terça-feira, 20 de maio de 2025

Crise climática: Impacto econômico, mortalidade e desigualdade social

 


A crise climática global transcende a esfera ambiental, configurando-se como uma ameaça complexa e multidimensional que impacta profundamente a economia mundial, a saúde humana, as futuras gerações e agrava as injustiças sociais existentes. Relatórios e estudos recentes pintam um quadro alarmante, destacando a urgência de ações decisivas para evitar consequências catastróficas.

Um novo relatório de especialistas em gestão de risco do Institute and Faculty of Actuaries (IFoA), intitulado “Planetary Solvency – finding our balance with nature”, alerta que a crise climática pode reduzir o PIB global em cerca de 50% até 2090.

Além do impacto econômico devastador, o relatório prevê uma mortalidade em massa em decorrência dos efeitos do aquecimento global, como incêndios, secas, ondas letais de calor, colapso dos ecossistemas e enchentes.

O relatório do IFoA aponta que as avaliações de risco climático, usadas por instituições financeiras, políticos e funcionários públicos estavam equivocadas, pois ignoraram efeitos severos esperados, como pontos de inflexão, aumento da temperatura do mar, migração e conflito.

A menos que haja uma ação política imediata para mudar o curso, o risco de insolvência planetária se aproxima, com impactos catastróficos ou extremos sendo “eminentemente plausíveis” e capazes de ameaçar a prosperidade futura.

A dependência fundamental de nossa sociedade e economia do sistema da Terra – que fornece bens essenciais como comida, água, energia e matérias-primas – é crítica. Esses serviços ecossistêmicos, incluindo a regulação climática, não são substituíveis por tecnologia.

Isso significa que o desenvolvimento social, o bem-estar, a prosperidade e a saúde econômica estão intrinsecamente ligados e dependentes do sistema planetário, exigindo que nossas atividades estejam dentro dos limites planetários. A abordagem atual liderada pelo mercado para mitigar riscos climáticos e naturais não está dando resultados, e uma resposta política urgente é necessária.

Os impactos severos já são uma realidade, manifestando-se em incêndios, inundações, ondas de calor, tempestades e secas sem precedentes. Há um risco iminente de desencadear pontos de inflexão, como o derretimento da camada de gelo da Groenlândia ou a morte da floresta amazônica. Esses pontos de inflexão podem gerar um efeito cascata, acelerando e tornando os danos incontroláveis, possivelmente levando a um ponto sem retorno.

Em cenários de aquecimento extremo (acima de 3°C) ou catastrófico, a mortalidade humana pode chegar a 2 bilhões ou 4 bilhões de óbitos, respectivamente, com grave redução da expectativa de vida e impactos negativos em todos os níveis da sociedade.

Outro estudo, de Adrien Bilal e Diego R. Känzig, estima que os danos macroeconômicos das mudanças climáticas são seis vezes maiores do que se pensava anteriormente. Segundo a pesquisa, um aquecimento de apenas 1°C reduz o PIB mundial em 12%. Essa estimativa é maior porque os autores exploraram a variabilidade da temperatura global, que se correlaciona fortemente com eventos climáticos extremos, diferentemente da temperatura em nível de país usada em trabalhos anteriores.

Um cenário de aquecimento “business-as-usual” implica uma perda de bem-estar atual de 25%. As perdas, se a crise climática não for controlada, incluem a perda da capacidade de cultivar grandes culturas básicas, elevação do nível do mar em vários metros e padrões climáticos alterados.

Além das perdas econômicas e da mortalidade, as mudanças climáticas estão impactando desproporcionalmente a nova geração. Um estudo global publicado na revista Nature revela que crianças nascidas hoje (entre 5 e 18 anos) viverão mais eventos climáticos extremos do que qualquer geração anterior. Viver uma vida “sem precedentes” neste contexto significa enfrentar extremos climáticos que teriam menos de 1 chance em 10 mil de ocorrer em um clima pré-industrial.

Mesmo no cenário otimista de limitação do aquecimento a 1,5°C, 52% das crianças nascidas em 2020 enfrentarão um número inédito de ondas de calor ao longo da vida, comparado a 16% das nascidas em 1960. Em um cenário de 3,5°C, mais de 90% das crianças enfrentarão esse tipo de exposição. Esse padrão se repete para outros eventos extremos, como perdas agrícolas, incêndios florestais, secas e enchentes fluviais, embora com percentuais variados. A pesquisa evidencia uma clara e injusta disparidade geracional.

