sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Migração e direitos humanos são temas do Paraty em Foco

A 15ª edição do festival Paraty em Foco (PEF) começa na quarta-feira (18) e segue até domingo (22). O tradicional evento de fotografia traz por cinco dias diversas exposições e workshops à cidade colonial fluminense.
Na edição de 2019 o tema adotado pela curadoria foi “Migrações” e a programação enaltece as profissionais mulheres da fotografia. As exposições têm como eixo temático o nomadismo humano e a perda de territorialidades pessoais, coletivas, simbólicas, econômicas e sociais.
Aproveitando a comemoração de 200 anos da imigração suíça no Brasil, a fotógrafa homenageada do evento será Claudia Andujar, suíça-brasileira considerada uma das profissionais mais importantes para a história da fotografia.
Hoje com 88 anos, Andujar acompanhou, entre 1971 e 1984, a saga dos Yanomami, indígenas que foram massacrados ao longo de décadas e continuam lutando pela própria sobrevivência. São registros das atividades diárias na comunidade, rituais xamânicos e da luta da própria fotógrafa para proteger a população de doenças, violência e poluição causadas pelo garimpo e pelos planos de desenvolvimento da Amazônia durante o governo militar.
A exposição já esteve em cartaz no Instituto Moreira Salles (IMS), e no Memorial da América Latina, ambos em São Paulo. A série “Marcados para morrer?” da autora será exposto na Quadra da Praça da Matriz, em Paraty, durante os dias de festival.
Hoje com 88 anos, Andujar acompanhou, entre 1971 e 1984, a saga dos Yanomami, indígenas que foram massacrados ao longo de décadas e continuam lutando pela própria sobrevivência. São registros das atividades diárias na comunidade, rituais xamânicos e da luta da própria fotógrafa para proteger a população de doenças, violência e poluição causadas pelo garimpo e pelos planos de desenvolvimento da Amazônia durante o governo militar.
A exposição já esteve em cartaz no Instituto Moreira Salles (IMS), e no Memorial da América Latina, ambos em São Paulo. A série “Marcados para morrer?” da autora será exposto na Quadra da Praça da Matriz, em Paraty, durante os dias de festival.

A Grande Caravana

A Grande Caravana, Pieter Ten Hoopen
 O sonho americano retratado pelo holandês Pieter Ten Hoopen
O sonho americano retratado pelo holandês Pieter Ten Hoopen (Pieter Ten Hoopen/Paraty em Foco/Divulgação)
Outro importante nome da fotografia que ganha uma retrospectiva em Paraty é o sueco Pieter Ten Hoopen, fotógrafo reconhecido internacionalmente e que teve trabalhos publicados em veículos como New YorkerNew York Times Magazine Le Monde.
A Grande Caravana, Pieter Ten Hoopen
 “A Grande Caravana” estará exposta na Praça da Matriz de Paraty
“A Grande Caravana” estará exposta na Praça da Matriz de Paraty (Pieter Ten Hoopen/Paraty em Foco/Divulgação)
A exposição “A Grande Caravana”, de Hoopen, conta a empreitada que migrantes de Honduras, Nicaragua, El Salvador e Guatemala empreenderam em outubro e novembro de 2018 para atravessar a fronteira rumo aos Estados Unidos.
Hoopen ganhou o prêmio da World Press Photo 2019 pelo trabalho, conhecido como o reconhecimento mais relevante do fotojornalismo mundial. As imagens ficarão expostas na Praça da Matriz de Paraty.

Silêncio

Menina, 2018. Fotografia digital. Sonia Guggisberg Menina, 2018. Fotografia digital de Sonia Guggisberg
Menina, 2018. Fotografia digital de Sonia Guggisberg (Sonia Guggisberg/Paraty em Foco/Divulgação)
Sonia Guggisberg é, como Andujar, suíço-brasileira. Seu trabalho aprofundado sobre a crise migratória atual, com nome de “Silêncio”, foi registrado na Grécia, porta de entrada do continente europeu por onde milhares de refugiados tentam entrar diariamente. A exposição ficará em cartaz no Salão Nobre da Casa da Cultura até dois meses depois do encerramento do PEF.

Imigrantes no MIS

Museu da Imagem e do Som de São Paulo, parceiro do festival, contribuiu para a mostra “Fotógrafas imigrantes no acervo do IMS”, que reúne obras das artistas Alice Brill, Hildegard Rosenthal e Madalena Schwartz, destaques da fotografia moderna brasileira.
As imagens ficarão expostas no Muro da Pousada Marquesa, na rua da Cadeia, em frente ao restaurante Punto Divino.

Workshops

Durante o festival acontecerão cursos e saídas fotográficas com duração de um dia no valor de R$ 450 cada. Os nomes confirmados são: Andreas Valentin, Eduardo Queiroga, Mateus Sá, Michele Pucarelli, Bella Scorzelli, Espen Rasmussen, Emidio Luisi, Juan Esteves e Evandro Teixeira. As inscrições devem ser feitas no site do Festival.
Além da intensa programação cultural, o Festival promove durante o ano oficinas para formação de fotógrafos em comunidades carentes, que esse ano produziu a série “Gente Daqui”
Viagemturismo.Abril
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Dodge pede ao STF suspensão da portaria que apressa deportação de estrangeiro

Dodge pede ao STF suspensão da portaria que apressa deportação de
De saída do comando da Procuradoria-Geral da República, Raquel Dodge pediu ao STF (Supremo Tribunal Federal) que suspenda a portaria 666, assinada em julho pelo ministro Sérgio Moro (Justiça), que permite a deportação sumária de pessoa estrangeira considerada perigosa ou que tenha “praticado ato contrário aos princípios e objetivos da Constituição Federal”.
A medida do Ministério da Justiça foi publicada logo após início da série de reportagens do The Intercept. Os textos apontam irregularidades na condução da Operação Lava Jato, a qual Moro liderou na 1ª instância da Justiça do Paraná. O fundador do site é o jornalista americano Glenn Greenwald.
O ministério, na época, negou qualquer relação entre a medida e o jornalista. Em nota, a pasta dirigida por Moro afirmou que a portaria não permite deportação nos casos em que há “vedação legal, como de estrangeiro casado com brasileiro ou com filhos brasileiros”. Greenwald é casado com o deputado federal David Miranda (PSol-RJ).
Pela Lei de Migração, a deportação de um estrangeiro não ocorre em menos de 60 dias. De acordo com a medida do MJ, o prazo para deixar o País voluntariamente é de até 48 horas, com possibilidade de recurso que deve ser apresentado em 24 horas.
Ao STF, Dodge afirmou que a medida instrui tratamento discriminatório a estrangeiros, fere o princípio da dignidade humana e viola os preceitos fundamentais da ampla defesa, do contraditório, do devido processo legal e da presunção de inocência.
“Não há mais segurança jurídica aos estrangeiros, não importando qual seja a relevante atividade por eles desempenhada no território nacional”, afirma.
Ela considerou ainda que a medida cria figuras anômalas da “deportação sumária” e do repatriamento “por suspeita” altera substancialmente o sentido da Lei de Migração (Lei 13.445/2017), que estabelece que a política migratória brasileira é regida pela “universalidade, indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos”.

