sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Política Lula diz que Brasil continuará a receber refugiados venezuelanos

 

Ricardo Stucker PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, nesta quarta-feira (11), que o Brasil continuará acolhendo os imigrantes venezuelanos que buscarem refúgio no país. Em entrevista à Rádio Norte FM, de Manaus, Lula disse esperar que o país vizinho “volte à normalidade”.

“O ministro das Relações Exteriores [Mauro Vieira] está com orientação e determinação da Presidência da República para que a gente trate com muito respeito as pessoas que estão vindo para o Brasil por necessidade de sobrevivência. Você sabe que o ser humano é meio nômade, quando ele não tem onde comer, quando ele não tem onde trabalhar, ele fica procurando outros lugares”, disse Lula.

“Essas pessoas que estão vindo para cá vão ter que ser bem tratadas e o governo federal tem a obrigação de ajudar o estado de Roraima a cuidar da educação dessa gente, a cuidar da manutenção dessa gente, porque nós não queremos que essas pessoas venham para cá e passem mais necessidade ainda do que já passava na Venezuela”, acrescentou o presidente.

Sem informar a data, Lula disse que vai visitar Roraima e conversar com o governador Antonio Denarium sobre o tema. “Para que a gente possa, definitivamente, tratar com muita responsabilidade e respeito esses milhares de venezuelanos que estão no Brasil. E eu espero que a Venezuela volte à normalidade e que essa gente possa voltar para a Venezuela o mais rápido possível”, disse Lula em referência à crise econômica e social e à instabilidade política no país vizinho.

Em julho, foram realizadas eleições presidenciais na Venezuela, em um pleito marcado por suspeitas de fraudes. Lula diz não reconhecer a reeleição do presidente Nicolás Maduro até que as autoridades do país apresentem as atas com os dados da votação por mesa eleitoral.

As cidades de Boa Vista e Pacaraima, em Roraima, são as principais portas de entrada de venezuelanos que buscam melhores condições de vida no Brasil. Para dar uma resposta humanitária às demandas que chegam pela fronteira, o governo brasileiro realiza a Operação Acolhida, em parceria com mais de 120 organizações nacionais e internacionais, sociedade civil e iniciativa privada.

Segundo dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM), agência das Nações Unidas, 1.134.532 migrantes venezuelanos entraram no Brasil de janeiro de 2017 até julho de 2024. Desse total, 532.773 já deixaram o país.

A Operação Acolhida é estruturada em torno de três eixos: ordenamento de fronteira, acolhimento e interiorização. Entre abril de 2018 e março de 2024 mais de 125 mil pessoas foram beneficiadas pela estratégia de interiorização do governo federal. Parte dos imigrantes acabam ficando nos dez abrigos da operação distribuídos em Boa Vista e Pacaraima, mas, de acordo com os dados do governo, a população venezuelana fora dos abrigos aumentou 8% em janeiro deste ano.

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quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Papa Francisco pede proteção à 'dignidade dos trabalhadores migrantes' em visita à Singapura

 

O papa Francisco pronuncia discurso em Singapura© Tiziana FABI

O papa Francisco fez um apelo nesta quinta-feira (12) por proteção à "dignidade dos trabalhadores migrantes", e a quem deve ser garantido um "salário justo", em um discurso para as autoridades de Singapura, última escala de sua longa viagem pela Ásia e Oceania.

"Faço votos que seja dada especial atenção aos pobres e aos idosos cujo trabalho lançou as bases da Singapura de hoje – como para proteger a dignidade dos trabalhadores migrantes, que tanto contribuem para a construção da sociedade e a quem deve ser garantido um salário justo", afirmou o pontífice argentino.

A etapa de 48 horas em Singapura, uma cidade-Estado de seis milhões de habitantes, é a última em sua longa viagem pela região Ásia-Pacífico, que começou na Indonésia, e pretende estimular o desenvolvimento da Igreja Católica no continente asiático.

Singapura tem 300 mil trabalhadores migrantes, a maioria procedentes de Bangladesh, Índia ou China, que em troca de baixos salários contribuíram para a construção dos imponentes arranha-céus e a infraestruturas da cidade.

