segunda-feira, 24 de julho de 2023

SUS para migrantes: é preciso incluir a participação social

 

Foto: Maurilio Cheli/Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba

Nos últimos dois anos, foram realizados dois eventos de abrangência nacional destinados a garantir o acesso, pelas populações migrantes, ao direito à participação popular na elaboração de políticas públicas de saúde e ao controle social na execução dessas políticas, assegurado pelo artigo 198 da Constituição Federal, e pela Lei nº  8.142/90. A 1ª Plenária Nacional Saúde e Migração, realizada em 2021, foi o primeiro evento realizado no Brasil com o objetivo de ser um espaço de escuta e sistematização das demandas das populações migrantes e seus aliados para o SUS. Ela contou com a participação de 383 pessoas representando 94 organizações, tendo sido aprovadas 172 propostas, consolidadas posteriormente em 37 diretrizes.

A Plenária deu a ignição para dois processos subsequentes: a discussão sobre a elaboração de ações estratégicas de atenção à saúde das populações migrantes nos níveis estaduais, como no caso de Goiás – onde está sendo desenvolvido um  Plano Estadual de Atenção à Saúde da População Migrante –,  e municipais, como no caso de São Paulo – onde instituiu-se um Grupo de Trabalho para formular ações estratégicas de garantia de acesso ao SUS pelas populações migrantes; e o debate, ainda que inicialmente só a nível de gestão, sobre a formulação de uma Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Populações Migrantes, Refugiadas e Apátridas, liderada pelo Serviço de Apoio Institucional e Articulação Federativa (SEINSF) do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro.

Uma nova Plenária estava prevista para ocorrer em 2023, como forma de consolidar o avanço representado pelo primeiro evento, aprofundando as escutas realizadas e amadurecendo o corpo de propostas aprovadas por meio do aumento da participação das populações migrantes. Entretanto, durante a assembleia da FENAMI do início de fevereiro, decidiu-se que o evento seria organizado no formato de uma Conferência Livre de maneira a integrar o calendário da 17ª Conferência Nacional de Saúde. Essa modalidade de evento também garantiria que as propostas seriam enviadas e apreciadas pelos delegados da 17ª CNS, além de assegurar que poderíamos enviar uma delegação ao principal evento de participação popular na estruturação de políticas públicas do Brasil. Mais de 30 organizações nacionais e internacionais se somaram na Comissão Organizadora, coordenada pela FENAMI. Também foram constituídos 13 comitês estaduais responsáveis por organizar polos presenciais de acesso à Conferência.

Além disso, o regimento da nossa Conferência Livre especificava que apenas migrantes poderiam concorrer à eleição para delegados/as. Também previu-se que a inscrição para falas deveria se dar na proporção de 5 manifestações de migrantes para cada manifestação de brasileiros. Foi assim que no dia 20 de maio, 876 pessoas participaram da Conferência Livre, distribuídas em 19 cidades de 12 estados e do Distrito Federal. Neste dia, Garry Ulysse, do Haiti, Yelitza Lafont, Efrén Villalba e Alberto Navarro, da Venezuela, e Diego Cruz, do Equador, foram eleitos para compor a primeira delegação migrante a participar de uma Conferência Nacional de Saúde defendendo diretrizes e propostas para ações de equidade para as populações migrantes no SUS. Os cinco delegados estiveram em Brasília, entre os dias 2 e 5 de julho, com os custos de alimentação, transporte e hospedagem financiados pelo Conselho Nacional de Saúde, organizador do evento. A inédita Conferência Nacional Livre de Saúde das Populações Migrantes conquistou o posto de 11ª maior conferência livre do ciclo da 17ª CNS, entre 99 conferências livres realizadas.

As diretrizes e propostas enviadas pela nossa Conferência Livre foram analisadas e aprovadas pelos quase 6 mil participantes da 17ª CNS, que aprovaram também outras 240 diretrizes e 1.190 propostas. Esse conjunto de diretrizes e propostas, oriundas de um longo processo democrático realizado nos municípios, estados e conferências livres, deverá ser contemplado no próximo ciclo de planejamento da União, servindo de subsídio para a elaboração do Plano Nacional de Saúde e do Plano Plurianual de 2024-2027 – pela primeira vez, com 4 diretrizes e 20 propostas destinadas especificamente à construção de equidade no SUS para as populações migrantes.

O Grupo de Trabalho do Ministério da Saúde

As discussões sobre a instituição de uma Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Populações Migrantes, Refugiadas e Apátridas iniciaram-se em 2022 por iniciativa do Serviço de Apoio Institucional e Articulação Federativa (SEINSF) do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro, como mencionado acima. Um Grupo de Trabalho foi constituído à época, integrado, no entanto, apenas por gestores. Em interlocução com o SEINSF, conseguimos garantir a participação da sociedade civil, organizando diversas reuniões destinadas a coletar contribuições para o texto da minuta da política. À época, 7 diretrizes oriundas da Plenária foram integradas ao texto, que, no entanto, foi engavetado em razão do período eleitoral próximo.

Após a posse do presidente Lula, a discussão foi retomada graças à insistência da sociedade civil. No entanto, a participação foi incipiente muito em virtude das dificuldades no estabelecimento de diálogo com o Ministério da Saúde, em especial quando consideramos os movimentos organizados de migrantes. A FENAMI enviou diversos ofícios sobre o tema ao Ministério da Saúde, solicitando, entre outras coisas, a instituição de um GT, coordenado pela Secretaria Executiva do Ministério – sob a qual as outras secretarias se estruturam –, para elaborar uma proposta de Política Nacional de Saúde para as Populações Migrantes que garantisse a participação popular. Pontuamos também que estávamos em meio a um processo inédito de mobilização das populações migrantes, além de profissionais e gestores de saúde, acadêmicos e representantes de organizações da sociedade civil nacionais e internacionais, para consultá-los sobre suas propostas para as populações migrantes no SUS. No fim do mês de junho, o Ministério da Saúde publicou a Portaria GM/MS nº 763/23, que instituiu o Grupo de Trabalho com a responsabilidade de, entre outras coisas, formular a proposta da Política. Esses avanços não são apenas fruto da dádiva virtuosa dos governantes e gestores – sejam de perfil técnico ou político. Eles acontecem na esteira de um esforço intenso e igualmente inédito de organização e mobilização destinada a efetivar o acesso das populações migrantes a mecanismos de participação popular e controle social.

