quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Crise migratória no Haiti: o drama de um povo sem refúgio

 

Caravana de migrantes, a maioria haitianos, na fronteira do México com os Estados UnidosFoto: Jose Luis Gonzalez/REUTERS


 Haiti, com uma população estimada de 11,4 milhões, vive uma das crises mais profundas de sua história recente. Há mais de uma década, o país caribenho enfrenta uma combinação de problemas estruturais: pobreza extrema, violência de gangues, instabilidade política e economia em colapso. Esses fatores criaram uma situação desesperadora para milhões de haitianos, que começaram a buscar refúgio em massa em outros países desde o devastador terremoto de 2010.

êxodo haitiano se acelerou nos últimos anos, com centenas de milhares fugindo não só para os Estados Unidos, mas também para outros países da América Latina, como Brasil, Chile e México, em busca de melhores oportunidades.

Mais de 700 mil, metade deles menores de idade, estão atualmente deslocados internamente no Haiti, de acordo com um novo relatório divulgado pela Organização Internacional para as Migrações (OIM).

Segundo estimativas da OIM, em 2020 mais de 1,7 milhão de haitianos estavam vivendo no exterior, o que representa 15,6% da população do país.

Os dados mais recentes, de 2022, da American Community Survey (ACS), a maior pesquisa domiciliar americana, indicam que quase 731 mil imigrantes haitianos viviam nos Estados Unidos –16% do total de 4,6 milhões de imigrantes caribenhos.

Resposta da República Dominicana

Há décadas, a República Dominicana, com que o Haiti compartilha uma ilha e uma fronteira de 391 quilômetros, tem sido a principal receptora de migrantes haitianos. De acordo com dados do Banco Mundial, estima-se a presença de 500 mil a 1 milhão de haitianos no país vizinho, muitos em situação irregular. Esse número inclui migrantes recentes e descendentes de haitianos, alguns dos quais enfrentam dificuldades para regularizar sua situação migratória.

Desde 2021, as autoridades têm fechado o cerco, e em 2023 chegaram a deportar mais de 175 mil haitianos. Essas medidas geraram críticas dentro e fora do país, especialmente após relatos de violações de direitos humanos, com alegações de deportações de indivíduos nascidos na República Dominicana ou que tinham documentação migratória válida.

Recentemente, o presidente dominicano Luis Abinader anunciou que daria continuidade à construção de um muro na fronteira com o Haiti, como parte de uma estratégia de controle de imigração ilegal. A construção da barreira, que deve cobrir cerca de 164 quilômetros da fronteira de 391 quilômetros, começou em 2022 e é uma das medidas mais controversas implementadas até agora. Embora as autoridades dominicanas argumentem que o muro melhorará a segurança e reduzirá o contrabando, organizações internacionais alertam que ele pode piorar a situação humanitária dos migrantes haitianos.

Desafios sociais e humanitários para a América Latina

A América Latina se tornou um refúgio importante para milhares de haitianos. Países como Brasil e Chile receberam um grande número deles após o terremoto de 2010, oferecendo oportunidades de trabalho em seus setores de construção e serviços.

De acordo com dados da OIM, no Chile a população haitiana cresceu de 1.649 em 2014 (0,4% do total da população estrangeira) para quase 183 mil em dezembro de 2020 (12,5% do total estrangeiro). Atualmente, os haitianos são a terceira maior nacionalidade migrante no Chile, atrás apenas de venezuelanos e peruanos.

No Brasil, cidadãos haitianos aumentaram exponencialmente sua participação no mercado de trabalho formal, passando de 815 em 2011 para mais de 30 mil em 2015, com crescimento também impulsionado pela demanda de mão de obra destinada à construção de infraestrutura para a Copa do Mundo de 2014. No entanto, esse número caiu quase pela metade, para 15,7 mil em 2019.

A situação nesses países também mudou, com suas economias afetadas pela pandemia de covid-19 e uma crescente rejeição social aos migrantes. No Brasil, muitos haitianos enfrentam discriminação e condições de trabalho precárias, o que forçou alguns a seguirem migrando para o México ou Estados Unidos.

