terça-feira, 18 de maio de 2021

Políticas públicas do Brasil impulsionam inclusão de refugiados e migrantes da Venezuela

 

Família venezuelana abrigada em Manaus: apesar do marco legal favorável no país, adultos enfrentam dificuldades no mercado formal de trabalho e recebem salários menores. (Foto: ACNUR / Felipe Irnaldo)

Um novo estudo do Banco Mundial e do ACNUR (Agência da ONU para Refugiados), lançado oficialmente hoje, destaca os desafios enfrentados por pessoas refugiadas e migrantes da Venezuela forçadas a deixar seu país e que tentam reconstruir suas vidas no Brasil.

Estima-se que cerca de 260 mil venezuelanos vivem atualmente no Brasil após deixaram seu país devido à uma crise social, política e econômica. Apesar do marco legal favorável no Brasil, muitos deles enfrentam obstáculos para acessar serviços sociais, o mercado de trabalho formal e o sistema educacional. Estas barreiras estão relacionadas ao idioma, dificuldades em validar documentos escolares e em confirmar capacidades profissionais.

Embora tenham níveis de educação similares, venezuelanos são 64% menos propensos a serem empregados que seus anfitriões brasileiros, e suas crianças têm 53% menos de probabilidades de estarem nas escolas.

O Brasil prove assistência social a não-brasileiros independentemente do seu status legal no país, incluindo durante a pandemia da COVID-19. O número de refugiados e migrantes da Venezuela acessando ajuda financeira por meio de programas sociais aumentou três vezes desde o início da pandemia do novo coronavírus. Atualmente, 18% dos venezuelanos recebem este tipo de apoio.

Entretanto, esta população é 30% menos provável de ser registrada para receber este tipo de apoio. Aqueles que recebem ajuda financeira têm níveis de educação e de qualificação profissional mais altos que os beneficiários nacionais.

Crianças venezuelanas no Brasil: falta de vagas e de professores que falam espanhol dificultam seu desempenho e escolar no país. Apenas 45% delas estão matriculadas, contra 85% entre os brasileiros. (Foto: ACNUR / Sebastian Roa)

No setor educação, tanto as crianças e os adolescentes em idade escolar estão em desvantagem se comparados com seus pares brasileiros. De acordo com o censo educacional de 2020, apenas 37.700 (ou 45%) das crianças venezuelanas estavam matriculadas em escolas – comparadas com mais de 85% de crianças e adolescentes brasileiros.

Mesmo quando conseguem se matricular, as crianças e adolescentes venezuelanos geralmente frequentam escolas mais cheias e são alocadas em níveis mais baixos. A falta de professores que falam espanhol é outro grande obstáculo ao sucesso delas nas salas de aula.

“Inclusão e integração em um país estrangeiro são um processo de longo prazo que requer uma abordagem verdadeiramente holística, e também compromisso e recursos para serem efetivas”, afirma Nikolas Pirane, economista associado ao ACNUR e que trabalhou no estudo.

O ACNUR estimula o Governo do Brasil a continuar implementando políticas públicas que respondam às dificuldades que refugiados e migrantes venezuelanos enfrentam, como facilitar o processo de validação de diplomas e a verificação de capacidades, ampliar o treinamento em idiomas para profissionais e professores do sistema de educação, assim como ampliar a capacidade das escolas – especialmente na região norte do país.

A Agência da ONU para Refugiados está apoiando estes esforços de integração acompanhando o processo de validação de diplomas, por meio de parcerias com o setor privado e programas que estimulam a empregabilidade de mulheres refugiadas, entre outras iniciativas. Também apoia a estratégia de interiorização do governo federal, transferindo pessoas desde o Estado de Roraima para outras regiões do país – onde existem melhores perspectivas para alcançar autonomia.

Entre os venezuelanos que vivem no Brasil, cerca de 47 mil já foram reconhecidos como refugiados pelo governo brasileiro, enquanto outros 145 mil receberam vistos de residência temporária. Outros 96 mil aguardam uma decisão sobre seus pedidos de reconhecimento da condição de refugiado.

https://www.portalr3.com.br/

www.miguelimigrante.blogspot.com

Semec participa de oficina sobre Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil de Crianças Migrantes

 



Com 196 estudantes da etnia Warao matriculados na rede municipal de ensino, a Secretaria Municipal de Educação (Semec), por meio da Coordenadoria de Educação para Indígenas, Imigrantes e Refugiados (Ceiir), participou nesta segunda-feira, 17, da Oficina sobre Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil de Crianças Migrantes em Belém, promovida  pelo Projeto Canicas com a parceria da Organização Internacional para as Migrações (OIM). O encontro foi transmitido pela plataforma Google Meet e teve a participação de professores, gestores, diretores e coordenadores das unidades educacionais de Belém.

Na abertura, a secretária de Educação, Márcia Bittencourt, destacou que a Semec já tem um olhar cuidadoso para a educação das crianças do povo Warao. Ela informou que, recentemente, visitou a Escola Amigos Solidários, no bairro do Tapanã, para verificar a possibilidade de implantar no espaço a primeira escola de educação infantil e ensino fundamental de concepção intercultural multibilíngue para imigrantes, indígenas e refugiados em áreas urbanas do Brasil.

Oficina - O Canicas é um projeto de prevenção e erradicação do trabalho infantil migrante na indústria têxtil, desenvolvido em parceria com o Fundo Brasil de Direitos Humanos e a organização Presença da América Latina (PAL). Outro parceiro para a realização da formação foi a Organização Internacional para as Migrações, que desde 1951 vem dedicando a promover uma migração segura, ordenada e digna para o benefício de todos, por meio de serviço e consultoria para governos e migrantes.

