sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Catar: a Copa da vergonha alheia

 A Fifa argumenta que um megaevento como a Copa pode trazer melhorias à população do país-sede. Não traz, e é ilusão pensar que regimes autoritários sejam movidos rumo a uma maior abertura só porque o mundo está de olho.

Apesar de promessas de reformas no Catar, foram denunciados novos casos de retrocessos, especialmente de violação sistemática dos direitos humanos
© Ulmer/IMAGOApesar de promessas de reformas no Catar, foram denunciados novos casos de retrocessos, especialmente de violação sistemática dos direitos humanos

Philipp Lahm, ex-capitão do Bayern e da Alemanha campeã mundial em 2014, foi enfático em recente entrevista para o Kicker, o mais prestigiado portal de esportes do país, ao declarar que não pretende viajar ao Catar, preferindo acompanhar os jogos da Copa do Mundo em sua casa pela TV.

Durante a conversa com o repórter, ainda criticou a escolha do emirado como sede do Mundial: "A situação dos direitos humanos num país deveria desempenhar papel preponderante na escolha para sediar um evento como esse. Nesse quesito, porém, o Catar é um dos piores do mundo e cabe questionar quais foram os critérios que afinal determinaram sua escolha", concluiu.

Pano rápido.

A cada ano, milhares de migrantes saem de países mergulhados em crises econômicas, como Paquistão, Índia, Nepal e Bangladesh, rumo aos ricos emirados do Golfo Pérsico, entre os quais o Catar, para escapar da miséria de sua pátria e prover um sustento mínimo para suas famílias que ficaram para trás.

Sonho do migrante por vida melhor logo vira pesadelo

emirado do Catar ocupa uma área minúscula, de apenas 11,5 mil km², e é um dos Estados mais ricos da região, com suas gigantescas reservas de petróleo e gás natural. Dos seus 2,8 milhões de habitantes, estima-se que 2,2 milhões sejam trabalhadores estrangeiros, que representam 78,6% da população total (Dados do Banco Mundial, 2020).

De 2006 até 2020, a população praticamente triplicou por conta da vinda de trabalhadores estrangeiros alocados em boa parte nas obras da construção civil. Uma vez tendo chegado ao Catar, o sonho do migrante por uma vida melhor rapidamente se transforma num pesadelo: jornadas de trabalho muito longas, acomodações insalubres e anti-higiênicas, insegurança jurídica e extrema dependência do empregador.

A ONG Anistia Internacional publicou um relatório em agosto de 2021 de acordo com o qual morreram aproximadamente 15 mil trabalhadores estrangeiros entre 2010 e 2019, sendo que em 70% dos casos a causa mortis não foi devidamente esclarecida. Vale lembrar que no Catar, em caso de falecimento do trabalhador estrangeiro, não é feita a autópsia para determinar a causa da morte. O Comitê Organizador local da Copa do Mundo alega, entretanto, que até fevereiro de 2021 morreram apenas 34 trabalhadores em obras da construção dos hipermodernos estádios padrão Fifa.

Reformas superficiais e insuficientes

Enquanto as denúncias sobre a violação dos mais elementares direitos humanos no Catar se multiplicavam na mídia, o emirado investiu no ponto fraco de amplos setores do Ocidente: sua venalidade. Entrou em grande estilo no mundo dos negócios bilionários em que se transformou o futebol. Adquiriu direitos de TV para transmissão de jogos de futebol, comprou grandes clubes como Paris Saint-Germain e se tornou o principal patrocinador de outros, como o Bayern de Munique.

Operários enfrentam longas jornadas de trabalho, acomodações insalubres e insegurança jurídica
© Maya Alleruzzo/AP Photo/picture allianceOperários enfrentam longas jornadas de trabalho, acomodações insalubres e insegurança jurídica

Apesar de contínuas promessas da monarquia absolutista do Catar de implementar melhorias nas condições de trabalho dos operários estrangeiros, organizações defensoras dos direitos humanos lamentam que, poucos meses antes do pontapé inicial da Copa, as reformas preconizadas foram feitas de modo superficial e insuficiente, além do que sua efetivação não é controlada por algum órgão governamental e muito menos por agências independentes.

Pelo contrário. Foram denunciados novos casos de retrocessos, especialmente no que se refere à violação sistemática dos direitos humanos: "Na prática, não houve melhoria alguma nas condições de vida dos migrantes", constataram os autores de um relatório recente da Anistia Internacional.

"Futebol deveria ser para todos"

Hansi Flick, técnico da seleção alemã, lamenta os efeitos negativos que estão impactando esta polêmica Copa no Catar e se manifestou no jornal Frankfurter Rundschau: "Tenho muitos conhecidos que gostariam de ir, mas por motivos diversos não viajarão. Preços altíssimos, homofobia inaceitável, violação dos direitos humanos, exclusão de minorias. O futebol deveria ser para todos, mas essa Copa não é para o torcedor comum."

Confrontado pela reportagem sobre a situação no país, Flick declarou: "Uma tomada de posição a esse respeito por parte da seleção nacional será um desafio para todos os envolvidos. Vamos nos reunir agora em setembro e pensar bem no que nós, provavelmente em conjunto com outras seleções, podemos fazer."

Fora as protocolares conclamações de praxe pela confraternização de todos os povos através do futebol, nada mais poderá ser feito. A Fifa adora argumentar que um megaevento como uma Copa do Mundo pode trazer melhorias para a população do país-sede. Não traz, e é ilusão pensar que regimes políticos autoritários possam ser movidos rumo a uma maior abertura lenta e gradual do regime só porque o mundo inteiro está de olho.