Apesar do inegável avanço representado pela instituição do GT, há pontos preocupantes que requerem atenção. Primeiramente, a Portaria não traz previsão de participação da sociedade civil enquanto membros titulares do grupo: estão excluídos não apenas os movimentos organizados de migrantes, por exemplo, mas também o Conselho Nacional de Saúde, cuja participação só pode se dar enquanto convidado pela coordenação do GT, sem critérios objetivos sobre como serão realizados os convites, ou sobre qual será o modelo de participação. Apenas as secretarias do próprio Ministério estão contempladas enquanto membros natos titulares do GT, o que não apenas vai na contramão da crescente mobilização que de fato criou as condições para a instituição do grupo, mas também é inconstitucional, como argumentado acima.

Além disso, a atribuição da coordenação do grupo à Secretaria de Vigilância e Saúde Ambiental (SVSA) é temerária não porque enseja questionamentos de ordem moral sobre este ou aquele gestor ou servidor, tampouco sobre a qualificação dos gestores destacados para coordenar os trabalhos, mas porque representa um direcionamento político preocupante para os trabalhos do GT. Em primeiro lugar, há um grande número de investigações acadêmicas que apontam os efeitos deletérios da associação de determinados grupos sociais a patologias específicas, derivado de recorrente desconsideração de fatores sociais, culturais, e de economia política na estruturação de sistemas de vigilância. Também sublinham o peso político da decisão de se valorizar determinados dados e abordagens focadas majoritariamente na contenção de doenças e no preparo para responder a ameaças epidemiológicas e a contextos de emergência, com pouco ou nenhum cuidado em empreender diálogo e em garantir os direitos das populações afetadas, especialmente aquelas mais vulneráveis e marginalizadas.

Um dos casos mais famosos é o dos “5 h’s” – hemofílicos, homossexuais, hookers (prostitutas), heroinômanos (viciados em heroína) e haitianos –, listados enquanto grupos de risco para contração do HIV durante a década de 1980 – e, portanto, estigmatizados pela ameaça que supostamente representavam à saúde pública. Essa abordagem representou não um aumento da eficiência na contenção do vírus, mas a tentativa de criação de bolsões de segurança de determinados grupos sociais privilegiados em detrimento de determinados grupos vulneráveis por meio de sua exclusão e estigmatização, afastando-os do acesso ao cuidado – entre outros motivos, porque o sistema de carência notória do imunizante e de intenso processo de desfinanciamento do SUS, ou entre o vírus da covid-19 e suas variantes a grupos nacionais ou étnicos, aprofundando casos de xenofobia e racismo mundo afora – inclusive contra brasileiros, associados à variante Gamma, identificada em Manaus, e conhecida à época como “variante brasileira”. Esses todos são exemplos fartamente documentados e registrados pela literatura acadêmica da saúde pública e das ciências sociais, e devem, portanto, ser considerados na estruturação de políticas públicas ciosas de boas evidências científicas.

A perspectiva da vigilância em saúde é fulcral para a estruturação de ações de equidade – como a campanha “Nacionalidade no SUS”, que lideramos, demonstrou. É responsabilidade da vigilância, por exemplo, coletar dados de nacionalidade e étnico-raciais que posteriormente irão fundamentar as ações do SUS para mitigar as desigualdades em saúde observadas, apontando em quais territórios estão concentradas as populações migrantes, quais são as patologias e os agravos mais comumente observados, e como responder a eles de maneira eficaz. Essa perspectiva deve, no entanto, responder à necessidade do provimento de atenção em saúde, seja ela básica ou especializada, tendo como um de seus paradigmas evitar considerar as populações migrantes como potenciais ameaças epidemiológicas ou como vetores de doenças. Em outras palavras, a estruturação de sistemas de vigilância deve responder à necessidade de prover uma melhor atenção à saúde das pessoas, e não o contrário, indicando onde é preciso contratar Agentes Comunitários de Saúde migrantes, onde devemos inserir programas de mediadores culturais, como é possível mobilizar essas comunidades para participar dos conselhos gestores das unidades básicas de saúde, entre outras medidas. 

Além disso, políticas de saúde pública baseadas em evidências devem considerar as perspectivas epidemiológicas e sanitárias, por óbvio, mas é preciso compreender o papel que as evidências fornecidas pelas ciências humanas e sociais em saúde têm na estruturação de políticas públicas eficazes, éticas e comprometidas com a garantia de direitos das populações que atende. Ignorar o largo corpo de evidências que demonstram os perigos de conceder à vigilância epidemiológica a condução de uma política que deve ser garantidora de direitos é uma espécie de negacionismo capaz de neutralizar os efeitos benéficos ensejados pela formação do GT e pela sinalização de estruturação da Política.

