quarta-feira, 5 de outubro de 2022

DEMOCRACIA: MUITO ALÉM DE ELEIÇÕES

 




Nós nos acostumamos a julgar que democracia e eleições caminham sempre juntas. Onde há eleição, haveria democracia; promover a democracia seria expandir o processo eleitoral. Por isso, quando surgem determinados resultados eleitorais, nós quase desanimamos da democracia. Como é possível que tanta gente apoie quem debocha do sofrimento que causa? Democracia e eleições caminham juntas, sim, mas mantêm uma relação tensa e contraditória. Limitar a democracia ao processo eleitoral é desfigurar o ideal democrático – e, ao mesmo tempo, reduzir a qualidade potencial do voto.

Nós nos acostumamos a julgar que democracia e eleições caminham sempre juntas. Onde há eleição, haveria democracia; promover a democracia seria expandir o processo eleitoral. Por isso, quando surgem determinados resultados eleitorais, nós quase desanimamos da democracia. Como é possível que tanta gente apoie quem debocha do sofrimento que causa? Como é possível que o voto popular premie a incompetência, a ignorância e a desumanidade? Como é possível que a votem pela truculência policial aqueles cujos filhos são as vítimas prováveis da “bala perdida”, pelo Estado mínimo aqueles que sofrem com a pobreza e o desamparo, pela “meritocracia” aqueles que não têm chance já de largada?

O voto não revela necessariamente uma vontade esclarecida. Pode ser o veículo para o preconceito, o ressentimento, a desqualificação política. Se é assim, fica difícil aceitar que a democracia é uma boa forma de governo.

Para entender melhor a questão, é necessário deslocar a premissa. Democracia e eleições caminham juntas, sim, mas mantêm uma relação tensa e contraditória. Limitar a democracia ao processo eleitoral é desfigurar o ideal democrático – e, ao mesmo tempo, reduzir a qualidade potencial do voto.

O significado etimológico de “democracia”, como se sabe, é “governo do povo”. Herdamos a palavra, bem como boa parte do imaginário associado a ela, da Grécia antiga. Lá, o povo era uma parcela reduzida da população, pois os direitos políticos eram negados a quem fosse estrangeiro ou descendente de estrangeiros, aos escravos e libertos de ambos os sexos e às mulheres de todas as classes sociais. Mas esse povo decidia diretamente as questões públicas, nas assembleias abertas a todos os cidadãos. Os cargos permanentes eram preenchidos não por eleição, mas por sorteio, que tanto indicava a crença na igualdade de todos quanto expandia por todos os grupos sociais a experiência da gestão do governo.

Quando a ideia de democracia foi retomada, sobretudo com as revoluções americana e francesa, a possibilidade de seu exercício direto era mais remota. A “democracia representativa” parecia mais adequada a Estados extensos e populosos, nos quais uma assembleia cidadã se mostrava inviável. Quando a dinâmica da inclusão política se acentuou, com a incorporação paulatina de trabalhadores, das mulheres, das minorias étnicas, a mediação dos representantes se tornou ainda mais importante: eles formavam uma camada de negociação e de acomodação diante dos conflitos de interesses de grupos antagônicos.

Mas a democracia representativa é uma contradição em termos. É um “governo do povo” em que o povo não governa, pois é obrigado a delegar seu poder a uma minoria de representantes. E esses representantes, por sua vez, tendem a ser diversos do restante da população. Como regra, tendem a ser mais ricos, mais escolarizados, mais velhos, mais homens, mais brancos. Isso porque, como observou o cientista político francês Bernard Mann, eleições são democráticas numa ponta (todos podem votar, os votos valem igual), mas aristocráticas na outra. Para alguém ser eleito, tem que mostrar que é “melhor”, que tem qualidades especiais. E as qualidades valorizadas na eleição tendem a reproduzir as hierarquias sociais vigentes.

O sorteio foi descartado, nas democracias modernas, porque a escolha do representante por votação permite, em tese, que o eleitor controle melhor os compromissos que ele vai assumir. O sorteio é bom para sociedades que veem a si mesmas como indiferenciadas; a eleição é mais adequada para a representação de interesses diversos e em conflito. A questão, então, é saber até que ponto o eleitor comum terá discernimento diante das escolhas que lhe são apresentadas.