Ao fim e ao cabo o dirigente máximo da Fifa, Gianni Infantino, vai confraternizar com patrocinadores e políticos de toda sorte nos camarotes VIP dos estádios construídos à custa de milhares de vidas para comemorar, como ele costuma dizer, "a melhor copa do mundo de todos os tempos".

Para muitos, e especialmente para os operários migrantes que ergueram os luxuosos templos do futebol no Catar, será apenas a Copa da vergonha alheia.

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Gerd Wenzel começou no jornalismo esportivo em 1991 na TV Cultura de São Paulo, quando pela primeira vez foi exibida a Bundesliga no Brasil. Atuou nos canais ESPN como especialista em futebol alemão de 2002 a 2020, quando passou a comentar os jogos da Bundesliga para a OneFootball de Berlim. Semanalmente, às quintas, produz o Podcast "Bundesliga no Ar". A coluna Halbzeit é publicada às terças-feiras.

DW

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quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Santa Catarina: Governo promete instalação da Cátedra da Diáspora, Migrações e Estudos Interculturais em 2022


Santa Catarina: Governo promete instalação da Cátedra da Diáspora, Migrações e Estudos Interculturais em 2022

O governante adiantou estas informações em declarações à imprensa no final de um encontro que manteve hoje com o reitor da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), Arlindo Barreto e a presidente da Câmara Municipal de Santa Catarina, Jassira Monteiro, e de visitar as instalações do Pólo III da Uni-CV, situado em Achada Falcão, no município de Santa Catarina, onde vai ficar sedeada a referida cátedra.

Jorge Santos avançou que a criação e implementação da cátedra, que faz parte do Plano Estratégico da Diáspora 2022-2026, vai ser ainda este ano, após a assinatura de um memorando entre a Uni-CV e o Governo.

No encontro, adiantou que se discutiu a necessidade de o País ter uma Cátedra da Diáspora, Migrações e Estudos Interculturais, em vez de um Centro de Investigação e Estudos da Diáspora, Migrações e Interculturalidades, como inicialmente desenhada pelo Governo.

“Uma cátedra, porque é uma unidade autónoma da Uni-CV para estudos da nossa diáspora que é imensa e espalhada por todo o mundo (…) e estudar a dinâmica dessas nossas comunidades que representam dois terços da nossa população”, explicou.

“O objectivo principal desta cátedra é justamente estudar, investigar, conhecer e ter todo o conhecimento dessas nossas comunidades. E a partir desses estudos produzir conhecimentos e recomendações científicas necessárias para a construção de políticas públicas a nível nacional e local para criar os instrumentos de ligação entre a nossa diáspora e o País a nível económico, social, cultural, desportiva e em todas as áreas de actividades”, reforçou.

Na ocasião, Jorge Santos justificou a escolha de Santa Catarina para albergar a Cátedra da Diáspora, Migrações e Estudos Interculturais com o facto de o município ser um dos “epicentros mais importante da Diáspora cabo-verdiana”.

Daí, assegurou que a própria Uni-CV, através da Faculdade de Educação e Desporto (FAED), tem todas as condições quer a nível da infra-estrutura e da capacidade humana para receber este projecto que conta com parceiros nacionais e internacionais.

O ministro Jorge Santos, que esteve acompanhado da secretária de Estado do Ensino Superior, Eurídice Monteiro, notou ainda que, associado a este projecto, estão outros elementos como cursos, formações, mestrados em assuntos que dizem respeito à diáspora mormente línguas, sobretudo a portuguesa e crioula.

Por outro lado, disse acreditar que este projecto vai permitir a internacionalização da Uni-CV, em particular da FAED, tendo em conta que muitos cabo-verdianos que estão em África, na Europa e nos Estados Unidos da América vão querer estudar na Uni-CV e a mesma entrar em contacto com as universidades que acolhem a comunidade cabo-verdiana.

Por seu vez, a chefe do executivo municipal de Santa Catarina congratulou-se com a escolha desse município santiaguense para albergar a sede deste projecto, sustentando que a mesma se justifica pelo facto de o concelho que dirige ser um dos “maiores epicentros da diáspora cabo-verdiana”.

Por isso, lembrou que a edilidade se engajou desde a primeira hora por acreditar que a referida cátedra, enquanto unidade de investigação científica aplicada à diáspora cabo-verdiana, na Uni-CV, vai permitir a internacionalização do município de Santa Catarina e da sua história.

asemana.publ.cv/

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O que é a síndrome de Ulisses, que afeta os migrantes

 

Ilustração de mulher com mão na cabeça, que está abaixada
Os migrantes podem passar por vários tipos de luto, mas certas condições podem causar a síndrome de Ulisses

"Não se deve expulsar as pessoas da sua terra ou do seu país, não à força", dizia o poeta argentino Juan Gelman (1930-2014).

Mas existem em todo o mundo cerca de 281 milhões de migrantes internacionais (3,6% da população mundial), segundo dados da ONU de 2020.

Algumas pessoas emigram porque assim desejam, mas outras são obrigadas a emigrar. No final de 2019, as pessoas deslocadas à força já eram mais de 79,5 milhões, segundo a ACNUR, a Agência das Nações Unidas para os Refugiados.