Por fim, é necessário reforçar que a participação popular não é um adorno acessório à boa consecução das políticas públicas de saúde, e a qualidade de determinada política é diretamente proporcional ao nível de participação observado em seu processo de estruturação. É preciso radicalizar a democracia, como foi dito durante a 17ª Conferência Nacional de Saúde. Assim, não se pode dispensar os relatos em primeira pessoa sobre as ações a serem priorizadas na Política, ou ignorar o saber acumulado e amadurecido ao longo de anos de consulta e sistematização das demandas das populações migrantes, profissionais e gestores de saúde, acadêmicos, ativistas e organizações de defesa dos direitos humanos. A sociedade civil, em especial os migrantes, devem estar contemplados na composição do GT, assim como o Conselho Nacional de Saúde. O processo deve ser sequenciado pela elaboração de uma consulta pública ampla, com tradução da minuta da Política para o espanhol, inglês, francês, crioulo haitiano, Warao e outras línguas, e o recebimento de contribuições à Política nessas mesmas línguas. O Brasil precisa de uma Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Populações Migrantes, Refugiados e Apátridas, mas só interessa uma política que considere essas populações enquanto sujeitos de direito, a começar pelo reconhecimento do direito de participação na elaboração das ações que as afetarão.

Migrantes são as principais vítimas de tráfico humano em Roraima

 

A atividade criminosa é persistente por ser lucrativa e por estar diretamente ligada à desigualdade social, econômica, racial e de gênero (Foto: Divulgação)

No próximo dia 30 de julho, o Brasil se une a países ao redor do mundo para marcar o Dia de Combate ao Tráfico de Pessoas. A data tem como objetivo alertar a sociedade sobre o crime que afeta cerca de 2,5 milhões de pessoas e movimenta aproximadamente 32 bilhões de dólares por ano, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

A atividade criminosa é persistente por ser lucrativa e por estar diretamente ligada à desigualdade social, econômica, racial e de gênero. Essas desigualdades, também chamadas de estruturais por serem sistemáticas e duradouras, contribuem para que grupos vulneráveis da população, como as mulheres e crianças pobres, os migrantes, os refugiados e os socialmente excluídos, aceitem propostas enganadoras e abusivas.

No Brasil, entre 2012 a 2019, foram registradas 5.125 denúncias de tráfico humano no Disque Direitos Humanos (Disque 100) e 776 denúncias na Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180), ambos canais de atendimento do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC). Entre os anos de 2010 a 2022 foram contabilizadas 1.901 notificações no Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Ministério da Saúde (SINAN). Além disso, 60.251 trabalhadores foram encontrados em condições análogas à escravidão entre 1995 a 2022, segundo dados do Observatório da Erradicação do Trabalho Escravo e do Tráfico de Pessoas.

RORAIMA

Recente pesquisa do UNODC56 sobre tráfico de pessoas no fluxo migratório venezuelano identificou inquéritos e processos judiciais em andamento referentes a situações de tráfico com venezuelanos para as finalidades de servidão (mendicância forçada) e exploração laboral. Esse relatório também apontou outras formas possíveis de exploração como a sexual, adoção ilegal de recém-nascidos (especialmente em Roraima), casamento servil e casos de “mulas” de tráfico de drogas.

O trajeto dos centros urbanos de Roraima para o interior do estado, assim como para Manaus e Guiana foi apontado como provável rota para exploração sexual em garimpos. Por outro lado, parece que as vítimas exploradas como “mulas” desconhecem o percurso que farão e são muitas vezes interceptadas nos aeroportos e, posteriormente, detidas. Nestes casos, em geral, o Brasil é um país de trânsito e não de destino. Nesse fluxo migratório, as mulheres trans se encontram em particular situação de vulnerabilidade.

Em Boa Vista foram identificadas travestis e transexuais exercendo a prostituição. Também há relatos de tráfico para a exploração sexual, cometidos tanto por brasileiros quanto por venezuelanos (em geral, companheiros das vítimas).

Essas mulheres chegaram ao Brasil por via terrestre e algumas se encontravam em abrigos. Nesses locais, elas tiveram que se caracterizar de forma masculina para serem aceitas e à noite assumiam a identidade feminina para exercerem a prostituição. Em relação ao trabalho em condições análogas à de escravo, em 2017, ocorreu o primeiro resgate de venezuelanos em Roraima. Nos dois anos seguintes, 2018 e 2019, também foram resgatados outros trabalhadores venezuelanos em condições degradantes de trabalho.

Considerando o número total de trabalhadores resgatados em Roraima (91), de 2009 a 2019, 19 deles eram venezuelanos, ou seja 1/5 das vítimas identificadas pelos auditores fiscais do trabalho. Importante destacar que os venezuelanos resgatados possuíam grau de escolaridade superior à média dos brasileiros resgatados, o que indica a situação migratória como fator primordial de vulnerabilidade social.

folhabv.com.br

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sábado, 22 de julho de 2023

Papa abraça Bentolo, migrante que sobreviveu a violências e naufrágios

 

O Papa e o migrante Bentolo (foto © Nello Scavo - Avvenire)  (© Nello Scavo - Avvenire)

Uma delegação do “Mediterranea Saving Humans”, associação italiana de promoção social que resgata náufragos no Mediterrâneo, foi recebida por Francisco nesta sexta (21). Estava presente também o jovem refugiado de Camarões, prisioneiro nos campos de detenção da Líbia: lá ele levava conforto aos companheiros em fim de vida, ajudando-os a rezar com um celular emprestado. O capelão da ONG, Pe. Mattia Ferrari: "Bentolo realizou um sonho, de conhecer o Papa".

Salvatore Cernuzio – Vatican News

“Como é possível que a pessoa mais importante do mundo queira me conhecer, eu que nem tenho documentos no momento?”: é o que declara Bentolo, um jovem camaronês que, em 2020, foi obrigado a deixar seu país, por causa do conflito interno. Diante da encruzilhada “combater ou fugir”, escolheu a segunda opção, para não ceder à lógica do ódio. Sua fuga, como a de milhares de migrantes africanos, foi marcada por violências, prisões, naufrágios e pela dor de ver seus companheiros torturados.

