segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Número de imigrantes com carteira assinada bate recorde no RS em 2025: "Sinto como se estivesse no meu país"

 Luis Alcides Barreto Lezama é um dos mais de 29 mil venezuelanos empregados no RS.

Por Mathias Boni

Em um Estado que há séculos já conhece a força do trabalho de imigrantes, a presença de trabalhadores de fora do país tem sido cada vez mais importante para o setor produtivo também nos dias atuais. Em 2025, o Rio Grande do Sul bateu o recorde de imigrantes contratados, terminando o ano com 53,6 mil estrangeiros empregados formalmente.

O número de trabalhadores imigrantes no Rio Grande do Sul vem crescendo ano a ano. Conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) compilados pela Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS), em dezembro de 2022, eram 26.148 contratados no Estado, menos da metade do registrado em dezembro de 2025.

— Vivemos um momento no Rio Grande do Sul de redução de natalidadeenvelhecimento da população, e há uma demanda forte por trabalhadores em diversos setores. Nesse contexto, os imigrantes, além das contribuições com suas culturas e experiências próprias, também têm ajudado a enfrentar a escassez de mão de obra que há no Estado — afirma Juliano Florczak Almeida, chefe da seção de Informação e Pesquisa da FGTAS.

Sofrendo grave crise humanitária há mais de uma década, os venezuelanos seguem como o maior grupo de internacionais atuando no mercado de trabalho gaúcho — o Rio Grande do Sul é o terceiro Estado que mais recebe imigrantes do país por meio do programa de interiorização da Operação Acolhida, ficando atrás de Paraná e São Paulo. Dos 53,66 mil imigrantes trabalhando formalmente no Estado, 29.473 são nacionais da Venezuela, ou cerca de 55% do total.

Um dos venezuelanos contratados no Rio Grande do Sul em 2025 foi Luis Alcides Barreto Lezama, 35 anos. Ele é natural do estado venezuelano de Bolívar, que faz fronteira com Roraima, e onde ainda vivem sua mãe, seu pai e seu filho.

Em 2023, ele atravessou a fronteira com o Brasil em Pacaraima em busca de sustento, após vários meses com dificuldades para arranjar emprego. Por indicação de conhecidos, acabou vindo tentar a sorte em Porto Alegre. Após um período exercendo atividades informais, atuando como pintor, foi contratado em junho do ano passado como auxiliar de açougue em uma unidade do supermercado Asun na Capital.

— No começo, sofri muito, principalmente pela dificuldade da língua. Mas, depois que fui aprendendo português, as coisas foram melhorando, e hoje me sinto como se estivesse no meu país. Precisava buscar uma oportunidade de vida melhor para mim e para a minha família e vim para o Brasil tentar isso. Hoje, o que mais pesa para mim é sentir falta da família, mas estou aqui também por eles — destaca Luis, que pretende continuar morando em Porto Alegre pelos próximos anos, ainda sem saber o que vai acontecer na Venezuela após a recente derrubada de Nicolás Maduro.

O diretor de RH do Asun, Maurício Echeverria, destaca que “a contratação de imigrantes é vista como um fator enriquecedor para o negócio“.

— Pessoas oriundas de outras culturas promovem a diversidade, a inclusão, visões e perspectivas diferentes. Vale lembrar que a nossa fundadora, Dona Asunción, era imigrante. Atualmente, temos em nossos quadros de colaboradores pessoas vindas de países como Venezuela, Haiti, Peru, Uruguai e Cuba, sendo algumas delas ocupando cargos de liderança — afirma.

Ferramenta de acolhimento e integração

Especialistas em migração internacional sempre destacam que a integração na sociedade de recebimento é parte fundamental do processo de acolhimento de imigrantes, principalmente quando se trata de refugiados, como é o caso da maioria dos venezuelanos no Brasil. Imigrantes são considerados refugiados quando fogem de seu país em razão de fundados temores de perseguição relacionados a questões de raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um determinado grupo social ou opinião política, como também devido à grave e generalizada violação de direitos humanos, situação verificada na Venezuela, e por isso demandam mais atenção em seu acolhimento.

Ao lado de mais de 100 países, o Brasil é signatário da Convenção da ONU de 1951 sobre o Estatuto de Pessoas Refugiadas, se comprometendo a acolher e apoiar a inclusão em seu território dessas pessoas, que foi regulamentada pela Lei 9474/97. Para fomentar a integração de refugiados e imigrantes como um todo, uma das principais ferramentas de inclusão é justamente o emprego. Além de permitir ao imigrante auferir uma renda para se manter, também o insere no fluxo da sociedade de acolhida e propicia uma interação mais próxima com habitantes locais, a partir do contato com colegas de trabalho.

