quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Inclusão de Migrantes em Políticas Habitacionais: Desafios e Caminhos para a Garantia do Direito à Moradia

 


O aumento dos fluxos migratórios nas últimas décadas tem imposto novos desafios às políticas públicas, especialmente no campo da habitação. Migrantes — internos ou internacionais — frequentemente enfrentam barreiras socioeconômicas, culturais, documentais e institucionais que dificultam seu acesso à moradia digna. Este artigo analisa os principais obstáculos à inclusão de migrantes em políticas habitacionais, discute marcos legais e normativos relacionados ao direito à moradia e apresenta diretrizes para a formulação de políticas públicas mais inclusivas e equitativas.

A migração é um fenômeno histórico e multifacetado, intensificado por fatores como conflitos armados, crises econômicas, mudanças climáticas e desigualdades regionais. Nos centros urbanos, a chegada de migrantes amplia a demanda por serviços públicos, especialmente por moradia. Entretanto, a ausência de políticas habitacionais inclusivas pode levar à precarização das condições de vida, à formação de assentamentos informais e à segregação socioespacial.

O direito à moradia adequada é reconhecido como direito humano fundamental por instrumentos internacionais e por diversas constituições nacionais. Contudo, na prática, migrantes frequentemente encontram obstáculos para acessar programas habitacionais, seja por falta de documentação, desconhecimento de seus direitos ou discriminação institucional.

2. O Direito à Moradia e os Marcos Normativos

O direito à moradia está previsto em documentos como a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) e o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966). Em muitos países, esse direito também possui respaldo constitucional.

No contexto brasileiro, por exemplo, a Constituição Federal reconhece a moradia como direito social, e a Lei de Migração (Lei nº 13.445/2017) estabelece princípios de igualdade de tratamento e acesso a serviços públicos para migrantes. No entanto, a implementação prática desses direitos depende da articulação entre diferentes níveis de governo e da adaptação das políticas às especificidades dessa população.

3. Principais Barreiras à Inclusão Habitacional

A exclusão de migrantes das políticas habitacionais ocorre por múltiplos fatores:

3.1 Barreiras Documentais

Muitos programas habitacionais exigem comprovação de renda formal, residência fixa e documentação regularizada, requisitos que podem ser difíceis de atender por migrantes recém-chegados.

3.2 Vulnerabilidade Socioeconômica

Migrantes frequentemente ocupam empregos informais e de baixa remuneração, o que limita sua capacidade de arcar com custos de aluguel ou financiamento habitacional.

3.3 Discriminação e Xenofobia

Atitudes discriminatórias por parte de proprietários, agentes públicos ou instituições financeiras podem restringir o acesso à moradia.

3.4 Falta de Informação

O desconhecimento sobre direitos e programas disponíveis, aliado a barreiras linguísticas, dificulta o acesso aos serviços públicos.

4. Estratégias para a Inclusão de Migrantes

Para promover a inclusão de migrantes nas políticas habitacionais, são necessárias ações estruturadas e integradas:

Flexibilização de critérios burocráticos, considerando a realidade documental e laboral dos migrantes;

Programas de aluguel social e moradia transitória, voltados para recém-chegados em situação de vulnerabilidade;

Capacitação de agentes públicos, visando combater práticas discriminatórias;

Produção de materiais informativos multilíngues, ampliando o acesso à informação da moradia .

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

200 mil refugiados foram parar num deserto na Etiópia e mudaram tudo

 


Em Melkadida, no sudeste da Etiópia, a pressão de 200 mil refugiados sobre um deserto já frágil parecia anunciar fome, conflito e erosão irreversível, mas um arranjo entre comunidades locais, cooperativas mistas, irrigação solar e manejo do solo recuperou mais de mil hectares e reescreveu a economia regional duradoura ali.

No deserto semidesértico de Melkadida, no sudeste da Etiópia, a chegada de mais de 200 mil refugiados somalis entre 2009 e 2011 pressionou uma paisagem que já vivia no limite: pouca chuva, calor acima de 40 °C, solo com baixíssima matéria orgânica e infraestrutura praticamente inexistente. O cenário inicial reunia todos os fatores de uma crise prolongada.

A mudança veio quando uma resposta emergencial passou a ser tratada como estratégia de longo prazo. Com canais de irrigação, bombeamento por energia solar, recuperação de solo e cooperativas mistas entre refugiados e comunidades anfitriãs, a região saiu de uma trajetória de degradação contínua para um ciclo de produção agrícola, renda local e reorganização social.