A vulnerabilidade é ainda maior para populações vulneráveis e países tropicais. Sob as políticas climáticas atuais, 95% das crianças nascidas em 2020 em situação socioeconômica mais vulnerável enfrentarão exposição inédita a ondas de calor, em comparação com 78% das crianças mais privilegiadas. Essas crianças vulneráveis, com poucos recursos e opções de adaptação, sofrem a pior escalada dos eventos climáticos extremos e enfrentam riscos desproporcionais.

As mudanças climáticas também geram uma crise silenciosa de saúde mental. Um estudo recente focou em adolescentes em regiões particularmente vulneráveis, como o sul de Madagascar, onde os jovens já enfrentam os efeitos devastadores no presente. Diferentemente de países de alta renda, onde a ansiedade climática muitas vezes se concentra em riscos futuros, em Madagascar, secas prolongadas, tempestades de areia e escassez de água e alimentos impactam diretamente o bem-estar mental.

O estudo em Madagascar revelou níveis alarmantes de ansiedade, depressão e preocupação com as mudanças climáticas entre os jovens, muitos expressando sentimentos de desesperança e impotência diante de um futuro incerto. Situações extremas, como 90% das famílias relatando falta de comida no último ano e 69% dos adolescentes passando um dia inteiro sem comer, além de testemunharem a morte por fome, agravam o trauma psicológico. A pesquisa identificou que a perda de recursos domésticos, a incerteza sobre o futuro e o rompimento de mecanismos de sobrevivência tradicionais (como a agricultura) são as principais vias pelas quais as mudanças climáticas afetam a saúde mental dos adolescentes.

É crucial reconhecer que as mudanças climáticas aprofundam injustiças sociais preexistentes, penalizando com maior rigor justamente aqueles que menos contribuíram para o problema: as populações mais vulneráveis. Enquanto países ricos investem em infraestrutura de adaptação, nações em desenvolvimento enfrentam os piores efeitos sem recursos equivalentes. Dentro desses países, os mais pobres – comunidades marginalizadas, povos tradicionais e trabalhadores informais – sofrem primeiro e com mais intensidade.

A mobilidade humana, que pode ser a única alternativa diante de eventos extremos, não é acessível a todos; passaportes, recursos financeiros e redes de apoio são privilégios de poucos. Milhões ficam presos em zonas de risco, sem acesso a políticas públicas de adaptação ou reassentamento. Essa questão não foi discutida de forma adequada nem mesmo nas Conferências do Clima.

Diante desse cenário, a resposta exige o reconhecimento de que a crise climática é também uma crise de direitos humanos. Países desenvolvidos e grandes corporações devem assumir sua dívida histórica, financiando adaptação e reparação nos territórios mais afetados. É essencial que as políticas climáticas incluam mecanismos de proteção social, como auxílio a deslocados ambientais, investimento em agricultura resiliente e garantia de moradia segura para comunidades em risco. Além disso, há urgência em integrar suportes de saúde mental aos esforços de adaptação climática, especialmente em países de baixa e média renda.

Se o mundo continuar a ignorar a desigualdade dos impactos climáticos, perpetuará um sistema que condena os mais pobres a pagar o preço de um desastre do qual não são culpados.

A justiça climática não é um ideal distante, mas uma necessidade imediata, e o tempo para agir está se esgotando.

Líderes mundiais devem agir com urgência e ambição para limitar rapidamente o aquecimento global a 1,5°C, colocando de fato as crianças – e as populações mais vulneráveis – no centro da resposta climática.

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sexta-feira, 16 de maio de 2025

Relatório internacional aponta recorde de mais de 83 milhões de deslocados internos no mundo

 

Conflitos armados, desastres naturais e crises sociais impulsionam número sem precedentes.

Um relatório publicado nesta terça-feira (13/05/2025) pelo Observatório das Situações de Deslocamento Interno, em parceria com o Conselho Norueguês para os Refugiados, alerta para o número recorde de mais de 83 milhões de pessoas deslocadas internamente em seus próprios países ao final de 2024. O dado representa um crescimento de 7,5 milhões em relação a 2023, e se aproxima da população total da Alemanha.

Deslocados internos são pessoas forçadas a abandonar suas residências, mas que permanecem dentro das fronteiras nacionais, diferentemente dos refugiados que cruzam fronteiras internacionais. O relatório destaca que os conflitos armados e atos de violência são responsáveis por 90% dos deslocamentos forçados, afetando 73,5 milhões de pessoas. Esse número representa um aumento de 80% em comparação com 2018.