O que diz a portaria

A medida classifica como perigosos os suspeitos de envolvimento com atos de terrorismo, com grupo ou associação criminosa armada, com tráfico de drogas, pessoas ou armas, com pornografia ou exploração sexual de crianças e adolescentes e com torcidas com histórico de violência em estádios.
A portaria permite tanto o impedimento de entrada no Brasil quanto a redução do tempo de estadia e fixa prazo de até 48 horas para a saída voluntária da pessoa do país.
Estabelece ainda os meios para a verificação da suspeição da pessoa considerada perigosa, entre eles informações oficiais em ação de cooperação internacional, lista de restrições, informação de inteligência, investigação criminal em curso e sentença penal condenatória.
Fonte: STF

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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

FIEMG DISCUTE INTEGRAÇÃO DE IMIGRANTES NO MERCADO DE TRABALHO

Gestores de recursos humanos e empresários de diversos setores no Estado se reuniram, ontem, na sede da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), para discutir o papel das empresas no acolhimento e integração de imigrantes, principalmente venezuelanos. Durante o evento, foi apresentada a plataforma “Empresas com Refugiados”, produzida e fomentada por diversas organizações humanitárias e que tem o objetivo de sensibilizar e educar o setor corporativo em relação ao tema.
O Fórum Empresarial de Empregabilidade e Empreendedorismo para Refugiados e Migrantes contou com a participação de representantes do governo federal, de organizações internacionais, entidades locais que acolhem os imigrantes, além de empresas que operam em Minas Gerais e trabalham com o recrutamento de refugiados.
O Oficial de Meios de Vida do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), Paulo Sérgio de Almeida, explicou que há diversas formas de oferecer apoio a essas pessoas que saíram de maneira forçada de suas casas. Mas, segundo ele, a integração delas à sociedade brasileira é a solução mais eficaz para todos os lados.
“O cenário ideal era essas pessoas voltarem para os seus países em uma situação normalizada. Mas, falando na prática, a solução mais eficaz é integrá-las. Só assim elas vão conseguir recomeçar e não ficar dependendo do País que as acolhe”, disse.
Ele lembrou que muitas dessas pessoas que atravessam a fronteira em busca de uma vida melhor têm formação e são qualificadas em diversas áreas e, por isso, têm muito a contribuir.
O oficial fez questão de frisar que o processo de contratação de um refugiado é 100% legal e que essas pessoas têm documentos e carteira de trabalho. Ele também lembrou que a contratação de refugiados gera impactos positivos nas empresas, sendo um dos principais a construção da diversidade, que leva à inovação. Além disso, ele lembrou que a taxa de retenção desses funcionários é acima da média, tendo em vista que eles enxergam nas empresas uma chance de estabilização e recomeço no País.
“Estamos aqui hoje para dizer que essa população precisa ter visibilidade nos processos de recrutamento das empresas. Por favor, reconheçam a existência e a capacidade dessas pessoas”, disse.
O coordenador de projetos da Organização Internacional para Migrações (OIM), Guilherme Otero, compartilhou uma pesquisa da entidade sobre as barreiras que as empresas encontram para contratar imigrantes. Entre as principais respostas apareceram a dificuldade com a documentação desses funcionários, a falta de informações sobre o tema e o desconhecimento sobre os canais para encontrar e recrutar essas pessoas.
Sobre a ideia de que empregar imigrantes é tirar emprego dos brasileiros, o coordenador lembrou que essa é uma percepção errônea, uma vez que o Brasil tem um saldo migratório negativo, ou seja, o número de pessoas que sai do País é bem maior do que o número de pessoas que entra.
Foi justamente para sanar esse desafio em relação à informação, que a Rede Brasil do Pacto Global e diversas outras organizações humanitárias criaram a plataforma digital Empresas com Refugiados. Nela, os empresários encontram cases de empresas que recrutam refugiados, além de todos os contatos para entender mais sobre as ações e participar desse movimento.
Operação Acolhida – Entre as ações de maior destaque no Brasil está a Operação Acolhida, missão humanitária liderada pelas Forças Armadas em Boa Vista, capital de Roraima. A região é a mais acessada pelos imigrantes venezuelanos e, desde o ano passado, tem recebido um número crescente de famílias que buscam refúgio no Brasil.
De acordo com o coronel Souza Holanda, que é chefe da célula de interiorização da Operação Acolhida, cerca de 250 venezuelanos entram no Brasil todos os dias com o objetivo de restabelecer suas vidas no País. A missão conta com 13 abrigos temporários com capacidade para 6 mil pessoas. A operação recebe os imigrantes e os cadastra em um banco de dados com o objetivo de direcioná-los a ofertas de emprego. Cerca de 12 mil venezuelanos já foram beneficiados até junho deste ano.
“A empresa que tem interesse em contratar um refugiado vem até nós com o perfil do candidato desejado. Nós buscamos nesse banco de dados, apresentamos os currículos e damos todo o suporte para as entrevistas por teleconferência ou presencial. Depois, quando ele é contratado, oferecemos apoio com aluguel social, passagem aérea e entregamos esse imigrante totalmente pronto para trabalhar”, disse.
Ação em Minas – No Estado, o Serviço Jesuíta a Emigrantes e Refugiados faz um trabalho importante de acolhimento e integração dessas pessoas. A analista social Nathália de Oliveira, explica que a instituição oferece todo o apoio, desde a regularização da documentação, passando por assessoria jurídica, assistência social, curso de português e inserção no mercado de trabalho.
A organização também faz o trabalho de sensibilização das empresas e informação para diminuir as barreiras de contratação de imigrantes. Entres as empresas mineiras que já foram impactadas pelo trabalho do Serviço Jesuíta a Emigrantes e Refugiados estão Gerdau, Super Nosso e Vilma Alimentos.
Outra empresa que também apresentou um case sucesso na contratação de refugiados é a Accenture, que tem uma base com 1.500 funcionários em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). A empresa desenvolveu um programa de treinamento de imigrantes em Boa Vista, em Roraima, que inclui aulas de português, informática e tecnologias em geral. A Accenture busca entre essas pessoas formadas novos talentos.
“Esse programa surgiu a partir de uma necessidade da empresa, que era ter funcionários que falam outros idiomas. Hoje, temos 46 refugiados de 12 países na base brasileira, sendo 23 em Minas Gerais. Eles estão principalmente nas áreas de compras, contábil e financeira. Temos casos, inclusive, de irmãos que foram contratados juntos e que, hoje, estão muito inseridos e felizes na empresa”, afirmou a representante de Recursos Humanos da Accenture, Rejane Cardoso.