Seja por vontade própria ou não, os migrantes podem sentir-se como dizia Gelman — uma "planta monstruosa", com raízes a milhares de quilômetros de distância do caule e das folhas.

E sempre haverá circunstâncias, na chegada ao seu destino, que reduzirão ou agravarão essa situação. Tudo isso, sem dúvidas, traz repercussões sobre a saúde mental.

A fronteira entre a saúde mental e o transtorno

O psiquiatra espanhol Joseba Achotegui é secretário da Associação Mundial de Psiquiatria e trabalha com temas relacionados à migração. Ele começou a observar certas mudanças em 2002.

"As fronteiras foram fechadas, foram criadas políticas mais rígidas contra a migração, as pessoas deixaram de ter acesso a documentos e havia uma enorme luta pela sobrevivência", contou ele à BBC News Mundo — o serviço de notícias em espanhol da BBC.

Essa nova situação trouxe reflexos na forma como chegavam os pacientes para consultá-lo. "Estavam indefesos, assustados, não conseguiam seguir adiante", segundo ele.

Concretamente, ele observou que muitos migrantes que passam por situações difíceis apresentavam "um quadro de reação de estresse muito intenso, crônico e múltiplo". Achotegui deu a esse quadro o nome de "síndrome de Ulisses".

O psiquiatra esclarece que não se trata de uma patologia, já que "o estresse e o luto são normais na vida", mas salienta a peculiaridade da síndrome que deixa o migrante, novamente, em uma fronteira — não geográfica, mas psicológica, entre a saúde mental e o transtorno.

Luto migratório x síndrome de Ulisses

Normalmente associamos a palavra "luto" ao sentimento que surge após a morte de um ente querido. Mas os psicólogos relacionam o termo a qualquer perda sofrida pelo ser humano, como sair de um trabalho, a separação de um casal ou mudanças no nosso corpo.

"Cada vez que experimentamos uma perda, precisamos nos acostumar a viver sem o que tínhamos e adaptar-nos à nova situação. Ou seja, é preciso trabalhar o luto", explica a psicóloga espanhola Celia Arroyo, especialista em luto migratório.

Assim, o luto migratório está associado a essa grande mudança na vida de uma pessoa. Mas tem características que o tornam especial, já que é um luto "parcial, recorrente e múltiplo".

Paisagem ampla de Caracas, com montanhas ao fundo e dia ensolarado
É possível sofrer luto pela língua, pelos costumes... ou pela paisagem

Parcial porque não é uma perda total, como ocorre com a morte de alguém; recorrente porque, como em qualquer viagem, pode ser reaberto com a comunicação com o país ou simplesmente olhando uma fotografia no Instagram; e múltiplo, porque não é só uma coisa que se perde, mas muitas.

Joseba Achotegui reuniu essas perdas em sete categorias.

A mais evidente costuma ser a perda da família e dos entes queridos. Existe também a perda de status social - algo que, segundo Arroyo, costuma ocorrer com a condição de migrante, mas se, além disso, "o país for xenófobo, surge uma grande adversidade".

Outro luto para o migrante é o da perda da terra: sentir falta, por exemplo, de uma paisagem montanhosa ou dos dias cheios de sol.

Some-se ainda o luto do idioma, que será mais forte nos casos de migração para um país onde se fala outra língua. Pode ser uma forte barreira, por exemplo, para trâmites burocráticos ou para mandar um simples correio eletrônico.

Existe também a perda dos códigos culturais. Ela pode representar algo simples como não ter com quem dançar uma música típica ou tomar uma bebida local do país de origem.

E, associada a essa perda, encontra-se a perda de contato com o grupo de pertencimento - aqueles com quem podemos falar nos mesmos códigos, que entenderão as nossas gírias e a forma de ver a vida.

A síndrome de Ulisses ocorre quando, além de precisar passar por estes lutos normais, o migrante enfrenta condições difíceis, segundo explica Achotegui.

Ilustração de mulher preocupada, com ícones de coração partido, cifrão e etc ao lado
Existem vários fatores que podem estressar um migrante no país que o acolhe

Fatores desencadeantes

"Quando há dificuldades ou a pessoa é rejeitada na sociedade que a acolhe, esta síndrome pode acontecer", explica Guillermo Fauce, professor de psicologia da Universidade Complutense de Madri, na Espanha, e presidente da organização Psicologia sem Fronteiras.

Chegar a um país novo com um trabalho estável é muito diferente de não ter nenhuma segurança; da mesma forma que ter ou não garantia de teto e comida, ou entrar com visto ou com status legal a definir. Ter ou não certas condições acrescenta pontos e estresse.

"A rejeição que pode causar mais impactos é não ter documentos ou não poder ter acesso a determinados recursos", afirma Fauce.

Já Achotegui explica que esta situação faz com que os migrantes não consigam seguir adiante, gerando tensão e problemas de sobrevivência - outro fator desencadeante da síndrome.

Pode-se acrescentar ao panorama não ter pessoas ao nosso redor para oferecer apoio, não apenas material (onde morar, comer e dormir), mas também emocional. "Muitos migrantes sofrem situações de solidão, eles estão isolados", destaca Achotegui.

Fauce assinala que existe também um apoio simbólico que, quando ausente, torna-se outro fator desencadeante. Trata-se do reconhecimento e da compreensão das condições do migrante pelo seu entorno, "que ele está passando por uma situação complicada, atravessando muitos lutos e que seja oferecido a ele um período de transição na sociedade que o acolheu".

