Programa Latinoamerica no Ar- Missão Paz , Radio 9 de Julho Am 1600 Khz Domingo das 16 a 17 h. Miguel Angel Ahumada, Patricia Rivarola
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Considerado um artista que soube olhar com sensibilidade para o mundo a seu redor, Lasar Segall terá gravuras expostas no Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto entre 26 de agosto e 26 de setembro, com o apoio do Ministério da Cidadania.
Lasar Segall se instalou no Brasil em 1923, residindo lá até sua morte, em 1957. Conforme destaca o Museu, o drama da emigração o marcaria por toda a sua vida, e parte de suas obras é dedicada à experiência judaica, noção de identidade e o exílio dos que são obrigados a deixar seus países.
As gravuras revelam a identificação do artista com imigrantes que, assim como ele, atravessaram o Atlântico em busca de melhores condições de vida na primeira metade do século 20. Muitos deles tornaram-se refugiados que padeceram do antissemitismo em larga escala gerado pelo arbítrio sem limites do regime nazista, que culminou no Holocausto.
Dezenas de gravuras de Segall sobre a imigração, produzidas entre 1926 e 1930, serão expostas no Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto. Serão exibidas desde imagens de imigrantes que conversam sentados no tombadilho até marinheiros que cuidam de chaminés, passando por gaivotas que pousam nos respiradouros do navio, tudo retratado com a conhecida maestria modernista de Segall.
Irradiador do modernismo brasileiro
Na opinião de Celso Lafer, jurista e membro da Academia Brasileira de Letras, Lasar Segall é um dos grandes artistas plásticos do século XX. “Participou criativamente do expressionismo alemão e, depois de radicar-se no Brasil, teve um papel de grande e irradiador relevo no modernismo brasileiro. São múltiplos os seus olhares e diversificadas as fontes de sua inspiração que se objetivaram no alcance universal de sua produção artística”, observa Lafer.
“As gravuras que integram esta exposição podem ser vistas como parte do ateliê de criação artística de Segall. Contribuem para o entendimento de diversas facetas de um quadro que foi pensadíssimo. Por outro lado, tem uma autonomia estética própria”.
Hoje, o Museu Lasar Segall funciona na casa em que o artista viveu, preservando sua memória e divulgando sua obra, marcada por notável proficiência técnica, que lhe garantiu virtuosismo invejável. Em suas palavras: “Sem técnica, sem conhecimento do método, o artista não fala – gagueja”.
Pelo quarto ano consecutivo, o Brasil aparece entre os piores lugares do mundo para um estrangeiro viver e trabalhar. Com desempenho desastroso em critérios como segurança e bem-estar, o país ocupa a 61ª posição entre as 64 nações avaliadas.
Os dados fazem parte da pesquisa Expat Insider 2019, um levantamento anual realizado pela rede InterNations, uma comunidade online formada por pessoas que moram fora de seus países de origem.
A pesquisa feita pela internet colheu respostas de cerca de 20 mil pessoas de 182 nacionalidades.
Embora vá bem em critérios como amabilidade de população e facilidade para ter um encontro romântico, o Brasil vai mal na maioria das subcategorias analisadas, ficando entre os dez piores desempenhos em três de cada cinco quesitos.
Entre os estrangeiros que vivem no Brasil e responderam à pesquisa, há uma sensação generalizada de insegurança pessoal e custos altos, que se traduz também na qualidade de vida familiar, onde o país aparece com o pior desempenho entre os países analisados.
“Chocantes 61% [dos estrangeiros] classificam sua segurança pessoal como ruim, comparado a apenas 9% globalmente”, assinala o documento.
Enquanto a segurança derruba os resultados, a “amabilidade dos brasileiros” é considerada bastante positiva. A barreira do idioma, no entanto, é algo assinalado pelos estrangeiros, que afirmam, de maneira geral, que os que não dominam o português têm dificuldades sérias para se integrarem.
O custo de vida elevado e a economia, cuja recuperação anda a passos lentos, são outras queixas sobre o país.
“Os expatriados parecem ter dificuldades com suas finanças pessoais no Brasil, com o país na 50ª posição no respectivo índice. Em parte, isso pode ser devido aos altos custos de vida: 43% dos entrevistados expressam estar descontentes com os custos (contra 34% no mundo)”, diz o texto.
“Embora a mesma parcela de expatriados globalmente e no Brasil (49%) expresse que sua renda familiar disponível é mais que suficiente para cobrir os custos diários, 17% dos expatriados que trabalham no Brasil também dizem que sua renda é muito menor do que seria no país de origem (contra 9% no mundo)”, completa o relatório.
O acesso e os custos da educação também são considerados um problema. Segundo o documento, apenas 19% dos estrangeiros estão satisfeitos com a educação infantil no país.
“Menos de dois terços dos expatriados que são pais (64%) estão felizes com a vida familiar em geral, algo notavelmente abaixo da média global de 79%. O Brasil também fica em penúltimo lugar para a segurança das crianças, com apenas 35% de satisfação, 46 pontos percentuais abaixo da média global de 81%”, avança o relatório.