Etapa paranaense da Copa dos Refugiados será dia 29

As disputas de terceiro e quarto lugares e a grande final serão domingo (29), no Estádio do Pinhão, em São José dos Pinhais, Região Metropolitana de Curitiba. Foto: Geraldo Bubniak
Estão definidas as datas e locais dos jogos da etapa curitibana da Copa do Mundo dos Refugiados 2019, evento promovido pela Ong África do Coração com apoio institucional da Secretaria de Estado da Justiça, Família e Trabalho, da Agência da ONU para Refugiados (Acnur) e Organização Internacional para as Migrações (OIM).
As fases preliminares serão no dia 28 (sábado), no Centro de Educação Física e Desporto (CED), da Universidade Federal do Paraná, no Jardim das Américas. Já as disputas de terceiro e quarto lugares e a grande final serão domingo (29), no Estádio do Pinhão, em São José dos Pinhais, Região Metropolitana de Curitiba.
A competição acontece desde 2014 no Brasil, com o objetivo de promover a integração social dos migrantes e refugiados que encontraram aqui a esperança de reconstruir suas vidas.
Participam da etapa paranaense times formados por imigrantes e refugiados dos seguintes países: Haiti, Venezuela, Argentina, Colômbia, Congo, Nigéria, Bolívia e Peru. A seleção campeã ganhará a taça e uma viagem ao Rio de Janeiro para disputar a final nacional, no Maracanã, em novembro.
“O Governo do Paraná é parceiro no combate ao racismo e à xenofobia. E esta Copa é uma excelente oportunidade de integração e de congraçamento para essas pessoas que escolheram Curitiba para viver”, diz o secretário Ney Leprevost.
A etapa paranaense conta ainda com apoio e colaboração da Superintendência de Esporte do Paraná, Caritas Regional, UFPR, OAB/PR, Federação Paranaense de Futebol e da Prefeitura de São José dos Pinhais.
ATENDIMENTOS NO PARANÁ - Em quase três anos de funcionamento, cerca de 9.600 estrangeiros que buscam uma nova oportunidade de vida no Brasil foram atendidos no Centro de Informação para Migrantes, Refugiados e Apátridas do Paraná (Ceim-PR), vinculado ao Governo do Estado. Apenas em 2019 já foram 2.820 atendimentos.
São registros de mais de 40 nacionalidades, com destaque para Haiti, Cuba, Síria e Venezuela. São populações que vivenciam crises humanitárias motivadas por tragédias naturais ou crises políticas, como o terremoto que atingiu o Haiti em 2015, as ditaduras enfrentadas por venezuelanos e cubanos e a guerra civil síria, que começou em 2011.
O Centro oferece orientação e acesso às diversas políticas públicas do Estado, acolhe e orienta os imigrantes e faz os encaminhamentos necessários – como, por exemplo, auxílio para buscar um emprego.
Para o secretário Ney Leprevost, o papel do Estado é oferecer condições dignas para que essas pessoas consigam, no Brasil, uma nova oportunidade. “As 28 etnias que colonizaram o Estado nos séculos 19 e 20 – alemães, poloneses, ucranianos, italianos, japoneses entre eles – trouxeram na bagagem seus costumes e tradições e ajudaram a construir o Paraná de agora”, afirmou.
Hoje, diz o secretário, são outros povos que buscam abrigo aqui. “Muitos migrantes estão fugindo de governos ditatoriais ou de situações de calamidade pública e extrema pobreza. Aqui, temos a missão de encaminhá-los para assistência jurídica, mercado de trabalho e atendimento socioassistencial”, acrescentou.
Agencia Noticias de Parana
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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Relatório aponta que refugiados necessitam de mais políticas públicas

Jovens refugiados do Haiti, Venezuela, Angola e Gana, residentes em Brasília, recebem certificado de oficinas que visam inserir jovens  no mundo de trabalho, por meio dos programas de estágio e programa aprendiz do CIEE
A Cátedra Sergio Vieira de Mello, da Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), apresentou relatório em seu 10º Seminário Nacional, em que aponta para a necessidade de implementação de políticas públicas específicas que amparem os cerca de 11,2 mil refugiados atualmente no Brasil e atendam às suas demandas e dificuldades.
“Dificuldades que eles [refugiados] têm em termos de revalidação do diploma, de cursar escola pública quando estão em situação de refúgio no país, dificuldade de acessar, na verdade, os seus direitos, desinformação em relação à possibilidade de naturalização”, disse à Agência Brasil o coordenador no Rio de Janeiro do relatório O Perfil Socioeconômico dos Refugiados no Brasil, Charles Gomes.
O pesquisador é chefe do Setor de Direito Político e coordenador do Centro de Proteção a Refugiados e Imigrantes (Cepri) da Fundação Casa de Rui Barbosa. Ele disse que há desconhecimento por parte dos refugiados que estão no Brasil há mais de cinco anos que podem se naturalizar. “Muitas pessoas que a gente entrevistou tinham direito de se tornarem cidadãos brasileiros, mas não sabiam. Então, é falta de informação, de políticas direcionadas a essas pessoas”.
Muitos refugiados, segundo o pesquisador, relataram ter sofrido discriminação pelo fato de serem estrangeiros, e os africanos têm a sensação de sofrerem racismo no Brasil, porque viviam em um país de maioria negra. “O que você percebe é que a maioria conta com ajuda de entes próximos, de outros imigrantes, porque pouco foi feito em relação ao Estado e à participação do Estado em ajudá-los no emprego, normalmente. Em muitas coisas, você vê que o Estado ficou ausente no auxílio a essa população”, disse Charles Gomes.