Duas pessoas rindo em festa ao ar livre durante o dia
Os especialistas recomendam aos migrantes fazer laços com a comunidade de origem, mas também com a sociedade que os acolhe

Às vezes, pode-se pensar que "o pior" já passou ao cruzar a fronteira em más condições. Mas, no país de acolhida, a sensação de estar indefeso, sem direitos e os possíveis abusos trabalhistas e sexuais podem dar lugar a um quarto fator desencadeante: o medo.

Os especialistas consultados acrescentam que esta situação de vulnerabilidade pode ocasionar a síndrome de Ulisses, principalmente entre as mulheres.

O que pode acontecer e quando devemos estar alertas

Achotegui esclarece que os sintomas podem ser os mesmos de quando passamos por uma época ruim: dormir mal, dificuldade para relaxar, dores musculares ou de cabeça, tédio, nervosismo e tristeza.

Fauce destaca que, por um lado, o migrante pode entrar em uma espécie de estado depressivo e de tristeza, recolhendo-se em si mesmo, e, por outro lado, pode ficar hiperativo e ansioso, o que acaba consumindo energia.

Isso pode fazer com que a síndrome de Ulisses seja confundida com outras doenças mentais, como a depressão ou o estresse pós-traumático, e termine sendo medicada. Mas, neste caso, quando os obstáculos que deram origem à síndrome são solucionados (disponibilidade de trabalho, certa estabilidade, menos estresse etc.), a síndrome desaparece.

"Se o migrante segue em frente, consegue trabalho e atinge uma certa estabilidade, mas os sintomas continuam, existe aí algo mais a ser avaliado e é preciso intervir de outra forma, porque pode ser que haja outra coisa já no plano psiquiátrico, como um quadro depressivo", explica Achotegui.

Equipe feminina de futebol se alongando no campo
A prática de exercícios e a aproximação da comunidade de origem podem ajudar a reduzir o estresse

Por isso, quando o mal-estar se tornar permanente ou nos impedir de levar a vida adiante, é preciso soar o alarme.

Outros sinais de alerta destacados por Fauce são eventuais acessos de raiva, prejuízo às relações sociais ou "a tomada de atalhos, como o consumo de drogas ou álcool, gastos exorbitantes ou esportes de risco".

O que fazer ou não fazer

"É fundamental criar uma rede de apoio social, manter contato com outros imigrantes e compartilhar moradias", destaca Celia Arroyo. Para isso, é bom procurar migrantes da mesma nacionalidade ou grupos de apoio específicos.

Achotegui afirma que isso traz "menos risco de transtornos mentais", mas ficar muito ancorado na comunidade de origem pode causar menos progressos. "Se você não se integrar à sociedade de acolhida, o progresso será difícil. É questão de equilíbrio", explica ele.

Ou seja, o caminho é manter "as raízes" com água, mas sem esquecer as folhas, que devem ficar onde possam receber sol.

Achotegui também recomenda fazer exercícios e atividades que reduzam o estresse.

Já Fauce destaca que "cortes radicais não funcionam, nem decisões drásticas", seja com relação ao país de origem ou ao de acolhida, bem como às relações criadas nos dois países.

Arroyo destaca que, embora seja difícil fornecer um tempo preciso, se o sofrimento não for reduzido em três meses depois de atingir a estabilidade, é bom pedir ajuda psicológica.

O que os outros podem fazer

A sociedade de acolhida desempenha um papel importante, mas quem não passou por essa situação pode não entender o que significa o luto migratório, nem o estresse prolongado causado pela síndrome de Ulisses. Por isso, talvez não se saiba como ajudar, o que dizer ou o que fazer.

Celia Arroyo recomenda que o entorno do migrante permita que quem estiver nesta situação possa expressar-se livremente e falar do que acontece e como se sente.

"É importante não minimizar o sofrimento, nem gerar falsas esperanças" ante um futuro incerto quando, por exemplo, o visto e o trabalho não chegam. Como em qualquer luto, é preciso evitar frases como "logo vai passar", "não é para tanto", "isso é medo seu" ou "tudo vai acabar bem".

Achotegui sugere não se compadecer, nem vitimizar. "É preciso aproximar-se com respeito e até com certa admiração. O migrante é uma pessoa forte, alguém que está seguindo adiante."

Por outro lado, é importante respeitar sua cultura, mentalidade e visão de mundo.

Se a conexão emocional com alguém nesta situação for difícil, Fauce recorda que todos nós já sofremos alguma perda. Por isso, conectar-se àquela emoção que já tivemos é um bom exercício para criar empatia com o migrante.

E acreditar que, como escreveu a uruguaia Cristina Peri Rossi, emigrar - partir, enfim - é sempre se partir em dois.

