quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Pesquisa sobre migrantes e refugiados iniciada em Roraima ganha projeção internacional

Josué Santos, pesquisador roraimense, leva estudo sobre migração e refúgio da Amazônia para Stanford

 Um estudo iniciado em Roraima sobre migração e refúgio ultrapassou fronteiras e agora terá continuidade nos Estados Unidos. O pesquisador roraimense Josué Santos, egresso do mestrado em Segurança Pública, Direitos Humanos e Cidadania da Universidade Estadual de Roraima (UERR), embarca na próxima semana para a Universidade de Stanford, na Califórnia, onde aprofundará sua investigação.

O trabalho faz parte de seu doutorado em Educação na Universidade de São Paulo (USP), no modelo conhecido como “doutorado sanduíche”, em que parte da pesquisa é realizada no Brasil e parte no exterior.

A trajetória de Josué começou com sua dissertação sobre crianças indígenas venezuelanas da etnia Warao vivendo em abrigos humanitários em Boa Vista. Intitulada Entre Idas e Vindas: Os Processos de Aprendizagem de Crianças Indígenas Venezuelanas Warao Refugiadas e Migrantes em Roraima, na Amazônia, a pesquisa vai se transformar em livro a ser lançado ainda este ano pela UERR Edições.

Além disso, o pesquisador criou a página “Povos Indígenas de Roraima”, que reúne informações sobre organização social e aspectos linguísticos das etnias locais.

Reconhecimento acadêmico

Em 2022, Josué apresentou nos Estados Unidos o artigo Da cabana de palha aos muros de concreto: um estudo comparativo do ensino de português em dois contextos indígenas amazônicos, durante o XI Encontro Mundial sobre o Ensino de Português, promovido pela American Organization of Teachers of Portuguese (AOTP).

Agora, em Stanford, ele pretende ampliar o olhar para os fluxos migratórios de latinos nos EUA, dialogando com sua pesquisa sobre os refugiados na Amazônia.

Para custear os primeiros 30 dias nos Estados Unidos, o pesquisador lançou uma campanha online de financiamento coletivo. Após esse período, ele receberá uma bolsa para ajudar nas despesas de moradia e alimentação.

roraimanarede.com.br

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domingo, 21 de setembro de 2025

Prefeitura de Barreiras promove formação sobre direitos humanos, migração e combate ao trabalho escravo

 

A Prefeitura de Barreiras, por meio da Secretaria Municipal de Assistência Social e Trabalho, realizou na última quarta-feira (17) a formação “Construindo Diálogos”, voltada para a defesa dos direitos humanos, a proteção da população migrante e o enfrentamento ao trabalho análogo à escravidão. A atividade reuniu representantes de órgãos públicos, sociedade civil e organizações parceiras.

Promovida em parceria com o Centro Aplicado de Direitos Humanos (CADH), a ação contou ainda com o apoio da Fundação Pan-Americana para o Desenvolvimento (PADF) e da ELO Consultoria. O objetivo foi integrar a rede de assistência social e ampliar a qualificação técnica dos profissionais para garantir atendimento humanizado a pessoas em situação de vulnerabilidade.

Na abertura, a secretária de Assistência Social e Trabalho, Ivanete Bastos, ressaltou a relevância do encontro para a construção de uma cidade mais justa e inclusiva. “Momentos como este reforçam nosso compromisso em construir uma rede de proteção mais eficaz, capaz de garantir dignidade, inclusão e oportunidades para todos”, destacou.

A programação contou com palestras de especialistas do CADH. Pela manhã, Lavínia Vasconcelos e Vítor Magalhães abordaram direitos humanos e migração, discutindo conceitos fundamentais, marcos legais e os principais desafios enfrentados pela população migrante, além de questões práticas como documentação e acesso a serviços. À tarde, a diretora-geral do CADH, Márcia Figueiredo, apresentou dados sobre tráfico de pessoas e trabalho escravo, ressaltando o papel essencial da assistência social no acolhimento e encaminhamento das vítimas.