Origem

De acordo com o documento, a origem majoritária dos cerca de 11,2 mil refugiados no Brasil é a Síria e a República Democrática do Congo, que representam, juntos, 55,23% da amostra de 487 refugiados entrevistados. As consultas foram feitas entre o dia 13 de junho de 2018 e 20 de fevereiro deste ano, em 14 cidades, de oito estados, que reúnem 94% dos refugiados no país.
Dos 487 entrevistados, 153 vieram da Síria e 116 do Congo. Angola, com 42, e Colômbia com 36, representam 16,01% da amostra. O transporte aéreo foi o meio mais empregado para chegar ao Brasil, abrangendo 93,84% das respostas.
A maioria, 83,16%, chegou ao Brasil após 2010 e o país concedeu refúgio a 389 pessoas. Em relação ao gênero, excluindo os que não quiseram dar informações, 66,9% declararam-se homens e 31,6%, mulheres.
O relatório O Perfil Socioeconômico dos Refugiados no Brasil mostra que 88,26% dos refugiados têm entre 18 e 49 anos, ou seja, estão na idade considerada economicamente ativa, e 11,73% têm mais de 50 anos.
Sobre raça ou cor, dos 463 que responderam à pergunta formulada, 46% se disseram negros; 40,17%, brancos; 12,74%, pardos; 0,65%, indígenas; e 0,43%, amarelos. Informaram ser casados ou em união consensual 46,61% (227 pessoas), enquanto 49,08% (239) são solteiros. Do total de entrevistados, 59% disseram ter vindo para o Brasil com suas famílias e 93% informaram professar alguma religião, sendo as principais a islâmica (39,96%) e a evangélica (27,46%).

Ensino

Da amostra pesquisada, 31,33% têm ensino superior completo e 50,21% o ensino médio completo. Dos formandos em seus países de origem, um percentual elevado de 90,48% não teve sucesso na revalidação dos diplomas. Os empecilhos vão desde a falta de informações e de documentos necessários até dificuldades com o idioma português. Apesar disso, 53,66% frequentam cursos de português no Brasil. Além dos idiomas perguntados (português, francês, inglês, espanhol e árabe), 48,55% disseram falar outro idioma. A alta taxa de escolaridade estimula o desejo de continuar a estudar no Brasil para 31,27% dos consultados.
Sobre moradia, 78,44% declararam viver em unidades residenciais particulares, enquanto 21,56% moram em domicílios coletivos, o que revela precariedade da vida cotidiana e vulnerabilidade. Cerca de 90,58% moram de aluguel e menos de 2% em moradias cedidas. Os que vivem em casas com até quatro pessoas somam 76,1% e 23,88%, com cinco ou mais pessoas.
Dos 395 refugiados que informaram a renda, 79,5% ganham abaixo de R$ 3 mil por mês e 24% têm renda inferior a R$ 1 mil. Só 20,5% ganham acima de R$ 3 mil. A renda domiciliar per capita é inferior a um salário mínimo. De acordo com a pesquisa, os gastos com saúde, educação e lazer são compatíveis com a baixa renda e se situam abaixo de R$ 100 por mês. Do universo de 468 refugiados que responderam à questão, 67% afirmaram que a renda não é suficiente para cobrir os gastos domésticos.
O percentual de refugiados com conta bancária é elevado, 79,7% do total ou 388 casos, e 95,5% vivem em ruas com serviços públicos básicos. Em relação a trabalho, 57,5% afirmaram estar trabalhando, 19,5% estão à procura de trabalho, 31,07% trabalham por conta própria e 79,3% têm disposição de empreender.

Integração

Na área da cultura, 87,27% disseram manter contatos culturais de origem por meio da internet e 94,66% mantêm contato com parentes, amigos e instituições do país de origem. Outros 49,9% mantêm laços financeiros, seja enviando, recebendo dinheiro ou ambas as situações. Apenas um terço, 33,54%, declararam ter conhecimento de seus direitos e deveres no Brasil. Os serviços de saúde são usados por 91% da mostra e os serviços educacionais por 41%. Já os serviços de assistência social são utilizados por apenas 19%, embora 83,72% disseram ser atendidos pelo programa Bolsa Família.
O relatório revela um baixo nível de integração e de associativismo de refugiados no Brasil. Já as perspectivas futuras são positivas. Segundo as respostas obtidas, os processos integrativos se limitam ao trabalho e à rede mais próxima, o que pode ser observado principalmente em regiões de fronteira, como a cidade de Foz do Iguaçu (PR). A grande maioria, 71,49% de 477 entrevistados, não participa de nenhuma associação.
Por outro lado, 91% dos 487 entrevistados disseram ter amigos brasileiros. De 467 informantes, 57,3% realizam atividades de lazer em espaços públicos. De 474 entrevistados, 80,6% manifestaram desejo de votar nas eleições brasileiras e a grande maioria (93,3%) externou interesse em obter a nacionalidade brasileira. Dos 456 refugiados que responderam à questão sobre a cultura brasileira, 53,6% relataram total desconhecimento.
No tópico relativo à discriminação, 41% (200) afirmaram ter sofrido alguma discriminação. Dentre esses, 73,5% foram discriminados por serem estrangeiros e 52% por serem negros. Segundo os refugiados, os principais agentes da discriminação são pessoas comuns, isto é, cidadãos brasileiros.
Sobre as perspectivas futuras, 77,85% admitiram tornar a fazer a solicitação de refúgio, permanecer no Brasil e trazer as famílias. Já 84,23% desejam permanecer definitivamente no Brasil.