Débora de Pina Castiglione e Rocio Shuna, consultoras técnicas do projeto Canicas, explicaram as definições corretas sobre migrações internacionais, migração na infância, mitos sobre a migração, interseções e interculturalidade, trabalho infantil, mitos do trabalho infantil, interseções entre trabalho infantil e migração. Destacaram ainda a respeito da legislação de migração brasileira e o direito das crianças.

Ao pontuar os mitos sobre o trabalho infantil, que poderia trazer à disciplina, seriedade, coragem, ascensão social, Débora Castiglione disse que “a disciplina e outros valores podem ser ensinados junto à família e à escola, de maneira adequada à idade”. Ela frisou que “a educação é o principal caminho de ascensão social e de melhores condições de vida de uma geração para a outra”.

Professores - Entre muito professores encantados com a oficina estava a professora Lorena Medeiros, da Unidade de Educação Infantil de Itaiteua, localizada no distrito de Outeiro.

Ela conta que a oficina foi significativa, por promover um bom acolhimento às crianças migrantes da rede municipal de Belém. “Este momento está sendo significativo, pois são novos aprendizados por se tratar de um público novo e que nos exigirá conhecimento. Estas práticas devem estar presentes em nosso cotidiano”, afirmou.

A professora formadora, Kátia Tavares, também destacou durante a oficina que a Semec por meio da Ceiir planeja atender os Warao, na nova escola Amigos Solidários, “numa perspectiva de que eles tenham um novo projeto de educação, pautados nos direitos destas crianças, envolvendo a condição de indígenas e imigrantes, respeitando a necessidade deste intercâmbio de conhecimentos, de saberes”.

Ela afirmou a importância de uma educação que respeite o processo de transição, pelo qual passam as crianças Warao, para que garanta a elas a assimilação de novos saberes, mas considerando suas peculiaridades.

Serviço
A oficina segue nos dias 21, 24, 28 e 31 de maio e 04, 07 e 10 de junho. São 25 vagas destinadas a professores e 25 a gestores, priorizadas de acordo com a ordem de inscrição. As inscrições podem ser feitas no https://forms.gle/YrRynnmfsRsfsyV89

https://redepara.com

www.miguelimigrante.blogspot.com

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Hospitalidade e hostilidade no campo das migrações

 


De acordo com a filósofa italiana Donatella Di Cesare, “a hospitalidade mostra sua perturbadora conexão com a hostilidade” (Cfr. Estrangeiros residentes, uma filosofia da migração, tradução de Cézar Tridapalli, Ed, Âyiné, Belo Horizonte, Veneza, 2020, pag. 32). Duas faces da mesma moeda. Quando há expansão socioeconômica e necessidade de mão-de-obra, os imigrantes costumam ser bem-vindos. A autora mostra como o monumento à Liberdade, erigido em New York, por exemplo, foi chamado de “Mãe dos exilados” pela poeta judia Emma Lazarus no soneto, escrito em 1883, gravado no pedestal da estátua: “Guarda para ti, velho mundo, a tua pompa vã” – grita com lábios mudos – “Dá-me as tuas massas cansadas, pobres e oprimidas, ansiosas por respirar livres, dá o miserável refugo de tuas margens abarrotadas. Manda a mim estes sem-teto, arremessados pela tempestade, e eu levantarei o meu farol junto à porta dourada” (Idem, pag. 21). Prevalece então hospitalidade!

Ao contrário, numa eventual “crise humanitária”, quando as taxas de desemprego e subemprego se elevam, então os migrantes são em geral rechaçados. Duplamente rechaçados: na origem, pela privação ou pela violência; no destino, pela crescente discriminação. Quando muito se lhes abre a porta dos fundos, para os serviços mais sujos e pesados, perigosos e mal remunerados. Semelhante recusa em acolher “estrangeiro” tem se agravado com a ascensão da extrema direita ao poder em várias partes do planeta, revestida sempre de um nacionalismo populista. Daí as frases bombásticas, tais como “América para os americanos”; “Europa para os europeus”; ou “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. No caso brasileiro, o nacionalismo dá as mãos à instrumentalização do sagrado. Todo fanatismo – político, ideológico ou religioso – produz montanhas de cadáveres. A hospitalidade acolhedora cede o lugar à hostilidade.

Ambos os termos oscilam nos diferentes modos de considerar mobilidade humana. Quando o sol brilha, a imagem da liberdade abre o sorriso e os braços. Mas quando o céu escurece e a tempestade se avizinha, a estátua vira as costas a quem bate à porta, interessada apenas nos “cidadãos com raízes na terra”. Ainda de acordo com a autora, o migrante na maioria das vezes entra em rota de colisão com o tipo de estado-nação ocidental. Este último, de fato, ao mesmo tempo que se fundamenta nos direitos universais de cada ser humano, incluindo o direito de ir e vir, limita sua extensão aos nascidos no território. O sangue, o berço, o solo e a herança social, política e histórica determinam o monopólio absoluto sobre o espaço geográfico.

A crítica de Donatella a esse sistema estadocêntrico torna-se contundente: “Desde quando os Estados-nações repartiram o planeta, foi se produzindo, entre um limite e outro um “refugo da terra”, que pode ser impunemente pisoteado e que, apesar disso, não para de vir à tona e crescer. O refugo é o que sobra da terra dividida, são os sem-pátria, os sem-cidade, os refugiados, presos entre as fronteiras nacionais, que aparecem coo sujeitos incômodos, corpos estranhos, seres indesejáveis. Para eles não está previsto nenhum lugar na ordem mundial. Eis que emerge um novo gênero humano: os ‘supérfluos’” (Idem, pag. 62).