Além dos conflitos, desastres naturais como enchentes, terremotos, incêndios florestais e furacões levaram ao deslocamento de aproximadamente 10 milhões de pessoas em 2024. Esse número dobrou em cinco anos, indicando a crescente influência da crise climática sobre a mobilidade populacional forçada.

O país com o maior número de deslocamentos internos é o Sudão, com 11,6 milhões de pessoas forçadas a deixar suas casas devido à guerra civil. A Faixa de Gaza também é destacada no documento, onde grande parte da população foi obrigada a se deslocar em função dos bombardeios israelenses.

Nos Estados Unidos, o número de deslocamentos internos chegou a 11 milhões em 2024, motivado principalmente por eventos climáticos extremos, como furacões e incêndios. O relatório reforça que o fenômeno afeta tanto países em desenvolvimento quanto nações com maiores recursos.

A diretora do Observatório, Alexandra Bilak, atribui os deslocamentos forçados a três principais causas: conflitos armados, pobreza e mudanças climáticas. Ela alerta que as populações mais vulneráveis são as mais atingidas pelas consequências desses deslocamentos.

O diretor do Conselho Norueguês para os Refugiados, Jan Egeland, ressaltou que o corte de financiamentos humanitários, especialmente por parte dos Estados Unidos, compromete o acesso das populações deslocadas a alimentos, medicamentos e segurança. Ele pediu maior solidariedade global diante do crescimento acelerado desses números.

 

*Com informações da RFI.

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Retorno de refugiados sírios cresce após queda do governo Assad e alívio de sanções

 

Uma vista geral mostra uma igreja e uma mesquita na Cidade Velha de Damasco, Síria, em 20 de dezembro de 2024 (Foto: REUTERS/Amr Abdallah Dalsh)

Desde a derrubada do governo de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, aproximadamente 500 mil refugiados sírios retornaram ao país, conforme informou Gonzalo Vargas Llosa, representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) na Síria, em entrevista à agência estatal SANA. A maioria desses retornos ocorreu a partir de países vizinhos como Jordânia, Líbano, Turquia, Iraque e Egito.

Vargas Llosa destacou que muitos refugiados e deslocados internos manifestaram desejo de regressar às suas casas, agora que a principal causa de seu deslocamento foi eliminada. Ele ressaltou, no entanto, que o maior desafio enfrentado pelos retornados é a situação econômica, agravada pela destruição generalizada em todos os setores da vida síria durante os 14 anos de conflito.

O anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de suspender as sanções contra a Síria foi bem recebido por Vargas Llosa, que afirmou que a medida contribuirá para melhorar as condições humanitárias e facilitar o retorno de mais refugiados.

A decisão de Trump representa uma mudança significativa na política externa dos EUA em relação à Síria. Durante sua visita à Arábia Saudita, o presidente americano declarou que o levantamento das sanções visa estabilizar a Síria e apoiar seu caminho rumo à paz. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, confirmou a iniciativa, afirmando que o Departamento do Tesouro está trabalhando para fornecer alívio das sanções com o objetivo de estabilizar o país e promover a paz.

Essa mudança de postura ocorre em um momento em que a Síria enfrenta os desafios de reconstrução após anos de guerra civil. A suspensão das sanções é vista como um passo importante para facilitar a recuperação econômica e social do país, além de incentivar o retorno de mais refugiados.

O novo presidente interino da Síria, Ahmad al-Sharaa, que assumiu o poder após a queda de Assad, tem buscado apoio internacional para a reconstrução do país. A normalização das relações com os Estados Unidos e o alívio das sanções são considerados elementos cruciais nesse processo.

Com o apoio de aliados regionais e a perspectiva de retomada das relações diplomáticas com o Ocidente, a Síria enfrenta agora o desafio de reconstruir sua infraestrutura e garantir condições adequadas para o retorno seguro e sustentável de seus cidadãos.

(Com informações do portal Al Mayadeen)

Luis Mauro Filho

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quinta-feira, 15 de maio de 2025

Milei restringe imigração e permanência de estrangeiros na Argentina

 

Tania rego/agencia brasil

O presidente da Argentina, Javier Milei, vai endurecer as regras para a entrada de estrangeiros no país, com o objetivo de restringir a imigração. Segundo comunicado oficial desta quarta-feira (14) do gabinete da presidência, a Argentina passará a exigir o pagamento pelos serviços de saúde para residentes transitórios, temporários e irregulares. Além disso, os turistas que entrarem no país deverão contratar um seguro de saúde.