— A inclusão dessas pessoas ocorre primordialmente pelo acesso a trabalho decente, contribuindo para sua autonomia e integração local. Por isso é tão importante que as empresas estejam engajadas, de forma que as oportunidades de emprego também possam chegar a estas pessoas, complementando o mercado de trabalho nas regiões onde se encontram — aponta Paulo Sérgio Almeida, oficial de Meios de Vida e Inclusão Econômica na Agência da ONU para Refugiados (Acnur).

No Rio Grande do Sul, as admissões de imigrantes em 2025 abrangeram os seguintes setores, segundo a FGTAS:

  • Indústria: 23.186
  • Agropecuária: 17.034
  • Serviços: 10.659
  • Comércio: 10.627
  • Construção civil: 2.818

* Esses números não consideram os desligamentos, que, junto das contratações, formam o saldo de 53,6 mil trabalhadores estrangeiros empregados no RS

Ao lado de mais de 100 países, o Brasil é signatário da Convenção da ONU de 1951 sobre o Estatuto de Pessoas Refugiadas, se comprometendo a acolher e apoiar a inclusão em seu território dessas pessoas, que foi regulamentada pela Lei 9474/97. Para fomentar a integração de refugiados e imigrantes como um todo, uma das principais ferramentas de inclusão é justamente o emprego. Além de permitir ao imigrante auferir uma renda para se manter, também o insere no fluxo da sociedade de acolhida e propicia uma interação mais próxima com habitantes locais, a partir do contato com colegas de trabalho.

— A inclusão dessas pessoas ocorre primordialmente pelo acesso a trabalho decente, contribuindo para sua autonomia e integração local. Por isso é tão importante que as empresas estejam engajadas, de forma que as oportunidades de emprego também possam chegar a estas pessoas, complementando o mercado de trabalho nas regiões onde se encontram — aponta Paulo Sérgio Almeida, oficial de Meios de Vida e Inclusão Econômica na Agência da ONU para Refugiad

os (Acnur).

No Rio Grande do Sul, as admissões de imigrantes em 2025 abrangeram os seguintes setores, segundo a FGTAS:

  • Indústria: 23.186
  • Agropecuária: 17.034
  • Serviços: 10.659
  • Comércio: 10.627
  • Construção civil: 2.818

* Esses números não consideram os desligamentos, que, junto das contratações, formam o saldo de 53,6 mil trabalhadores estrangeiros empregados no RS

Diferentes perfis

Uma das principais empresas do país no setor da construção civil, a construtora Tenda também é uma companhia que favorece a contratação de colaboradores de outros países. De atuação nacional, a empresa tem, em seus quadros, 75 imigrantes trabalhando somente no Rio Grande do Sul, o que representa cerca de 20% da vertical da regional. Entre eles, estão o venezuelano Lino Daniel Guzmán Mota, 22 anos, e o cubano Rodolfo Enrique Ojeda Millán, 36, que trabalham atualmente em uma obra em Canoas.

Dos dois, o primeiro a chegar ao Brasil foi Lino. Em 2023, ele também atravessou a fronteira em Pacaraima com o objetivo de encontrar o irmão, que já estava morando em Manaus.

Jovem, o venezuelano não chegou a ter uma formação além do Ensino Médio — situação da maioria dos imigrantes. Em razão disso, vivia de trabalhos informais. Quando até esses rarearam, Lino se tornou mais um venezuelano a buscar melhores condições de vida em terras brasileiras.

— Encontrei meu irmão em Manaus, mas não me adaptei muito à cidade e acabei vindo para o Rio Grande do Sul porque ouvi dizer que aqui tinha mais empregos. Aqui estou muito feliz, tenho uma companheira com quem eu moro em Esteio. Quero continuar aqui, mas também tenho o sonho de voltar para a Venezuela e encontrar um país melhor do que o que eu deixei — afirma.

Bruno Todeschini / Agencia RBS
22% dos imigrantes empregados no RS têm idade entre 18 e 24 anos, faixa etária de Lino Daniel.Bruno Todeschini / Agencia RBS

Já o cubano Rodolfo Enrique tinha uma longa trajetória profissional em seu país de origem antes de vir ao Brasil. Como 10% dos imigrantes que trabalham no Estado, possui Ensino Superior completo: em Cuba, se formou médico e se especializou em urologia, acumulando 18 anos de experiência entre estudos e prática profissional. Nos últimos anos, estava servindo como brigadista na Venezuela, até que, em 2024, também decidiu tentar a sorte no Brasil.

Entre viagens de ônibus e caminhadas, sua jornada de vinda ao Brasil durou oito dias — Rodolfo também acabou vindo ao Rio Grande do Sul por ter ouvido que, no Estado, haveria mais oportunidades de emprego. Trabalhando há cerca de dois meses na obra em Canoas, o cubano demonstra estar feliz e empolgado com sua nova vida, mas tem o sonho de conseguir exercer a medicina no Brasil.