Enquanto isso, Portugal aparece na ponta da tabela. O relatório coloca Portugal como o melhor país da Europa —e o terceiro no ranking geral, liderado por Taiwan e Vietnã— para um estrangeiro viver.
Em 2018, os portugueses estavam em sexto lugar.
Qualidade de vida, segurança e custos baixos impulsionaram o bom desempenho lusitano.
“Portugal é o destino ideal para se estabelecer rapidamente e se sentir em casa no exterior. Graças ao clima maravilhoso e a uma ampla variedade de atividades de lazer, os expatriados estão mais do que satisfeitos com sua nova vida: um em cada três acha que se mudar para o exterior os deixou muito mais felizes”, diz o relatório.
A associação Human Rights Watch (HRW) denunciou esta quinta-feira a atitude das autoridades francesas em relação às crianças migrantes desacompanhadas que chegam a Itália, considerando que lhes é negada proteção
De acordo com um relatório publicado hoje, a HRW sublinha que os controles, que foram verificados não apenas perto da fronteira italiana, mas também em França, "não cumprem os padrões internacionais" e "recorrem a várias justificações" para negar proteção aos menores.
A HRW diz que quem faz os controles costuma rejeitar o "status" de "pequenos erros" que os imigrantes podem cometer quando questionados sobre datas devido à "sua desconfiança" de falar sobre as experiências traumáticas que viveram.
A Organização Não Governamental destaca que as normas internacionais exigem que a avaliação da idade seja usada "como último recurso e somente quando houver sérias dúvidas" sobre o que a pessoa declarou e faltem evidências documentais.
Ou seja, deve ser concedido "o benefício da dúvida quando houver uma possibilidade razoável de que a idade declarada esteja correta".
A HRW assinala que a consequência para aqueles a quem a avaliação dá pelo menos 18 anos é que estes sejam despejados em abrigos de emergência para crianças desacompanhadas.
No relatório, a HRW denuncia também que a polícia de fronteira do departamento dos Altos Alpes, na fronteira com a Itália, "sumariamente devolveu numerosas crianças migrantes" que estavam a tentar entrar em França em vez de enviá-las para os serviços de proteção.
Para tentar evitar esses controlos na fronteira, as crianças tentam entrar em França por caminhos nas montanhas, o que implica "riscos significativos".
Nessas áreas montanhosas, trabalhadores humanitários, voluntários e ativistas estão envolvidos em operações de busca e salvamento.
Os estrangeiros que precisam revalidar o diploma de nível superior enfrentam diversas barreiras burocráticas no Brasil, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados no Brasil (Acnur). Entre as dificuldades estão as altas taxas cobradas por algumas universidades, os elevados custos de tradução dos documentos e as complicações para apresentar todos os comprovantes exigidos.
Desde 2016, a Acnur firmou parceria com a Compassiva, organização não governamental (ONG) para ajudar refugiados na revalidação do diploma. As regras para o processo foram estabelecidas em portaria do Ministério da Educação de 2016.
Até agosto de 2019, a organização deu entrada em 181 processos para que a graduação dos refugiados, feita no país de origem, passasse a ter valor no Brasil. Desses, 34 já foram aceitos e 15 foram negados. A maior parte (116) ainda aguarda análise e 16 foram arquivados.
A maioria dos pedidos é de pessoas que deixaram a Síria ou a Palestina (55%) e de venezuelanos (24%). A instituição que recebeu a maior parte dos processos foi a Universidade Federal Fluminense, com 86 casos, sendo que 17 foram revalidados e 13 indeferidos. A Universidade Federal do Rio de Janeiro recebeu 23 processos e contabiliza 8 revalidações.
A Universidade Estadual de Campinas recebeu 19 pedidos e já concedeu três revalidações.
Gargalos e custos
Para o presidente da Compassiva, André Leitão, a regulamentação que permite apenas universidades públicas a revalidar o diploma cria um “gargalo”, sobrecarregando essas instituições e causando demora na análise dos processos. “Esse é um dos motivos que tem causado a demora, a falta de agilidade nesse processo de revalidação de diploma no Brasil”, enfatizou.
Além disso, Leitão reclama dos altos custos envolvidos nos pedidos. “Em alguns dos casos a tradução juramentada é caríssima. Tivemos orçamento de até R$ 16 mil para um processo de tradução juramentada. É um valor muito alto para qualquer pessoa, qualquer nacional, o que dirá para alguém que está em situação de refúgio no país”, exemplificou.
Leitão disse ainda que não existe um limite para as taxas que podem ser cobradas pelas universidades, que, segundo ele, podem ultrapassar os R$ 7 mil.
A assistente de soluções duradouras da Acnur, Camila Sombra, disse que é preciso mais sensibilidade das instituições na condução dos processos. Ela destaca que alguns documentos exigidos, como a ementa das disciplinas cursadas, pode ser muito difícil de ser conseguida pelas pessoas em situação de refúgio.