Desafio humanitário sem precedentes

A perspectiva para os migrantes haitianos continua sombria. Em meio a uma situação caótica e diante de uma comunidade internacional que, embora preocupada, tem demonstrado pouca capacidade de intervenção, as opções dos haitianos são cada vez mais limitadas.

O muro na fronteira entre o Haiti e a República Dominicana, longe de ser uma solução definitiva, pode se tornar um símbolo do fracasso regional em lidar com as causas fundamentais da crise haitiana.

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sábado, 12 de outubro de 2024

Fluxo migratório no Brasil registra 2,3 milhões de pessoas desde 2010


Informações atualizadas serão divulgadas mensalmente a partir de dados do Observatório das Migrações (Obmigra)

De 2010 a agosto de 2024, o Brasil registrou a entrada de 1.700.686 migrantes, entre residentes permanentes, temporários e fronteiriços. Além disso, o País reconheceu 146.109 pessoas como refugiadas e recebeu 450.752 solicitações de reconhecimento da condição de refugiado. Esses dados constam do Boletim das Migrações , divulgado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), por meio da Secretaria Nacional de Justiça (Senajus), nesta quinta-feira (10).

Nesse período, o maior fluxo migratório é de migrantes vindos da Venezuela (500.636), do Haiti (183.102) e da Bolívia (110.795). Os refugiados reconhecidos são, em sua maioria, da Venezuela (134.089), da Síria (4.100) e da República Democrática do Congo (1.158). Os solicitantes de refúgio têm como principais nacionalidades venezuelana (257.186), cubana (41.800) e haitiana (40.483).

O Boletim das Migrações é uma importante ferramenta de monitoramento quantitativo para entender as tendências migratórias, planejar e implementar políticas públicas mais eficazes e, assim, garantir a proteção dos refugiados e migrantes no Brasil.

As informações atualizadas serão divulgadas mensalmente a partir de dados do Observatório das Migrações (Obmigra), que reúne dados por meio do acordo de cooperação técnica entre o MJSP, o Ministério do Trabalho e Emprego, o Ministério das Relações Exteriores (MRE), a Polícia Federal, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a Universidade de Brasília (UnB).

Brasileiros no exterior

Além do quadro nacional de migrantes, refugiados e solicitantes de refúgio, o Boletim das Migrações traz informações do documento Comunidades Brasileiras no Exterior, produzido pelo MRE, com estatísticas atualizadas sobre a quantidade de brasileiros que vivem no exterior. Em 2023, eram 4,9 milhões de pessoas, que estavam, principalmente, nos Estados Unidos, em Portugal, no Paraguai, no Reino Unido e no Japão.

Migrantes e refugiados

O documento conceitua os mais de 1,7 milhão de migrantes como nacionais que obtiveram autorização de residência no Brasil de forma permanente ou com prazo determinado. Também são considerados migrantes pessoas nascidas em países de fronteira, mas que residem em um país vizinho.

Já os 146.109 refugiados no Brasil são aqueles que foram forçados por algum motivo a sair do país de origem, seja por motivos religiosos, políticos ou por violações de direitos humanos e que têm essa situação reconhecida pelo Estado. A decisão é do Comitê Nacional para Refugiados (Conare), com base na Lei nº 9.474/1997. Somente são considerados refugiados aqueles que já tiveram a solicitação aceita pelo comitê.

Outros 450.752 pedidos de reconhecimento da condição de refugiado estão em análise no Conare. Essas pessoas que aguardam a deliberação do comitê são contabilizadas no fluxo migratório, juntamente com os refugiados e com os migrantes.

Por MJSP

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quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Irmã Rosita Milesi, advogada dos migrantes e refugiados, recebe o Prêmio Nansen

 

Irmã Rosita Milesi, advogada dos migrantes e refugiados

Uma das láureas de maior prestígio no reconhecimento de personalidades, projetos ou instituições de destaque na proteção e defesa de migrantes e refugiados mundo afora, o Prêmio Nansen, foi anunciado nesta quarta-feira, 9 de outubro. A premiação, que será entregue no dia 14 de outubro em Genebra, na Suiça, recaiu em 2024 na Ir. Rosita Milesi, religiosa Scalabriniana brasileira, que por mais de 40 anos, atualmente ela tem 79, entrega sua vida em favor dos migrantes e refugiados.