Cátedra

A Cátedra Sergio Vieira de Mello da ACNUR reúne atualmente 22 instituições de ensino superior públicas e privadas, entre elas a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a Universidade Federal Fluminense (UFF), a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e a Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB). O 10º Seminário Nacional da Cátedra comemora os 15 anos de fundação da Cátedra.
O seminário reúne pesquisadores brasileiros e internacionais para discutir temas relacionados à migração forçada na América Latina e se estenderá até a próxima sexta-feira (13), na PUC-Rio.
 EBC
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Prefeitura atende perto de 3,5 mil imigrantes

Evento de acolhimento e cadastro de haitianos organizado pela Prefeitura de Campinas na Estação Cultura
A Prefeitura de Campinas atende cerca de 3,5 mil imigrantes que precisam de políticas públicas específicas por não estarem totalmente integrados. No entanto, levantamento feito entre 2000 e 2016 aponta 17 mil imigrantes vivendo na cidade. A maioria vem de países latino-americanos, africanos e asiáticos. Segundo a Prefeitura, Campinas possui um universo diversificado e abrangente de imigrantes residentes. Dados do Observatório das Migrações, entre 2000 e 2016, mostram que foram registrados como residentes no Município cerca de 17 mil pessoas — a maior parte já encontra-se integrada ou não necessita de políticas públicas específicas.
Eles se dividem em quatro grupos. O primeiro grupo é de estrangeiros com atividade e tempo de permanência pré-definido. Nele, estão os estudantes, professores universitários, trabalhadores de multinacionais e religiosos. No segundo grupo estão os imigrantes "autônomos". São profissionais liberais, intelectuais e artistas, que geram pouca ou nenhuma demanda específica.
O terceiro grupo é composto por imigrantes e refugiados do fluxo imigratório da segunda metade do século 20. São totalmente incluídos na sociedade. No último grupo estão os que demandam políticas públicas específicas, como acesso ao idioma, regularização de documentação, intermediação no acesso à saúde. Os 3,5 mil que demandam assistência estão nesse grupo.
Segundo a Diretoria de Direitos Humanos de Campinas, eles são haitianos, venezuelanos, colombianos, peruanos, cubanos, congoleses, ganeses, angolanos, guineenses, chineses, sírios e paquistaneses.
De acordo com Fábio Custório, diretor de Direitos Humanos, as maiores concentrações desses grupos de imigrantes encontram-se em Barão Geraldo, Campo Grande, região do CDHU San Martin; região do Ouro Verde e região Central. Ainda segundo a Administração, até o início do segundo semestre de 2015, a imigração era, majoritariamente, de pessoas com nível superior e com pouca experiência em trabalhos braçais. Esse quadro começou a se alterar com a entrada de contingente maior de imigrantes com formação equivalente ao nosso Ensino Médio e Fundamental.
"A estimativa é que durante o segundo semestre de 2019, mesmo com a continuidade da entrada de imigrantes haitianos, a cidade passe a ser um dos principais destinos de imigrantes venezuelanos", explica o diretor. Em relação ao Oriente Médio/Ásia, a continuidade das perseguições religiosas no Paquistão deverá forçar a saída de cristãos, que já têm Campinas como alternativa de refúgio. Por outro lado, em relação aos sírios, pode ocorrer o fluxo contrário: retorno de famílias refugiadas, na medida que sejam maiores as possibilidades apontando para o fim do conflito bélico no país de origem.
Na semana passada, técnicos do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) visitaram Campinas para conhecer os serviços oferecidos pela Administração Municipal à população imigrante e refugiada. "Iremos elaborar uma proposta conjunta de capacitação para as equipes da Prefeitura e também para as organizações da sociedade civil que atuam no atendimento a essa população. O prazo para fechamento da proposta ainda não foi definido, mas tentaremos que isso ocorra até o final deste mês", destaca Custódio. Até o momento estão sendo desenvolvidos cursos de português voltados para a população imigrante. Todos os cursos de capacitação profissional ofertados pelo sistema público de empregabilidade (CPAT) são oferecidos também para essas pessoas. 
Oficina de inserção chega à 3ª edição
Hoje, Campinas recebe a terceira edição da oficina para a inserção laboral de migrantes em situação de vulnerabilidade realizada pela Organização Internacional para as Migrações (OIM). A capacitação tem como objetivo a implementação de políticas para migrantes em situação de vulnerabilidade no setor privado, esclarecendo mitos e dúvidas sobre o processo de contratação, prestação de assistência e documentação.
O intuito é promover a valorização da troca de conhecimentos e a interculturalidade. “Contratar imigrantes e refugiados representa para as empresas ganho em diversidade, convivência com o diferente, dedicação e mão de obra qualificada. E, além de enriquecer a cultura corporativa, a empresa ganha também em melhoria de sua imagem ao demonstrar estar preocupada com as causas sociais”, ressalta o diretor de Direitos Humanos da Prefeitura, Fábio Custódio.
A série de oficinas já passou por Boa Vista, Curitiba, Florianópolis, São Paulo e Rio de Janeiro. A escolha de Campinas para receber a próxima capacitação ocorre em reconhecimento de seu protagonismo como polo tecnológico em desenvolvimento e que atrai variedade de profissionais, principalmente especializados.
Esta edição, que ocorre no Centro de Formação, Tecnologia e Pesquisa Educacional "Prof. Milton de Almeida Santos", conta com o apoio financeiro do governo da Holanda e é executava em parceria com a Integra Diversidade, o Observatório das Migrações em São Paulo, a Secretaria de Assistência Social da Prefeitura de Campinas, e o “Núcleo de Estudos de População Elza Berquó”, da Unicamp.
Correio .Rac
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terça-feira, 10 de setembro de 2019

Paraty em Foco 2019: Migrações e a mestiça fotografia brasileira na 15ª edição do festival