“Nós estamos falando daqueles que fugiram por causa da situação de conflito, de medo, de perseguição política. Às vezes, não existe mais a universidade onde essas pessoas estudaram”, ressaltou.
Desburocratização
Para Leitão, a desburocratização dos procedimentos deve beneficiar não só os refugiados, mas também migrantes e brasileiros que cursaram universidade no exterior. “É preciso que se faça de uma forma mais transparente e humana”, defendeu.
Segundo a Acnur, 80 mil solicitações de refúgio foram feitas para o governo brasileiro em 2018. Dessas, 61,7 mil foram de venezuelanos. Entre os pedidos aceitos, 11,2 mil eram de sírios, correspondendo a 51% dos refúgios concedidos.
A acolhida a migrantes e refugiados tem se tornado uma prioridade para a Igreja católica, o Papa Francisco reconhece esse trabalho, até o ponto de que o Padre Michael Czerny, que comanda esse trabalho no Vaticano, acaba de ser nomeado cardeal, faz parte do colégio daqueles que são, ou deveriam ser, os homens de confiança do bispo de Roma.
Na Igreja do Brasil essa dimensão também vai tomando um lugar importante, mesmo que esse ainda é um desafio interno na Igreja, como reconhece Roberto Saraiva, coordenador nacional da Pastoral do Migrante. Nessa tentativa de responder a isso, a Pastoral do Migrante do Regional Norte 1 da CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, tem se reunido em Manaus de 30 de agosto a 1º de setembro para participar de um Seminário sobre Migração e Políticas Públicas.
A região norte do Brasil, tem se tornado ponto de entrada dos migrantes venezuelanos, principalmente no estado de Roraima, algo que tem aumentado no último ano, como afirma a irmã Valdiza Carvalho, que coordena o trabalho com os migrantes e refugiados desde a Caritas Roraima. A religiosa scalabriniana, diz que atualmente, uma média de 700 pessoas por dia atravessam a fronteira em Pacaraima, o que tem provocado “uma realidade muito tensa no estado de Roraima”, mesmo que, como reconhece a religiosa “não são todos que permanecem no estado”, muitos seguem, por conta própria, para outros países e estados do Brasil, uma alta porcentagem para Manaus, onde o número de venezuelanos tem crescido significativamente nos últimos meses.
Mas mesmo assim, “ainda fica muita gente parada que não tem condição para sair do estado”, afirma a Irmã Valdiza. Diante dessa situação a Igreja de Roraima tem se organizado, com diferentes instituições trabalhando “na questão da documentação dos migrantes e também na integração, que é o envio de pessoas para outros estados daqui do Brasil”, segundo a religiosa, que também diz que a Igreja de Roraima iniciou um fórum de instituições da Igreja, umas vinte, entre pastorais e congregações, que estão trabalhando com migrantes e refugiados”.
Seu bispo, Dom Mário Antônio da Silva, que tem se envolvido decisivamente na acolhida aos migrantes e refugiados, ajudava os presentes a refletir sobre a realidade à luz do Magistério do Papa Francisco, especialmente Evangelii Gaudium, Laudato Si, o Instrumento de Trabalho do Sínodo para a Amazônia e a carta com motivo do Dia Mundial dos Migrantes e Refugiados, que será celebrado no dia 29 de setembro. Dentro de um chamado à conversão, muito comum nas palavras do Papa Francisco, a mensagem do Dia dos Migrantes, segundo o vice-presidente da CNBB, é um chamado “para uma conversão aos povos, às pessoas”, que nos chamada a entender que não se trata apenas de migrantes, explicitando em sete reflexões-chave a realidade dos migrantes com que somos chamados a interagir desde quatro verbos ou atitudes, acolher, proteger, promover e integrar.
Não podemos esquecer que a preocupação com os migrantes e refugiados deve estar presente na vida de todo cristão. De fato, “os migrantes trazem toda a problemática do outro, do que significa o outro para nós”, afirmava o Padre Alfredo Gonçalves. Para ele, “a identidade de uma pessoa só se realiza no confronto com o outro, no diálogo com outro. A presença dos migrantes aprofunda a oportunidade de rever a dinâmica da própria identidade, de um povo, de uma comunidade, de um país. A presença dos Imigrantes hoje no mundo está ajudando os povos a rever a própria identidade”. Ele, tomando as palavras de um filósofo alemão, recordava que “o outro tem muito mais a dizer sobre mim, do que sobre ele mesmo”.
Desde uma dimensão de fé, o padre afirma que “a presença do outro tem muito a ver com a identidade cristã, e a identidade cristã também é o aproximar-se do outro enquanto o próximo”. Ele reconhece que “nessa discussão do outro tem um dado teológico, o caminho para o outro pavimenta o caminho para o totalmente Outro, é uma verdade teológica. O caminho para o diferente aprofunda o caminho para o Transcendente. Essas coisas são muito interligadas”.