Alicia Hernández @por_puesto - 

BBC News Mundo

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quarta-feira, 17 de agosto de 2022

ONU Mulheres, ACNUR e Pacto Global unem esforços pela empregabilidade de mulheres refugiadas e migrantes no Brasil

 Por meio de diferentes iniciativas, agências buscam mobilizar instituições e empresas não apenas para a abertura de vagas, mas também pela capacitação e por políticas mais inclusivas

ONU Mulheres, ACNUR e Pacto Global unem esforços pela empregabilidade de mulheres refugiadas e migrantes no Brasil/noticias mulheres refugiadas mulheres migrantes moverse
Há menos de um ano no Brasil, Mariangel participou da formação do Empoderando Refugiadas em Roraima e logo foi contratada pelo Iguatemi em Campinas (© ONU Mulheres Brasil / Claudia Ferreira)

Experientes em ações de empoderamento feminino, acolhimento de pessoas refugiadas e mobilização do setor privado, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), a ONU Mulheres, entidade das Nações Unidas para a igualdade de gênero e empoderamento das mulheres, e o Pacto Global da ONU no Brasil uniram esforços com o objetivo de alavancar a inclusão socioeconômica de mulheres refugiadas e migrantes no país. Por meio da ação conjunta e articulada em diferentes projetos, as entidades da ONU estão mobilizando instituições e empresas para incluir mais mulheres refugiadas e migrantes no mercado de trabalho, com capacitação e acompanhamento para a integração no novo destino.

Além de mobilizar pela abertura de novas oportunidades de emprego, as agências também trabalham para criação de iniciativas que fortaleçam os direitos econômicos e as oportunidades de desenvolvimento das mulheres refugiadas e migrantes. E, para aquelas que optaram por abrir o próprio negócio, as agências buscam apoiar na conquista de novos mercados e na inclusão nas cadeias produtivas já existentes.

A ação integrada se dá por meio de quatro iniciativas já existentes. O primeiro é o Moverse, programa conjunto implementado por ACNUR, ONU Mulheres e Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), com o financiamento do Governo de Luxemburgo. Este programa busca garantir que políticas e estratégias de empresas públicas, privadas e instituições fortaleçam os direitos econômicos e as oportunidades de desenvolvimento entre refugiadas e migrantes venezuelanas. A principal ação do programa nesse sentido é o apoio a empresas para que desenvolvam e implementem um plano de ação com foco no empoderamento econômico dessas mulheres – e que pode incluir desde cursos de aperfeiçoamento profissional, creche e apoio à educação de filhos e filhas até inclusão de refugiadas e migrantes na cadeia de suprimentos e estratégias de comunicação que retratem e empoderem essas mulheres.

A segunda iniciativa é o Empoderando Refugiadas, desenvolvido por ACNUR, ONU Mulheres e Pacto Global. Em sua sétima edição, o projeto busca fomentar a empregabilidade de mulheres refugiadas e migrantes acolhidas em abrigos emergenciais de Boa Vista (RR) no mercado de trabalho brasileiro – incluindo mulheres LGBTIQ+, mulheres com deficiência e com mais de 50 anos. Por meio dessa iniciativa, as empresas interessadas podem colaborar por meio da contratação, capacitação ou financiamento de atividades que contribuem com o empoderamento econômico das mulheres. A sétima edição conta com o patrocínio de Lojas Renner SA e apoio de Iguatemi.

Já o Fórum Empresas com Refugiados é uma iniciativa desenvolvida por ACNUR e Pacto Global que, atualmente, conta com mais de 50 empresas e organizações membros. O objetivo é fomentar trocas e aprendizagem entre as empresas participantes, focando na contratação inclusiva de pessoas refugiadas, incluindo desafios, oportunidades e boas práticas, com ações exclusivas voltadas para populações específicas, como famílias monoparentais chefiadas por mulheres. E a quarta iniciativa que faz parte dessa abordagem integrada é a plataforma Refugiados Empreendedores, desenvolvida por ACNUR e Pacto Global para divulgar negócios de pessoas refugiadas. Por meio da plataforma, que oferece visibilidade aos negócios liderados por pessoas refugiadas no Brasil, em sua maioria mulheres, é possível comprar produtos e se comunicar diretamente com as empreendedoras.

Quando participam de uma das iniciativas listadas, as instituições e empresas interessadas podem ampliar a atuação junto ao tema, passando a integrar os demais projetos. Por exemplo: uma empresa que já tenha assinado a Carta de Compromisso do programa Moverse pode apoiar o projeto Empoderando Refugiadas e pode integrar o Fórum Empresas com Refugiados – as duas ações colaboram, inclusive, para o cumprimento dos compromissos assumidos na assinatura da carta. E para apoiar na compreensão dessas possibilidades, é oferecido suporte da equipe do Moverse, que também atua no desenvolvimento de um plano de ação junto às empresas e instituições signatárias da carta.

Saiba mais sobre essa integração no folder disponível neste link

Oportunidade e recomeço – A venezuelana Mariangel é uma das milhares de mulheres que já foram alcançadas por essas iniciativas. No Brasil há menos de um ano, ela cruzou a fronteira da Venezuela com Roraima, na região Norte, com dois dos seus quatro filhos, uma irmã e uma sobrinha. Sem uma rede de apoio ou perspectivas de conseguir emprego, ela buscou uma vaga em um abrigo emergencial na capital, Boa Vista, e lá teve contato com o Empoderando Refugiadas.

Por dois meses, ela participou de cursos e capacitações sobre o mercado de trabalho no Brasil, sobre leis e direitos trabalhistas, e para desenvolver habilidades que pudessem aumentar suas chances de contratação. Assim que as aulas acabaram, ela recebeu uma proposta do shopping Iguatemi, em Campinas (SP), uma das empresas engajadas com o projeto. Com um emprego garantido, ela mudou com a família para o interior paulista e hoje voltou a fazer planos.