Ao escrever sua clássica defesa do sufrágio universal, no século XIX, John Stuart Mill expressou a crença de que, chamado a participar com seu voto, o eleitor se sentiria incentivado a conhecer melhor o mundo, a entender melhor a realidade. Uma esperança que a experiência desfez.

O voto é um incentivo muito pequeno para a qualificação política. Meu voto é um em milhões, a chance de que seja ele a decidir as eleições tende a zero: por que vou gastar meu tempo me informando? Assim, o eleitor costuma votar por inércia, reproduzindo o padrão de sua família; por conformidade a outros grupos sociais nos quais está imerso; ou, então, influenciado pelas técnicas de manipulação do marketing político.

A dupla emergência das mídias sociais e de uma extrema-direita renovada agravou o quadro, ampliando as possibilidades e a eficiência da manipulação. Foram desfeitos antigos consensos, erodiu-se a ideia de que o discurso político deve remeter de alguma forma a uma realidade factual (inaugurando-se o mundo da chamada “pós-verdade”) e passou a imperar o vale-tudo. O novo ambiente comunicacional, que fica numa zona cinzenta entre o privado e o público, torna difícil o debate e favorece a formação de bolhas discursivas onde as narrativas mais absurdas podem se converter em dogmas incontestáveis.

Diante disto, o que fazer? Uma boa parte da Ciência Política anglófona, assustada com o triunfo do Brexit, no Reino Unido, e sobretudo de Donald Trump, nos Estados Unidos, assumiu que era necessário limitar a democracia – restaurar o distanciamento entre as decisões políticas e o eleitorado, recompor a passividade do cidadão comum alimentando a crença em sua incompetência política, tudo o que o “populismo” teria afetado. É a leitura de best-sellers do tipo Como as democracias morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, ou Como a democracia chega ao fim, de David Runciman.

A salvação da democracia, assim, seria a desdemocratização. A melhor eleição, aquela em que o voto expressa pouco e decide quase nada.

Mas é possível pensar num caminho diferente. A ampliação dos espaços de debate e participação política no cotidiano gera um eleitorado mais capaz de produzir coletivamente seus interesses, de escolher com mais conhecimento seus representantes e de cobrá-los de forma mais firme e esclarecida. Não se trata da pseudoparticipação das correntes do zap, em que o indivíduo se sente ativo por passar adiante o meme ou a notícia falsa, mas da discussão nas associações, nos sindicatos, nos coletivos, em que a pessoa parte do local de trabalho, de estudo, de moradia ou de pertencimento para chegar no mundo social mais amplo.

É a aposta numa política que se embrenha do dia a dia, em vez de ficar restrita a espaços institucionais e chamar o cidadão comum apenas de quatro em quatro anos. Não se trata de abandonar a representação, mas de equilibrar a relação entre representantes e representados, qualificando o eleitor comum pela participação nas esferas mais próximas dele.

Não é tarefa para um piscar de olhos. Exige, dos agentes políticos comprometidos com uma democracia efetiva, a disposição para investir em algo além da disputa eleitoral, da conquista de votos, da obtenção de cadeiras nos espaços formais de poder.

No Brasil, depois do golpe que fraturou a Constituição, em 2016, e da chegada de um extremista antidemocrático à presidência, em 2018, a situação é ainda mais desafiadora. O segundo turno das eleições presidenciais decidirá se seremos capazes de garantir o mínimo – para, a partir daí, tentar reconquistar o terreno perdido e sonhar com maiores avanços – ou se vamos mergulhar de vez no retrocesso, na restrição de direitos, na perseguição a opositores, no autoritarismo que mantém, tanto da democracia quanto das eleições, apenas uma fachada ritual, desprovida de qualquer efetividade.

Por Luis Felipe Miguel

Luis Felipe Miguel é professor titular do Instituto de ciência política da Universidade de Brasília (UnB), onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê), e pesquisador do CNPq. Publicou, entre outros, os livros Democracia na periferia capitalista: Impasses do Brasil (Autêntica, 2022), O colapso da democracia no Brasil: da Constituição ao golpe de 2016 (Expressão Popular, 2019), Dominação e resistência – Desafios para uma política emancipatória (Boitempo, 2018), Consenso e conflito na democracia contemporânea (Ed. Unesp, 2017), Notícias em disputa – Mídia, democracia e formação de preferências no Brasil (com Flavia Biroli, Contexto, 2017), O nascimento da política moderna: de Maquiavel a Hobbes (Ed. UnB, 2015), Democracia e representação: territórios em disputa (Ed. Unesp, 2014), Feminismo e política: uma introdução (com Flávia Biroli; Boitempo, 2014) e Mito e discurso político (Ed. Unicamp, 2000).