Essa dimensão de fé deve se traduzir em Políticas Públicas, algo que preocupa a Igreja, como ficou demostrado com a última Campanha da Fraternidade, que abordava esse tema, sobre o que refletia Letícia Carvalho, Assessora de Advocacy da Missão Paz, quem mostrava os passos que devem ser dados nos ciclos de políticas públicas. Ela insistia em diferentes aspectos, como entender e conhecer o contexto e ambiente político e dos processos de decisão, identificando parlamentares que possam simpatizar com a causa, ir dando passos com a aprovação de leis em nível local, o que resulta mais fácil do que em nível federal, aproveitar que as casas legislativas são abertas e ter contato permanente com os parlamentares a quem devem ser repassadas informações de modo constante.
Falando em nível nacional a Pastoral do Migrante enfrenta três desafios mais amplos, segundo seu coordenador. O primeiro “é buscar a efetivação de políticas, essa é uma coisa muito importante para que se interaja”, afirma Roberto Saraiva, que vê necessário “fazer muita incidência desde a base dos Municípios até o Congresso Nacional, para que as leis que já existem não sejam burladas ou violadas” uma ameaça “dos interesses do capital e do agronegócio em detrimento dos interesses dos mais pobres, dos excluídos e da migração principalmente”.
Em um país com forte migração interna, desde “a Igreja precisamos inclusive ampliar o leque de apoio e de ação”, afirma o coordenador, que mais que abrir muitos lugares com nome de pastoral do migrante, vê necessário uma ação integrada entre ações pastorais com a migração, para criar uma rede que amplie o acolhimento, principalmente com esse fluxo de venezuelanos. Ele insiste em um terceiro elemento, “dar visibilidade à migração como um todo, para não ficarmos focados nos migrantes venezuelanos”. No Brasil existe muito migrante africano, bolivianos chilenos, colombianos e haitianos, que voltaram a se concentrar no Brasil, principalmente com fechamento de vários lugares que não estão querendo acolher mais haitianos, tipo Chile, Argentina, segundo Roberto Saraiva.
Ele reconhece que a missão na região Amazônica tem um foco maior na Venezuela, pelo número maior de venezuelanos, e se refere aos desafios para acolher, proteger, promover e integrar, como o Papa Francisco solicita. Por isso, destaca que o Seminário celebrado em Manaus, “é um momento de sensibilização para as dioceses e saber lidar com esse migrante no cotidiano”, sendo um elemento importante a formação e articulação.
Ao falar do trabalho da Igreja do Brasil, destaca que “o número de acolhidas se ampliou bastante”, sobretudo com “o programa Caminhos de Solidariedade, um programa da CNBB, gerido pela Diocese de Roraima, que ampliou, conseguimos entrar em mais de 30 dioceses, com acolhida sistemática de venezuelanos nessas dioceses, nessas paroquias”. Mesmo assim, Roberto Saraiva afirma que “diante do tamanho do Brasil, diante do tamanho da Igreja, é um desafio de sensibilizar mais, de buscar essa relação”. Para isso “é necessário fazer um diálogo muito pessoal com o episcopado, com o clero, porque só uma campanha, o site e as imagens, ela sensibiliza, mas quando você chega mais próximo, isso ajuda decisivamente”, pois deve ser levado em conta que “cada diocese tem desafios, e se você não estiver lá próximo sensibilizado, ela terá dificuldade de compreender qual é o chamamento”.
Entre os presentes estavam alguns migrantes venezuelanos. Um deles dizia aos participantes que “tudo é um reto para um migrante”, mas desde sua experiência pessoal reconhecia que se sentiu acolhido pela Igreja de Roraima, lembrando as palavras escutadas ao seu bispo, Dom Mário Antônio da Silva, “bem-aventurado o migrante, porque ele tem esperança”. Ele destacava a organização e articulação da Igreja, pois “se não fosse pela Igreja muitos migrantes não sabem o que teria acontecido com eles”, fazendo um chamado à corresponsabilidade.
Um dos problemas que enfrentam os migrantes sãos as máfias, muitas vezes integradas pelos conterrâneos, que favorecem o tráfico e exploração dos migrantes, como afirmava a irmã Santina Perin, durante muitos anos missionária no Haiti, e que desde 2010 colabora com a Pastoral do Migrante da Arquidiocese de Manaus. A religiosa do Imaculado Coração de Maria, dizia que “não podemos ficar tranquilos quando vemos migrantes sendo vítimas do tráfico”, especialmente quem se diz cristão, pois “um cristão que reza e não faz nada, essa oração fica pendurada nas nuvens, é oração perdida”.
Frase estampada no Ballinstadt de imigrante que viajou para o Brasil.
Os três grandes galpões do Museu da Imigração, às margens de um canal em Hamburgo, não chamam muito a atenção ao olhar do lado de fora. Mas basta pisar em um deles para entrar em uma máquina do tempo. O Ballinstadt – como é conhecido por lá – está justamente na cidade que foi o ponto de partida de milhões de alemães à procura de um recomeço, e retrata como era difícil a vida daqueles que escolhiam pela viagem ao Novo Mundo.