Quando 200 mil pessoas chegam a um território já no limite

Campos em torno de Dollo Ado.

Antes do pico de deslocamento forçado, a região já enfrentava sinais severos de exaustão ambiental. A precipitação anual baixa, frequentemente abaixo do necessário para agricultura de sequeiro, combinada a temperaturas extremas, deixava o solo mais suscetível à compactação, à erosão e à perda de fertilidade. O problema não era só falta de água; era incapacidade do solo de absorver e reter água.

Com o crescimento acelerado dos campos em torno de Dollo Ado, a pressão por lenha, pastagens e água aumentou em ritmo muito superior à capacidade local de reposição.

Árvores foram derrubadas, a cobertura vegetal diminuiu e as tensões entre moradores e recém-chegados se intensificaram. Nesse contexto, o deserto não avançava apenas por causa do clima, mas também por um acúmulo de decisões de sobrevivência imediata.

A inflexão começou com um projeto de longo prazo financiado pela Fundação IKEA, em parceria com o ACNUR e autoridades etíopes, com investimento acumulado de grande escala.

A cooperativa de Elias opera a minirrede solar em Melkadida desde 2020. Ela fornece energia limpa e confiável para residências e comércios locais.

Em vez de apostar apenas em assistência pontual, o desenho incluiu infraestrutura produtiva: cerca de 20 quilômetros de canais de irrigação e bombeamento movido a energia solar, solução coerente para uma área com muitas horas de sol e rede elétrica distante.

A escolha técnica veio acompanhada de uma escolha política: dividir terra, acesso e resultados em 50/50 entre refugiados e comunidade anfitriã. Essa regra reduziu o risco de exclusão econômica de um dos lados e ajudou a conter ressentimentos.

No deserto, onde recursos são escassos e disputados, esse tipo de governança compartilhada se tornou tão importante quanto a obra física.

Como o solo saiu da rota de colapso para voltar a produzir


A recuperação não se resumiu a levar água de um ponto a outro. Em solos com menos de 1% de matéria orgânica, a infiltração é baixa e a superfície tende a selar.

Sem correção de manejo, a irrigação pode inclusive piorar o quadro por salinização. Por isso, o pacote técnico incluiu rotação de culturas, devolução de biomassa ao solo e planejamento de irrigação para reduzir evaporação.

Com o tempo, os sistemas radiculares e os resíduos orgânicos ajudaram a abrir porosidade no terreno, elevando gradualmente a capacidade de infiltração e retenção hídrica.

Esse processo permitiu estabilizar ciclos produtivos em ambiente árido e expandir o cultivo para mais de mil hectares recuperados. Foi uma recuperação construída por etapas, não um “milagre instantâneo” no deserto.

Da sobrevivência à renda: cooperativas, mercados e energia

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Com o  solo mais funcional, 13 culturas passaram a ser plantadas, com casos de até três colheitas por ano. Milho, cebola, tomate, feijão, sorgo, melancia e outras lavouras mudaram a lógica econômica local: uma área antes dependente de importações começou a gerar excedente e comércio. Em paralelo, cooperativas mistas ganharam escala e participação social.

Outro eixo relevante foi o manejo de espécie invasora transformada em combustível. Grupos, inclusive cooperativas de mulheres, passaram a converter biomassa em briquetes, reduzindo dependência de lenha e criando nova renda.

Quando controle ambiental vira atividade econômica viável, a restauração deixa de depender só de projeto e passa a depender de interesse local contínuo. Esse foi um dos elementos que conectaram recuperação ecológica, segurança doméstica e autonomia financeira.

O que os satélites registraram e o que os números realmente mostram

As imagens de satélite passaram a mostrar, em poucos anos, um contraste forte entre áreas antes classificadas como solo nu e zonas com cobertura agrícola ativa.

Esse “antes e depois” ajudou a comprovar que a intervenção não ficou restrita ao discurso: houve mudança territorial observável. Em avaliação acadêmica, os indicadores também apontaram avanço em renda, cooperação produtiva e inclusão financeira para parte dos participantes.

Ao mesmo tempo, os resultados exigem leitura sem euforia. Nem todos entraram no mesmo ritmo: parte das cooperativas prosperou mais que outras, a governança foi desigual em alguns pontos e muitos refugiados continuaram dependentes de assistência alimentar.