— Estou juntando dinheiro e tentando melhorar meu português para fazer a prova do Revalida, seria um sonho ser médico aqui no Brasil. Estou muito feliz aqui, fui muito bem recebido e sou muito agradecido ao povo brasileiro, quero fazer minha vida aqui no Brasil. A única dificuldade é a falta da família, isso não tem nada que diminua — ressalta.

Bruno Todeschini / Agencia RBS
Cubanos, como Rodolfo, são 6% dos estrangeiros no mercado de trabalho gaúcho.Bruno Todeschini / Agencia RBS

Cidades com mais imigrantes contratados

Antes ainda do que Porto Alegre, Caxias do Sul, município fundado a partir da chegada de imigrantes italianos no final do século 19, é a cidade gaúcha com o maior número de imigrantes contratados. Ao final de 2025, eram 8.588 atuando no mercado formal do município da Serra.

 

A Capital, segunda colocada na lista, tem 4.802 imigrantes contratados. Um fator de atração para os imigrantes em Caxias do Sul é a forte indústria do município, sempre em demanda por trabalhadores.

A venezuelana Thais Maria Ruíz, 35 anos, é uma das imigrantes que atua justamente no polo industrial de Caxias. Ela veio ao Brasil em 2021, atravessando a fronteira com o Brasil durante a noite, em um terreno pantanoso, sob chuva, levando pela mão as duas filhas, de 10 e quatro anos na época — o marido já estava no Brasil, tendo vindo em 2019 em busca de emprego. As mulheres representam 39% da força de trabalho estrangeira no RS.

Depois de atravessar a fronteira, Thais recebeu dinheiro do marido para vir de avião com as filhas até Porto Alegre, e depois até Santo Antônio da Patrulha, onde a família se estabeleceu inicialmente. Em busca de melhores opções, partiram para Caxias do Sul, onde Thais, formada em Gestão e Recursos Humanos na Venezuela, conseguiu um emprego como auxiliar de montagem hidráulica na fábrica B&P Componentes Hidráulicos e Mecânicos, uma multinacional do Grupo Bondioli & Pavesi.

— Não tinha nenhuma experiência na área, mas me deram essa oportunidade e eu abracei com tudo. Todos foram muito legais comigo, pacientes, me ensinaram o que eu precisava para o emprego. Agora estou fazendo um curso no Senac de recursos humanos, pois, quando tiver a chance, quero atuar nesta área aqui na empresa — destaca.

Paola Bello / Acnur
Thais veio para o Brasil com as filhas; marido já estava no país.Paola Bello / Acnur

Após Caxias do Sul e Porto Alegre, a cidade gaúcha com mais imigrantes contratados, com 3.350, é Erechim, também um município com forte influência da imigração em sua formação. Na sequência, vêm Passo Fundo (3.204) e Marau (1.753), todas no norte do Estado.

— Os benefícios são múltiplos, desde suprir a falta de profissionais em determinadas regiões, passando por uma menor rotatividade, já que pessoas refugiadas têm maior aderência às empresas que as contratam — aponta Paulo Sérgio Almeida, representante da Acnur.

— Imigrantes trazem inovação. Muitas vezes, suas histórias de resiliência e superação vão trazer mais motivação às equipes de trabalho, com impactos na produtividade. Por isso, a inclusão produtiva de pessoas refugiadas é um “ganha-ganha”, pois ganha a pessoa que consegue sua inclusão no mercado de trabalho com vistas a sua autonomia e ganha a empresa por alcançar um profissional que vai fazer a diferença nas suas atividades produtivas — reforça.

Em dezembro de 2025, a Acnur, em parceria com a FGTAS, lançou uma plataforma que busca a integração entre os imigrantes do Estado e empresas que buscam colaboradores.

Imigrantes no mercado de trabalho do RS

Mais dados sobre os 53.603 imigrantes trabalhando de carteira assinada no Rio Grande do Sul em 2025:

Nacionalidade:

  • Venezuelanos: 55%
  • Haitianos: 14%
  • Argentinos: 9%
  • Uruguaios: 6%
  • Cubanos: 6%
  • Senegaleses: 2%

Escolaridade:

  • Analfabetos: 2%
  • Fundamental incompleto: 12%
  • Fundamental completo: 12%
  • Médio incompleto: 9%
  • Médio completo: 51%
  • Superior incompleto: 2%
  • Superior completo: 10%

Idade:

  • Até 17 anos: 2%
  • De 18 a 24 anos: 22%
  • De 25 a 29 anos: 17%
  • De 30 a 39 anos: 30%
  • De 40 a 49 anos: 18%
  • De 50 a 64 anos: 10%
  • 65 anos ou mais: 1%

Gênero:

  • Masculino: 61%
  • Feminino: 39%

Fonte: FGTAS

https://gauchazh.clicrbs.com.br/

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