Logo no primeiro espaço, sons tomam conta do ambiente. O barulho das ondas e da água batendo no casco de um navio vêm de caixas de som, claro, mas trazem um realismo ao ambiente escuro, e até mesmo melancólico. Lá, a maquete de embarcação mostra em dimensões reduzidas os detalhes daquele que era o meio de transporte de um lado para o outro do Oceano Atlântico.
E não para por aí. Logo em seguida, um amplo cômodo traz fotos, objetos, e frases de imigrantes estampadas de baixo até o topo das paredes. São trechos de cartas de pessoas que relatavam condições, experiências, saudade.
Porto de Hamburgo, de onde saíram milhões de alemães.
– Eram pessoas que tinham duas alternativas. Ou ficavam com as condições possíveis na Alemanha, ou buscavam essa vida nova. E foi isso que 250 mil pessoas fizeram a partir do século 19, quando escolheram o Brasil como segunda pátria. Tiveram que reinventar a vida, tal como ocorre até hoje – sustenta o historiador Toni Jochem.
Em outro espaço do museu está a réplica do compartimento de um navio onde os imigrantes dormiam. Com pequenos beliches amontoados, o principal desafio era conseguir esticar as pernas para buscar algum conforto. O espaço, ínfimo, era o lar por longos períodos e muitos tinham de lidar com a fome, com falta de higiene básica, doenças. Na opinião da professora Mariana Deschamps, esse cenário é a prova do quão difícil era a escolha de deixar a Europa.
– A decisão de milhares de europeus de deixar a Europa através dos portos de Hamburgo ou Gênova e permanecer por dois ou três meses e optar um novo lugar para viver, era uma escolha entre uma série de possibilidade que a conjuntura vivenciada por cada imigrante oferecia. Era uma decisão complexa a ser tomada – completa a historiadora e professora da Furb.
No Ballinstadt, 1,5 mil objetos originais, englobando até mesmo propagandas da época, estão preservados. São 2 mil metros quadrados que têm até espaços interativos onde o visitante pode pesquisar sobre a história da própria família.
Miniatura de um navio usado para o transporte de imigrantes.
O requerimento nº 057/2019, que visa a criação da “Operação Grito de Socorro”, foi aprovado na segunda-feira, 02, em sessão extraordinária na Câmara Municipal de Boa Vista (CMBV). A medida requer priorizar a questão da migração no âmbito do poder legislativo municipal, mas descarta o encerramento das atividades da Casa.
A primeira ação prevista pelo requerimento é a convocação da população para participar do movimento da Câmara, com a assinatura de um abaixo-assinado. Em seguida, os vereadores devem articular com outros órgãos, como prefeituras e câmaras municipais do interior, Assembléia Legislativa, Governo do Estado, poder judiciário, deputados federais, senadores e entidades civis, como Ordem dos Advogados do Brasil - Seccional Roraima (OAB-RR) e Conselho Regional de Medicina (CRM-RR).
Outra medida prevista é o encaminhamento de ofícios a todos os órgãos que possam repassar dados oficiais atualizados sobre o impacto da migração em
Boa Vista. Com todos os dados reunidos, a previsão é que, então, os vereadores se dirijam à Brasília para pleitear medidas efetivas do Governo Federal. No entanto, ainda não há uma previsão de quando a viagem deve acontecer.
O presidente da Casa, Mauricélio Fernandes (MDB), afirma que a Câmara já realizou outras atividades buscando ser ouvida pelo Governo Federal. Uma delas foi a criação de uma comissão especial de vereadores que foi até Brasília atrás de medidas efetivas para Roraima e uma audiência sobre a forma como é feita a aplicação de recursos da Operação Acolhida no Estado.
“Nós estivemos em Brasília, mas não fomos ouvidos da forma como gostaríamos. Estivemos na Operação Acolhida onde os dados que nos foram passados não condizem com a realidade”, disse Fernandes.
O presidente afirma ainda que, embora o Governo Federal defenda a melhoria no acolhimento de imigrantes, a situação vista pela população em Roraima é diferente. “O que nós estamos vendo é que só piora. Todas as esquinas, os pontos principais da cidade, as praças novamente cheias de imigrantes”, relatou. “Os roraimenses estão passando por uma situação de calamidade. Os venezuelanos estão sofrendo uma situação, também, que não gostariam de estar vivendo”, completou.
Autor do requerimento diz que atividades da Câmara permanecem
O vereador Renato Queiroz (MDB), é o autor do requerimento que implanta a operação (Fotos: Arquivo Folha)
O vereador Renato Queiroz (MDB), autor do requerimento, informou que a solicitação não se trata de encerramento das atividades da Casa, mas de “fechamento de foco” dos parlamentares.
“O requerimento aprovado institui a “Operação Grito de Socorro”, que nada mais é que um fechamento de foco em respeito ao principal problema que vivemos hoje em Roraima e no município de Boa Vista. Todos os vereadores se comprometeram a agir positivamente e sensibilizar o Governo Federal desta problemática, em busca de práticas que possam efetivamente auxiliar a população boa-vistense”, explica.