comciencia.br

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Dia Mundial dos Professores alerta para falta de profissionais nas salas de aula

 


© Unicef/Giacomo Pirozzi
 

Serão necessários mais 24,4 milhões de professores no ensino primário e cerca de 44,4 milhões de docentes no nível secundário para alcançar a educação básica universal até 2030

Data celebrada pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco, marca adoção da Recomendação sobre o Status dos Professores, de 1966, em parceria com a Organização Internacional do Trabalho, OIT; em mensagem, líderes de agências reforçam que queda no número de docentes vem do pouco incentivo e sobrecargas.

Neste 5 de outubro, a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco, e a Organização Internacional do Trabalho, OIT, celebram o Dia Mundial dos Professores.

Como tema “A transformação da educação começa com os professores”, as agências da ONU ressaltam que a falta de mestres agravada com a pandemia de Covid-19, vem afetando especialmente áreas mais pobres, mulheres e meninas e populações mais vulneráveis.

Celebração global

Em mensagem conjunta, os líderes da Unesco, OIT, Unicef e Internacional da Educação, revelam que serão necessários mais 24,4 milhões de professores no ensino primário e cerca de 44,4 milhões de docentes no nível secundário para alcançar a educação básica universal até 2030.

O documento foi assinado pela diretora-geral da Unesco, Audrey Azoulay, o diretor-geral da OIT, Gilbert F. Houngbo, a diretora executiva do Unicef, Catherine Russell, e o secretário-geral da Internacional da Educação, David Edwards.

Eles lembraram que a crise sanitária revelou que “os professores são os motores no centro de nossos sistemas educacionais” e ressaltam que a menos que as condições dos professores mudem, a promessa da educação permanecerá fora do alcance daqueles que mais precisam.

Segundo os representantes, isso requer o número certo de professores e pessoal educacional capacitados, motivados e qualificados no lugar certo com as habilidades certas.

No entanto, eles adicionam que em muitas partes do mundo, há escassez de professores, as salas de aula estão superlotadas e os profissionais sobrecarregados, desmotivados e sem apoio.

O resultado é o número crescente de mestres deixando a profissão e uma queda significativa daqueles que estudam para se tornarem professores.

Os líderes das agências alertam que, se essas questões não forem abordadas, a perda do corpo docente “pode ser um golpe fatal para a realização do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4”, que trata da educação de qualidade.

Qualidade da educação pelo mundo

De acordo com os dados, a África Subsaariana e o Sul da Ásia precisam de mais 24 milhões de professores, o que representa cerca de metade da necessidade de novos profissionais nos países em desenvolvimento.

Com algumas das salas de aula mais superlotadas do mundo, a África Subsaariana também abriga docentes mais sobrecarregados e sistemas com falta de pessoal, com 90% das escolas secundárias enfrentando sérias carências de ensino.

Segundo os representantes das agências, globalmente, 81% dos professores do ensino fundamental e 78% dos que trabalham no ensino médio são professores treinados. No entanto, na África Subsaariana, com poucas exceções de países, esses números são de 65% e 51%, respectivamente.

As entidades pedem que no Dia Mundial dos Professores o papel crítico deles na transformação do potencial dos alunos seja celebrado garantindo que tenham as ferramentas necessárias para assumir a responsabilidade por si mesmos, pelos outros e pelo planeta.

Eles ainda fazem um apelo para que os países garantam que os professores sejam confiáveis ​​e reconhecidos como produtores de conhecimento, profissionais reflexivos e parceiros políticos.

Evento da Unesco

A Unesco está organizando comemorações que abordam os compromissos e apelos à ação feitos na Cúpula da Educação Transformadora, em setembro de 2022.

São três dias de celebração na sede da Unesco em Paris incluindo a cerimônia de entrega do Prêmio Unesco-Hamdan para o Desenvolvimento de Professores.

Outros eventos devem debater como garantir condições de trabalho decentes aos professores, acesso a oportunidades de desenvolvimento profissional e um status profissional reconhecido é a primeira passo em direção a sistemas educacionais mais resilientes.