De forma consciente ou inconsciente, os migrantes se batem contra a Constituição desses países. Ampla e aberta no que se refere à declaração universal dos direitos humanos, mas privadamente reservada na concessão da cidadania aos que chegam de fora e de longe. Em tal perspectiva, “o migrante desmascara o Estado. Da margem externa, interroga o seu fundamento, aponta o dedo contra a discriminação, relembra o estado de sua constituição histórica, descrê de sua pureza mítica. E por isso obriga-o a repensar-se. Nesse sentido, a migração traz consigo uma carga subversiva” (Idem, pag. 28). Tende a questionar os limites arbitrariamente desenhados, ao mesmo tempo que supera o território pátrio desta ou daquela nação. Seu sonho é ultrapassar as fronteiras – com o objetivo de encontrar alhures o que lhe nega a terra natal. “Na cidade dos estrangeiros, a cidadania coincide com a hospitalidade” (Idem, pag. 16).

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – São Paulo, 15 de maio de 2021

www.miguelimigrante.blogspot.com

Ambev e Heineken são autuadas por trabalho escravo de imigrantes venezuelanos em São Paulo

 

Um motorista ao lado da carreta de um caminhão na garagem da empresa Sider, autuada junto com a Ambev e o Grupo Heineken por explorar mão de obra em condições análogas à da escravidão.ME

Sem emprego, passando fome, com três filhas para sustentar e a esposa grávida de dois meses, Andrés* foi forçado a tomar uma dura decisão. Deixou para trás a família e abandonou Caracas para engrossar o crescente êxodo venezuelano em busca de sustento em outros países, um fenômeno que se intensificou a partir de 2018 com a inflação em alta e a crise econômica que assolam o país governado por Nicolás Maduro. Com a ajuda de caronas cruzou os quase 1.300 quilômetros que separavam sua cidade natal da pequena Pacaraima, já dentro do território brasileiro. Fez a pé ao longo de quatro dias os últimos 200 quilômetros até a capital roraimense, onde chegou em meados de 2019. Em Boa Vista, nada foi fácil: dormiu na rua por oito meses, revirando lixeiras atrás de comida e sobrevivendo como podia. “Eu dormia em cima de um papelão velho e comia sobras de comida de feiras e o que eu achava no lixo”, contou ao EL PAÍS. Por intermédio de representantes do Exército brasileiro e de ONGs que atuavam na Operação Acolhida, de ajuda humanitária aos imigrantes, conseguiu um emprego em São Paulo como motorista de carreta em fevereiro de 2020. Mas os desafios de Andrés em terras brasileiras estavam longe de acabar.

Em março de 2021 ele foi um dos 23 estrangeiros libertados em uma ação do Programa de Erradicação do Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas da Superintendência Regional do Trabalho no Estado de São Paulo, ligado ao Ministério da Economia. Em uma operação que teve início na madrugada de 3 de março, os auditores fiscais desmontaram um esquema de trabalho em condições análogas à escravidão envolvendo duas das maiores cervejarias do mundo, as multinacionais Ambev e o Grupo Heneiken (que no Brasil se denomina Cervejarias Kaiser Brasil), e uma transportadora terceirizada contratada por ambas, a Sider, que era a empregadora direta dos trabalhadores. Agora as empresas, que já estão elaborando um cronograma para o pagamento dos direitos devidos e danos morais aos empregados, terão um prazo de algumas semanas para elaborar sua defesa no caso. No total, os 23 trabalhadores resgatados receberão 657.270 reais de indenização, cerca de 28.576 reais para cada.

Os imigrantes, 22 venezuelanos e um haitiano, moraram por meses a fio (alguns por mais de um ano) na boleia de seus caminhões (um espaço diminuto na própria cabine do veículo) estacionados nas sedes da Sider em Limeira e Jacareí, interior de São Paulo, sem direito ao alojamento previsto em lei e prometido quando assinaram contrato em Boa Vista. Trabalhavam sem folgas e com jornadas de trabalho extenuantes. De quebra não havia água potável nestes locais. A estes imigrantes em situação de grande vulnerabilidade também eram impostas taxas extras e descontos, tais como a cobrança pela concessão de camisa e bota para trabalho, e a nacionalização da Carteira Nacional de Habilitação.

O venezuelano Bruno* contou ao EL PAÍS algumas das situações vividas durante seus meses de trabalho para a Sider: “Se a carga cair, ela é descontada do salário. Se o pneu fura, também é descontado. Um pneu que explodiu durante a viagem custou 1.000 reais a um colega”. Ele conta que foi feita uma vaquinha entre os trabalhadores para ajudar a pagar o prejuízo. Após reclamações com relação a estas cobranças abusivas, ele teria ouvido de um supervisor que “se não gosta disso, então que volte para a Venezuela para passar fome”. “Foi uma época muito difícil. Éramos tratados como cachorros, animais. Morei por 11 meses no meu caminhão, em um espaço onde dava para deitar e dormir, e só”, afirma.

 

A responsabilização da Heineken e da Ambev pelos trabalhadores libertados pelo Ministério da Economia tem como base a legislação, que afirma que caberia a elas fiscalizar o cumprimento das obrigações trabalhistas por parte da terceirizada contratada (a Sider). De acordo com relatório, ambas as cervejeiras “falharam” e agiram com “cegueira deliberada ao ignorar a devida verificação do cumprimento” das leis envolvendo a transportadora, visando o lucro “em detrimento de normas de proteção do trabalho”. De acordo com a auditora fiscal do trabalho Lívia dos Santos Ferreira esta responsabilização dos contratantes “decorre do fato de a Lei de Terceirização exigir que elas garantam as condições de saúde e segurança de quem presta serviço para elas”. Logo, “a jornada exaustiva e as condições degradantes em decorrência da ausência de alojamento, por exemplo, são condições que teriam que ser garantidas pelo contratante [Ambev e Grupo Heineken]”.