O vereador afirma que o encerramento das atividades da Câmara, na verdade, trariam ainda mais problemas para o município. “O fechamento, como eu falei, era um fechamento simbólico. É uma questão para sensibilizar e trazer as atenções para esta Casa. O poder público tem suas responsabilidades e sabe que, na prática, fechar um poder traria mais problemas do que soluções. É muito mais um fechamento de foco, de comprometimento”, disse.
Ainda de acordo com Queiroz, a iniciativa partiu da população de Boa Vista, que busca junto aos parlamentares por uma resposta do Governo Federal. “Não há nada de normal acontecendo. Temos a nossa saúde, nossa educação, nossa segurança e urbanidade ameaçadas. Não pelo povo venezuelano, mas pelo aumento da população e a nossa incapacidade, enquanto instituição pública, de tratar dessa problemática sem o auxílio do Governo Federal”, afirmou.
A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) lança amanha quarta-feira (4), às 10h, na sede da Associação Compassiva (Rua da Glória, 900, São Paulo), o relatório global “Stepping Up: Refugee Education in Crisis” (Intensificando: Educação de Refugiados em Crise, em tradução literal).
O documento mostra que, globalmente, à medida que as crianças refugiadas crescem, as barreiras que impedem o acesso à educação se tornam mais difíceis de serem superadas.
Como resultado, mais da metade das crianças refugiadas em idade escolar no mundo não está matriculada em escolas. De acordo com o ACNUR, do total de 7,1 milhões de crianças refugiadas em idade escolar, 3,7 milhões não frequentam a escola.
Outro relatório a ser lançado na ocasião foi elaborado pela Compassiva, organização parceira do ACNUR, que apresentará dados sobre o processo de revalidação de diplomas de pessoas refugiadas no Brasil.
A revalidação de diplomas de refugiados é um elemento fundamental para a inclusão econômica e para o aprimoramento dos conhecimentos de pessoas refugiadas.
O SESC-SP também compõe a mesa de debates e apresentará dados e informações referentes à atuação da instituição no campo de educação para pessoas refugiadas, em especial sobre o projeto Refúgios Humanos, que promove discussões sobre o tema do refúgio junto a professores da rede pública municipal de São Paulo.
Uma pessoa refugiada estará presente para dar seu depoimento sobre a integração no país, considerando desafios e conquistas no âmbito da educação.
Serviço
Lançamento de relatórios sobre o contexto de educação de refugiados no Brasil e no mundo Dia: 4 de setembro de 2019 (quarta-feira) Horário: 10h Local: Associação Compassiva – Rua da Glória, 900, Liberdade – São Paulo
Em artigo, o representante especial conjunto de Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e Organização Internacional para as Migrações (OIM) para refugiados e migrantes venezuelanos, Eduardo Stein, afirma que somente através de uma resposta regional coerente, previsível e harmonizada é que os países da América Latina e do Caribe poderão enfrentar o desafio humanitário e responder às necessidades de um número crescente de refugiados e migrantes venezuelanos.
“Embora reconheça o direito soberano dos Estados em decidir quais medidas tomar para permitir o acesso a seus territórios, incentivo os países da região a preservar o acesso ao refúgio e a fortalecer os mecanismos que permitem a identificação de pessoas que precisam de proteção internacional.” Leia o artigo completo.
Mãe e criança venezuelana no abrigo de Pintolândia em Boa Vista, norte do Brasil. Foto: ACNUR/Santiago Escobar-Jaramillo
Por Eduardo Stein*
O número de refugiados e migrantes venezuelanos atingiu 4,3 milhões e está crescendo a cada dia. Atualmente, não há fim à vista para esse movimento massivo da população, que inclui um número crescente de pessoas com vulnerabilidades, muitas delas com necessidade de proteção internacional, bem como um grande grupo que busca acesso a serviços básicos e oportunidades de emprego.
Os países mais afetados por esse movimento populacional estão na América Latina e no Caribe, em particular na região andina, onde o impacto socioeconômico da saída de venezuelanos tem sido o mais extenso e de maior alcance.
Apesar dos orçamentos limitados, da diminuição de recursos, das tensões sociais e das instituições sobrecarregadas, os países da América Latina e do Caribe continuam com esforços louváveis para oferecer proteção e assistência e promover a inclusão social e econômica dos venezuelanos em seu território. No entanto, não há dúvidas de que a situação dos refugiados e migrantes venezuelanos esteja superando as capacidades de cada país e da região como um todo.
Somente através de uma resposta regional coerente, previsível e harmonizada é que os países da região poderão enfrentar o desafio humanitário e responder às necessidades de um número crescente de refugiados e migrantes venezuelanos.
Como representante especial conjunto de ACNUR-OIM para refugiados e migrantes venezuelanos na região, estou preocupado que os limites para os venezuelanos de acessar o território dos países receptores possam forçá-los a fazer viagens irregulares, levando ao tráfico e contrabando, exacerbando suas vulnerabilidades.