Claudua Andujar - Sonhos Yanomami
O Brasil é uma nação de imigrantes e de maciços fluxos migratórios internos e esse será o tema do pioneiro dos festivais de fotografia no país. O Festival Internacional de Fotografia Paraty em Foco – PEF 2019 comemora sua 15ª edição, de 18 a 22 de setembro, privilegiando essa população nômade que mistura culturas, ideias e imagens e que faz artistas migrarem de um suporte a outro. 
A arte invade o Centro Histórico de Paraty, cidade recém-declarada patrimônio da humanidade pela Unesco. Exposições gratuitas tomam conta da Casa da Cultura e de espaços públicos como muros e praças. A Praça da Matriz recebe imagens impressas em grande formato e uma tenda de projeções e debates. Uma programação de palestras e workshops com grandes nomes da área, mediante inscrição, faz a festa para fotógrafos amadores e profissionais.
EXPOSIÇÕES GRATUITASO PEF 2019 homenageia a fotógrafa Claudia Andujar. Nascida na Suíça, ela chegou em 1955 ao Brasil após perder grande parte de sua família na Segunda Guerra Mundial. Aqui foi atraída pela vida e causa dos povos indígenas e seu lento extermínio pela paulatina migração do homem branco e o avanço do desmatamento. Na Praça da Matriz, suas fotos da série Sonhos, que revelam os rituais xamanísticos do Yanomamis, estarão expostas em grande formato descortinando a essência do povo indígena.
Outra presença confirmada com exposição ao ar livre na Praça da Matriz é a de Orlando Azevedo. Açoriano de nascença, brasileiro por escolha, ele traduz em suas fotos o Brasil e seus tons de pele. Na mostra Mestiço – Retrato do Brasil, Orlando exibe portraits realizados de Norte a Sul do país.  
O holandês Pieter ten Hoopen leva para a Praça da Matriz imagens da caravana de imigrantes da América Central que atravessou o México até a fronteira com os Estados Unidos.  O trabalho rendeu a Pieter o prêmio World Press Photo 2019.
Na quadra poliesportiva, coladinha à Igreja da Matriz, os ganhadores da Convocatória em Foco vão exibir suas obras, escolhidas em duas categorias: Ensaio e Foto Única. A mostra é um dos destaques do PEF e plataforma internacional para dar visibilidade a tendências, autores e trabalhos emergentes.
Os espaços em muros das centenárias construções de Paraty também abrigarão exposições. Na Rua Marechal Deodoro, uma mostra reúne três fotógrafas imigrantes do acervo do Instituto Moreira Salles: as alemãs Alice Brill e Hildegard Rosenthal e a húngara Madalena Schwartz. O muro da Casa da Cultura recebe a projeção do fotógrafo francês radicado no Rio, Vincent Rosenblatt, com imagens do universo dos bailes funk em comunidades cariocas.
Exposições ocupam a Casa da Cultura de Paraty: Silêncio, da suíço-brasileira Sonia Guggisberg, sobre a gigantesca migração contemporânea, com imagens feitas em territórios como a Grécia e a Ilha de LampedusaKilombo, da boliviano-americana Maria Daniel Balcazar, sobre a resistência negra e sua importância na formação do Brasil; e Mundo dos Esquecidos, da brasileira Eliane Band, com retratos de grupos étnicos do Sul e Sudeste asiático. No pátio interno serão expostos os autorretratos criativos da Selfie em Foco
O muro do Campo de Futebol de Paraty, fora do Centro Histórico, vai exibir 50 fotos de adolescentes da cidade, clicados pelo criador do PEF Giancarlo Mecarelli para a mostra Sonho Meu. Nas imagens os jovens mostram o que desejam ser no futuro.
Na Praça da Matriz, será instalada a Tenda de Projeções voltada a trabalhos audiovisuais. No Cinema da Praça, sessões gratuitas de longas serão exibidas mediante senha, 30 minutos antes das sessões.
O festival mantém atividades como workshops e a série de Encontros e Entrevistas, além de leitura de portfólios. Inscrições e programação completa no 
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segunda-feira, 9 de setembro de 2019

''Estamos sempre à deriva'', diz a escritora Adriana Lisboa

Escritora fala de sua poesia - que "foge da tentação de encontrar um rumo inexistente" - e do sentimento contemporâneo de deslocamento

Julie Harris/divulgação

Adriana Lisboa veio ao Brasil lançar a coletânea de poemas Deriva e o romance Todos os santos (foto: Julie Harris/divulgação )

Adriana Lisboa está completando 20 anos de literatura. Ela vive nos Estados Unidos e veio ao Brasil lançar dois livros: a coletânea de poemas Deriva (Relicário) e o romance Todos os santos (Alfaguara). Nesta entrevista, a escritora fala de sua poesia – que “foge da tentação de encontrar um rumo inexistente” – e do sentimento contemporâneo de deslocamento. “As zonas fronteiriças se tornaram de uma urgência aterradora, e ao mesmo tempo observa-se um discurso cada vez mais encarniçado de exclusão do outro”, afirma.
A palavra “deriva” sugere uma embarcação mais ou menos perdida, sem rumo. Mas os poemas aqui parecem não estar à deriva; ao contrário, no conjunto, formam uma espécie de comentário poético sobre o estado das coisas. Essa dicotomia foi algo pensado para esses poemas?
Tenho a impressão de que de um modo ou de outro estamos sempre à deriva. A vida não acata o controle que supomos ter sobre ela. Esse livro foi escrito num momento pessoal e coletivo de sensação de enorme falta de rumo, entre 2017 e 2019, e acho que os poemas buscam fugir à tentação de encontrar um rumo inexistente. Gosto da ideia de comentário, que você sugere na pergunta. Os comentários são às vezes (ou quase sempre), nesse caso, construídos por interrogações, por um julgamento que não se define, por um movimento que para mim é como o do mar aberto, quando não se sabe muito bem para onde se vai. Mas, de todo modo, há ilhas no trajeto, e há também a liberdade, que é uma espécie de trunfo diante da incerteza de da indefinição.
Como a sua estada fora do Brasil contribuiu para a elaboração do luto e da saudade presente nas páginas de Todos os santos?
Todos os Santos foi um romance que levei seis anos para escrever – não trabalhei nele todo esse tempo, mas foi o que levou para vir à luz, depois de outros projetos descartados. Meu romance anterior, Hanói, saiu em 2013, e no início de 2014 vivi uma das experiências mais difíceis e marcantes da minha vida: a morte inesperada da minha mãe. Então, minha língua materna ganhou uma espécie de novo status, tornando-se de fato a minha mátria, para usar a expressão de Caetano Veloso. A língua foi refúgio ao longo desses seis anos fundamentais à elaboração do luto, ao qual se somaram outras perdas em minha vida pessoal, mas também na esfera coletiva. Todos os santos foi uma maneira de vencer a tristeza que às vezes parece que vai levar a melhor, de continuar inteira e com vontade de escrever.
Nas suas últimas ficções, o senso de deslocamento está muito presente. A última década aprofundou e ao mesmo tempo deturpou a discussão sobre deslocamentos, migrações e zonas fronteiriças que você aborda nesses livros?
Em Todos os santos, o deslocamento que mais me interessa não é o dos personagens à Nova Zelândia, que no livro não é um cenário essencial, mas quase que um não-lugar, rarefeito e longínquo. Aqui, a migração das aves me interessa, e o que ela significa em termos de resiliência de uma espécie, mas também da violência da presença humana no mundo. Tenho a impressão de que nesses romances o tema do deslocamento veio se ressemantizando e se ampliando, de modo que hoje já não me interessa tanto falar de choques culturais etc, mas sim – e aí faço uma ponte com o livro de poesia – esse estar à deriva que é uma marca dos nossos tempos, mas também a marca da nossa própria existência no mundo. 
Nesses últimos 12 anos, as questões envolvendo deslocamentos, migrações e zonas fronteiriças se tornaram de uma urgência aterradora, e ao mesmo tempo observa-se um discurso cada vez mais encarniçado de exclusão do outro e de defesa violenta do "meu", que é a mais equivocada de todas as respostas. Nossas conquistas científico-tecnológicas precisam de uma evolução ética da mesma envergadura.