O dormitório de um dos motoristas venezuelanos resgatados: um pequeno espaço na cabine do caminhão.

O dormitório de um dos motoristas venezuelanos resgatados: um pequeno espaço na cabine do caminhão.ME

O relatório é taxativo quanto ao papel das cervejeiras: “Grupo Heineken falhou ao escolher e contratar a Sider como sua prestadora de serviços de transporte, falhou ao não fiscalizar e exigir o cumprimento da legislação trabalhista pela contratada, e, por último, falhou ao não garantir diretamente as condições de higiene, saúde e segurança dos trabalhadores resgatados no curso do contrato de terceirização de serviços ora analisado (responsabilidade direta)”. O mesmo se aplica à Ambev. “Resta incontroversa a imputação de responsabilidade, pelas condições de trabalho a que foram submetidos os 23 motoristas profissionais, aos contratantes Ambev e Grupo Heineken”.

Em nota, o Grupo Heineken informou ter tomado conhecimento do caso “por meio da Superintendência Regional do Trabalho, e colaborou ativamente para garantir que todos os direitos fundamentais dos trabalhadores envolvidos fossem observados conforme a orientação dos auditores”. A companhia afirmou também que “todos os fornecedores passam por um rigoroso processo de seleção e assinam um Código de Conduta onde se comprometem a cumprir integralmente a legislação trabalhista e de direitos humanos”. A nota diz ainda que possui desde 2015 o “Programa de Excelência de Transportadoras, por meio do qual realiza auditorias periódicas, avaliando as empresas contratadas nos âmbitos de segurança, conservação de veículos, sustentabilidade e gestão de riscos.

Já a Ambev informou que “assim que tomamos conhecimento da denúncia envolvendo a Sider, uma transportadora que presta serviços para a Ambev e outras empresas, imediatamente garantimos que os motoristas fossem levados para um hotel, onde foram acolhidos e receberam todo o suporte necessário”. A nota diz ainda que “seguindo as orientações e com a concordância dos auditores fiscais do trabalho, garantimos o pagamento de todas as verbas e indenizações trabalhistas e que a transportadora providenciasse o retorno dos motoristas ao local de origem ou a vinda de seus familiares, conforme escolha de cada um”. Por fim a Ambev disse já ter iniciado “uma revisão dos nossos processos de fiscalização e apoio às transportadoras (...) para garantir que situações como essa nunca mais se repitam”.

A reportagem procurou a Sider por email e telefone, mas não obteve retorno.

Vidas em risco sem descanso

O regime de trabalho a que estavam sujeitos estes trabalhadores colocava as suas vidas —e de outras pessoas— em risco. Algumas das principais infrações verificadas pelos fiscais e que corroboraram a tese das condições análogas à escravidão neste caso foi “a supressão do descanso semanal remunerado” (as folgas) e do intervalo interjornada —que ocorre entre uma viagem de entrega e a próxima, e que segundo a legislação deve ser de 11 horas. Na prática, eles estavam submetidos a uma jornada exaustiva atrás do volante, sem descansos. “O resultado [destas condições] tem sido o aumento do número de acidentes de trabalho e principalmente de doenças ocupacionais, as quais têm conduzido, inclusive, a mortes e suicídios relacionados ao labor”, diz o relatório dos auditores. Sem direito a descanso ou folga, alguns trabalhadores relataram ter que “sair escondido da garagem da Sider depois das 23h para encontrar familiares”.

A remuneração mensal destes trabalhadores variava entre 1.900 reais a 4.000 reais, a depender dos descontos e taxas. À primeira vista este valor pago aos motoristas pode ser considerado alto, acima do salário mínimo que é de 1.100 reais. Mas a auditora Ferreira explica como funcionava a remuneração: “Esse salário englobava parcelas pagas dentro da folha de pagamento e por fora. E só chegava nesse valor máximo [4.000] quando ele era submetido a todas essas violações, moradia na boleia e supressão de folga. Então o valor do salário é proporcional ao número de violações que ele sofre”.

A Sider oferecia aos trabalhadores a possibilidade de venda de suas folgas, o que é ilegal. Sem ter para onde ir —já que não tinham alojamento oferecido pela empresa— e desesperados para conseguir juntar dinheiro para ajudar a família em seus países de origem, grande parte aceitava a proposta. “Se eu parava [de trabalhar e folgava], eu não tinha como mandar dinheiro para a Venezuela para matar a fome da minha família. Foi cansativo, sou um ser humano. Mas eu sabia da situação no meu país. Lá um quilo de arroz custa 50 reais. Um frango custa o equivalente a 200 reais”, diz Andrés. No relatório, os auditores fiscais afirmam que esta prática constituiu “abuso da vulnerabilidade do trabalhador imigrante, para o qual não foi fornecido alojamento para o devido repouso e descanso, tendo sido mantidos de forma permanente no caminhão por um longo ou por todo o período do contrato de trabalho. Tal abuso, assim, induzia a aceitação por parte do trabalhador da proposta de compra de folgas”.

Em uma mensagem de áudio encontrada no celular de um dos coordenadores da Sider a que os auditores fiscais tiveram acesso durante a operação, um dos motoristas que acabara de descarregar o caminhão em Petrópolis, no Rio de Janeiro, às 21h, depois de um dia inteiro dirigindo, se nega a seguir viagem imediatamente para Extrema, em Minas Gerais, onde deveria estar às 6h do dia seguinte para novo carregamento. A empresa exigia que ele realizasse uma viagem de sete horas durante a noite após um dia inteiro na estrada e sem direito a descanso algum. “Que mandem outra pessoa. Somos motoristas, não escravos”, diz o venezuelano na gravação. Os fiscais não conseguiram descobrir o que aconteceu com este trabalhador que se recusou a seguir viagem.