O comunicado anuncia que o Decreto de Necessidade e Urgência, que ainda será publicado, trará mudanças profundas no regime migratório do país.

De acordo com o governo, durante o ano de 2023, a assistência médica a estrangeiros nos hospitais nacionais implicou despesa aproximada de 114 bilhões de pesos.

“Esta medida visa garantir a sustentabilidade do sistema público de saúde, para que deixe de ser um centro de benefício financiado pelos nossos cidadãos”, diz o comunicado.

Outro ponto é a autorização para que as universidades nacionais possam estabelecer taxas, caso decidam, para cursos universitários destinados aos residentes temporários.

O comunicado afirma ainda que a Carta de Cidadania, documento para residência permanente no país vizinho, será concedida a quem comprovar dois anos de residência contínua ou tenha feito um investimento relevante na Argentina. Também será exigida a prova de meios de subsistência suficientes e a ausência de registo criminal.

Outro ponto do decreto que será publicado é que será proibida no país a entrada de estrangeiros condenados. Aqueles que cometeram crime no território, independentemente da pena, também serão deportados.

“Isto significa que as infracções com penas inferiores a 5 anos, que não eram motivo de recusa de entrada no país ou de expulsão, passam a ser consideradas”, diz o texto.

 "A extrema facilidade com que foi possível entrar na Argentina até a data presente levou a que 1.700.000 estrangeiros tenham imigrado ilegalmente para o nosso país nos últimos 20 anos. Esta medida procura estabelecer a ordem e o bom senso num sistema que, infelizmente, e devido à cumplicidade de políticos populistas, foi distorcido”, diz o comunicado.

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quinta-feira, 8 de maio de 2025

Mais de 7 mil refugiados e migrantes são beneficiados por ações do Hermanitos na região Norte

 

Organização atua na linha de frente da acolhida e integração de migrantes e refugiados, com foco em trabalho, capacitação e dignidade

O Instituto Hermanitos impactou mais de 7 mil refugiados e migrantes nos estados do Amazonas e Roraima apenas em 2024, por meio de ações voltadas à empregabilidade, capacitação profissional, empreendedorismo e integração socioeconômica. A atuação ocorre em duas das principais portas de entrada de migrantes no Brasil, especialmente de pessoas oriundas da Venezuela, mas também de outras nacionalidades, como haitianos, colombianos, sírios e cubanos.

Foto: Divulgação

Os dados mais recentes do Boletim da Migração, da Secretaria Nacional de Justiça (Senajus), apontam que o Brasil recebeu cerca de 180 mil migrantes entre janeiro e novembro de 2023, sendo 13.340 em condição de refúgio. O país abriga hoje mais de 1,7 milhão de pessoas migrantes, das quais 65.888 reconhecidas como refugiadas.

No contexto da migração forçada, o Hermanitos vem atuando com foco na autonomia e dignidade dos beneficiários. Em 2023, a organização elaborou cerca de 2 mil currículos, realizou 1.105 encaminhamentos para vagas de trabalho, e contribuiu para a contratação de mais de 500 pessoas. O apoio a empreendedores migrantes também foi expressivo, com 160 beneficiários fortalecidos em seus negócios.

A organização também presta atendimentos em saúde, suporte psicossocial, regularização documental e proteção, com mais de 3 mil beneficiários atendidos nessas frentes. Na área da capacitação, foram registrados 712 participantes em cursos profissionalizantes, 460 em aulas de português e 545 em treinamentos de habilidades comportamentais.

Integração e protagonismo social

Criado em 2018, o Instituto Hermanitos já alcançou mais de 35 mil pessoas. Ao longo de seis anos, a instituição contribuiu para a inserção de 1.400 migrantes no mercado de trabalho, capacitou mais de 5 mil e apoiou 800 empreendedores.

“O preconceito e a invisibilidade ainda são obstáculos reais para quem busca recomeçar no Brasil. Nosso trabalho mostra que, com planejamento, respeito e articulação em rede, é possível transformar vidas”, afirmou Tulio Duarte, diretor-presidente do instituto. Ele destaca ainda a abertura da instituição para o atendimento a migrantes de diversas origens, com apoio de voluntários, colaboradores e parceiros institucionais.

O Hermanitos conta com o apoio de organizações como a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), Ministério Público do Trabalho (MPT-AM/RR), TRT da 11ª Região, Secretaria de Inspeção do Trabalho, Embaixada da Austrália e a Operação Acolhida.