“Eu me sinto bem porque sou uma mulher empoderada, uma mulher que pode seguir em frente, uma mulher que pode lutar por seus filhos, dar tudo a seus filhos, trabalhar, e que não depende de outra pessoa para ter as coisas”, comemora. Conheça um pouco mais sobre a história de Mariangel no vídeo a seguir.

Para participar – Todas as iniciativas integradas estão alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e aos Princípios Orientadores da ONU sobre Empresas e Direitos Humanos. Para empresas que desejam aumentar o engajamento com a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres, a ONU Mulheres também incentiva a assinatura dos Princípios do Empoderamento das Mulheres (WEPs, da sigla em inglês), uma iniciativa global da ONU Mulheres e Pacto Global para orientador empresas sobre como empoderar as mulheres no ambiente de trabalho, no mercado e nas comunidades.

Para saber mais sobre os projetos e integrar alguma das ações, as instituições e empresas podem entrar em contato pelos seguintes endereços:
Moverse – flavia.muniz@unwomen.org
Empoderando Refugiadas – empoderandorefugiadas@pactoglobal.org.br
Fórum Empresas com Refugiados – empresascomrefugiados@pactoglobal.org.br
Refugiados Empreendedores – tarantin@unhcr.org

Onumulheres 

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Rede municipal de ensino tem 402 alunos migrantes de 19 países em Foz do Iguaçu

 

Foto Thiago Dutra 

Cidade fronteiriça, Foz do Iguaçu sempre se diferenciou de outros municípios por receber, na rede municipal de ensino, um grande número de alunos migrantes e considerar a diversidade cultural e linguística destas crianças.

Em 2018, com o aumento no fluxo migratório, a Secretaria Municipal da Educação intensificou o Programa de Acolhimento ao Aluno Migrante/Refugiado, o que tem garantido uma melhor adaptação e o desenvolvimento destes estudantes em sala de aula. Hoje, são 402 estudantes migrantes/refugiados de 19 países matriculados em 47 das 50 escolas da rede pública. 

O maior número é de alunos paraguaios (203), venezuelanos (193) e argentinos (22), mas o sistema também acolheu crianças de Cuba, Bolívia, Equador, Haiti, Colômbia, Peru, México, Chile, Síria, Líbano, Bangladesh, Costa do Marfim, Guiana Francesa, Portugal, Angola e Espanha. 

A coordenadora pedagógica do programa de acolhimento, Liane Chichoski, conta que o fluxograma estabelecido com as escolas e as parcerias com outras secretarias, como a de Direitos Humanos e Relações com a Comunidade, também contribuem para a adaptação das crianças na rede. 

“Ao analisarmos o perfil sócio-linguístico destes alunos, conseguimos planejar as formações para os nossos professores e buscar parcerias que nos auxiliem neste trabalho”, explica. “Muitas vezes, a própria comunidade árabe nos ajuda com o acolhimento de um aluno e a interação dele com a nova escola”, completou.

Respeito à diversidade

Na Escola Parigot de Souza, onde estudam alunos da Venezuela, Síria, Paraguai e Argentina, a diversidade cultural e linguística nunca foi uma barreira. Tanto é que a unidade recebeu recentemente o Prêmio Ibero-Americano de Educação Intercultural Bilíngue, que reconhece as experiências educacionais de interculturalidade e bilinguismo nas escolas da rede pública.

 “Tentamos sempre nos aproximar da língua materna deles [alunos]. Temos professores que falam o inglês e o espanhol, e auxiliam muitas vezes com as traduções, mas em sala utilizamos objetos e todas as ferramentas possíveis para uma interpretação, sempre valorizando a cultura de cada um”, explica a coordenadora da escola, Viviane Marques. 

No início deste ano, a unidade de ensino recebeu seu primeiro aluno sírio, o pequeno Jad Assani, de 6 anos. A família conta que foi muito bem recebida na escola e que Jad, mesmo com a pouca idade, aprende com muita facilidade. “Ele já falava o inglês e aprendeu o português muito rápido. Ninguém obrigou ele aprender, foi algo muito natural e nós também estamos aprendendo. Ele é muito feliz na escola e está aprendendo também o espanhol” disse o pai, Ahmad Assani. 

Segundo ele, a família deixou a Síria em busca de melhores condições de vida no Brasil. “A educação e a saúde são gratuitas, o que ajuda a gente a ficar aqui. Temos parentes e muitos amigos da comunidade árabe que incentivaram a gente vir para o Brasil”, contou Assani. 

Por conta da crise econômica na Argentina, Nilda Moreira e a família deixaram a capital, Buenos Aires, e se mudaram para Foz do Iguaçu há seis meses. A filha, Juana, de 7 anos, também está matriculada na Escola Parigot. “Eu fico muito contente e feliz por ela, que foi tão bem recebida. As professoras entendem, ajudam muito e estão sempre em contato comigo”, disse a mãe. 

Das 50 escolas da rede municipal, 47 possuem alunos migrantes. O levantamento nos Cmeis (Centro Municipal de Educação Infantil) está sendo feito pela coordenação do programa de acolhimento.

Atendimento

A legislação brasileira determina que estrangeiros têm direito ao acesso à educação da mesma forma que as crianças e os adolescentes brasileiros, conforme expresso pela Constituição Federal, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e pela Lei da Migração. Além disso, a Lei dos Refugiados garante que a falta de documentos não pode impedir o acesso à escola.

As famílias migrantes podem buscar diretamente a escola mais próxima para efetivar a matrícula ou procurar a Secretaria Municipal da Educação, no complexo Bordin.