O encontro foi encerrado com a reafirmação do compromisso da Prefeitura de Barreiras e dos parceiros em promover cidadania, enfrentar violações de direitos e fortalecer políticas públicas inclusivas, com atenção especial às demandas da população migrante.

https://sigivilares.com.br/prefeitura-de-barreiras

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sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Discutindo a migração forçada no Vaticano: Papa Leão XIV e ACNUR

 

O Alto Comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi, foi recebido no Vaticano pelo Papa O Alto Comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi, foi recebido no Vaticano pelo Papa Leão XIV  (@VATICAN MEDIA)

Leão XIV  (@VATICAN MEDIA)

No dia 18 de setembro de 2025, o Vaticano sediou um importante encontro entre o Papa Leão XIV e Filippo Grandi, Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Os líderes abordaram temas críticos relacionados à migração forçada, ao triste destino das vítimas de guerra e às condições devastadoras em áreas afetadas por conflitos. Neste encontro, Leão XIV reafirmou seu compromisso com a defesa dos direitos humanos e da dignidade das pessoas, especialmente em tempos de crise.

A importância do diálogo entre a Igreja e a ONU

O encontro entre o Papa e Filippo Grandi simboliza um esforço conjunto para aumentar a conscientização sobre a migração forçada e as crises humanitárias que afetam milhares de vidas ao redor do mundo. Desde o início de seu pontificado, Leão XIV tem falado sobre a necessidade de defender aqueles que não têm voz e que são impactados por conflitos e guerras, como os que acontecem em Gaza, Ucrânia, e Mianmar. Grandi destacou a relevância da posição do Papa e o interesse da Santa Sé em crises que muitas vezes são esquecidas ou negligenciadas pela comunidade internacional.

Crises globais e o papel do ACNUR

Filippo Grandi expressou seu otimismo sobre o encontro com o Papa, ressaltando a preocupação compartilhada com as crises globais. O Alto Comissário afirmou que o compromisso de Leão XIV com a questão dos refugiados e migrantes é evidente e crucial para buscar soluções eficazes. Durante a reunião, Grandi mencionou diferentes crises que envolvem a migração, desde o Oriente Médio até a América Latina. Ele fez ainda uma observação sobre a situação da migração no continente latino-americano, afirmando que o Santo Padre possui um conhecimento profundo sobre a realidade da região.

Preocupações com a política migratória dos EUA

Um dos pontos centrais discutidos foi a preocupação do Papa com a política migratória dos Estados Unidos. No recente lançamento do livro “Leão XIV: cidadão do mundo, missionário do século XXI” no Peru, o Papa expressou suas apreensões sobre a postura dos EUA em relação à migração. Grandi destacou que a redução significativa da ajuda humanitária norte-americana tem impactos diretos sobre as operações do ACNUR e outras organizações que tiveram que reavaliar seus esforços diante da nova realidade.

Grandi mencionou que a redução de apoio financeiro não é um problema isolado do governo americano, mas um fenômeno que se repete em vários países europeus, como Alemanha, França e Reino Unido. Essa diminuição da ajuda, segundo Grandi, é contrária aos esforços para reduzir a pressão migratória nas fronteiras de países que recebem refugiados.

Os efeitos da redução da ajuda humanitária

Os impactos da diminuição da ajuda humanitária foram um tema recorrente no encontro. Grandi expôs que, enquanto os países desenvolvidos clamam pela redução da migração, suas ações de corte na ajuda internacional apenas agravam a situação nos países de origem dos deslocados. Tomando como exemplo o Chade, onde a assistência americana anteriormente respondia por mais da metade da ajuda internacional, a redução atual resulta em um quadro ainda mais desesperador para aqueles que buscam escapar de conflitos.

O Alto Comissário afirmou que os traficantes e exploradores de seres humanos já atuam na região, convencendo pessoas a se deslocarem para a Líbia, o que aumenta a preocupação com a segurança e a vida dos migrantes. Ele concluiu ressaltando que a redução da ajuda, além de seus impactos humanitários, é também prejudicial aos interesses dos Estados, que desejam controlar a migração.

Um apelo à comunidade internacional

Com a análise da situação em debate, tanto o Papa Leão XIV quanto Filippo Grandi chamaram a atenção da comunidade internacional para a necessidade urgente de um comprometimento renovado em prol dos direitos dos refugiados e migrantes. A união e a ação efetiva são fundamentais para enfrentar as crises de forma a garantir uma vida digna a todos, independentemente de sua origem ou condição. O encontro no Vaticano ressoou como um forte apelo por solidariedade e ação entre os governantes e a sociedade civil ao redor do mundo.