Depois de ser explorado em São Paulo por mais de um ano, Andrés conseguiu juntar dinheiro para alugar uma casa. “Agora moro com dignidade”, diz. Ele deve se reencontrar com a família em junho. “Estou há um ano e meio sem vê-los. Eles estão em Boa Vista e virão aqui para Jacareí em breve. Aí finalmente vou conhecer minha filha de um ano que estava na barriga da mãe em Caracas quando vim para o Brasil. Graças a Deus agora as coisas estão dando certo”.

*Todos os trabalhadores entrevistados e citados nesta matéria tiveram seus nomes alterados para evitar retaliações.

El Pais

www.migrante.blogspot.com


sábado, 15 de maio de 2021

ONU e OEA pedem investigação sobre repressão a protestos na Colômbia



Um grupo de relatores independentes das Nações Unidas e da Organização dos Estados Americanos, OEA, condenou a violência e repressão a manifestantes de rua na Colômbia.

Em comunicado conjunto, os especialistas pediram ao governo que conduza uma investigação completa e independente sobre as mortes e casos de violência sexual e outros crimes incluindo tortura e desaparecimentos forçados.

Unhcr/Ruben Salgado Escudero
Grupo de relatores independentes das Nações Unidas e da OEA condenou a violência e repressão a manifestantes de rua na Colômbia

Trabalhadores

Os especialistas afirmaram que estão “profundamente consternados com o uso excessivo e ilegal da força por parte da polícia e dos integrantes do Esquadrão Móvel contra Distúrbios, Esmad.” Dentre as pessoas alvejadas estão jornalistas colombianos.

Os relatos recebidos dão conta de pelo menos 26 mortes, na maioria jovens, e 1.876 casos de violência policial. Foram notificados também 216 ferimentos incluindo de policiais e 168 desaparecimentos.

A polícia prendeu mais de 960 pessoas. Dezenas de defensores de direitos humanos foram agredidos e houve pelo menos 12 casos de violência sexual.

As manifestações começaram no fim de abril, quando trabalhadores saíram às ruas para protestar contra medidas do governo incluindo um projeto de reforma fiscal, que agora foi retirado da pauta.

Unsplash/Andres F. Uran
Cáli, cidade da Colômbia onde aconteceram episódios de violência durante protestos

Militares

O movimento foi liderado por uma aliança formada por sindicatos e grupos sociais colombianos.

Mesmo com os protestos ocorrendo de forma pacífica, militares saíram às ruas para responder, o que elevou a tensão. No comunicado, os relatores da ONU e da OEA afirmam que militares deveriam responder somente a ameaças de caráter militar e não se envolver com manifestações populares de civis.

Um outro alerta foram os violentos ataques a indígenas na cidade de Cáli e a repressão a meios de comunicação colombianos incluindo censura, cortes na internet e assédio a jornalistas.
 
*Os relatores de direitos humanos são independentes da ONU e não recebem salário por sua atuação.

Onunews

www.miguelimigrante.blogspot.com

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Comissão aprova projeto que prevê monitoramento de trabalho forçado em outros países

 

Pablo Valadares/Câmara dos Deputados


A Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviços da Câmara dos Deputados aprovou na quarta-feira (12) projeto que institui o monitoramento do uso de trabalho forçado e do trabalho infantil em estados estrangeiros.

Pelo texto, o governo vai elaborar anualmente um relatório contendo lista das empresas e países que apresentam indícios de trabalho forçado ou trabalho infantil. Órgãos das três esferas administrativas (federal, estadual e municipal) não poderão adquirir produtos das empresas incluídas nessa lista.

Apresentado pelo deputado Vanderlei Macris (PSDB-SP), o Projeto de Lei 2563/15 recebeu parecer favorável do relator, deputado Helder Salomão (PT-ES).

Ele explicou que o governo já elabora, desde 2003, uma lista de pessoas físicas e jurídicas que submetem trabalhadores a condições análogas à escravidão (Cadastro de Empregadores). A relação, porém, só inclui nomes que atuam no País.

“O Brasil não pode se valer deste mecanismo [Cadastro] para identificar empresas estrangeiras que exportam produtos para o nosso País utilizando trabalho análogo ao escravo para sua fabricação. Essa situação gera concorrência desleal que favorece essas empresas”, disse o Salomão, que defendeu a aprovação da proposta.

Conforme o projeto, o governo vai trabalhar pela criação de regras, no Brasil e em fóruns internacionais, que proíbam a importação de bens manufaturados com o uso de trabalho forçado ou de trabalho infantil.

Tramitação
O projeto tramita em caráter conclusivo e será analisado agora pelas comissões de Trabalho, de Administração e Serviço Público; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

Fonte: Agência Câmara de Notícias

www.miguelimigrante.blogspot.com

“Podem votar nas eleições autárquicas imigrantes da UE, Brasil e Cabo Verde”

 

A secretária de Estado para a Integração e as Migrações desafiou nesta quinta-feira, em Leiria, os centros de migrantes locais a divulgarem informação para que os estrangeiros se recenseiem até junho e possam votar nas próximas eleições autárquicas.

Na inauguração do CLAIM – Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes de Leiria, Cláudia Pereira lembrou que as eleições autárquicas “são as únicas onde os imigrantes podem votar”.

“Podem votar nas autárquicas imigrantes da União Europeia, do Brasil e de Cabo Verde. Desafio a que os CLAIM informem os imigrantes que têm de se recensear nas juntas de freguesia até final de junho. Tem de ser até 60 dias antes das eleições. Se não se recensearem depois não poderão votar”, alertou a secretária de Estado.