Fonte: 

Foz.portaldacidade.com

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terça-feira, 16 de agosto de 2022

África do Sul. Superior dos Scalabrinianos visita o País e elogia pastoral dos migrantes

 O Superior Geral da Congregação dos Missionários de São Carlos (Scalabrinianos), P. Leonir Chiarello, esteve em visita canónica à África do Sul, ocasião para se inteirar da pastoral dos migrantes no País, particularmente nas dioceses de Joanesburgo e Cidade do Cabo.

Durante a sua permanência na África do Sul, de 3 a 15 de agosto, o P. Chiarello visitou os Centros Scalabrinianos e as Casas de abrigo e Paróquias geridas pelos Sacerdotes Scalabrinianos em Joanesburgo e na Cidade do Cabo. Nas suas visitas o Missionário teve a ocasião de manifestar o seu agradecimento aos Bispos das duas dioceses por permitirem que a Congregação dos Scalabrinianos partilhe com a Igreja local o seu carisma, para uma pastoral ao serviço dos migrantes e refugiados, ao mesmo tempo que a Igreja local também agradeceu o compromisso e dedicação dos missionários num serviço tão importante para a Igreja e a sociedade.

Foi neste âmbito que o P. Chiarello se encontrou também com os Arcebispos Dom Buti Tlhagale e Dom Stephen Brislin, das Arquidioceses de Joanesburgo e Cidade do Cabo, respectivamente, tendo elogiado os membros da Conferência Episcopal da África do Sul pelas suas iniciativas e notável empenho em cuidar dos migrantes e refugiados na região, acompanhando-os nas diferentes dimensões.

O P. Chiarello sublinhou ainda que a Congregação continuaria a trabalhar nas Paróquias, Centros de acolhimento e estudos, e também com os marinheiros. A África do Sul, enfatizou ainda o Superior Geral dos Scalabrinianos, assim como tantos outros Países está a enfrentar situações parecidas na área das migrações, mas com a sua especificidade, com a chegada de milhares de migrantes e refugiados de outros Países, e o constante desafio de tentar evitar que a xenofobia e a discriminação tomem conta da agenda. O desafio é sempre o de trabalhar juntos para acolher, proteger, promover e integrar os migrantes que chegam – concluiu o P. Chiarello.

Sheila Pires – Radio Veritas, em Joanesburgo (África do Sul)

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Arquidiocese de Brasília quer combater a pobreza e lança projeto Partilha

 O Projeto de ação social Partilha Brasília foi lançado nesta segunda-feira, dia 15. Dom Paulo Cezar: “queremos acolher, escutar a história de cada pessoa, ver como ajudá-los a sair da pobreza e exclusão que se encontram".

A Arquidiocese de Brasília lançou nesta segunda-feira, dia 15 o Projeto de ação social Partilha Brasília. O projeto tem como intuito ampliar a assistência a quem está em situação de vulnerabilidade social. De acordo com arcebispo de Brasília, dom Paulo Cezar Costa, a ideia do projeto nasceu da percepção do aumento da pobreza nos últimos anos. "Queremos acolher, escutar a história de cada pessoa, ver como ajudá-los a sair da pobreza e exclusão que se encontram", afirmou. 

O arcebispo de Brasília destacou que “o Projeto une diversas instituições da arquidiocese de Brasília, as obras sociais da arquidiocese de Brasília, Sistema Fecomércio, Senac, Sesc a Secretaria do trabalho, a Universidade Unieuro, empresários do DF, governo do DF, e outras associações, formando uma grande rede”.

Incapacidade de perceber o caído

Este projeto – continuou dom Paulo – “quer nos tirar da indiferença diante dos pobres, diante dos excluídos. A indiferença nasce sempre da incapacidade de perceber que o caído possui um rosto, uma face, é um ser humano, um ser humano que grita por justiça, que grita por unidade, que grita por reconhecimento”.


“A indiferença representa sempre uma visão antropológica pobre, indigna da grandeza do ser humano criado a imagem e semelhança de Deus. O Partilha Brasília quer encontrar as pessoas em seus sofrimentos através da escuta qualificada, aquelas pessoas que nos encontramos nos semáforos, que nós encontramos pelas ruas na nossa cidade”.


“Ao passar não queremos deixá-las na indiferença queremos sim oferecer alguma para elas. Então cada pessoa que a gente encontrar a gente vai oferecer um cartãozinho onde esta pessoa será conduzida para uma escuta qualificada. E essa escuta qualificada, já ali dará respostas imediatas à questão de alimentação, de vida, de dignidade”.


Sair da situação de pobreza

Mas o projeto quer mais, disse ainda dom Paulo: “o objetivo principal é aquele de ajudar as pessoas através de projetos e parcerias, a sair da situação de pobreza, tornando-se sujeitos da própria história. Queremos acolher a pessoa onde ela está. Escutar sua história, seu sofrimento, seus desafios e oferecer respostas imediatas às suas situações”.


“Mas queremos também encaminhá-la. Encaminhá-la para uma requalificação, encaminhá-la para aquele encaminhamento que a sua história precisa, que a sua história necessita naquele momento”.


O arcebispo de Brasília fez votos de que essa grande união da arquidiocese de Brasília com outras instituições possa fazer a diferença no DF. “Possa ajudar tontos irmãos irmãs que estão vivendo numa condição sub-humana, que estão vivendo a insegurança alimentar, a começarem a viver como filhos e filhas amados por Deus”.