Estadão
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Venezuelanos se reúnem na Missão Paz


Um grupo de aproximadamente 100 venezuelanos se reuniu na Missão Paz neste  domingo 8 de setembro.  Foi celebrada uma missa, lembrando "Nuestra Señora de Coromoto". Em seguida, após a execução do hino do Brasil e da Venezuela, teve almoço típico e tarde cultural.


A crise vivida pelos venezuelanos é noticiada pelos principais jornais do mundo, que apontam os problemas políticos e econômicos enfrentados pelo governo da Venezuela. O país é governado atualmente pelo presidente Nicolás Maduro, que enfrenta um forte descontentamento da população em relação a sua gestão. Maduro assumiu o governo do país com o propósito de dar continuidade às políticas de seu antecessor, 

Hugo Chávez. Contudo, a Venezuela vivia tempos difíceis no ano de 2013, quando Maduro tomou posse como presidente. Com uma inflação que ultrapassava 800% ao ano e barris de petróleo apresentando altas em seu preço, o país viu-se imerso em um colapso econômico, que resultou em uma dramática crise humanitária. Faltavam no país insumos básicos para a sobrevivência. 

Missão paz
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sábado, 7 de setembro de 2019

Campinas sedia capacitação para inclusão de migrantes no mercado de trabalho

Workshops abordam como empresas podem melhorar suas políticas de inserção laboral para migrantes internacionais. Fotos: OIM
Workshops abordam como empresas podem melhorar suas políticas de inserção laboral para migrantes internacionais. Fotos: OIM
Na próxima terça-feira (10), Campinas recebe a terceira edição da oficina para a inserção laboral de migrantes em situação de vulnerabilidade realizada pela Organização Internacional para as Migrações (OIM).
A capacitação tem como objetivo a implementação de políticas para migrantes em situação de vulnerabilidade no setor privado, esclarecendo mitos e dúvidas sobre o processo de contratação, prestação de assistência e documentação. As inscrições, além de gratuitas, podem ser realizadas em formulário online.
Com as oficinas, a OIM e seus parceiros pretendem auxiliar o setor privado no desenvolvimento de ações e políticas corporativas para a contratação de migrantes e refugiados.
O intuito é promover a valorização da troca de conhecimentos e a interculturalidade. A atividade contribui ainda para apoiar o processo de interiorização e integração dos venezuelanos que se encontram em Roraima.
“Contratar imigrantes e refugiados representa para as empresas ganho em diversidade, convivência com o diferente, dedicação e mão de obra qualificada. E, além de enriquecer a cultura corporativa, a empresa ganha também em melhoria de sua imagem ao demonstrar estar preocupada com as causas sociais”, ressalta o diretor de Direitos Humanos da prefeitura de Campinas, Fábio Custódio.
A série de oficinas promovidas pela OIM já passou por Boa Vista, Curitiba, Florianópolis, São Paulo e Rio de Janeiro. A escolha de Campinas para receber a próxima capacitação ocorre em reconhecimento de seu protagonismo como polo tecnológico em desenvolvimento e que atrai variedade de profissionais, principalmente especializados.
A cidade é também o segundo município paulista que mais recebeu migrantes nas últimas décadas. Dessa forma, pretende-se incentivar a inovação e aumento do desempenho com a contratação local de imigrantes.
Esta edição conta com o apoio financeiro do governo da Holanda e é executava em parceria com a Integra Diversidade, o Observatório das Migrações em São Paulo, a Secretaria de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos da Prefeitura de Campinas, e o “Núcleo de Estudos de População Elza Berquó”, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). O conteúdo das capacitações foi desenvolvido no ano de 2018 com financiamento do IOM Development Fund.
Serviço
Oficina para inserção de migrantes em situação de vulnerabilidade no mercado de trabalho brasileiro
Data: 10 de setembro de 2019, terça-feira
Horário: 8h30 às 12h
Local: Cefortepe Campinas – Centro de Formação Tecnológica e Pesquisa Educacional “Prof. Milton de Almeida Santos”. Rua Emílio Ribas, 880 – bairro Cambuí, Campinas (SP).
Inscrições: http://bit.ly/OficinaMigranteCampinas
OIM
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Refugiados no Brasil estudam sistema bancário para evitar armadilhas