Projetos de referência

Foto: Divulgação

Entre os projetos de maior destaque está o “Mujeres Fuertes”, que capacita mulheres chefes de família e mães solo para o empreendedorismo. A iniciativa foi reconhecida nacionalmente com o Prêmio CNMP, na categoria Transversalidade dos Direitos Fundamentais, pelo impacto na promoção da equidade de gênero.

Já o projeto “Jovens em Ação” foca na inclusão de adolescentes e jovens no mercado de trabalho, oferecendo cursos técnicos, palestras e oficinas de desenvolvimento pessoal. Outro destaque é o “Banco de Talentos”, plataforma que reúne milhares de currículos e realiza encaminhamentos para oportunidades em diversas cidades brasileiras.

Em Boa Vista (RR), o Hermanitos atua junto ao ACNUR na gestão do Centro de Sustentabilidade, que promove projetos ambientais e culturais voltados à integração entre brasileiros e migrantes. A organização também opera no Centro de Coordenação de Interiorização (CCI), responsável por intermediar vagas de trabalho e promover atendimentos gratuitos à população refugiada nos abrigos da capital roraimense.

Eventos 

Em 2024, o Instituto promoveu uma conferência livre como etapa preparatória da 2ª Conferência Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia (COMIGRAR), além de realizar a 4ª edição do Fórum Hermanitos de Empregabilidade, em Manaus. Em Boa Vista, o evento “Café Hermanitos” reuniu representantes do setor privado e gestores de RH para discutir boas práticas de contratação de migrantes e refugiados.

Sobre o Hermanitos

O Instituto Hermanitos tem como missão promover acolhimento, inclusão produtiva e melhoria da qualidade de vida de pessoas refugiadas e migrantes no Norte do Brasil, com foco na inserção no mercado de trabalho e na valorização da dignidade humana. Mais informações sobre os projetos, formas de apoio e atuação institucional estão disponíveis no site: www.hermanitos.org.br.

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quarta-feira, 7 de maio de 2025

Pontes de Conhecimento e Cultura: O Impacto da Migração Laboral Brasileira na UE no Desenvolvimento do Brasil

 


O Brasil, país com uma rica história migratória, torna-se cada vez mais uma fonte de mão de obra para os países da União Europeia, incluindo a Polônia. Esse fenômeno da migração laboral não se limita apenas aos aspectos econômicos, como as remessas; ele abre canais únicos para a troca de conhecimentos, tecnologias e experiências culturais, capazes de exercer um impacto significativo no desenvolvimento do Brasil. Além disso, molda novas dimensões nas relações políticas e diplomáticas entre o Brasil e a UE, e levanta a questão da influência inversa da diáspora polonesa em solo brasileiro.

O retorno de trabalhadores brasileiros, enriquecidos com a experiência de trabalho na UE, representa um potencial catalisador para a implementação de novos conhecimentos e tecnologias em diversos setores da economia brasileira. Trabalhando em condições de infraestrutura mais desenvolvida, aplicando metodologias avançadas e lidando com soluções inovadoras, os brasileiros adquirem habilidades e competências valiosas. Um engenheiro que trabalhou em uma fábrica de automóveis na Polônia pode trazer à indústria brasileira a compreensão dos padrões modernos de qualidade e automação. Uma enfermeira que atuou em uma clínica alemã pode compartilhar conhecimentos sobre os protocolos mais recentes de tratamento e cuidados aos pacientes. Um especialista em TI que participou do desenvolvimento de software em uma empresa tecnológica espanhola pode contribuir para o avanço do setor de tecnologia da informação no Brasil

Essa transferência de conhecimento nem sempre ocorre de forma formal por meio de programas organizados. Frequentemente, ela acontece no nível das iniciativas pessoais e dos contatos profissionais. Migrantes que retornam podem se tornar empreendedores, implementando em seus negócios os padrões europeus de gestão e organização do trabalho. Eles podem compartilhar sua experiência com colegas, contribuindo para a qualificação da força de trabalho local. Redes informais mantidas entre brasileiros na UE e seus compatriotas no Brasil também desempenham um papel importante na disseminação de informações sobre novas tecnologias e melhores práticas.

A obtenção de autorização de trabalho na Polônia por cidadãos brasileiros é um aspecto-chave que determina o fluxo da migração laboral e, portanto, o potencial de troca de conhecimento e experiência. O procedimento geralmente inclui o envio de um pedido pelo empregador interessado na contratação do profissional brasileiro às autoridades locais (governos das voivodias). O empregador deve justificar a necessidade de contratar um estrangeiro, muitas vezes demonstrando a falta de candidatos adequados no mercado de trabalho local. Dependendo do tipo de trabalho e da qualificação do trabalhador, podem ser exigidos diversos documentos, incluindo comprovação de qualificação, contrato de trabalho e seguro saúde. A obtenção bem-sucedida da autorização abre aos trabalhadores brasileiros a oportunidade legal de trabalhar na Polônia, adquirindo valiosa experiência profissional e cultural que posteriormente pode ser transferida para o Brasil.