Audiência papal à “Mediterranea Saving Humans”

Na manhã desta sexta-feira, 21, Bentolo realizou seu sonho de ser recebido pelo Papa, em audiência privada, na Casa Santa Marta, junto com uma delegação da “Mediterranea Saving Humans”, uma ONG fundada por Luca Casarini, presente na audiência. Esta foi uma oportunidade para o jovem camaronês de recomeçar uma vida nova, diferente, melhor ou apenas reviver: uma sorte que outros refugiados na Líbia não conseguiram ter.

Durante o encontro com o Papa, o capelão da ONG, Padre Mattia Ferrari, contou a história do jovem migrante e sua emoção de receber a Bênção de Francisco. O sacerdote publicou fotos da audiência no Facebook com todo o grupo da Associação, que contava também com a presença de diversas pessoas, que prestam serviço de resgate no Mar Mediterrâneo.

Via Sacra de Bentolo

O jornal Avvenire, da Conferência Episcopal Italiana (CEI), repercorreu a Via Sacra de Bentolo: preso por traficantes na Líbia e vendido aos guardiões do Estado, que o levaram para um campo de prisioneiros em Zawiyah, sob o controle da milícia AL-Nasr e do bando do major da guarda costeira, Abdurahman AL-Milad, e, depois, transferido para Zuara. Em um dos centros de detenção, o jovem camaronês encontrou outros refugiados cristãos subsaarianos, alguns agonizantes, após meses de tortura e privações.

Ao lado dos companheiros moribundos

Na Líbia, o jovem Bentolo conseguiu entrar em contato, às ocultas, com alguns ativistas de direitos humanos, através de um celular que os presos não podiam ter. Por meio dos ativistas, conheceu o capelão da ONG, Padre Mattia Ferrari, a quem pediu “uma palavra de conforto para seus irmãos moribundos”. O sacerdote de Modena entrou em contato espiritual com alguns prisioneiros, acompanhando-os com suas orações até à morte.

A seguir, perdemos todos os contatos com Bentolo, como explica o Papa Mattia Ferrari: “Temíamos que ele tivesse sido condenado pelo sistema criminal líbio ou tivesse morrido no mar”.

No entanto, certo dia, o navio de resgate da Organização humanitária alemã, Sea Watch, interveio no Mediterrâneo Central, resgatando dezenas de refugiados, sobreviventes de um naufrágio, entre os quais se encontrava Bentolo. Assim, o jovem desembarcou na Itália e tentou, novamente, entrar em contato com o Padre Ferrari, enquanto era acolhido em um Centro de Assistência.

"Curado" pelo abraço do Papa

O jovem Bentolo afirmou, depois da audiência papal, que ficou completamente “curado” de todas estas feridas ao ser abraçado pelo Papa, que havia sido informado sobre a dolorosa história do rapaz. De fato, disse ao Pontífice: “Eu estava ansioso para lhe conhecer. Seu gesto me comoveu”. E, segurando a mão do Papa, acrescentou: “Vou tentar entrar em contato com meus amigos, que ainda estão presos na Líbia, para transmitir-lhes a sua Bênção”. Desta forma, após tantas lutas e sofrimentos para chegar à Europa, Bentolo realizou seu sonho de conhecer pessoalmente o Papa Francisco: “Parecia um sonho impossível, que se tornou realidade".

Francisco ouviu a experiência de Bentolo

Segundo o capelão, Padre Ferrari, “o Papa não só quis conhecer o jovem camaronês, mas ouviu sua experiência e seus desejos”. O que mais impressionou o Pontífice foi “o fato de Bentolo ter continuado a amar e estar ao lado de seus companheiros necessitados, naquela terrível situação da Líbia".

"Situação desumana" na Tunísia e Líbia

Referindo-se ainda à audiência papal, o Padre Mattia Ferrari disse: “O Papa falou também sobre a situação desumana em que vivem muitos migrantes na Tunísia e Líbia. Um drama representado pela postagem de uma fotografia na Web, de uma mulher, com a filha de 5 anos, que morreu de fome, calor e sede no deserto. Diante desta imagem, o Papa expressou sua profunda consternação”.


vaticannews.va


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15ª Semana da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha começa na segunda-feira em Guarulhos




A Subsecretaria da Igualdade Racial (SIR) de Guarulhos inicia nesta segunda-feira (24), às 14h, no auditório da Secretaria de Educação (rua Claudino Barbosa, 313, Macedo), a programação da 15ª Semana da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, que contará com atividades diversificadas. O encontro “Diálogos sobre o controle social e as políticas de igualdade racial” vai abrir o evento.

 

Coordenado pela SIR, em conjunto com o Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (Compir), o encontro tem por objetivo promover a troca de experiências entre representantes de conselhos e órgãos executivos de igualdade racial, envolvendo diversos atores da política de igualdade racial e buscando identificar dificuldades, suas potências e propostas de fortalecimento.

 

Na oportunidade, a psicóloga Celina Santos, integrante do Conselho Municipal de Políticas para Mulheres e ex-conselheira do Compir, falará sobre o pioneirismo e o legado da filósofa e antropóloga brasileira Lélia Gonzalez.

 

Além do encontro no dia de abertura, haverá ao longo da semana discussões propostas pelo Compir, roda de conversa, show de samba da Batucada das Pretas, além de oficinas de confecção de bonecas Abayomi, de turbantes e de tranças afro.

 

Os eventos são gratuitos e abertos ao público em geral, sendo que para participar do minicurso (veja abaixo) é necessário fazer a inscrição prévia pelo link https://bit.ly/NegrasEmFoco2023.

