terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

A Ucrânia e as vidas suspensas dos refugiados

 


Quatro anos após o início do conflito, cerca de 10 milhões de ucranianos vivem longe de suas casas. Entre deslocados internos e refugiados no exterior, cresce a necessidade de assistência humanitária, à medida que aumentam as dificuldades econômicas e psicológicas. Apesar de tudo, permanece forte o desejo de voltar.

Stefano Leszczynski - Vatican News

A guerra na Ucrânia entra no seu quinto ano, deixando para trás não só territórios disputados, mas acima de tudo vidas destruídas e comunidades desintegradas. Casas, escolas, hospitais e infraestruturas energéticas continuam sendo atingidos, com um impacto direto na população civil. De acordo com a Missão de Monitoramento dos Direitos Humanos das Nações Unidas na Ucrânia, 2025 foi o ano mais letal para os civis: mais de 2.500 pessoas perderam a vida e mais de 12 mil ficaram feridas. Números que confirmam que o conflito ainda está longe de uma solução e que testemunham a intensificação dos ataques e as consequências sobre as infraestruturas essenciais.

Dez milhões de pessoas longe de casa

Cerca de 10 milhões de ucranianos vivem atualmente longe de suas casas. Desses, 3,7 milhões são deslocados internos: deixaram as zonas de combate, mas permaneceram dentro das fronteiras nacionais. Outros 5,9 milhões procuraram proteção no exterior. “Os fluxos de refugiados ucranianos para o exterior ainda são uma realidade”, explica Elisabeth Haslund, porta-voz do ACNUR na Ucrânia. A principal razão continua sendo a falta de segurança, agravada pela crise energética causada pelos bombardeios contínuos contra as infraestruturas. De acordo com dados do Eurostat, em 2025, na União Europeia – juntamente com os quatro países associados ao espaço Schengen (Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça) – foram emitidas 670 mil autorizações de residência temporária a cidadãos ucranianos, 12% menos do que em 2024.

A emergência dentro das fronteiras ucranianas

Dentro do país, pelo menos 11 milhões de pessoas precisam de assistência humanitária. Por trás desse número escondem-se necessidades concretas: comida, alojamento, cuidados médicos, apoio psicológico, acesso a serviços básicos. A maioria dos deslocados internos ainda se concentra nas regiões orientais, particularmente em Kharkiv e Dnipro, na tentativa de permanecer o mais próximo possível de suas casas. A capital, Kiev, também está sob pressão devido ao fluxo contínuo de refugiados. Um dos problemas mais urgentes continua sendo o alojamento, especialmente para idosos e pessoas frágeis. Entre as prioridades do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados está justamente o apoio habitacional e sanitário para aqueles que não têm alternativas. 

O caso italiano: integração fracassada

Os refugiados ucranianos apresentam características peculiares também no contexto italiano. “Os ucranianos e ucranianas na Itália nunca deram a impressão de querer se estabelecer de forma permanente”, explica Filippo Ungaro, porta-voz do ACNUR na Itália. Muitas crianças continuaram a acompanhar as aulas das escolas ucranianas on-line e o nível de conhecimento da língua italiana permanece relativamente baixo. Um outro elemento crítico diz respeito ao registro no cartório: muitos não estão registrados, perdendo assim o acesso aos serviços sociais municipais e aos subsídios para o aluguel. Muitas vezes, eles dependem de redes informais de parentes e amigos.

Uma resiliência que não deve ser normalizada

Na segunda metade de 2025, os riscos para a população deslocada e outros grupos vulneráveis aumentaram. No entanto, apesar dos bombardeamentos e das dificuldades diárias, as pessoas continuam a ir trabalhar e a levar os filhos à escola. Uma resiliência ostensiva que, no entanto, não deve tornar-se normalidade. Por trás da aparente capacidade de adaptação esconde-se uma pressão constante, sobretudo em nível psicológico. 42% dos refugiados relatam dificuldades relacionadas à saúde mental, com porcentagens ainda mais elevadas entre idosos, doentes crônicos e famílias monoparentais.

O desejo de retornar e as dificuldades econômicas

Apesar de tudo, cerca de 1,4 milhão de refugiados retornaram à Ucrânia, permanecendo no país por pelo menos três meses. Um sinal da vontade generalizada de retornar, quando as condições permitirem. De acordo com a última pesquisa sobre intenções realizada pelo ACNUR, 61% dos refugiados no exterior e 73% dos deslocados internos esperam voltar um dia para casa.

No entanto, também cresce o número daqueles que se declaram resignados por não poderem retornar aos seus locais de origem. O ACNUR contribuiu para a reparação de mais de 55 mil habitações danificadas pelos combates. Mas as dificuldades financeiras, agravadas pelos recentes cortes na cooperação internacional, limitam a capacidade de intervenção: menos recursos significam menos pessoas ajudadas. A linha de frente continua a se mover lentamente. Mas a divisão mais profunda não é apenas geográfica: ela atravessa a vida de milhões de pessoas suspensas entre a espera pela paz e a necessidade de reconstruir um futuro longe de casa.

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