Enriquecimento da Experiência Cultural
O aspecto cultural dessa troca é igualmente significativo.
É importante destacar que os profissionais brasileiros já demonstram, durante seu trabalho na UE, suas qualidades profissionais, experiência e conhecimentos, contribuindo para o desenvolvimento das empresas e organizações europeias. Um engenheiro com formação brasileira pode trazer novas perspectivas e abordagens inovadoras a uma fábrica de automóveis polonesa. Uma enfermeira formada no Brasil pode compartilhar valiosa experiência de cuidados com pacientes em uma clínica alemã. Assim, a troca de conhecimento e tecnologia é um processo bidirecional, no qual os brasileiros não apenas aprendem, mas também contribuem ativamente.

Brasileiros que viveram algum tempo em um ambiente multicultural da UE retornam com uma visão de mundo mais ampla e um maior entendimento dos valores europeus. Eles podem contribuir para o desenvolvimento da tolerância, do respeito à diversidade e da abertura a novas ideias na sociedade brasileira. Sua experiência pode enriquecer a cultura brasileira, trazendo novas tradições culinárias, influências musicais e tendências artísticas. Por sua vez, seus relatos e vivências na Europa podem contribuir para uma visão mais objetiva e multifacetada da UE entre os brasileiros.

O Impacto da Migração Laboral nas Relações Políticas e Diplomáticas
A migração laboral dos brasileiros para a UE também impacta as relações políticas e diplomáticas entre o Brasil e os países europeus, incluindo a Polônia. A integração bem-sucedida e os êxitos profissionais dos trabalhadores brasileiros nos países europeus contribuem para a formação de uma imagem positiva do Brasil como fonte de mão de obra qualificada e valiosa. A presença significativa de cidadãos brasileiros que vivem e trabalham nesses países cria novos canais de interação e pode fortalecer os laços bilaterais.

Em particular, as relações entre o Brasil e a Polônia, embora não tão intensas quanto com alguns outros países da UE, também podem ser influenciadas pela migração laboral. O número crescente de brasileiros que escolhem a Polônia como local de trabalho pode estimular o desenvolvimento de laços culturais e econômicos entre os dois países. Isso pode levar ao aumento do fluxo turístico, ao crescimento do comércio e dos investimentos. Além disso, a cooperação em questões de política migratória e proteção social pode se tornar uma parte importante do diálogo bilateral.

O Papel da Diáspora Polonesa no Brasil como Influência Inversa
É interessante também considerar a influência inversa – o papel da diáspora polonesa no Brasil. A história da imigração polonesa no Brasil já conta com mais de um século, e os poloneses deram uma contribuição significativa ao desenvolvimento de diversas regiões do país, especialmente nos estados do Sul. Eles preservaram suas tradições culturais, língua e costumes, enriquecendo assim a paleta multicultural do Brasil. A diáspora polonesa participa ativamente da vida econômica, social e política do país, contribuindo para o desenvolvimento da agricultura, indústria, educação e cultura.

Comparando a influência dos brasileiros que trabalham na Polônia com a dos poloneses no Brasil, podem-se observar algumas diferenças. A migração laboral brasileira para a UE é um fenômeno relativamente novo, e sua influência na transferência de conhecimentos e tecnologias para o Brasil ainda está começando a se manifestar plenamente. A diáspora polonesa no Brasil, por outro lado, tem raízes mais profundas e já deixou uma marca significativa na história e cultura do país. No entanto, ambos os fluxos migratórios contribuem para o diálogo intercultural e o fortalecimento dos laços entre os povos.

Caminhos para Maximizar o Impacto Positivo da Migração
Para aproveitar plenamente o potencial da troca de conhecimentos, tecnologias e experiências culturais associadas à migração laboral, são necessários esforços direcionados tanto por parte do Brasil quanto dos países da UE. O governo brasileiro pode desenvolver programas de apoio para migrantes que retornam, promovendo a aplicação de sua experiência internacional no país. Isso pode incluir a criação de incubadoras de empresas, a organização de seminários e treinamentos, bem como o apoio a projetos voltados para a implementação de novas tecnologias.