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Lidar com as regras de um desconhecido sistema bancário é apenas um dentre os diversos desafios enfrentados por quem busca recomeçar suas vidas em um novo país. Mas a falta de certas informações pode levar a escolhas ruins que dificultam a busca pelo equilíbrio financeiro. Buscando evitar as armadilhas, um grupo de refugiados e imigrantes residentes no Rio de Janeiro a se mobilizarem em busca de conhecimento.
"Pude compreender melhor sobre os créditos. Não se deve aceitar o que os bancos estão oferecendo sem pensar com calma. Tem que ter consciência", disse a venezuelana Yennifer Zarate, após participar na última terca-feira (3) do painel Refugiados e a Empregabilidade no Brasil, que tratou do assunto. A iniciativa é da gerência de responsabilidade sociocultural da estatal Furnas. Venezuelanos, congoleses, sírios e outros estrangeiros puderam acompanhar gratuitamente a exposição de diversos especialistas.
O russo Andrei Kisselev, que morava no Uruguai e se mudou para o Brasil há cinco meses por enxergar no país um melhor cenário econômico, saiu satisfeito. "Acho que posso fazer aqui alguns negócios com mais êxitos. E o que foi falado é extremamente importante, porque são coisas muito específicas. Me interessa muito os detalhes que possam ter relação com importação e exportação, porque é algo que estou começando a negociar. E essas informações ajudam a evitar problemas e a nos preparar antes de começar uma atividade".
Claudia Regina Tenório, assistente social de Furnas, conta que os próprios refugiados, durante a edição anterior do painel, reivindicaram uma discussão específica sobre sistema financeiro. Ela destaca como o conhecimento pode ser determinante e cita casos em que estrangeiros perderam oportunidades de trabalho porque não estavam previamente informados sobre a possibilidade de se registrarem como microempreendedor individual (MEI).
 Refugiados e imigrantes da Venezuela, Congo, Rússia e Colômbia assistem palestras educacionais para entenderem o sistema financeiro brasileiro na sede de Furnas.
Refugiados assistem palestras para entenderem o sistema financeiro brasileiro - Fernando Frazão/Agência Brasil
O registro de MEI dá ao profissional autônomo o statusde pequeno empresário. Ele passa a figurar no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ), o que pode ajudar a abrir portas no mercado de trabalho. "Não basta que as oportunidades existam. É preciso oferecer conhecimento para que eles possam estar preparados para aproveitar essas oportunidades", diz Cláudia.
Engenheira industrial, Yennifer trabalhou por anos em uma mineradora na Venezuela e decidiu deixar o país há um ano e cinco meses. Ela precisou andar por oito dias antes de alcançar Boa Vista, capital de Roraima. De lá, sem recursos e passando fome, conseguiu uma carona que lhe levasse até Manaus, onde teve apoio para chegar ao Rio de Janeiro.
"Meu filho e meu marido faleceram, o que me fez decidir sair do meu país. Meu filho morreu recém-nascido por falta de oxigênio. Nenhum hospital na região estava equipado. E depois meu marido sofreu um acidente. Fiquei desesperada e pensei: 'se eu fico, vou morrer também'. A crise econômica afetava tudo. Mesmo uma gripe poderia matar porque não havia condições mínimas de atendimento".
No Brasil, ela está reconstruindo sua vida. Tornou-se artesã e obteve, no ano passado, seu registro como MEI. Ela cita como fundamental o acolhimento da Cáritas, entidade humanitária vinculada à Igreja Católica. "Cheguei no Rio, não sabia o que fazer, não falava nada de português. Mas fui informada na Cáritas sobre o curso de cuidador que é oferecido por Furnas e me inscrevi. Com o curso, consegui um trabalho com pacientes com câncer e no tempo livre aprendi a costurar, o que me deu uma nova atividade. Hoje eu vendo produtos em várias feiras, em Copacabana, em Botafogo, na Freguesia", celebra.
Encontrar uma nova atividade econômica após deixar seu país, como no caso de Yennifer, é comum. Dados de uma pesquisa divulgada em junho pela Universidade Federal do Paraná, em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), revela que apesar de possuírem geralmente alta qualificação, a maioria dos estrangeiros refugiados no Brasil trabalha de forma autônoma e não consegue atuar na área de formação.
Dos 462 refugiados entrevistados, 315 desenvolviam atividades distintas daquelas vinculadas à sua profissão anterior, o que representa 68% do total. Além disso, 19% estavam desempregados neste período. O índice é superior à média nacional de 11,8% apurada no mês passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O país reconhece mais de 11 mil refugiados , segundo dados da Acnur de dezembro de 2018.
Enquanto busca se preparar para crescer com suas novas atividades profissionais, Yennifer continua enfrentando dificuldades impostas pela situação econômica de seu país. "É muito difícil. Abri minha microempresa em novembro e só no mês passado consegui dar a minha mãe essa notícia. Onde ela mora, as condições de comunicação são precárias. Mas finalmente contei que minha empresa se chama Alice Artesanatos em homenagem a ela."

Alertas

No painel organizado por Furnas, Yennifer pôde aprender as diferenças entre uma conta corrente e uma conta salário e entender algumas taxas cobrados por bancos. Ela também foi alertada sobre o alto índice de endividamento e inadimplência no país.
"Falar para o refugiado é um desafio pois é um público muito heterogêneo. Você tem pessoas de nacionalidades diferentes e que vieram de realidades socioeconômicas muito diferentes. Há pessoas que mesmo vindo de realidades parecidas, vivem situações distintas no Brasil: umas mais outras menos estabilizadas. Fiz um exercício de me imaginar como estrangeiro. O que eu preciso saber para que não caia em armadilhas? Os brasileiros já têm dificuldade, imagina o estrangeiro que acabou de chegar?", disse um dos palestrantes, Victor Ayres, analista de projetos do Instituto Sicoob, entidade vinculada ao Sistema de Cooperativas de Crédito do Brasil.
Victor destaca os problemas advindos da falta de cautela no uso do cheque especial e do cartão de crédito, que possuem juros altos. Ele orientou os refugiados a pesquisar outras modalidades de crédito, com condições mais favoráveis, caso necessitem de recursos para impulsionar seus negócios.
Outra dica do palestrando foi sobre o pacote de serviço bancário. "Muitos refugiados estão vendo dinheiro sair de suas contas correntes e não sabem o porquê. Quando eles foram abrir a conta, o funcionário do banco ofereceu o pacote básico para eles que custa cerca de R$ 10 por mês. Mas provavelmente não contaram que existe a opção gratuita, que é o pacote essencial", explica. O pacote essencial permite ao correntista mensalmente efetuar quatro saques, realizar duas transferências entre contas da mesma instituição e retirar dois extratos no caixa eletrônico. Se esses limites forem suficientes para a pessoa, ela pode pedir o cancelamento do pacote básico.
EBC
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