Embora reconheça o direito soberano dos Estados em decidir quais medidas tomar para permitir o acesso a seus territórios, incentivo os países da região a preservar o acesso ao refúgio e a fortalecer os mecanismos que permitem a identificação de pessoas que precisam de proteção internacional. Da mesma forma, aconselho respeitosamente os Estados a manter políticas flexíveis de entrada – uma vez que muitos venezuelanos enfrentam dificuldades consideráveis no cumprimento dos requisitos de entrada – e a continuar regularizando e documentando refugiados e migrantes venezuelanos, além de facilitar o reagrupamento familiar.
Além disso, aconselho respeitosamente os países da região a continuarem a articular, coordenar e harmonizar suas políticas e a trocar informações e boas práticas por meio do Processo Quito que, como grupo não vinculativo, reuniu os países da América Latina e do Caribe afetados pela saída de refugiados e migrantes venezuelanos. Encorajo-os a continuar buscando cooperação e compartilhamento de responsabilidades no espírito do processo de Quito, cuja próxima reunião está marcada para 5 e 6 de dezembro em Bogotá, na Colômbia.
Também apelo à comunidade internacional, incluindo agências de cooperação bilaterais e multilaterais, instituições financeiras e atores do desenvolvimento, para reforçar seu apoio, inclusive financeiro, à população venezuelana, bem como aos países receptores e comunidades locais que hospedam venezuelanos.
*Representante especial conjunto da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e da Organização Internacional para as Migrações (OIM) para refugiados e migrantes venezuelanos
Se existe uma coisa de que o paulistano não gosta é buraco no asfalto. Eles parecem ser um defeito inconcebível e inaceitável para quem dirige algum dos 6.253.968 carros registrados na cidade — sem contar quem pilota outro dos veículos computados pelo Detran, como ônibus, caminhão, camioneta, motoneta, motocicleta, triciclo e quadriciclo.
Os buracos ocupam a primeira colocação no ranking de reclamações e sugestões da prefeitura (46.493 chamadas só neste semestre), acima do cartão de estacionamento para idoso, do incômodo causado por algum cheiro forte, da remoção de entulho e da abordagem social à população em situação de rua.
Por isso, todas as noites, de segunda a sábado, uma turma de haitianos trabalha duro no centro da cidade, embora tapar buracos seja algo como enxugar gelo. Até julho, foram fechados 112.639 na capital. Os imigrantes formam o primeiro grupo de estrangeiros a atuar nesse setor da prefeitura paulistana.
Na quarta-feira (28/8), a BBC News Brasil acompanhou os preparativos para mais uma noite de trabalho em um galpão no bairro do Glicério. Eram oito homens vestidos com uniformes cor de laranja, capacetes azuis e máscaras para filtrar a fumaça que sobe das máquinas e do asfalto raspado no processo de eliminação de um buraco.
'O HAITI É AQUI'
No geral, os haitianos chegaram a São Paulo sozinhos, deixando a família para fugir da pobreza e da falta de perspectivas para os jovens. O país da América Central, um dos mais pobres do mundo, tem uma taxa de desemprego de 14% e ocupa a 168ª colocação no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas — o Brasil é o 79º.
Jakson François veio para o Brasil depois de perder uma filha no terremoto que arrasou o Haiti, em 2010 Foto: BBC
Cerca de 106 mil haitianos foram registrados no Brasil entre 2010 e 2018, segundo dados do Observatório das Migrações Internacionais (Obmigra), órgão do Ministério da Justiça. Nessa década, o Haiti foi o país com mais imigrantes entrando no Brasil (21,5% do total). Só perdeu o posto no ano passado para os venezuelanos.
É o caso de Jakson François, de 31 anos, natural da pequena cidade de Jacmel.
"No Haiti, só quem consegue chegar à faculdade são filhos de políticos, de ministros, das pessoas ricas. Você não consegue emprego estável. Os jovens vivem de bicos. Eu tinha uma lojinha de roupas que de vez em quando vendia alguma coisa", conta.
Se a vida já era difícil, tudo piorou a partir de 12 de janeiro de 2010, quando um forte terremoto devastou o país e matou mais de 200 mil pessoas.
Uma das vítimas foi a filha de François, que tinha apenas 2 anos. "Eu estava jogando dominó com uns amigos. O tremor demorou uns dois minutos. Quando voltei, descobri que a casa tinha caído em cima da minha filha. Demorei três dias para conseguir tirá-la dos escombros", afirma.
Ele pisou pela primeira vez na capital paulista em 2013, durante um grande fluxo de imigração haitiana ao Brasil. Na mala, trazia poucas roupas e a esperança de conseguir um emprego que sustentasse os parentes deixados para trás.
Os pais, esposa e outro filho ficaram no Haiti enquanto François encarava uma viagem longa, tortuosa e cara — cerca de R$ 30 mil arrecadados com parentes e com a venda de um carro antigo. "Fui para a República Dominicana, depois para o Equador. De lá, peguei vários ônibus até chegar ao Acre. Depois, mais um ônibus até São Paulo. Foram 60 dias", conta.