A data é comemorada globalmente desde 1994 e marca a adoção da recomendação da Unesco e da OIT sobre o status dos professores em todo mundo.

O documento, que foi aprovado em 1966, estabelece padrões de referência em relação aos direitos e responsabilidades dos professores e padrões para sua preparação inicial e educação continuada, recrutamento, emprego e condições de ensino e aprendizagem.


Onunews


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terça-feira, 4 de outubro de 2022

Angela Merkel recebe prémio da ONU por proteção de refugiados

 A ex-chanceler alemã Angela Merkel ganhou o prémio Nansen do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) por proteger milhares de refugiados no auge da crise na Síria, anunciou hoje a organização.

"Ao ajudar mais de um milhão de refugiados a sobreviver e reconstruir as suas vidas, Angela Merkel demonstrou grande coragem moral e política", justificou o alto-comissário da agência da ONU para os refugiados, Filippo Grandi, em comunicado hoje divulgado.

Sob a liderança da ex-chanceler, que esteve à frente do país entre 2005 e 2021, a Alemanha recebeu mais de 1,2 milhões de refugiados e requerentes de asilo, sobretudo nos anos 2015 e 2016, quando o conflito na Síria estava no seu auge e a Europa viveu uma das maiores crises de imigração de sempre.

O prémio, atribuído anualmente, foi batizado em homenagem ao explorador, cientista, diplomata e humanitário norueguês Fridtjof Nansen e é concedido a uma pessoa, grupo ou organização que tenha ido além do seu dever na proteção de refugiados, deslocados internos ou apátridas.

A então chanceler pediu aos alemães que rejeitassem o nacionalismo e que fossem "autoconfiantes e livres, compassivos e tivessem a mente aberta".

"Foi uma situação que pôs à prova os nossos valores europeus como nunca. Não foi nada de especial e nada mais do que um imperativo humanitário", afirmou Angela Merkel.

2:44 min

Angela Merkel: Retrospetiva a 16 anos de Chanceler da Alemanha

"Grande coragem moral e política"

No entanto, para Filippo Grandi, o gesto demonstrou "grande coragem moral e política" e muita determinação em "proteger os requerentes de asilo e defender os direitos humanos, os princípios humanitários e o direito internacional".

Angela Merkel "foi uma verdadeira líder, que apelou à nossa humanidade, mantendo-se firme contra aqueles que pregavam o medo e a discriminação", justificou Grandi no comunicado.

"Ela mostrou o que pode ser alcançado quando os políticos tomam o rumo certo e trabalham para encontrar soluções para os desafios do mundo, em vez de simplesmente transferirem a responsabilidade para os outros", acrescentou.

Além de proteger as pessoas forçadas a fugir da guerra, de perseguições e abusos de direitos humanos, a ex-chanceler desenvolveu esforços para que a Alemanha conseguisse receber os refugiados e para os ajudar a integrarem-se na sociedade, através de programas de educação e formação, empregos e integração no mercado de trabalho, refere a agência da ONU.

Além disso, adianta ainda, a ex-chanceler também foi fundamental na expansão do programa de realojamento na Alemanha, que ajudou a proteger dezenas de milhares de refugiados vulneráveis.

Angela Merkel foi uma verdadeira líder, que apelou à nossa humanidade, justificou o júri

Angela Merkel "foi uma verdadeira líder, que apelou à nossa humanidade", justificou o júri

Outros premiados

O comité do prémio Nansen 2022 para os Refugiados também homenageou quatro outros nomeados regionais.

Em África, o galardão foi atribuído ao Corpo de Bombeiros de Mbera, um grupo de combate de incêndios composto por refugiados voluntários na Mauritânia que extinguiu mais de 100 fogos florestais e plantou milhares de árvores para preservar vidas, meios de subsistência e o meio ambiente local.

No continente americano, o prémio foi para Vicenta González, cujos quase 50 anos de ajuda a deslocados e outras pessoas vulneráveis incluíram o estabelecimento de uma cooperativa de cacau na Costa Rica para apoiar refugiados e mulheres da comunidade de acolhimento, incluindo sobreviventes de violência doméstica.

Na Ásia e Pacífico, foi escolhida a organização humanitária Meikswe Myanmar, que ajuda comunidades necessitadas, incluindo deslocados internos, com bens de primeira necessidade, assistência médica, educação e oportunidades de subsistência.