Ajuda a migrantes e refugiados no Brasil

O reconhecimento é concedido anualmente pela Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR) a pessoas e organizações destacadas no apoio aos refugiados. A religiosa tem ajudado milhares de pessoas para conseguir documentos, moradia, alimentos, cuidados de saúde, formação e emprego no Brasil. Em 1997, a Ir. Rosita Milesi exerceu um papel destacado na aprovação da lei para os refugiados no Brasil.

Junto com a religiosa brasileira, que recebeu o Prêmio Internacional, outras quatro mulheres recebem prêmios regionais: a ativista Maimuna Ba, de Burkina Faso; a empresária de origem sírio, Jin Davod; a refugiada sudanesa Nada Fadel; e a nepalesa, Deepti Gurung. Mulheres que têm oferecido respostas diante da crise humanitária e na busca por soluções. Junto com elas, foi reconhecida com uma menção especial à Moldávia, pela resposta diante da crise humanitária na Ucrania.

O Prêmio Nansen existe desde 1954 e está a cargo do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) que, a cada ano, indica uma pessoa ou instituição a receber este Prêmio. A solenidade de entrega do prêmio ocorre anualmente em Genebra, na Suíça. O Prêmio Nansen homenageia um indivíduo ou organização que dedicou seu tempo e fez a diferença na tarefa de ajudar pessoas deslocadas à força de suas casas ou que muito colaborou com a causa do refúgio e dos refugiados.

É o segundo brasileiro em receber o Prêmio

A Ir. Rosita Milesi é o segundo brasileiro a receber o Prêmio Nansen, que foi entregue em 1985 ao cardeal Paulo Evaristo Arns. Um prêmio que recebeu o nome de Fridtjof Nansen – explorador norueguês dedicado às causas humanitárias que serviu como o primeiro Alto Comissário para Refugiados da Liga das Nações, órgão precursor do ACNUR. Nansen foi cientista, diplomata, humanitário e laureado do Prêmio Nobel da Paz.

Ele conseguiu a repatriação de 450 mil prisioneiros da Primeira Guerra Mundial, sendo um grande mediador entre os governos e agências de voluntariado. Nansen serviu como primeiro Alto Comissário para Refugiados da Liga das Nações de 1920 a 1930. Além de ter ajudado centenas de milhares de refugiados a voltar para casa, seus esforços permitiram que muitos outros se tornassem residentes legais e achassem trabalho nos países onde haviam encontrado refúgio.

Nansen viu que um dos maiores problemas enfrentados pelos refugiados era a falta de documentos de identificação internacionalmente reconhecidos. Sua solução, que passou a ser conhecida como “passaporte de Nansen”, foi o primeiro instrumento jurídico para a proteção internacional dos refugiados.

Padre Modino - Vaticano

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segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Reino Unido registra no sábado recorde de quase mil migrantes que cruzaram Canal da Mancha


Arquivo) O barco BF Volunteer que transporta migrantes resgatados quando tentavam atravessar o Canal da Mancha para chegar ao Reino Unido, em 7 de setembro de 2024© Ben STANSALL

O Ministério do Interior do Reino Unido informou neste domingo (6) que 973 migrantes atravessaram no sábado, de forma irregular, o Canal da Mancha para chegarem ao Reino Unido vindos da França a bordo de embarcações precárias, no mesmo dia em que quatro pessoas morreram na travessia.

Este número anunciado hoje, um recorde, eleva para 26.612 o total de migrantes que chegaram ao litoral britânico este ano, vindos sobretudo da França.

Essas travessias aconteceram no mesmo dia em que um menino de dois anos, uma mulher e dois homens morreram em dois incidentes separados ocorridos em frente ao litoral francês.

O recorde anterior data de junho, com mais de 882 travessias.

Uma série de naufrágios faz do ano de 2024 o mais letal desde 2018, quando as viagens a bordo de embarcações infláveis precárias se intensificaram devido ao bloqueio cada vez mais rigoroso do acesso ao túnel do Canal da Mancha e ao porto francês de Calais.

O governo britânico do trabalhista Keir Starmer, eleito em julho, prometeu combater a imigração irregular aumentando as expulsões e lutando contra os traficantes de pessoas.