Os países da UE, por sua vez, podem facilitar uma integração mais eficaz dos trabalhadores brasileiros, garantindo-lhes acesso à educação e formação profissional, além de criar condições para a troca de conhecimentos e experiências. O apoio a iniciativas culturais e programas de intercâmbio pode promover uma melhor compreensão mútua entre as sociedades brasileira e europeia.

Conclusão
Conclui-se, portanto, que a migração laboral dos brasileiros para a UE, incluindo a Polônia, representa um fenômeno multifacetado que vai muito além dos aspectos econômicos. Ela abre canais importantes para o intercâmbio de conhecimentos, tecnologias e experiências culturais, capazes de contribuir significativamente para o desenvolvimento do Brasil. O fortalecimento das relações políticas e diplomáticas, baseado nos aspectos humanitários da migração, pode promover uma cooperação mais estreita entre o Brasil e a UE em diversas áreas. Ao mesmo tempo, a experiência da diáspora polonesa no Brasil nos lembra do impacto duradouro da migração no desenvolvimento cultural e econômico de um país. Aproveitar o potencial de ambos os fluxos migratórios exige uma política consciente e uma cooperação voltada para a construção de pontes entre culturas e economias.

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terça-feira, 6 de maio de 2025

Secretário-Geral da CNBB diz que imigração será prioridade para o próximo Papa

 

Dom Ricardo Hoepers, Secretário-Geral da CNBB (Foto: Arquidiocese de Brasília)

O  drama da migração, fenômeno global que escancara desigualdades e alimenta a ascensão de discursos extremistas, deve ocupar o centro da agenda do próximo Papa. A avaliação é de Dom Ricardo Hoepers, secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que afirma: “A questão dos imigrantes será a pauta número um do próximo Papa”.

Em entrevista concedida ao jornal O Globo às vésperas do conclave que escolherá o sucessor de Francisco, Dom Ricardo enfatiza que a Igreja Católica não pode se distanciar dos dramas humanos, nem abandonar o compromisso com os mais pobres, os excluídos e os rejeitados. “Onde os dramas humanos gritam, a Igreja tem que estar presente”, diz.

A herança de Francisco

Durante mais de uma década à frente da Igreja, o Papa Francisco colocou no centro do debate temas sensíveis como imigração, pobreza, meio ambiente e desigualdade. Ele se tornou um símbolo de um catolicismo engajado socialmente e aberto ao diálogo. Sua visita à ilha italiana de Lampedusa, em 2013, marcada por um apelo contra a “globalização da indiferença”, ainda ecoa como um dos gestos mais simbólicos de seu pontificado.

Para Dom Ricardo, o próximo pontífice deverá manter essa linha. “A Igreja repudia e sempre vai repudiar todo tipo de discriminação e de exclusão”, afirma. Ele rejeita a ideia de uma possível guinada conservadora sobre a questão migratória: “Nisso a Igreja não tem como voltar atrás”.

Entre a tradição e a abertura

Questionado sobre o perfil do futuro Papa — se será um nome com afinidade à visão progressista de Francisco ou uma figura mais conservadora —, o bispo evita dicotomias. “A Igreja, em mais de dois mil anos de história, tem tudo dentro dela. Cada Papa sabe quando avançar e quando conservar”, pondera. No entanto, ele destaca como avanço a presença cada vez maior de cardeais oriundos das periferias do mundo, o que, segundo ele, reforça a diversidade e amplia a responsabilidade do novo líder da Igreja.

Fé e compromisso com os sofrimentos humanos

As críticas que Francisco recebeu por seu envolvimento com pautas sociais — acusando-o de politizar a Igreja — são rebatidas por Dom Ricardo. Para ele, cuidar dos marginalizados é uma expressão autêntica do Evangelho. “O cuidado com o outro sempre fará parte da Igreja. Não se trata de ideologia. Trata-se de compromisso com quem está sofrendo”, defende. E acrescenta: “Não podemos nos omitir. Os imigrantes estão na pauta da Igreja porque somos nós que os acolhemos na base da sociedade”.

Sobre o enfrentamento às correntes mais conservadoras dentro do próprio Vaticano, que resistem à abertura promovida pelo Concílio Vaticano II, Dom Ricardo é direto: “São grupos que têm força, mas representam uma visão puritana, acima das realidades humanas. A doutrina social da Igreja é riquíssima. Estamos aqui para dizer que há injustiças e que precisamos ser solidários”.