 

Minicurso

 

De terça a quinta-feira (25 a 27 de julho), das 19h às 21h, ocorrerá o 2º minicurso Mulheres Negras em Foco - Mulheres Afro-latinas e Caribenhas.

 

Na terça-feira (25) uma introdução ao debate proposto pela 15ª Semana, em formato online, será abordado pela jornalista e doutoranda da Universidade de São Paulo Andréa Rosendo.

 

Já na quarta-feira (26) a cientista social e doutoranda pela Unicamp Mayana Hellen Nunes da Silva abordará o tema “A intersecção gênero e raça”.

 

Por fim, na quinta-feira (27) a advogada Luana Natielle Basílio e Silva, mestre em direitos humanos e oficial do Programa para Equidade de Gênero, Raça e Etnia do UNFPA/ONU (agência das Nações Unidas responsável por questões populacionais) irá versar sobre a rede de atenção à mulher em situação de violência.

 

Ao final será emitido certificado aos participantes do minicurso que obtiverem frequência mínima de 75% nas aulas online.

 

Outras atividades

 

Na quarta-feira (26), das 9h30 às 11h30, no Centro de Integração da Cidadania (CIC) Pimentas (estrada do Capão Bonito, 53, Jardim Maria de Lourdes), integrantes da equipe técnica da Subsecretaria da Igualdade Racial realizarão a roda de conversa “Carolina Maria de Jesus”, que discutirá o legado da autora do livro Quarto de Despejo.

 

Encerrando as atividades, no sábado (29), às 18h, no Salão de Artes do Adamastor (avenida Monteiro Lobato, 734, Macedo) haverá a apresentação da Batucada das Pretas. O show conta com um repertório em homenagem às cantoras e intérpretes dos sambas paulista e carioca. O grupo é formado por mulheres negras e nasceu do desejo de fazer do samba a ponte de diálogo com as mulheres que sofrem violência nas periferias de São Paulo.

 

Ainda no sábado, no mesmo local, estão previstas três oficinas: a de confecção de bonecas Abayomi (bonecas de pano artesanais muito simples, produzidas com amarrações e retalhos sem costuras ou cola), que são símbolo da resistência negra na cultura brasileira, pois eram confeccionadas pelas mulheres negras com pedaços de suas saias para acalmar as crianças e trazer alegria à comunidade.

 

A oficina de turbantes irá ensinar formas de utilizar tecidos e técnicas básicas de tipos de amarrações. Seu objetivo é promover o uso do acessório como autoafirmação cultural, empoderamento da mulher e ressignificação do uso cotidiano e ainda para dar visibilidade à cultura africana e afro-brasileira, além de combater o preconceito e o racismo.

 

Por fim, a oficina de tranças afro irá apresentar a história e a prática do penteado, que é uma referência para a comunidade negra, visando a valorizar a estética e a beleza negra, rompendo padrões, fortalecendo e promovendo a identidade étnico-racial.

 

Arte: Divulgação/PMG


guarulhos.sp.gov.br


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sexta-feira, 21 de julho de 2023

Coletivo de mulheres migrantes organiza festival multicultural em BH

 A cantora Claudia Manzo

A cantora chilena Claudia Manzo, do BaianaSystem, apresenta no domingo o show de seu álbum solo "Re-voltar", na programação do festival

Luciana Diniz/Divulgacão

Feiras de ruas, shows, performances teatrais e rodas de conversa destacam a cultura de países como Peru, Haiti, Chile, Argentina, Colômbia, Venezuela e República Democrática do Congo, a partir desta sexta-feira (21/7) até a próxima segunda, em Belo Horizonte. A primeira edição do Festival Migrante é uma iniciativa do coletivo de mulheres migrantes Cio da Terra.

“A proposta do festival é reunir toda a diversidade da migração que existe no Brasil e em Belo Horizonte, tanto que é um evento todo protagonizado e organizado por nós, imigrantes, para que as pessoas possam conhecer melhor nossas culturas”, afirma a peruana Marinela Herrera, uma das organizadoras do projeto.

A abertura, às 19h de hoje, terá um encontro sobre o tema “Mulheres e migrações”, transmitido ao vivo pelo canal do YouTube do festival.

Cantora e compositora chilena que integra o grupo Baianasystem, Claudia Manzo participa do festival apresentando o show do álbum “Re-viver” (2022) pela primeira vez na capital mineira.


Nascida em 1985 no Chile, Claudia Manzo se instalou no Brasil em outubro de 2012 e viveu durante uma década em Belo Horizonte, onde participava ativamente das atividades do coletivo Cio da Terra. Hoje, a artista está radicada em Salvador. “Estar de volta a BH é muito bom. Aqui foi minha casa por mais de 10 anos, então tenho uma relação profunda com a cidade, com os artistas, com tudo”, diz.

Nas 10 faixas de seu álbum solo “Re-voltar”, Claudia aborda temas relacionados à sua vivência como estrangeira no Brasil e as saudades de casa.

Acontecimentos recentes da história chilena, como os megaprotestos de 2019 em favor da alteração da Constituição datada do período da ditadura Pinochet, também são tratados. “O disco é um olhar para o futuro da humanidade, é um trabalho que fala sobre olhar para trás e pegar impulso para ir para a frente”, diz ela.

O show dela no Festival Migrante ocorre neste domingo (23/7), às 19 horas, na Casa Circo Gamarra. Na segunda-feira, a artista ministra uma oficina de canto no Centro de Referência da Juventude, também às 19h.

Sobre o coletivo Cio da Terra, fundado em 2017, ela afirma: “Acho importante ter um coletivo desses porque mulheres imigrantes sempre são vítimas de muita violência. Mulheres já são vítimas por si só e, quando elas migram, não têm rede de apoio, não têm família e, às vezes, acabam em relacionamentos violentos, nos quais o parceiro é a única pessoa que elas têm”.