Segundo as autoridades britânicas, as embarcações estão cada vez mais lotadas, com 52 passageiros em média, contra 13 em 2020. Entre junho de 2023 e junho de 2024, 18% das pessoas que chegaram nesses botes vinham de Afeganistão, 13% do Irã e 10% do Vietnã.

adm/cn/bc/an/rpr/yr

.msn.com/pt-br

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sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Pessoas refugiadas encontram no empreendedorismo caminho para reconstruir suas vidas

 

Ousmane Mbaye, do Senegal, fundou o Dior Thiam, dedicado à moda africana

Crédito:Acervo Pessoal

O mundo tem visto o número de pessoas forçadas a se deslocar crescer significativamente nos últimos 12 anos, chegando a 120 milhões de pessoas que precisaram deixar suas casas e reconstruir suas vidas em outros países. No Brasil, há atualmente quase 800 mil pessoas que vivem no país e necessitam de proteção internacional.

Diante desse contexto, muitas pessoas refugiadas e migrantes enxergam no empreendedorismo uma forma de recomeçar. Foi o caso de Ousmane Mbaye, que deixou o Senegal e chegou ao Rio de Janeiro em 2013. Inicialmente, trabalhou no setor da construção civil, mas em 2015 começou a empreender e fundou o Dior Thiam, dedicado à moda africana.

Ele se formou em Design de Moda pelo Senac e começou a produzir peças exclusivas, como bolsas, roupas e acessórios, utilizando tecidos importados do Senegal. Atualmente, ele atende clientes em seu ateliê em Brasília, faz cenografia para eventos importantes, participa de feiras e entrega seus produtos para todo o Brasil. Ousmane afirma que um dos aspectos mais significativos de seu trabalho é mostrar a força de ser uma pessoa africana no Brasil.

“Temos muito orgulho de ser afrodescendente. Como refugiados e migrantes, a tristeza faz parte da nossa vida, mas a felicidade também. Há formas de mostrar que somos capazes, que somos pessoas que contribuem, inclusive economicamente, para o desenvolvimento desse país. Então, eu faço isso por todos nós”, finaliza.

Ousmane faz parte da Plataforma Refugiados Empreendedores, que reúne 159 empreendimentos liderados por pessoas refugiadas. Com mais de três anos, a iniciativa da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e do Pacto Global da ONU – Rede Brasil contempla empreendedores em 43 cidades em 16 estados e no Distrito Federal.

Dia do Empreendedor

Em 5 de outubro é comemorado o Dia Nacional da Micro e Pequena Empresa, também conhecido como Dia do Empreendedor. Uma pesquisa realizada com empresários e empresárias da plataforma Refugiados Empreendedores demonstrou o papel central que o empreendedorismo tem em suas trajetórias: “Para 69% deles, o empreendimento representa a principal fonte de sustento de suas famílias. O que comprova que o empreendedorismo é fundamental para que refugiados e outras pessoas deslocadas à força alcancem autonomia financeira e consigam reconstruir suas vidas com dignidade”, destaca o Oficial de Meios de Vida e Inclusão Econômica do ACNUR, Paulo Sérgio Almeida.

É o caso da empreendedora venezuelana Carolina Ramos, que por meio da produção de bolos sustenta seus quatro filhos no Brasil. Ela conta que já fazia doces e tortas para vender na Venezuela, mas retomar a atividade no Brasil não foi nada fácil. Em meio aos desafios impostos pela pandemia e as dificuldades, Carolina lembra que teve que fazer uma pausa na produção de bolos, porque não tinham nem fogão em casa.

Em 2023, ela enxergou uma oportunidade por meio do projeto Mujeres Fuertes, iniciativa do ACNUR, em parceria com Hermanitos e Ministério Público do Trabalho do Amazonas e Roraima (MPT-AM/RR). Após o projeto, Carolina fundou o “Bolos da Karol”, especializado em doces, principalmente decorados e cobertos de pasta americana.

“Meu marido morreu de câncer em 2024, então fiquei sozinha com meus filhos no Brasil. Mas eu sei que tem alguma coisa boa esperando por mim, aqui tem muitas oportunidades. Meu sonho é expandir meu empreendimento, ter uma loja própria e trabalhar com bolos a pronta-entrega, o que seria um diferencial”, relata.