Por fim, no Médio Oriente e Norte da África, foi dado o prémio a Nagham Hasan, um ginecologista iraquiano que presta assistência médica e psicossocial a meninas e mulheres da minoria yazidi, que sobreviveram à perseguição, escravatura e violência de género de grupos extremistas do norte do Iraque.

O prémio será entregue à ex-chanceler alemã e aos quatro vencedores regionais em 10 de outubro, numa cerimónia a realizar em Genebra.

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Apóstolo dos Migrantes será canonizado: conheça o beato Scalabrini

Neste domingo, 9, a Igreja ganhará dois novos santos: os beatos João Batista Scalabrini e Artêmides Zatti. A data foi anunciada pelo Papa Francisco, na Basílica de São Pedro, durante o Consistório realizado em maio para a votação de algumas causas de beatificação.  Por ocasião das duas canonizações, nosso site de notícias preparou uma série de matérias que serão publicadas diariamente até sexta-feira, 7, sobre a vida e obra dos dois futuros santos. A série também estará no Instagram – @cnnoticias – com vídeos diários. 

Com o olhar voltado para os migrantes e refugiados, Scalabrini percorreu um caminho que a Igreja reconheceu seguro para se chegar ao céu. Vê-se no mesmo dia dois religiosos de congregações diferentes que serão canonizados no mesmo dia, e então vem a pergunta que não quer calar: o que os une? 

O primeiro, João Batista Scalabrini, é Apóstolo dos Migrantes. Zatti e sua família foram Migrantes na Patagônia. Duas vidas que se entrelaçam pela dura realidade que atinge a milhões de pessoas em todo o mundo. Sejam pessoas que foram obrigadas a sair de suas cidades por causa das guerras, como aqueles que fugiram da Ucrânia, ou também nas histórias de muitos outros homens, mulheres, famílias inteiras que, à procura de um lugar seguro, tiveram de deixar a própria casa e nação na Ásia, na África e nas Américas. 

Por hora, vamos nos debruçar sobre a vida e legado do Fundador dos Scalabrinianos, uma vida doada por uma necessidade tão antiga, e ao mesmo tempo contemporânea. Já no Século XIX, João Batista Scalabrini ouviu um grito que ecoa até hoje, o choro daqueles que deixam as suas casas, os seus, a sua pátria, em busca de um nova vida, e em grande parte se deparam com condições mais que desafiantes, subumanas.  

Uma vida doada pelos imigrantes

Segundo a missionária secular Scalabriniana, Rosiane Aparecida de Melo, na época que  João Batista Scalabrini começou a conhecer a realidade da migração, ele visitava as muitíssimas paróquias da diocese de Piacenza, e via que os italianos daquela época, no século XIX, estavam migrando para as Américas, para os EUA, Brasil e Argentina. Para eles, começou a criar cooperativas, sistemas de trabalho. 

Rosiane conta ainda que um senhor imigrante que estava pronto para imigrar com sua família disse à Scalabrini: “ ‘Senhor bispo, é imigrar ou começar a roubar’. Então, o padre foi visitar a estação de Milão, onde os italianos tomavam o trem para ir para o porto de Gênova e aí ele viu muitíssimas famílias com poucas coisas, prontos e decididos a imigrar e nunca mais voltar para ver os seus parentes.” 

A missionária conta que, a partir de então, o fundador dos Scalabrinianos decidiu formar missionários e missionárias para acompanhar esse povo durante a viagem. Também ele mesmo foi para as Américas em 1901. “E assim ele fundou a Congregação dos padres Scalabrinianos em 1887, a Congregação das irmãs em 1895, e o nosso Instituto de Missionárias Seculares Scalabrinianas”.

Desde cedo, Scalabrini mostrou o interesse por aqueles que tinham que deixar a terra natal para trabalhar, é o que afirma o Missionário Scalabriniano e vice-presidente do Serviço de Proteção ao Migrante, padre Alfredo J. Gonçalves, cs. O padre também recorda que, oito anos depois, em 1895, com Madre Assunta e Padre Marchetti, Scalabrini fundou a Congregação das Missionárias de São Carlos, ramo feminino do carisma. Seu legado é a “causa dos migrantes”. Os padres e irmãs hoje estão espalhados em mais de 30 países.