A experiência mostra capacidade real de transformação no deserto, mas também deixa claro que escala, estabilidade e continuidade institucional são desafios permanentes.

O legado político e os riscos que ainda cercam o modelo

A experiência em Melkadida influenciou debates mais amplos sobre política de refúgio na Etiópia, com avanços em direitos e integração econômica, incluindo acesso a trabalho, serviços e instrumentos formais como contas bancárias.

No campo institucional, o caso reforçou a ideia de que refugiados podem atuar como agentes econômicos e não apenas como destinatários de ajuda.

Mas a sustentabilidade futura depende de variáveis críticas. O sistema hídrico local está ligado ao comportamento do rio que abastece a região, sujeito a variabilidade climática e disputas de uso a montante.

Se o fluxo reduzir de forma relevante, todo o arranjo produtivo do deserto fica pressionado. Em outras palavras: a prova de conceito foi dada; a prova de permanência ainda está em andamento.

A história de Melkadida não elimina a dureza da crise climática nem simplifica o drama do deslocamento forçado.


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sábado, 14 de fevereiro de 2026

MPF recorre de sentença para garantir proteção a migrantes em situação de vulnerabilidade no Acre

 

Foto Wikipedea 

O Ministério Público Federal (MPF) recorreu de decisão da Justiça que rejeitou ação civil pública destinada a assegurar a proteção de direitos de migrantes que ingressam no Brasil pela fronteira do Acre. Para o órgão, a decisão deixou de considerar a gravidade da situação enfrentada por migrantes em condição de vulnerabilidade e a necessidade de adoção de medidas estruturais permanentes pelos entes públicos envolvidos.

A ação foi apresentada contra a União, o estado do Acre e os municípios de Rio Branco, Assis Brasil, Brasileia e Epitaciolândia, diante da constatação de falhas no acolhimento, na oferta de vagas em abrigos e na organização de fluxos de atendimento. O MPF destacou que a região de fronteira tem histórico de sobrecarga nos serviços públicos, especialmente em períodos de aumento do fluxo migratório, o que exige planejamento prévio e atuação coordenada dos entes federativos.

“Busca-se, assim, a inserção do migrante na sociedade que o acolhe, com o estabelecimento de direitos e promoção de políticas públicas necessárias a esta parcela da população”, diz trecho do recurso assinado pelo procurador da República Lucas Costa Almeida Dias.

Recurso do MPF – No recurso, o MPF sustenta a urgência das medidas diante da vulnerabilidade dos migrantes — muitos em situação de extrema pobreza, sem documentação regular e com necessidade imediata de alimentação, abrigo e atendimento de saúde — impõe ao poder público o dever de estruturar políticas públicas capazes de responder a crises migratórias de forma eficaz.

“De outro lado, a presença do perigo de dano decorre de que a cada dia que se passa, direitos são violados e o sofrimento acumula. O que tem se verificado nesses últimos meses é a presença de grupos de pessoas compostos de mulheres, crianças, idosos; pessoas vulneráveis, migrantes, pobres e sem assistência de políticas públicas, que não se estabelecem em local fixo e apenas buscam alternativas de “sobrevivência” e estão nos fluxos migratórios na busca de reais soluções para a pobreza – o mínimo para dignidade humana”, frisa o procurador da República.

O órgão aponta, ainda, que alterações na política migratória de países vizinhos podem provocar aumento repentino no número de ingressos pela fronteira acreana, o que demanda medidas preventivas e não apenas reativas e traça um histórico do fluxo migratório na região.

Entre os pedidos do MPF, estão a ampliação da capacidade de acolhimento nos municípios fronteiriços e na capital, a garantia de alimentação adequada e culturalmente compatível, a disponibilização de equipes técnicas permanentes para atendimento em campo e a elaboração de plano de contingência interinstitucional para situações de emergência migratória.

O MPF também sustenta a necessidade de assegurar acesso efetivo a serviços de saúde, assistência social e educação, bem como a regularização documental e organização de fluxos de atendimento e interiorização.

Para o órgão, a ausência de estrutura adequada pode resultar em violações de direitos fundamentais e agravamento da situação humanitária na região de fronteira. O recurso foi interposto ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região, que analisará o caso.

https://www.mpf.mp.br/

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