Conscientização

Ela ainda chama a atenção para a falta de conscientização sobre a discriminação no país. “Acho que o Brasil, às vezes, não tem muitas ferramentas ou informações que ensinem a população sobre imigração. Sinto que, por exemplo, esse não seria um tema tratado numa conversa no churrasco de domingo, sabe? E isso é um problema, porque muitos brasileiros começam a compreender sobre discriminação apenas quando saem do Brasil.”

Marinela Herrera, radicada na capital mineira há 21 anos, diz que a cidade vem mudando sua relação não tão amigável com os estrangeiros vindos de outros países da América Latina e da África. “Sinto que as pessoas estão aprendendo a conviver de uma maneira mais tranquila com quem é de fora. Quando cheguei aqui, era muito mais estranho. Estamos vivenciando essa mudança, e o festival vem justamente para fortalecer esse processo”, afirma.

Ela aponta, no entanto, que a questão tem que contar com atenção governamental, tendo em vista casos de violência contra imigrantes no país, como o assassinato do jovem congolês Moïse Kabagambe, no Rio de janiero, em 2022. “Acredito que a inclusão das políticas públicas pode ajudar muito nessa visibilidade e na aceitação da população imigrante. Isso já acontece em outros estados, como São Paulo. Estamos lutando para que isso se estabeleça em BH e acreditamos que tempos melhores estão por vir.”

A programação do Festival Migrante inclui oficinas de capoeira angolana, dança rítmica cubana e apresentações circenses no Centro de Referência da Juventude, nos centros culturais São Geraldo e Venda Nova e na Casa Circo Gamarra.

“Desejamos chegar em outros bairros e lugares além do Centro, que tem muitos imigrantes. Queremos também que isso não se restrinja só a nós. As oficinas são para a população em geral. O festival é uma oportunidade para vivenciar uma diversidade artística. Faço um convite para que a população venha nos conhecer, conhecer o coletivo. Somos mulheres de diversas nacionalidades, culturas e costumes. Vai ser muito interessante”, diz Marinela.

FESTIVAL MIGRANTE

Desta sexta (21/7) a segunda (24/7), com atividades no Centro de Referência da Juventude (Rua Guaicurus, 50, Centro), Centro Cultural São Geraldo (Rua Silva Alvarenga, 548, São Geraldo), Centro Cultural Venda Nova (Rua José Ferreira dos Santos, 184, Comerciários) e Casa Circo Gamarra (Rua Conselheiro Rocha, 1.513 - Santa Tereza). Entrada gratuita. Programação completa no instagram: @ciodaterramigrantes.

*Estagiária sob supervisão da editora Silvana Arantes

em.com.br

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Europa luta para converter refugiados ucranianos em mão de obra ativa em meio a escassez de trabalhadores

 

Foto Wikipedia 

Os países europeus não aproveitaram totalmente a oportunidade de preencher as lacunas de força de trabalho apresentadas pela chegada de milhões de refugiados ucranianos, embora muitos dos que fogem da guerra sejam altamente qualificados ou tenham habilidades muito necessárias nos países de destino.

A inundação de pessoas na fronteira após a invasão da Rússia em fevereiro de 2022 deveria ter sido uma benção para os países do leste da União Europeia, onde a escassez aguda de mão de obra há muito arrasta o crescimento econômico e alimenta a inflação.

Mas obstáculos que vão desde a falta de estruturas de acolhimento de crianças à relutância em reconhecer qualificações acadêmicas e profissionais não europeias deixaram vagas por preencher e os recém-chegados – na sua maioria mulheres – frustrados. Muitos estão presos em empregos abaixo de seus níveis de qualificação e educação e sem as perspectivas de carreira de longo prazo.

Svetlana Chuhil buscou uma licença temporária para trabalhar na Polônia como médica ortopedista e fisioterapeuta logo após fugir com seus dois filhos. Mais de um ano depois, ela foi informada de que sua inscrição exigia um documento-chave que estava preso atrás das linhas inimigas na Ucrânia.

Um mês depois de chegar à Polônia, a mulher de 37 anos, formada em ortopedia, fisioterapia e gestão organizacional, fez um estágio em um centro de bem-estar social pagando 1.400 zlotys (US$ 353,15) por mês – na época, cerca de metade do salário mínimo local.

A Polônia tem um dos mercados de trabalho mais regulamentados da União Europeia, de acordo com uma pesquisa de outubro da consultoria Deloitte.

“Eu não poderia ser contratado como médico ou fisioterapeuta sem ter meus diplomas reconhecidos”, disse Chuhil à Reuters.

Após o estágio, ela conseguiu dois empregos, mas não como médica, e ao mesmo tempo lutou para conciliar um horário de trabalho exigente com o cuidado de suas filhas.

Enfrentando altos aluguéis na cidade de Zgorzelec, no oeste da Polônia, em dezembro, ela cruzou a fronteira para Goerlitz, no leste da Alemanha, onde o governo pagará pela acomodação até que ela termine um curso de alemão e consiga um emprego.

Desde janeiro, ela é voluntária em um centro da cidade que oferece ajuda psicológica a mulheres e crianças refugiadas ucranianas.

Oportunidade ainda não está perdida

O think tank da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima que a integração bem sucedida deste último grupo de refugiados poderia expandir a força de trabalho da Europa em meio ponto percentual e ajudar a aliviar a escassez de mão-de-obra citada como um grande fator na inflação insistentemente alta.

Mas 17 meses após a invasão, muitos ainda estão empregados com contratos de curto prazo ou meio período, em vez de formas sustentáveis ​​de emprego, disse Ave Lauren, analista de política de migração da OCDE com sede em Paris.