A gerente de Direitos Humanos e Trabalho do Pacto Global da ONU – Rede Brasil, Gabriela Rozman, reforça a importância do empreendedorismo para esses grupos que enfrentam desafios adicionais de inclusão, como é o caso das mães solo. “Por isso, a plataforma Refugiados Empreendedores, juntamente com os parceiros, oferece diversos cursos e capacitações para que as pessoas empreendedoras consigam desenvolver seu potencial, crescer e conquistar ainda mais visibilidade para seus empreendimentos”.

Um desses treinamentos foi realizado em setembro, em conjunto com a Meta, parceira estratégica da plataforma. Cerca de 116 refugiados e migrantes empreendedores participaram do curso online sobre marketing digital, que abordou diversos aspectos, como vendas nas redes sociais e construção de marca digital, além de mostrar ferramentas e recursos do Facebook, Instagram e WhatsApp Business. Dentre os participantes, a grande maioria era de mulheres venezuelanas.

O Sebrae, outro parceiro da iniciativa, também apoia ações da plataforma. Em eventos presenciais da plataforma, a entidade oferece palestras e, em muitos casos, sedia o evento.

//abcdoabc.com.br/

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quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Cresce o ódio aos imigrantes na Europa. Por que agora?

 


“Ei, agora está na hora, vamos deportar todos eles! Esta noite é a noite da Alemanha, a remigração está começando”, entoavam alemães da ala jovem do partido de extrema direita AfD (Alternativa para a Alemanha), durante as eleições ao Parlamento de Brandemburgo no último mês. Ali, os votos jovens garantiram o segundo lugar ao partido extremista e — pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial — o primeiro lugar na Turíngia.

No último domingo foi a vez da Áustria. O Partido da Liberdade (FPO), também de extrema direita, saiu vitorioso. Em seu manifesto, o partido diz que quer deportar imigrantes que entraram ilegalmente no país, reduzir as aprovações de asilo, restringir os benefícios sociais a austríacos nativos e rejeitar o pacto da União Europeia sobre imigração, que exige um sistema de asilo comum aos países.

O novo governo da França, dominado por conservadores, também prometeu endurecer suas políticas sobre questões migratórias e garantiu que vai reduzir significativamente o número de pessoas que entram e permanecem ilegalmente no país.

Na Holanda, a ministra responsável pela migração Marjolein Faber, do ultradireitista Partido pela Liberdade (PVV), anunciou planos para impor o que definiu como “a política migratória mais rígida de todos os tempos”. Isso para citar apenas alguns exemplos recentes de como o ódio aos imigrantes tem ditado as regras na política europeia.

O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, populista autoritário e um dos maiores exemplos para a extrema direita europeia e norte-americana, deve estar feliz. Finalmente sua visão xenófoba para limitar o poder da UE e endurecer as fronteiras parece estar tomando forma.

Esse ódio crescente a imigrantes e refugiados também se torna cada vez menos envergonhado e cada vez mais violento em encontros ultraconservadores. Me lembro que há um ano, em um CPAC na Hungria, o ex-presidente do Escritório Federal para a Proteção da Constituição — a agência de segurança interna da Alemanha — Hans-Georg Maaßen, tinha um tom moderado quando declarava estar preocupado com a imigração no país. Já em 2024, durante o NatCon em Bruxelas, falava em mandar imigrantes para locais similares a campos de concentração na África.

Em um artigo para a Al Jazeera, o filósofo Lorenzo Marsilli questiona os reais motivos por trás dessa xenofobia escancarada. Ele acredita que não é mais possível culpar as crises migratórias de 2015 e 2016 — época em que os populistas do Brexit tiraram o Reino Unido da UE — e nem mesmo crises econômicas: “Embora a inflação certamente tenha reduzido o poder de compra, a Europa está atualmente experimentando um emprego recorde. A economia europeia certamente não está crescendo, mas também não está se contraindo. E há pouca austeridade: pelo contrário, os países europeus responderam à pandemia da Covid-19 e à guerra na Ucrânia com investimentos públicos significativos”, explica no artigo.