Cláudia Pereira lembrou que o Alto Comissariado para as Migrações também está a divulgar essa informação. A governante referiu ainda que “80% da população imigrante é ativa”.

“Os dados da Segurança Social revelaram-nos, segundo o Observatório das Migrações, que, em 2019, os imigrantes contribuíram nove vezes mais para a Segurança Social do que receberam”, adiantou.

Segundo Cláudia Pereira, os imigrantes “contribuíram com cerca de 994 milhões de euros e receberam de apoios da Segurança Social 111 milhões de euros, o que significa que, no total, a Segurança Social arrecadou 884 milhões de euros”.

“Todos nós beneficiamos com o contributo dos imigrantes. É nosso dever fazer com que se sintam integrados. Este CLAIM é um passo extremamente significativo porque permite que os imigrantes sejam tão bem tratados no país, como queremos que os portugueses sejam tratados nos outros países”, sublinhou.

“Queremos que os imigrantes estejam de forma documentada e regular e este serviço irá contribuir para tal”, salientou, destacando a importância de “trabalhar em rede”.

40% de brasileiros em Leiria

O novo Cento Local de Apoio à Integração de Migrantes (CLAIM) de Leiria inaugurado no edifício da Câmara Municipal, irá dar resposta a cerca de seis mil estrangeiros residentes no concelho.

“No Município de Leiria reconhecemos o importante contributo que a população de origem estrangeira, superior a seis mil pessoas, dá para o desenvolvimento e criação de riqueza para esta região, e desejamos que o nosso concelho possa ser olhado como opção definitiva de residência”, disse o presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes.

O 117.º CLAIM inaugurado pelo Governo em todo o país irá contribuir para garantir uma “abordagem de proximidade e esclarecer dúvidas”, adiantou a secretária Cláudia Pereira.

A governante revelou que em Leiria existem 90 nacionalidades diferentes e 40% dos imigrantes são brasileiros.

“Os estrangeiros são 05% da população residente em Leiria e o CLAIM vai assegurar os direitos das populações migrantes”, sublinhou, ao informar que os CLAIM já efetuaram “um milhão de atendimentos” desde a sua criação.

A funcionar com uma técnica, o CLAIM de Leiria terá sempre o apoio do Alto Comissariado para as Migrações para esclarecer dúvidas e dar formação sobre a legislação.

“A grande mais-valia é ter uma abordagem de proximidade. Poderá esclarecer dúvidas sobre a documentação do SEF [Serviço de Estrangeiros e Fronteiras], sobre o reagrupamento familiar, para trazerem os familiares ou sobre como terem um contrato de habitação e de trabalho”, adiantou Cláudia Pereira, enaltecendo a importância de o CLAIM estar a funcionar dentro das instalações da Câmara, pois “é onde vão os portugueses e os migrantes”.

Para a secretária de Estado, “ter este centro muda a vida de um migrante”.

Considerando que receber um CLAIM em Leiria é “um passo no compromisso assumido pelo Município de Leiria na construção de um território pleno de igualdade”, Gonçalo Lopes defendeu um “aprofundamento dos mecanismos de apoio à população migrante que se encontra numa situação de especial vulnerabilidade face ao contexto pandêmico que tende a acentuar os desequilíbrios e desigualdades sociais”.

Foi a pensar nesta população que o Município de Leiria alterou o regulamento do Fundo Municipal de Emergência Social, de modo “a abranger toda a comunidade migrante, mesmo a residente há pouco tempo, de modo a prestar apoio às pessoas que subitamente perderam as suas fontes de rendimento”, acrescentou Gonçalo Lopes.

Agora com 117 espaços por todo o país, os CLAIM são um serviço do Alto Comissariado para as Migrações em parceria com diversas entidades autárquicas ou da sociedade civil, que têm como objetivo apoiar em todo o processo de acolhimento e de integração dos migrantes, promovendo em simultâneo a interculturalidade a nível local.

A vereadora do Desenvolvimento Social, Ana Valentim, explicou que o CLAIM de Leiria terá uma técnica da área social a tempo inteiro que já teve formação com o Alto Comissariado para as Migrações.

“Vamos articular com as outras associações locais que já trabalham com esta população e vamos iniciar contatos para a semana. O objetivo é ter o nosso CLAIM em funcionamento na próxima segunda ou terça-feira”, revelou Ana Valentim

Mundo Lusíada 

www.miguelimigrqante.blogspot.com

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Liberdade pelas mãos do povo preto: a verdadeira história do 13 de Maio e da Abolição

 

Racismo e violência do Estado ainda assolam a população negra 133 anos depois da Abolição - Foto: Carl de Souza/AFP

A sanção da Lei Áurea, que há exatos 133 anos aboliu oficialmente o trabalho escravo no Brasil, consolidou o 13 de Maio como uma data de protestos contra violências que atravessaram séculos e continuam vitimando a população negra. 

Uma realidade que, por si só, coloca em xeque a narrativa registrada por muito tempo nos livros de história de que os males da escravidão teriam sido sanados no momento seguinte à assinatura de Princesa Isabel.

Matheus Gato, professor da Universidade de Campinas (Unicamp) e pesquisador do Núcleo Afro do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), afirma que o 13 de Maio é uma data importante pelo simbolismo que adquiriu nas lutas sociais do Brasil e pelo processo social que fora interrompido, transformando o significado de pertencimento dos negros à nação brasileira. 

::Movimento negro promove jornada de combate ao racismo; veja programação::

Mas, explica que, ao longo do século 20, a data engendrou uma série de disputas de imaginário sobre como realmente se deu o processo da abolição.