Esperamos que discussões como essa no seio da Igreja e das organizações internacionais continuem a promover sinais de esperança e ação em prol dos que mais necessitam. Com a sensibilidade da liderança papal e o trabalho incansável do ACNUR, a luta pelos direitos dos deslocados pode ser reforçada e apoiada.

diario.dopovo.com.br

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quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Governo abre seminário sobre governança migratória no Acre com foco na promoção e defesa dos direitos de migrantes

 Um marco essencial para o fortalecimento das políticas públicas migratórias foi registrado nesta quarta-feira, 17, no auditório da Escola do Poder Judiciário, com o 2º Seminário Estadual de Migração, Apatridia e Refúgio: Governança Migratória no Acre, realizado pelo governo do estado por meio da Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos (SEASDH) em parceria com o Comitê Estadual de Apoio aos Migrantes, Apátridas e Refugiados (Ceamar).

Seminário conta representantes do poder público, sociedade civil e organismos internacionais. Foto: Alana Avilar

O evento reforça o compromisso do Acre com a promoção e proteção dos direitos da população migrante, ampliando o debate qualificado sobre os desafios e oportunidades na região de fronteira, o encontro vai até esta quinta-feira, 18, das 7h30 às 13h30, com representantes do poder público, sociedade civil e organismos internacionais em torno da construção de políticas públicas efetivas, humanizadas e alinhadas às diretrizes nacionais e internacionais sobre o tema.

No ato solene, representando a vice-governadora e secretária, Mailza Assis, a secretária adjunta da SEASDH, Amanda Vasconcelos, destacou as ações promovidas pela pasta: “Lançamos a campanha contra a xenofobia há cerca de quatro meses. Também temos trabalhado, aliado a essa campanha, a inclusão no ambiente de trabalho, preparando essas pessoas para sua inserção. Isso é algo que precisamos mudar e avançar. E o primeiro passo é esse: preparar essas pessoas para que estejam aptas ao ambiente de trabalho.”

Amanda Vasconcelos representou a vice-governadora Mailza Assis. Foto: Alana Avilar

Além disso, o atendimento a migrantes internacionais no estado acumula três abrigos localizados nos municípios de fronteira: Assis Brasil, Epitaciolândia e Rio Branco, totalizando 190 vagas distribuídas estrategicamente pelo território acreano.

“O objetivo do evento é discutir a governança migratória, ou seja, trazer para a discussão mecanismos e políticas que podemos implantar no nosso estado para acolher e integrar os migrantes pela tríplice fronteira”, destacou o presidente do Ceamar e representante da política na SEASDH, Lucas Guimarães.

Presidente do Ceamar e representante da política na SEASDH, Lucas Guimarães. Foto: Alana Avilar

Para o promotor de Justiça da Promotoria Especializada de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania, Thalles Ferreira, o Acre tem uma história de ocupação diferente do restante do país: “O que nos dá pluralidade e diversidade. Então, precisamos deixar de ser apenas um corredor migratório e assumir o papel de local acolhedor. Isso só vai nos enriquecer em diversidade, pluralidade e efetividade dos direitos humanos.”

Já a defensora pública e chefe do Núcleo de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos da População Imigrante e Refugiada da DPE, Flávia Nascimento, disse que essa “é uma oportunidade para aprender com as instituições e melhorar a atuação na acolhida e na garantia dos direitos fundamentais dos imigrantes”.

Defensora pública falou no dispositivo. Foto: Alana Avilar

Durante a ocasião, foram destacadas ações estaduais voltadas ao público, como os esforços para garantir o selo Migracidades, concedido pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) e pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que reconhece e certifica o empenho do Acre em adotar práticas inovadoras, inclusivas e sustentáveis na gestão migratória. A realização do seminário fortalece esse compromisso e contribui para consolidar o Acre como referência nacional no tema.