Várias ONGs denunciaram o tratamento reservado das autoridades aos migrantes e pedem melhores condições de vida para o grupo.

Desde sua eleição em 2013, o papa argentino se posiciona como o fervoroso defensor dos direitos dos migrantes e refugiados.

"Estou muito feliz que o papa tenha escolhido falar sobre este tema", disse à AFP uma trabalhadora doméstica filipina, que não revelou o nome porque não tinha permissão de seu empregador. 

"Mesmo que não aumentem o meu salário, ao menos estou feliz em saber que o papa luta e reza por nós. Ele realmente tem um coração para os pobres", disse a mulher de 34 anos, que ganha cerca de 600 dólares de Singapura (US$ 460).

Um valor que contrasta com a renda bruta média em Singapura, 5.190 dólares de Singapura (US$ 3.985), segundo os dados de 2023 do Ministério do Trabalho.

- "Um papa que une" -

No final do dia, o papa presidiu uma missa no SportsHub, o estádio nacional da cidade, para 50 mil fiéis, alguns procedentes de países vizinhos como Índia, Vietnã, Hong Kong e Mianmar.

Francisco chegou ao estádio em um carrinho de golfe. Ele acenou e abençoou a multidão, em um ambiente tranquilo. Também ofereceu rosários às crianças, deu autógrafos e tirou selfies. 

"Francisco se preocupa mais com a humanidade e com o meio ambiente em geral. Eu o vejo como um papa que une as pessoas", disse à AFP Bena Onyaco, uma filipina que vive em Singapura há 20 anos, que vestia uma camisa com a frase "I Love Papa Francesco" ("Eu amo o papa Francisco"). 

Na manhã de quinta-feira, o papa de 87 anos foi recebido oficialmente no Parlamento, assim como pelo presidente Tharman Shanmugaratnam e o primeiro-ministro Lawrence Wong. Francisco recebeu uma orquídea branca com o seu nome, a flor símbolo do país.

No seu discurso, o pontífice destacou a importância de uma sociedade baseada na "justiça social" e "bem comum". Ele pediu aos líderes políticos que trabalhem na "melhoria das condições de vida dos cidadãos com políticas sobre a habitação pública, uma educação de elevada qualidade e um sistema de saúde eficiente".

Singapura, um Estado independente desde 1965, é um dos países mais desenvolvidos da Ásia, graças à sua indústria e tecnologia.

A maioria da população da ilha tropical é chinesa, mas também possui importantes minorias malaias, indianas e de outros países. Os cristãos representam 19% da população, de maioria budista.

O papa não mencionou as frequentes críticas ao país na área dos direitos humanos e do rigor de seu sistema judicial, que ainda aplica a pena de morte.

Apesar dos problemas de saúde e do ritmo intenso da viagem, a mais longa de seu pontificado, o líder da Igreja Católica demonstrou boa forma durante a viagem, desafiando as dúvidas sobre sua capacidade para suportar a jornada.

A viagem de 12 dias terminará na sexta-feira após um percurso de 33 mil quilômetros por quatro países: Indonésia, Papua-Nova Guiné, Timor Leste e Singapura.

cmk-arb/ebe/dbh/ag/fp/aa

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quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Mais de 2 mil migrantes escolheram Passo Fundo para viver nos últimos cinco anos

 


Francieli Alonso


Reprodução RBS TV / Divulgação
Comunidade venezuelana é a maior de Passo Fundo.

Cheia de esperança e em busca de uma vida melhor, a venezuelana Marianna Perez Acive veio para o Brasil há seis anos com o marido e os dois filhos. Ela lembra que a decisão de sair do país de origem foi difícil, mas necessária em função das dificuldades que viviam.

— Lá se você tinha comida para o café da manhã, não tinha para o almoço e se tinha pra almoçar, não tinha para jantar. Muitas vezes a gente ia dormir, sem nada no estômago. O pouco que tinha a gente deixava para as crianças. A vida está bem melhor aqui — lembra.

As mesmas dificuldades e sonhos fizeram a pedagoga e técnica de enfermagem Luisana Gonçalez, 37 anos, vir para o Brasil. Ela lembra que foi preciso deixar muitas coisas para trás para recomeçar ao lado da mãe e dos filhos de 12 anos e 16 anos.