Para ele, isso tem a ver com neocolonialismo e uma sensação de perda de privilégios. Um europeu, por mais pobre que fosse, tinha acesso a oportunidades que outras partes do mundo não tinham, e o senso de privilégio forneceria uma ferramenta poderosa para a coesão social. Mas hoje, tecnologicamente atrasada, geopoliticamente desorientada e militarmente mais fraca, segundo ele, a Europa seria novamente um celeiro para a proliferação do nacionalismo.

“É nesse senso de declínio e desorientação que a direita nacionalista prospera. O nacionalismo contemporâneo da Europa não é o tipo expansionista e juvenil do fascismo do século 20. É o nacionalismo dos provincianos, dos rebaixados e dos exaustos. Se migrantes e minorias são o alvo preferido da extrema direita, isso não é por nenhuma outra razão senão a velha estratégia de construir uma comunidade por meio da identificação daqueles que não pertencem a ela. Ao definir como ‘não-migrante’, ‘não-gay’ ou ‘não-woke’, um senso de unidade é forjado. A Europa, em sua busca por coesão social interna, trocou as guerras coloniais pelas guerras culturais”, aponta.

O pesquisador Danniel Gobbi, da universidade Humboldt de Berlin, concorda com a análise: “Concordo que isso é uma volta forte de um ideal de nacionalismo, uma tentativa neocolonial de manutenção de privilégios e da ideia da superioridade europeia. O que a gente precisa entender é que isso discursivamente só funciona quando você projeta todos os vícios, todas as vicissitudes de uma comunidade para fora dela. Então, culpar os refugiados e os imigrantes pelo aumento da criminalidade, pelos problemas econômicos, o aumento dos gastos sociais etc. é a forma que eles encontram de justificar essa superioridade. E aí, acho que não dá para utilizar os imigrantes como bode expiatório em nenhum momento, mas, do ponto de vista discursivo, isso continua sendo feito”, diz.

“Eu acho que, se você for observar várias matérias, elas vão mostrar e destacar o número de refugiados na posição de criminosos, quando vão abordar crimes violentos. E isso, no enquadramento da extrema direita, é ainda mais forte. Eles utilizam o tempo todo vídeos e divulgam nas redes sociais vídeos, áudios e, enfim, textos, fotos, que trazem esse enquadramento do imigrante como o culpado pela violência”, analisa Gobbi.

Steven Forti, professor de história contemporânea na Universidade Autônoma de Barcelona e autor do livro “Extrema derecha 2.0: Qué es y cómo combatirla”, acrescenta que essa ideia de uma suposta comunidade nacional como algo que ofereça espaço de segurança entre pessoas que compartilham algo, uma cultura, traços físicos, até, não é nova, mas que atualmente tem sido potencializada socialmente, culturalmente e até psicologicamente como resposta a crises econômicas, geopolíticas, de mudanças tecnológicas.

E destaca ainda que apesar de a onda migratória na Europa não ser a mesma de 2016, a percepção social e como os meios de comunicação e as redes sociais falam deste tema repetidas vezes vão criando uma paranoia coletiva. Tudo isso acompanhado desse crescimento de partidos de extrema direita, que cada vez mais têm seus discursos de ódio normalizados e valorizados.

“Quando ideias, discursos, narrativas extremistas se normalizam e acabam inclusive legitimadas — na Áustria, Itália, Hungria, Finlândia, República Tcheca, Países Baixos, etc. — e essas forças políticas têm esses discursos, isso faz com que muita gente, que talvez pensasse mas antes silenciasse, agora não tenha medo de dizer. Vemos um processo de radicalização, há ideias extremistas, que podem ser inclusive neofascistas em alguns casos ou que podem ser racistas, xenófobas, identitárias e já não há um complexo em mostrar isso, porque há uma força política dizendo essas coisas sem problemas, que tem consenso eleitoral e inclusive governa em alguns países”, explica o professor.

Forti, no entanto, faz uma ressalva: é certo que a extrema direita tem se popularizado entre os jovens, mas é arriscado generalizar. “Não acredito que a maioria dos jovens europeus são contra imigrantes, é preciso tomar cuidado para não repetir tanto isso que se torne uma profecia autocumprida”, afirma.

Lendo isso de fora da Europa, pode parecer menos importante. Mas não podemos esquecer que o nacionalismo exacerbado e o neofascismo, apesar de ter diferenças locais, cresce no mundo todo, inclusive no Brasil através do bolsonarismo.