“Primeiro, tínhamos uma narrativa que enfatizava muito a importância do Estado, na qual a abolição aparece como uma dádiva e não como uma conquista de movimentos sociais, uma conquista popular. De uma certa maneira, o 13 de Maio fez parte dessa narrativa de que as conquistas do povo brasileiro, no fundo, foram concessões. Aí está a armadilha ideológica”, aponta Gato. 

Enxergar o processo da Abolição como farsa, a partir da anulação do protagonismo das camadas populares, é uma tônica histórica do movimento negro, como defende Seimour Souza, ativista da Uneafro Brasil. 

Segundo ele, o 13 de Maio representa uma abolição para a população branca que escravizava negros e negras, e que, após a assinatura da lei, não indenizou a população preta e permaneceu sem criar mecanismos de amparo e inclusão no mercado de trabalho aos ex-escravos e seus descendentes.

Por isso, é importante relembrar a data e suas consequências, mas em uma perspectiva completamente oposta à celebração ou reconhecimento à monarquia, regime então vigente no Brasil quando foi promulgada a lei abolicionista.

“O 13 de Maio é um dia de denúncia contra o Estado brasileiro que ainda é responsável pela condição de miserabilidade e vulnerabilidade que a população negra enfrenta. Não só hoje, mas ao longo da história. Tudo isso se dá por um tipo de abolição inconclusa, que deixou ao léu milhares de pessoas por todo Brasil”, afirma Seimour. 

O ativista ressalta que a luta do povo negro pela abolição surgiu desde o primeiro momento que uma pessoa escravizada foi trazida da África, contra um regime que buscava manter o controle social dos corpos negros, sem qualquer benevolência:

“Nossa luta não começou ontem, não começa hoje. Nossos ancestrais um dia ousaram sonhar com a liberdade, e nós somos frutos desses sonhos. Somos frutos de uma gente que sobreviveu ao horror com altivez, de uma gente que sonhou com um futuro diferente. Somos frutos de teóricos e militantes como Abdias Nascimento, Lélia Gonzáles, Guerreiro Ramos, que há muito tempo denunciam a farsa da abolição”. 

Para Matheus Gato, apontar a abolição como um engodo, de forma critica, é interessante na medida que alerta para a existência e a persistência do racismo, a despeito do fim da escravidão. Ele pondera, entretanto, que há o risco de incorrer em uma visão simplificada dos processos sociais. 

O pesquisador traça um paralelo com a Constituição de 1988, já que, embora até hoje muitos direitos previstos na Carta Magna não sejam de fato assegurados, a Constituição Cidadã não deixa de ser uma conquista da luta pela democracia.

Gato ainda cita a convocação da Coalizão Negra Por Direitos para manifestações em todo país nesta quinta-feira (13), pelo fim do racismo, do genocídio negro e das chacinas como um exemplo de ressignificação da data histórica, como um dia importante na consciência antirracista. 

A mobilização exige justiça para as vítimas na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, e de todas as operações policiais que resultaram em mortes nas favelas e comunidades do Brasil.

::Artigo | O que a atual pandemia revela sobre o 13 de Maio de 1888?::

Ainda que 1888 e 2021 sejam momentos históricos muito diferentes, o pesquisador sublinha que, ao olhar para ambos, a retirada de direitos da população negra é um dos principais pontos em comum.

“Era isso que estava em jogo com a abolição. E é isso que está em jogo com a luta contra a violência de Estado. A pergunta é essa. A população negra tem ou não tem direitos civis? Se existe algum tipo de permanência e continuidade que tenha paralelo, embora a linguagem seja diferente e o tempo e as questões sejam outras, é que a instabilidade e a insegurança dos direitos civis dos afrobrasileiros permanece como uma dura realidade”, diz Gato, organizador do livro Treze de Maio: e outras estórias do pós-Abolição. 

A obra reúne, de forma inédita, contos de Raul Astolfo Marques, escritor e intelectual negro que viveu em São Luís do Maranhão durante a passagem do século 19 para o 20. Os textos retratam como as pessoas negras, em particular, enfrentaram as mudanças e transformações do pós-abolição, dando ênfase para importância do movimentos sociais e da resistência as novas dinâmicas de inclusão e exclusão que surgiram desde então.

“Heróis invisíveis”

Na opinião de Seimour Souza, da Uneafro Brasil, a historiografia oficial tentou apagar a resistência de expoentes do movimento negro não dando visibilidade para suas trajetórias. Ainda que a história de Zumbi dos Palmares e Dandara, por exemplos, tenham se tornado  mais conhecidas nas últimas décadas, muitos lutadores como Zacimba Gaba, Tereza de Benguela e Luísa Mahin, entre outros, não recebem o devido reconhecimento.

Gato, por sua vez, endossa que a compreensão coletiva do que foi a abolição enquanto processo social, de mobilização civil, também é afetada por esse apagamento que atingiu “não só randes abolicionistas negros ou brancos, como Joaquim Nabuco, mas gente comum que aceitou esconder uma pessoa escravizada, fugida. As rotas de fuga, a formação dos quilombos. Essa agência popular, de modo geral, ficou apagada nesse processo”. 

Ele afirma ainda que a mobilização dos extratos populares que lutaram pela liberdade do povo negro “mudou a estrutura de percepções no Brasil”.

“A Abolição não é só uma reforma política. Foi passar a pensar o mundo de uma forma completamente diferente do que era. Reorganizar a forma como classifica as pessoas. Mudam-se sentimentos e concepções.”