Evento está sendo realizado na Escola do Poder Judiciário. Foto: Alana Avilar

Nos dois dias de evento, serão discutidas questões como xenofobia e racismo, acesso ao mercado de trabalho, papel da assistência social e do sistema de justiça para acolher e fomentar políticas para essa população, além de governança migratória, assistência social, direitos humanos, integração social e estratégias de gestão.

https://agencia.ac.gov.br/

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quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Mundo poderá ter mais 351 milhões de mulheres e meninas em extrema pobreza

 

© Unicef/Zishaan Latif
 

O Panorama de Gênero 2025 chama a atenção para o conceito da igualdade de gênero destacando que “não é uma ideologia”

Em cinco anos, o mundo terá 351 milhões de mulheres e meninas na extrema pobreza, se as tendências atuais persistirem. A projeção é do relatório “Progresso nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: O Panorama de Gênero 2025.”

Se nada mudar, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, particularmente o ODS 5, não serão alcançados. O prazo é 2030. O Objetivo 5 trata de igualdade de gênero e autonomia de todas as mulheres e meninas.

Dados e evidências

A publicação da ONU Mulheres e do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas cobre os 17 Objetivos destacando os últimos dados e evidências sobre igualdade de gênero, tendências e revela progressos e lacunas.

Jovens participam do primeiro programa de desenvolvimento de nanossatélites do Cazaquistão voltado para mulheres
© UNICEF/Zhanara Karimova
 
Jovens participam do primeiro programa de desenvolvimento de nanossatélites do Cazaquistão voltado para mulheres

Falando à ONU News, em Nova Iorque, a diretora da Divisão de Políticas da ONU Mulheres, Sarah Hendriks, destacou a importância da segurança alimentar e as interseções entre o tema e a pobreza.

A representante ressaltou que dados no relatório Panorama dos ODS mostram que, no ano passado, 64 milhões de mulheres a mais do que homens estavam em situação de insegurança alimentar moderada ou grave.

Outra questão de grande preocupação é a estagnação que existe numa realidade em que 27% dos parlamentares em todo o mundo são mulheres.

 Ganho inesperado 

O Panorama de Gênero 2025 alerta que as metas globais não estão ao alcance por políticas, negligência sistêmica, investimentos estancados e um retrocesso em relação à igualdade. Os números ilustram, porém, que um rumo diferente ainda é possível.

Com um investimento robusto para eliminar a exclusão digital de gênero, estima-se que 343,5 milhões de mulheres e meninas em todo o mundo poderiam se beneficiar.

Estudo expõe dados e evidências sobre igualdade de gênero, além de tendências
Rémi SCHAPMAN @WIA Initiative
 
Estudo expõe dados e evidências sobre igualdade de gênero, além de tendências

O foco nessa ação tiraria 30 milhões de mulheres e meninas da pobreza até 2050. A aplicação do montante geraria um ganho inesperado de US$ 1,5 trilhão no Produto Interno Bruto, PIB, global até 2030.

Brasil, Moçambique e Portugal

O relatório apresenta realidades de países de língua portuguesa. Pela proporção de mulheres em idade reprodutiva que alcançam a diversidade alimentar mínima entre 2012 e 2023 estão Moçambique, com 20,8, e Brasil com 54,8%.

Este parâmetro mede a qualidade da dieta mais concretamente um consumo de comida no dia anterior de pelo menos cinco dos 10 grupos alimentares.

O Brasil destaca-se pelo desempenho escolar de meninos em matemática ao final do ensino essencial maior do que para meninas. Outros Estados onde essa diferença é particularmente alta são Chile, Itália, Nova Zelândia e Reino Unido.

O ODS 5 trata de igualdade de gênero e autonomia de todas as mulheres e meninas
Unicef India
 
O ODS 5 trata de igualdade de gênero e autonomia de todas as mulheres e meninas

O acesso à eletricidade para brasileiras rurais empregadas que está associado a uma renda maior é um dos pontos de análise.

Plataforma de Ação de Pequim

Portugal e Brasil têm mais meninos que meninas atingindo a proficiência mínima em matemática na 8ª série.

A cinco anos do cumprimento dos ODS e passadas três décadas da adoção da Plataforma de Ação de Pequim, o relatório cita prioridades para implementação acelerada como investimento em custos para inclusão digital e combate à pobreza.