— Deixei casa, emprego e parte da família. A saudade de lá é uma coisa que não se explica e emocionalmente eu acho que essa é a parte que não deixa a gente terminar de ser feliz — relata a venezuelana.

Luisana é presidente da Associação de Venezuelanos em Passo Fundo, cidade que recebeu mais de 2 mil migrantes nos últimos cinco anos, vindos de diversas partes do mundo. 

A comunidade venezuelana é a maior no município, com 1,5 mil famílias. Conforme a líder da associação, apesar das oportunidades, a vida de quem sai do seu país para viver em outro é repleta de desafios

— Além do idioma, tem toda a documentação, a adaptação, a parte das crianças, buscar o emprego, porque sem um trabalho você não consegue pagar as contas e ter o básico — explica.

Histórias como as de Marianna e Luisana são algumas das tantas que encontramos no norte do RS. A região é uma das mais procuradas por imigrantes e refugiados para recomeçar a vida. Nos últimos cinco anos, 56.822 mil estrangeiros entraram no Brasil pelo Rio Grande do Sul

Reprodução RBS TV / Divulgação
Marianna Perez Acive migrou da Venezuela para o Brasil com o marido e dois filhos.

Segundo dados do Sistema de Registro Nacional Migratório (Sismigra), foram quase 16 mil apenas no ano passado. Na lista das cidades gaúchas que mais receberam migrantes em 2023, cinco ficam nas regiões norte e noroeste (veja lista abaixo). 

Em quarto lugar no RS, Erechim é a primeira da região no ranking. Passo Fundo aparece como a sexta cidade gaúcha com mais registros migratórios em 2023.

O que esperam os migrantes 

São pessoas que precisaram deixar os países de origem por diferentes motivos, como a crise política e econômica. Todas chegam aqui com o mesmo objetivo, um futuro melhor.

— Eu vim em busca de oportunidades pra melhorar minha vida. Tenho saudade da Venezuela, da minha mãe, do meu pai. Já tem quase três anos que não vejo eles, mas precisei vir pra cá para ter um futuro melhor — disse o operador de supermercados José Lopes Garcia, que está há três meses em Passo Fundo.

Se as vagas de trabalho atraem os migrantes, a vinda deles para cá também ajuda a suprir a falta de mão-de-obra em diversas empresas, como é o caso de uma rede de supermercados de Passo Fundo, com cerca de 6 mil funcionários. Hoje, cerca de 300 são de outros países. 

A tendência é que esse número aumente nos próximos meses, como explica a psicóloga do setor de Recursos Humanos da rede, Stéfani Girardello.

— Essas pessoas têm uma tendência à adaptabilidade e resiliência extremamente altas. Então a gente consegue ver o desenvolvimento delas aqui muito mais acelerado — relatou. 

E é também com o sonho de proporcionar uma vida mais digna à família que o Eduardo Suarez deixou a Venezuela há um mês. 

Ele está regularizando a situação no Brasil e em busca de emprego. O objetivo é trazer a mulher e os três filhos pequenos que ficaram lá. Enquanto isso não acontece, ele precisa lidar com a saudade da família.

Reprodução RBS TV / Divulgação
De Gâmbia, Babu Gai vive em Erechim, no norte gaúcho, há 13 anos.

— Eu vendi minha moto pra vir pra cá. Parte do dinheiro eu deixei com a minha família, para o sustento deles. Eu queria muito eles aqui comigo, mas ainda não posso trazer — disse. 

Quem está na região há mais tempo garante que a migração possibilitou uma mudança radical — e também a melhora da qualidade de vida. 

— A vida está melhor. Eu cheguei na cidade sem nada, só uma mala e com um pouco de dinheiro para sobreviver — conta o costureiro Babu Gai, que veio da Gambia, um dos menores países da África, e vive há 13 anos em Erechim.

Acompanhe a série "Migração: um recomeço" 

A próxima reportagem da série será publicada na quarta-feira (11) e aborda como os municípios da região estão se adaptando à nova realidade e o que foi preciso fazer para acolher os migrantes e garantir serviços básicos, como saúde e educação. 


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