Pontos de atendimento

A primeira ação anunciada pelo projeto é a criação de três pontos de atendimento aos mais pobres. Eles vão ficar no Prédio da Oassab, 601 Sul, no Santuário São Francisco de Assis que fica na 915 Norte e na Paróquia Sagrado Mercês, localizada na 615 Sul. Além disso, serão confeccionados cartões-atendimento, com os endereços dos pontos de atendimento.  O projeto também oferecerá vagas em comunidades terapêuticas para acolher quem necessita desse tipo de suporte especializado, além de ações para atendimento à população em situação de rua. Por fim, ainda será ofertado um programa de microcrédito, por meio do qual, pequenos empréstimos serão concedidos a pequenos empreendedores.


Vatican News


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segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Cáritas participa de ação de cidadania em parceria com a FAS

 Uma ação de cidadania promovida pela Fundação de Ação Social (FAS), na sexta-feira (12/8), levou mais de 80 famílias, muitas delas estrangeiras, ao Centro de Referência de Assistência Social (Cras) Caximba, na Regional Tatuquara, em busca de serviços jurídicos, assistenciais e de migração, principalmente para regularização de documentos.

Famílias buscam de serviços jurídicos, assistenciais e de migração. – Na imagem, Karina Lovera, José Angel e os filhos Eduard e Santiago. Curitiba, 12/08/2022. Foto: Sandra Lima

A ação é uma parceria com o Ministério Público e a Cáritas Brasileira – instituição ligada à igreja católica que busca a promoção e a garantia de direitos das populações mais vulneráveis – na Regional Tatuquara.

Durante toda a tarde, equipes das três instituições fizeram encaminhamentos e deram orientações. Equipes da FAS ofertaram atendimentos a quem precisou de serviços relacionados à defesa e garantia de direitos, como inscrição no Cadastro Único e solicitação de benefícios sociais (Auxílio Brasil e de Prestação Continuada).

Na área jurídica, as famílias receberam informações do Ministério Público sobre direito de família – divórcio, pensão alimentícia, visita de filhos, reconhecimento de paternidade, com registro do nome do pai na certidão de nascimento do filho e paternidade socioafetiva.

Os migrantes foram atendidos pelos voluntários da Cáritas para a regularização migratória e para integração no trabalho. As famílias em maior situação de vulnerabilidade social receberam da instituição religiosa um cartão para compra de alimentos.

Os estrangeiros também foram convidados pela equipe da Escola Municipal Profª Joana Raksa a participar de um curso de Língua Portuguesa.

Famílias buscam de serviços jurídicos, assistenciais e de migração. – Na imagem, Karina Lovera, José Angel e os filhos Eduard e Santiago. Curitiba, 12/08/2022. Foto: Sandra Lima

Descentralização

A supervisora do Núcleo Regional da FAS na Regional Tatuquara, Cintia Aumann explicou que a ação teve o objetivo de garantir que todas as famílias da região tenham acesso a serviços de cidadania.

“O Cras é um espaço de defesa e de garantia de direitos, então é uma obrigação da FAS e da política da assistência social pública fazer essa acolhida, enxergar quais são as pessoas que nós temos na região e suas necessidades.”

De acordo com o promotor de Justiça das Comunidades do Ministério Público, Régis Sartori, a oferta dos serviços jurídicos faz parte de um projeto de descentralização de atendimentos.

Para o administrador da Regional Tatuquara, Marcelo Ferraz César, a descentralização dos serviços é o fator mais relevante da ação de cidadania. “A força motriz deste trabalho é, com certeza, o fácil acesso aos serviços ofertados no território onde as famílias atendidas vivem.”

Maior procura

A inclusão no Cadastro Único foi um dos serviços mais procurados pelas famílias. O Cadastro permite acesso aos benefícios sociais dos governos federal, estadual e municipal. A regularização de documentos também levou dezenas de famílias até o Cras. A venezuelana Gênesis Solorzano, 26 anos, procurou a Cáritas para a regularização migratória do marido.

“O visto dele vence em dezembro e precisamos resolver isso o quanto antes”, contou a mulher, mãe de dois filhos, de 11 e 4 anos, que já é acompanhada pelo Cras para serviços da assistência social.

Gênesis foi ao Cras acompanhada da irmã Leidi, 22, e da mãe, Alma, 40, que está grávida do 11º filho. Ela e a irmã sonham viver da produção de bolos e doces, por isso foram encaminhadas pela FAS para fazer o curso Gastronomia Gourmet.

Em Curitiba desde setembro de 2021, o venezuelano José Angel, 38, participou da ação com a mulher, Karina Lovera, 35, e os dois filhos, Eduar, 15, e Santiago, 12. Eles também buscavam a regularização dos documentos.

Separada do ex-marido há 20 anos, a baiana Jusineide Santos Silva, 53 anos, foi atendida pela equipe do MP para fazer o divórcio. Ela contou que já tentou fazer o documento em outro momento, mas encontrou dificuldades e desistiu.

Programação

Mais três ações de cidadania estão programadas para acontecer na Regional Tatuquara, nos dias 16 de setembro, 14 de outubro e 11 de novembro. A próxima ação contará também com serviços da Defensoria Pública.

Para convidar a população local a buscar atendimento, a FAS produziu materiais digitais e impressos em português, espanhol e  crioulo, idioma falado pelos haitianos.

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