Novamente citando Marsilli, “desorientação, medo e ansiedade são os símbolos do nosso tempo. São a condição humana contemporânea comum à qual o nacionalismo fornece uma resposta falsa, mas persuasiva”

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quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Música para migrantes: uma missa de réquiem mediterrânica

 

Vindouro concerto em Milão pagará tributo às vidas perdidas ao atravessar o Mediterrâneo; os instrumentos que os músicos usarão será feito da madeira dos botes dos migrantes

Da redação, com Vatican News

O Quarteto do Mar junto com o músico Sting / Foto: Divulgação

Em outubro de 2013, 636 migrantes morreram em dois naufrágios separados no Mar Mediterrâneo. Onze anos depois, em 3 de outubro de 2024, aniversário da primeira tragédia, a Basílica de Sant’Ambrogio em Milão sediará uma homenagem à memória de todos aqueles perdidos no Mediterrâneo. Somente na última década, esse número ultrapassou 30.300 mortes.

Neste aniversário, o Quarteto do Mar (em italiano, “Quartetto del Mare”) subirá ao palco, oferecendo uma performance simbólica de um arranjo do Réquiem de Mozart. Como todo quarteto de cordas, o Quarteto do Mar é composto por dois violinos, uma viola e um violoncelo. Embora a formação permaneça a mesma, os instrumentos estão longe de ser comuns. Eles foram criados por detentos de duas prisões italianas a partir da madeira de barcos que antigamente transportavam migrantes pelo mar. O concerto faz parte do projeto “Metamorfose”, uma iniciativa que busca transformar instrumentos de perigo em ferramentas de beleza e reflexão e abrirá com os depoimentos de um refugiado e um detento, que compartilharão suas experiências de sobrevivência, transformação e o poder das segundas chances.

A música

O Quarteto do Mar é composto pelos músicos Eugjen Gargjola e Agnese Tasso nos violinos, Eva Impellizzeri na viola e Michele Ballarini no violoncelo. O arranjo do Réquiem de Mozart foi composto pela própria Eva Impellizzeri, que o intitulou Mozart’s Unfinished. Este título chama a atenção para a morte prematura do compositor, que deixou sua obra-prima incompleta, traçando assim um paralelo com as vidas interrompidas nas águas do Mediterrâneo, que o Papa Francisco descreveu repetidamente como “um cemitério” para tantos que buscam um novo começo.

As Missas de Réquiem, ou Missas pelos mortos, são celebradas como sufrágios pelas almas dos falecidos. Eva Impellizzerri escolhe terminar seu arranjo em Lacrimosa (que significa choroso em latim), um segmento pungente, e talvez o mais conhecido, do Réquiem de Mozart, deixado incompleto no momento da morte de Mozart, assim como as vidas dos migrantes que se afogaram.

Eva Impellizzeri observa como o aluno do compositor, Süßmayr, completou o trabalho restante, fazendo uma analogia com a forma como a humanidade continua a carregar o fardo de histórias inacabadas, aquelas de migrantes, prisioneiros e todos os que são marginalizados.

O evento, e as organizações e pessoas por trás dele, todos seguem os ensinamentos do Papa Francisco, que defende incansavelmente as vidas dos migrantes no mar. “Migrantes”, ele disse recentemente, “não deveriam estar nesses mares mortais”.

Este concerto não é apenas uma homenagem, mas uma oração pelo futuro, onde o amor reina, mesmo para os mais atingidos e abandonados entre nós.

Um projeto seguindo os ensinamentos do Papa Francisco

O projeto Metamorphosis deu origem ao quarteto e foi fundado pela Fundação Casa dello Spirito e delle Arti, e envolve detentos das prisões de Opera e Secondigliano que fabricam instrumentos musicais, a partir da madeira de barcos de migrantes. Esta iniciativa visa simbolizar a transformação e a redenção, com os prisioneiros ganhando novas habilidades e propósito.

A fundação, criada em 2012 por Arnoldo Mosca Mondadori e Marisa Baldoni, concentra-se em oferecer segundas chances e trabalha com indivíduos vulneráveis ​​por meio de vários projetos, tanto na Itália quanto ao redor do mundo. O projeto é apoiado pela Associação Realmonte ETS, que auxilia requerentes de asilo.

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