Mas foi um difícil começo em São Paulo: dormiu por quatro semanas nas ruas próximas à Missão Paz, entidade filantrópica e católica que ajuda imigrantes recém-chegados à capital. Depois, foi peão na construção civil, ajudante em empresas de eventos e assistente em um restaurante.
Há dois anos entrou na Potenza, uma das companhias contratadas pela prefeitura para tapar os buracos da cidade.
"Do meu salário, consigo enviar uns R$ 800 para a família [seu salário é de R$ 1.500]. É um dinheiro que ajuda muito. Sem isso, eles teriam muito dificuldade de sobreviver", diz, sentado em uma sala do galpão da prefeitura.
Ele ficou cinco anos sem ver a família, já que a viagem de ida e volta ao Haiti custa em torno de R$ 6 mil.
'VOLTAR, NUNCA MAIS'
Há mais tempo no Brasil e o mais fluente em português, Jakson François atua muitas vezes como intérprete para os compatriotas que chegam a São Paulo. Na equipe de tapa-buracos, alguns servidores só falam crioulo e francês.
Jamil Pierre Louis chegou há oito meses em São Paulo depois de uma passagem pelo Chile Foto: BBC
Jamil Pierre Louis, de 32 anos, é um dos mais novos na equipe. Fugindo da pobreza, ele, a esposa e um filho foram para o Chile, outro país da América do Sul com forte presença de imigrantes haitianos. Lá, também teve dificuldades para conseguir emprego. Chegou a São Paulo há oito meses e, por indicação de François, logo conseguiu o trabalho no tapa-buraco.
Louis e seus colegas têm essa visão bastante pessimista em relação ao país de origem: voltar é uma possibilidade remota.
"Não penso em voltar para o Haiti, só voltaria de férias. A vida lá é muito difícil. Quero que meu filho cresça no Brasil, vire um jogador de futebol ou um doutor", diz ele.
"Vim para o Brasil para conseguir algo melhor. Não volto mais. Não tem nada para fazer lá", afirma Lemour Michel, de 27 anos, encarregado da equipe.
"No máximo, eu ficaria um mês para rever a família. Mas, para morar, nunca mais", diz Wildy Pierre, de 28 anos.
Em 2015, Pierre deixou dois filhos pequenos para vir ao Brasil em busca de emprego. Mas acabou ficando oito meses parado em São Paulo, vivendo de ajuda de compatriotas. Depois, trabalhou em um restaurante de comida chinesa.
"Mas não deu certo", afirma. "O patrão ficava falando que no Haiti não tem nem escola, que todo mundo é burro e morre de fome. Ele falava muito palavrão para mim. Não aguentei e pedi para sair."
Há dois anos, Pierre começou a tapar os buracos do centro paulistano.
Wildy Pierre deixou dois filhos no Haiti para tentar a vida em São Paulo Foto: BBC
EM BUSCA DE UM EMPREGO
Inicialmente, os haitianos conseguiam um visto humanitário para permanecer no Brasil, depois que o governo brasileiro assinou um acordo com as Nações Unidas para recebê-los.
Porém, a maior parte só conseguia essa permissão já em terras brasileiras. "Por algum motivo que não ficou claro, os haitianos tinham muita dificuldade para conseguir os vistos no consulado brasileiro em Porto Príncipe [capital]", explica Sidarta Martins, diretor do Instituto de Reintegração do Refugiado (Adus).
"Então, eles precisavam entrar no país por terra, principalmente pelo Acre. Esse movimento gerou uma série de problemas, como a criação de uma rede de coiotes que os exploravam."
Para Leonardo Cavalcanti, coordenador do Observatório das Migrações Internacionais, a conjuntura econômica estimulou a ida de milhares de haitianos pelo Brasil. "Depois do terremoto, a pobreza se acentuou. Já o Brasil vivia de economia aquecida e geração de empregos, além de grandes obras para a Copa do Mundo e das Olímpiadas", explica.
COMO MATAR A SAUDADE
Era por volta das 22 horas, e os bares estavam cheios na tradicional esquina das avenidas Ipiranga e São João. Enquanto os clientes bebiam cerveja, a equipe de haitianos tapava dois buracos no asfalto.
O barulho noturno e incessante das máquinas às vezes causa atritos com os moradores que querem dormir, pois a prefeitura prefere consertar as ruas do centro durante a noite para não atrapalhar o trânsito.
"Às vezes jogam ovos em nós ou chamam a polícia", diz Jakson François. Um funcionário da prefeitura explica: "Quando tem um buraco, o morador liga reclamando. Mas aí você vem tapar, e ele reclama também, do barulho. Não tem o que fazer..."
A meta da prefeitura é fechar 540 mil falhas no asfalto até o fim do próximo ano e diminuir o tempo médio de espera do conserto dos atuais 45 para dez dias.
Enquanto seus colegas tapam mais um, Wildy Pierre fala da falta que sente da família. "Estou há quatro anos sem ver meus filhos", conta.
"Como faz para matar a saudade? A gente se fala todo dia pelo telefone. Mas não tenho o que fazer. Eles dependem de mim e desse emprego. Eu penso assim: a vida é uma experiência."