquinho mais."
Não existe fórmula mágica. É impossível saber como será retornar para (ou partir do) seu país, nem se a readaptação será muito dolorosa ou "apenas" complexa. Mas saber disso já ajuda a entender os próprios sentimentos, ter paciência e lidar com o desafio.
Para a psicóloga Sebben, o período de readaptação não é linear e, por isso, o ideal seria esperar mais do que sete meses para tomar uma nova decisão. "A migração não acontece do lado de fora. Ela acontece do lado de dentro. Então eu diria: há que se preparar, na medida do possível, antes", afirma.
Difícil, mas não impossível
Enfrentar o "luto migratório" é difícil, mas não impossível. Um exemplo é Maucir Nascimento, autor de A Volta Dos Que Foram, livro que ele escreveu com base na própria experiência.
"Eu sempre vi outros imigrantes sofrendo muito com essa coisa da perda. E eu não queria. Eu sou filho de mãe solteira. Aquela coisa toda, não tenho família próxima, eu não tenho nada. Então, eu sempre entendi o valor da vida, o valor da coisa de você valorizar aquelas pessoas que estão ali por você. É por isso que eu decidi voltar", conta ele.
Maucir Nascimento morou dez anos na Austrália e, em 2018, regressou ao Brasil. Ele diz que não se arrepende das decisões que tomou, mesmo quando tem novas reflexões sobre o assunto.
"Estaria mentindo se eu dissesse para você que não passa pela cabeça, com certa frequência, voltar para a Austrália. Ou ir para algum outro lugar do mundo. Isso é da natureza do imigrante. Se você fizer essa opção, você sempre vai ficar pensando em voltar. Do mesmo jeito que quem vai fica pensando em voltar", afirma Nascimento, cujo livro se propõe a auxiliar quem passa ou passará pela síndrome do retorno.
"Acho que a questão de fazer tudo com pé no chão é muito importante. Sem esses floreios das mídias sociais, essas coisas assim que todo mundo fala, cheio de tipo assim... Ah, como deveria ser... Quem sabe... Não, cara, vai buscar a realidade! Vai buscar a realidade do que é, do que não é para você. Muito autoconhecimento. Quem não busca autoconhecimento para entender por que está voltando, por que quer voltar, por que foi... O que era bom antes, o que não era bom depois. Faz uma matriz aí de prós e contras."
Para ele, o mais importante de todo esse processo é justamente se planejar bastante. Imaginar o que pode (ou não) acontecer nesse novo ciclo da vida.
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