O Panorama de Gênero 2025 chama a atenção para o conceito da igualdade de gênero destacando que “não é uma ideologia”, mas sim uma questão fundamental para a paz, o desenvolvimento e os direitos humanos.


https://news.un.org/pt

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terça-feira, 16 de setembro de 2025

As centenas de corpos recuperados na selva de Darién, perigoso local de travessia de migrantes aos EUA


Migrante ferida sendo transportada para um acampamento humanitário em Darién, no Panamá, em setembro de 2024

  • Darío Brooks
  • Role,BBC News Mundo

A migração em massa ocorrida nos últimos anos através da inóspita selva de Darién, na América Central, cobrou um preço muito alto para muitas famílias.

Centenas de migrantes perderam a vida nos perigosos caminhos que atravessam aquela região do Panamá, na fronteira com a Colômbia.

Apenas entre 2022 e 2024, quase um milhão de homens, mulheres e crianças cruzaram a pé o chamado "Tampão" de Darién, tentando chegar a países cada vez mais próximos dos Estados Unidos.

Autoridades e grupos humanitários afirmam que é difícil calcular o número de vidas que ficaram pelo caminho. Alguns corpos são recuperados, mas muitos dos mortos foram enterrados na floresta pelos próprios migrantes, enquanto outros foram abandonados a céu aberto.

"Um migrante venezuelano contou que havia tentado ajudar uma mulher africana na floresta", ele conta. "Mas, como ele vinha com a família e outros membros do seu grupo, não pôde ficar para atendê-la."

"A mulher africana morreu ali na selva. Infelizmente, é uma das dinâmicas comuns. Muitos relatos convergem na perda de companheiros de viagem."

As mudanças da política de imigração dos Estados Unidos e de diversos países latino-americanos, como o Panamá, fizeram com que o fluxo de migrantes por Darién fosse drasticamente reduzido. Agora, resta às autoridades o trabalho de identificar as vítimas que puderam ser recuperadas.

Um dos líderes deste trabalho humanitário é o diretor do Instituto de Medicina Legal e Ciências Forenses do Panamá (IMELCF), José Vicente Pachar. Ele procura dar nome e sobrenome aos restos de pelo menos 220 migrantes que morreram na floresta.

"Muitas famílias de migrantes sequer sabem que os corpos ficaram em Darién, eles simplesmente perderam o contato", lamenta Pachar. "Pessoas da Venezuela, do Equador, de outros países da América. Até mesmo pessoas da África e da Ásia."

"Nós, quando fazemos a análise forense, sempre pensamos que se trata de um irmão, filho ou tio de alguém, que o está esperando em casa."

Com o apoio de especialistas forenses e do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), o Panamá trabalha em um esquema de identificação de cada resto. O trabalho exigirá meses, mas pode oferecer notícias a famílias que simplesmente não tiveram mais informações sobre um ente querido que tentou cruzar a selva de Darién, em busca de uma vida melhor.

Homem carrega ferido perto de Lajas Blancas, na região de Darién (Panamá)

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Migrantes feridos perto dos acampamentos humanitários conseguiram ser resgatados no Tampão de Darién

Perigo extremo

Historicamente, a densidade e o relevo da selva no Parque Nacional de Darién, na fronteira entre o Panamá e a Colômbia, fizeram com que fosse inviável abrir uma estrada entre os dois países.

A Rodovia Panamericana, que cruza o continente de norte a sul, é interrompida por este "tampão" natural. Por isso, os migrantes que tentam chegar por terra, da América do Sul até os Estados Unidos, são obrigados a seguir por caminhos ribeirinhos, onde há imensos perigos.

Muitos deles partem de povoados colombianos, como Necoclí, Turbo, Acandí ou Capurganá. Eles entram na floresta por caminhos de terra e barro, em condições de alta umidade, rodeados pela vegetação e pela fauna selvagem.

Dependendo do trajeto, o objetivo é chegar a povoados panamenhos como Bajo Chiquito, Canaan Membrillo ou Chocolatal. Dali, a intenção é avançar por terra ou pelos rios, até as localidades ou refúgios migratórios localizados na Rodovia Panamericana.