Pontes, não muros

O bispo também comentou a simbólica presença do ex-presidente norte-americano Donald Trump na primeira fila do funeral de Francisco, onde o cardeal decano Giovanni Battista Re repetiu uma das frases mais emblemáticas do Papa falecido: “É preciso construir pontes, não erguer muros”. Para Dom Ricardo, a mensagem foi clara e direta: “Para bom entendedor, meia palavra basta”.

A crítica ao fechamento de fronteiras e ao recrudescimento de políticas anti-imigração é constante. A Igreja, segundo ele, não pode se calar diante de sistemas excludentes e estruturas de pecado. “Temos que fazer uma crítica ao sistema, aos partidos, às estruturas de corrupção e aos pecados do mundo. Quem não deseja isso está preso numa rede ideológica”, diz, citando o próprio Papa Francisco.

Fidelidade ao Evangelho

Mesmo diante de ataques, Francisco manteve firme sua missão pastoral. “Enquanto o chamavam de comunista, ele continuava visitando imigrantes, abraçando doentes, acolhendo moradores de rua. Nunca se deixou levar pelas críticas”, relata Dom Ricardo. Ele conclui: “Temos que viver o Evangelho, mesmo que sejamos rotulados. Ao resgatar o cuidado com o outro, Francisco voltou à essência do cristianismo”.

Tradição em disputa

A eventual retomada de práticas litúrgicas pré-conciliares, como a missa em latim com o padre de costas para os fiéis, é outro ponto de tensão. Para o secretário-geral da CNBB, a Igreja se abriu à língua do povo para estar mais próxima das pessoas. “Esse povo ultratradicionalista quer cuidar só das almas. Isso é um erro. Deus se fez carne, e tudo o que se refere à nossa natureza deve ser cuidado pela Igreja”, afirma.

Enquanto o mundo assiste à definição do futuro da Igreja Católica, fica o recado claro da CNBB: o próximo Papa terá diante de si o desafio de manter viva uma Igreja comprometida com os que sofrem. E no topo dessa missão estará o enfrentamento ao drama dos imigrantes, uma chaga do século XXI que desafia a consciência moral da humanidade.

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sábado, 3 de maio de 2025

Governo Federal oferece bolsas para estudantes estrangeiros dos cursos de graduação



Estudantes estrangeiros integrantes do Programa Estudante – Convênio de Graduação (PEC-G) podem se candidatar para as bolsas do Projeto Milton Santos de Acesso ao Ensino Superior (Promisaes). As inscrições seguem abertas até 7 de maio, por meio da página auxilios.ufms.br.

O PEC-G é uma ferramenta de política externa e de apoio à internacionalização da educação criada pelo Governo Federal, com o intuito de ampliar o horizonte cultural dos brasileiros e estimular as relações bilaterais do Brasil com os demais países. “A bolsa Promisaes viabiliza a permanência desses estudantes na UFMS, pois alguns estudantes, sem esse suporte, seriam forçados a abandonar seus estudos devido à falta de recursos para cobrir despesas básicas como moradia, alimentação, transporte e material didático, ou melhor, a bolsa minimiza as barreiras financeiras que poderiam impedir o desenvolvimento acadêmico desses alunos. Ela reconhece as dificuldades adicionais enfrentadas por estudantes que, além de se adaptarem a um novo país e cultura, também lidam com limitações econômicas”, explica o diretor de Assuntos Estudantis da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis, Edilson Zafalon.

Ao todo, são ofertadas 25 bolsas mensais no valor de R$ 622, destinadas para estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica matriculados em cursos de graduação de todos os câmpus da UFMS, com renda familiar de até um salário mínimo por pessoa.

Os candidatos deverão acessar a página e fazer login com o Passaporte UFMS para realizar a inscrição. Em seguida, é necessário anexar na aba “Documentos” a Carteira de Registro Nacional Migratório atualizado ou o protocolo de prorrogação de visto junto à Polícia Federal, a situação cadastral do Cadastro de Pessoa Física, o currículo Lattes e a cópia do cartão bancário. Por último, é preciso preencher o formulário disponível na aba “Inscrições”. A pontuação leva em consideração o índice de rendimento acadêmico e a renda informada no Perfil do Estudante, que deve ser confirmada com a Folha Resumo do Cadastro Único do Governo Federal.

“Para manter a Bolsa Promisaes, o estudante selecionado deve ter bom rendimento acadêmico, ter frequência regular nas atividades acadêmicas, conforme as normas da UFMS e do seu curso”, acrescenta o diretor.

Mais informações sobre o processo seletivo estão disponíveis no edital abaixo:




https://www.ufms.br/governo-federal

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