“Acho que a oportunidade ainda não foi perdida. O que esses países precisam fazer agora é uma segunda camada de integração no mercado de trabalho”, acrescentou Lauren, destacando a necessidade de treinamento, requalificação e reconhecimento de qualificações.

Na Alemanha — a maior economia da Europa e que, segundo dados das Nações Unidas, abriga o maior número de refugiados da Ucrânia –, o número de vagas abertas subiu para seu nível mais alto desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Mesmo assim, menos de um em cada cinco refugiados encontrou emprego até agora, já que Berlim se concentra em cursos de idiomas que devem ajudar os refugiados a encontrar empregos de longo prazo mais alinhados com suas habilidades.

“Sempre há um compromisso entre integração rápida e sustentável no mercado de trabalho”, disse Thomas Liebig, economista-chefe do departamento de migração internacional da OCDE.

Oksana Krotova tem mestrado em filologia e trabalhava como gerente de hotel em Kiev antes da invasão. Ela agora trabalha como recepcionista de hotel em Berlim.

“Ninguém precisa de um hotel em uma cidade em guerra”, disse Krotova.

Desde janeiro, a mulher de 34 anos, que não tem filhos, combinou um contrato de 30 horas semanais com um curso de segundo idioma que a ajudou a alcançar a fluência no alemão.

Ciente das dificuldades para obter o reconhecimento de seu diploma, Krotova quer estudar administração de empresas na Alemanha, onde — como mais de 40% de seus companheiros refugiados, segundo uma pesquisa recente — ela agora prevê ficar por alguns anos.

Pesquisadores do Minor, um think tank de políticas migratórias, disseram que o fluxo em larga escala de refugiados da Ucrânia é visto como uma grande oportunidade na Alemanha. No entanto, segundo o pesquisador Ildiko Pallman, houve uma “verificação da realidade”, já que sua integração em empregos de nível semelhante aos que tinha na Ucrânia não é possível sem dominar o idioma local.

E mudar para um emprego melhor mais tarde não é fácil. “Se você já trabalha 40 horas por semana e não tem tempo para um curso de idiomas, muitas vezes as pessoas ficam presas”, disse o pesquisador da Minor Gizem Uensal.

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quinta-feira, 20 de julho de 2023

Neste ano, já morreram 289 crianças migrantes no Mediterrâneo

 As notícias sobre os desaparecidos no Mediterrâneo são cada vez mais alarmantes. Não só por causa de uma das últimas e piores tragédias, a que ocorreu em junho, perto de Pylos, na Grécia, em que uma barcaça afundou e pelo menos 600 imigrantes morreram. Agora, o Unicef - Fundo das Nações Unidas para a Infância - informou números terríveis sobre o desaparecimento de crianças no mar. Pelo menos 11 meninos e meninas morrem, a cada semana, ao tentar atravessar o mar que separa a África da Europa.

A reportagem é de Elena Llorente, publicada por Página/12, 15-07-2023. A tradução é do Cepat.

Em 2023, calcula-se que ao menos 289 crianças morreram afogadas, de um total aproximado de 11.600 que tentaram escapar de situações dramáticas em seus países. Contudo, os números são aproximados porque nem sempre é possível recuperar os restos mortais de todos os que se afogaram no mar. Boa parte dessas crianças viajava sozinha ou separada dos pais, disse um comunicado do Unicef.

Isto tendo presente que, entre janeiro e 9 de julho de 2023, 90.605 pessoas chegaram à Europa via mar, a maioria (69.599) pela rota do Mediterrâneo Central, ou seja, da Líbia ou da Tunísia para a Itália, segundo dados do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados).

O Mediterrâneo é um cemitério

Outro dado divulgado pelo Unicef é que se estima que, desde 2018, cerca de 1.500 meninos e meninas morreram ou desapareceram ao tentar atravessar o Mediterrâneo Central. Mas, agora, também existem outras rotas que os traficantes utilizam, como demonstraram as recentes tragédias de migrantes afogados em Pylos e nas Ilhas Canárias espanholas que estão no Atlântico, perto de Marrocos.

Trata-se de crianças e adultos que fogem de seus países por causa de perseguições, guerras e pobreza, pagando valores que às vezes ultrapassam 1.500 euros aos traficantes de pessoas que os amontoam em barcaças inseguras e os abandonam em um determinado ponto do mar. Muitas vezes, as barcaças afundam por motivos climáticos ou simplesmente porque estavam muito cheias e em péssimas condições.

Navios de organizações internacionais como Open ArmsGeo Barents e Humanity 1 salvaram milhares de migrantes no mar. Também a Guarda Costeira Italiana, embora com limites impostos pelo governo. No entanto, isso não é suficiente para acabar com o problema.

A segurança a ser garantida

“Em uma tentativa de encontrar segurança, reunir-se com a família e buscar um futuro mais esperançoso, um grande número de meninos e meninas embarca nas margens do Mediterrâneo só para perder a vida ou desaparecer no caminho”, declarou Catherine Russell, diretora executiva do Unicef. E acrescentou que “este é um sinal claro de que mais medidas devem ser tomadas para estabelecer vias seguras e legais para o acesso de meninos e meninas aos serviços de asilo, ao mesmo tempo em que sejam reforçadas as operações para resgatar vidas no mar. Em última instância, é preciso fazer muito mais para abordar as causas profundas que forçam as crianças a arriscarem suas vidas em primeiro lugar”.

Unicef calcula que, desde janeiro de 2023, 11.600 meninos e meninas (uma média de 428 por semana) chegaram à costa da Itália. Isso é mais que o dobro dos números de 2022. A maioria parte da Líbia e da Tunísia, onde está grande parte dos traficantes. Contudo, para chegar lá, muitos tiveram que pagar a outros traficantes para trazê-los em caminhões dos países subsaarianos onde viviam.