Viales e a equipe da OIM estiveram em Darién durante o auge da crise migratória. Eles puderam conhecer pessoalmente as condições letais enfrentadas pelos migrantes na região.

"A travessia de Darién leva 10 a 12 dias", explica ele.

"E algo que pude observar é que os coiotes, ou traficantes de pessoas, anunciam esta viagem como sendo de três dias caminhando pela floresta. Isso causou muitas mortes de pessoas que não estavam preparadas para andar 10 dias pela selva."

Grupo de migrantes caminha por trecho lodoso no Tampão de Darién

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,A densidade da floresta e as condições naturais de Darién são extremamente perigosas

Ele conta que muitos migrantes relataram quedas de grandes alturas e afogamentos de companheiros de viagem, além dos avistamentos de restos mortais e episódios de violência e abuso sexual.

Os animais que moram na selva, como rãs e serpentes, podem ser mortais. E o simples fato de beber água não potável em meio ao calor extremo ou pernoitar na margem de um rio que suba repentinamente pode representar extremo perigo.

Viales afirma que o projeto Migrantes Desaparecidos da OIM identificou as três principais causas de morte em Darién: afogamento, violência humana e falta de provisões, como água, remédios ou acampamentos seguros.

Sua equipe registrou a morte de 546 pessoas entre 2014 e 2025. Este número inclui dezenas de crianças.

A maior parte dos migrantes mortos vem de países latino-americanos ou caribenhos, como Venezuela, Colômbia, Equador, Cuba, Haiti e Peru, mas também da África e da Ásia.

Tentar viajar pelo mar do Caribe também apresenta condições "extremas e de grande periculosidade", segundo Viales.

Caravana de migrantes avança pela floresta de Darién

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Entre 2022 e 2024, quase um milhão de pessoas cruzaram o Tampão de Darién

O desafio da identificação

Desde que começou a aumentar o fluxo migratório pela selva de Darién, as autoridades panamenhas assumiram para si a tarefa de recuperar os corpos de vítimas mortais.

O serviço forense do IMELCF guarda os restos de 220 pessoas mortas entre 2019 e 2025, segundo Pachar.

"Em alguns casos, notificávamos as autoridades panamenhas, havia um deslocamento do serviço nacional de fronteiras e do Ministério Público e o cadáver era retirado para ser levado até o necrotério de Palma, a capital de Darién."

Em cada um dos casos, os médicos, antropólogos e odontólogos forenses analisavam os restos mortais, que foram colocados em nichos humanitários criados com o apoio do CICV. Além de criar um espaço digno para depositar os corpos, outro objetivo é que as famílias que buscam seus entes queridos tenham a oportunidade de encontrá-los.

"De um lado, existe o direito dos familiares de saber o que aconteceu", explica o chefe da missão do CICV no Panamá, Alexandre Le Breton. "E, de outro, o direito de saber traz a obrigação do Estado de dar prosseguimento, alocar recursos, fazer a busca da identificação do corpo e dar resposta aos familiares."

A experiência de Viales indica que o número de mortos pode ser três ou quatro vezes maior que os registros existentes.

"É impossível quantificar todos os restos de migrantes enterrados na selva de Darién", segundo ele.

Migrantes em um rio da floresta de Darién

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Muitas das vítimas morreram afogadas

Pachar explica que existem desafios consideráveis para identificar os corpos.

Em alguns casos, os migrantes não portavam nenhum documento de identidade. Em outros, os papéis se extraviaram ou eles usavam documentos apócrifos, para facilitar o trânsito pelos países da região.

Le Breton destaca que as condições hostis do ambiente da floresta e a gestão inadequada pelos migrantes que ajudaram a recuperar os restos são outros fatores que dificultam ainda mais a identificação.

Com isso, o IMELCF busca obter apoio de especialistas, como a Equipe Argentina de Antropologia Forense, para realizar análises genéticas e criar um banco de dados que contenha o DNA dos falecidos, com a sua localização nos nichos humanitários.

Este trabalho poderá levar meses, dependendo das condições dos restos dos migrantes mortos depositados no Panamá.

Mas o objetivo é fazer com que as pessoas que buscam um ente querido desaparecido possam saber se ele consta destes registros.

https://www.bbc.com/portuguese

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