Luiz Gama, do jornalismo aos tribunais

Ainda que tenham tentado contar outra história sobre o processo da abolição e apagar o passado escravocrata, de acordo com Ligia Fonseca Ferreira, escritora e professora de Letras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), nos últimos 30 anos se fortaleceu uma corrente historiográfica, acompanhada pelo atuação do movimento negro, que juntos batalham pelo reconhecimento das figuras que fizeram a história do Brasil.

Entre os abolistas que são referências está o chamado “quarteto negro” composto por André Rebouças, José do Patrocínio, Ferreira de Menezes e o pioneiro Luiz Gama, um dos mais proeminentes pensadores e ativistas do século 19.

Ferreira é especialista na obra de Gama, considerado o maior abolicionista do país.  Nascido em 1830 na cidade de Salvador (BA), era filho de pai branco de origem portuguesa e Luiza Mahin, negra livre que participou de insurreições de escravizados.

Foi vendido como escravo aos 10 anos de idade e se alforriou apenas aos 17. Autodidata, aprendeu a ler e a escrever sozinho, e sem cursar a universidade, estudou Direito para advogar em defesa dos negros escravizados.

Respeitadíssimo pelos demais abolicionistas e o mais velho deles, era chamado por José do Patrocínio como "nosso general". Gama advogou pela libertação de mais de 500 escravos, sem cobrar honorários, sustentando-se como jornalista.

Em setembro do ano passado, Ferreira organizou e lançou Lições de Resistência: artigos de Luiz Gama na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro, livro publicado pela Edições Sesc, com objetivo de jogar luz à obra jornalística de Gama.

"Luiz Gama insere uma perspectiva negra em órgãos da imprensa de São Paulo de forma pioneira. Nos primeiros periódios ilustrados como Diabo Coxo e Cabrião, ao lado do cartunista italiano Angelo Agostini. E depois na imprensa abolicionista e republicana. Luiz Gama é uma presença constante nesses movimentos todos. Fazia da imprensa um lugar para expor suas ideias e mostrar para o povo brasileiro, nas palavras dele, "a maneira extravagante" como se administra a Justiça do Brasil”, comenta Ferreira.

Ela destaca que, à época, tanto o jornalismo como a Direito eram lugares de influência, de poder, onde era rara a presença de homens negros. 

Para a publicação da obra, a especialista mergulhou em arquivos físicos e digitais para realizar um levantamento desde 1864, data na qual a primeira publicação de Gama foi localizada, que vai até 1882, ano em que o intelectual publicou seu último artigo 15 dias antes de morrer.

A docente da Unifesp ressalta a importância da obra por possibilitar que os leitores “leiam Luiz Gama e não sobre Luiz Gama”, conhecendo de fato a obra original e a dimensão da trajetória do abolicionista.

“A faceta do jornalista não pode ser esquecida. Não é lembrar a memória de um abolicionista, apenas, mas lembrar a dinâmica de um homem que tinha um público, que era ouvido. Escrevia para ser lido. Ele dispensava porta-vozes.  Como costumo dizer, ele não só escrevia notícia, mas ele era notícia.”

A professora da Unifesp detalha que, também enquanto poeta, Gama marcou a literatura brasileira. Grande orador, defendia os direitos dos escravizados com a autorização de advogado provisionado, que o permitia exercer a profissão mesmo sem o bacharelado. 


Em um momento em que ainda não havia defensoria pública, Luiz Gama possibilitou, com seu trabalho, o acesso de inúmeros negros à justiça / Reprodução/Nação

Nas matérias jornalísticas, não perdia a chance de denunciar a conivência de juízes para manutenção da propriedade escrava, dando publicidade às ideias abolicionistas com grande habilidade retórica e agudas análises político-jurídicas.

“Temos relatos e comprovação documental que Luiz Gama encarnou uma liderança, uma coisa improvável, rara, especialmente em meados do século 19, onde se acreditava na inferioridade racial e na incapacidade congênita dos negros, africanos e descendentes, de praticarem as artes e ciências. Luiz Gama então, nesse sentido, vai mostrar exatamente o contrário de tudo isso.”

A memória de Luiz Gama é celebrada pela imprensa negra do século 20 pelas associações negras e pela maçonaria, que garantiu que sei nome Gama batizasse ruas e avenidas pelo Brasil.

 

Se algum dia [...] os respeitáveis juízes do Brasil, esquecidos do respeito que devem à lei, e dos imprescindíveis deveres, que contraíram perante a moral e a nação, corrompidos pela venalidade ou pela ação deletéria do poder, abandonando a causa sacrossanta do direito, e, por uma inexplicável aberração, faltarem com a devida justiça aos infelizes que sofrem escravidão indébita, eu, por minha própria conta, sem impetrar o auxílio de pessoa alguma, e sob minha única responsabilidade, aconselharei e promoverei, não a insurreição, que é um crime, mas a ‘resistência’, que é uma virtude cívica [...]

 

Luiz Gama, Correio Paulistano, 10 de novembro de 1871

O anti-monarquista aguerrido morreu em 1882, anos antes de assistir seus dois grandes sonhos, para qual tanto contribuiu, tornarem-se realidade: a abolição e a Proclama da República, em 1889.

Mais de cem anos depois, Seimour Souza, militante do movimento negro, condena a continuidade de políticas de embranquecimento e de eugenia, a exemplo da violência policial.

"Somos submetidos historicamente a um cotidiano de violência, ao cárcere, à morte, a um verdadeiro genocídio e a perseguição de expressões religiosas de matriz africana. É a continuidade do extermínio. Uma tentativa de apagamento étnico e a despeito disso o movimento negro vem há anos denunciando essa grande farsa que é a democracia racial", finaliza o militante da Uneafro.

Lu Sudré

Edição: Vinícius Segalla

Brasil de Fato

www.miguelimigrante.blogspot.com