Unicef também especificou que, nos três primeiros meses de 2023, cerca de 3.300 crianças foram registradas na chegada à Europa. E não estavam acompanhadas de nenhum familiar, o que complica ainda mais a situação das crianças durante as viagens. Especialmente, as meninas podem sofrer violências de todos os tipos. E a isso se soma “a escassez de meios que possuem para se deslocarem com segurança, a falta de acesso à proteção nos países por onde transitam e a insuficiência e lentidão das operações de busca e resgate”, apontou o Unicef.

O que é possível fazer

Unicef pede aos governos, em relação às obrigações derivadas do direito internacional e da Convenção sobre os Direitos da Criança, que protejam as crianças que chegam como migrantes fugindo de perigos e em busca de uma vida melhor.

O organismo propõe que os governos ofereçam “vias seguras e legais para que os meninos e as meninas emigrem e solicitem asilo, incluindo a ampliação dos casos de reunificação familiar”. E que “se reforce a coordenação das operações de salvamento no mar, gerindo um rápido desembarque em locais seguros”.

O desembarque dos migrantes em “lugares seguros” tem sido um assunto muito discutido na Itália, que há alguns anos bloqueou alguns navios de organizações humanitárias que tentavam ajudar e pagou certas quantias à Guarda Costeira da Líbia para devolver os migrantes detectados no mar à terra.

No entanto, algumas organizações internacionais puderam verificar que as pessoas que eram devolvidas à Líbia, depois, eram fechadas em espécies de prisões ou campos de concentração, onde eram submetidas a todos os tipos de violência e trabalhos forçados, e seus familiares nos países de origem eram chamados para que pagassem mais dinheiro aos traficantes, caso quisessem salvá-las.

Um pacto europeu de imigração

Unicef também pede aos governos que reforcem os sistemas nacionais de proteção à infância para evitar explorações e violências contra as crianças, que tenham a possibilidade de serem informadas sobre os perigos da travessia marítima e que aquelas que chegarem a outros países tenham acesso à saúde e aprendizagem, sejam elas refugiadas ou migrantes.

Por último, o Unicef destacou um tema que está provocando um longo debate no Parlamento Europeu e que ainda não foi aprovado: o Pacto da União Europeia sobre Migração e Asilo. O Unicef solicita que tudo o que for necessário para as crianças migrantes também seja incluído nesse Pacto. E sobre isso teremos que esperar, pois existe uma duríssima oposição dos governos de extrema direita da Polônia e da Hungria.

ihu.unisinos.br

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No Brasil, desastres socioambientais e violência impulsionam as migrações internas


Violência no campo é o principal motivo para o deslocamento interno além dos desastres socioambientais – Foto: Freepik

O número de deslocados internos, em todo o mundo, alcançou um total de 71 milhões e 100 mil pessoas até o final de 2022, de acordo com levantamento do Centro de Monitoramento de Deslocamento Interno (IDMC), parceiro da Agência ONU para as Migrações (OIM). Esse número representa um aumento de 20% em relação a 2021, com os desastres naturais exercendo um papel crucial no crescimento dos dados. Nas Américas, o Brasil se destaca como o país com o maior número de migrantes internos, com mais de 708 mil deslocados nos primeiros meses deste ano.

Márcio Henrique Pereira Ponzilacqua, professor da FDRP – Foto: FDRP-USP

Os deslocamentos internos também são conhecidos pelo nome de migração interna e se referem ao movimento de pessoas dentro das fronteiras de um determinado país. Segundo Márcio Henrique Pereira Ponzilacqua, professor da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP) da USP, apesar dos desastres socioambientais serem a maior causa dessa migração, ela não é a única. “As outras causas que originam essa migração, são, principalmente, as violências, em especial a violência agrária. Isso é um problema sério que atravessa a história do nosso país.”

Segundo pesquisa realizada em 2021 pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), o número de assassinatos em conflitos no campo cresceu 75%, indo de 20 para 35 mortes computadas. Além dos já conhecidos atentados contra povos indígenas e quilombolas, a pesquisa também relata a violência vivida pelas famílias de agricultura familiar em conflitos no campo. 

Problema estatal 

Para Ponzilacqua, o crescimento no número de deslocamentos internos é um problema sério e deve ser enfrentado. “Cabe ao estado, nas suas diversas dimensões, oferecer políticas públicas que evitem ou diminuam o sofrimento da população.”

Apesar de a maioria dos deslocamentos internos serem causados por desastres socioambientais, ou seja, acontecimentos que não podem ser interrompidos, isso não exime o estado de criar políticas públicas para diminuir o impacto dessas intercorrências na vida da população. “Com o nível tecnológico que nós temos hoje, é possível mapear as zonas de riscos de potenciais desastres e criar políticas públicas de caráter preventivo. É claro que nem sempre é possível evitar que esses desastres aconteçam, mas, nesses casos, o Estado tem a obrigação de realocar os afetados da maneira mais rápida possível.”

Um problema para todos

É fato que os mais afetados pelas migrações internas são os próprios deslocados, todavia, eles não são os únicos afetados. Segundo Ponzilacqua, “toda vez que um grande contingente populacional parte de uma localidade para a outra, isso sobrecarrega as estruturas, ou a falta delas, no local de destino”. 

Segundo o relatório publicado pelo IDMC, apenas as chuvas de janeiro no estado de Minas Gerais e as de maio em Pernambuco motivaram, respectivamente, cerca de 107 e 133 mil deslocamentos. Entretanto, apesar do alto número, o relatório esclarece que das mais de  700 mil pessoas afetadas no País, apenas 44 mil não tinham voltado ao seu local de origem até o fim do ano passado. 

Julia Valeri (estagiária*), com a supervisão de Ferraz Junior

jornal.usp.br

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