Dispensa do segundo milagre

Padre Alfredo também comentou sobre a autorização da dispensa do segundo milagre para a canonização de João Batista Scalabrini. Segundo ele, essa dispensa leva em consideração a vida e a obra de Scalabrini, mas também a sensibilidade e solidariedade do Papa Francisco junto aos migrantes.

“Desde sua eleição, o Papa visitou as ilhas de Lampedusa (Itália) e Lesbos (Grécia), duas portas de entrada dos imigrantes na Europa. Visitou também a fronteira entre México e Estados Unidos. Acolheu várias famílias de migrantes sírios. Enfim, tem sido um grande defensor dos direitos do migrante. Tudo isso traz à Congregação novo ânimo, novo ardor e novo alento.”

O missionário também acredita que essa canonização deixa para o mundo a importância de voltar os olhos para a questão migratória. Ele afirma que, com a globalização da economia, a questão migratória fez emergir rostos vulneráveis e excluídos, sujeitos a longas marchas e grandes tragédias.

Sobre Scalabrini ser canonizado por decreto, Rosiane afirma que realmente é um impulso muito forte na família Scalabriniana e estão todos em festa, em gratidão. “A gente percebe que até todas as pessoas se alegram conosco mesmo quem está conhecendo Scalabrini pela primeira vez acaba se alegrando profundamente conosco, fazendo com que seja um santo também deles”. 

Apóstolo dos Migrantes

Dom Scalabrini nasceu na Itália, em Fino Mornasco, no dia 8 de julho de 1839. Faleceu em 1° de junho de 1905, em Piacenza. 

Nomeado pelo Papa Pio IX, tornou-se bispo com apenas 36 anos. Diante da realidade de pobreza e grande esforço dos imigrantes italianos que encontrou, certa vez, em Milão, pensou que seria necessário dar atenção aos que saíam em viagem com todos os pertences e toda a família, principalmente para as Américas.

Em 1887, fundou a Congregação dos Missionários de São Carlos Borromeu e, poucos anos depois, abraçou o ramo feminino, que nasceu por iniciativa do missionário scalabriniano Giuseppe Marchetti e de sua irmã, Assunta Marchetti, também beata da Igreja. Dom Scalabrini viajou muitas vezes, sempre indo ao encontro dos migrantes.

O Apóstolo dos Migrantes está prestes ir para os altares. Pouco antes de proclamar o dia em que a Igreja irá canonizá-lo, que será 9 de outubro, o Papa Francisco declarou: “Alegremo-nos e exultemos”.

Canção Nova Mauriceia Silva


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segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Mostra reúne obras de artistas imigrantes que buscaram a liberdade em Paris

 

O espanhol Eduardo Arroyo, que morreu em 2018, mudou-se para Paris em busca de novas experiências estéticas(foto: Gerard Julien/AFP/7/03/17 )

Museu da História da Imigração, na capital francesa, destaca 24 criadores que se mudaram para a cidade depois do fim da Segunda Guerra Mundial

Depois da Segunda Guerra Mundial, Paris manteve seu papel de refúgio para artistas estrangeiros. Exposição recém-inaugurada na capital francesa evidencia as dificuldades daquele período.

“Conhecemos muito bem os artistas que já estavam em Paris antes da guerra, até a década de 1940”, explica Jean-Paul Ameline, curador da mostra “Paris et nulle part ailleurs”.

Pablo Picasso, Wassily Kandinsky e Marc Chagall são alguns dos nomes de destaque em meio ao vendaval de ondas artísticas que chegavam, ou começavam, na capital francesa.

O argentino Antonio Seguí, que morreu este ano, em Buenos Aires, pediu para ser enterrado na capital francesa(foto: Geoffroy Van Der Hasselt/AFP/5/6/19 )

Imigração

Depois da guerra, artistas continuaram desembarcando incessantemente em Paris. “Acreditamos que foram cerca de 10 mil”, informa Ameline. A mostra organizada pelo Museu da História da Imigração em Paris ficará em cartaz até 22 de janeiro.

Ameline e equipe escolheram 24 artistas representantes do pós-guerra, que chegaram à capital francesa entre 1945 e 1972.

Entre eles há muitos latino-americanos. É o caso do argentino Antonio Seguí (1934-2022), pintor, escultor e entalhador, assim como de sua compatriota, a escultora Alicia Penalba (1913-1982).

Destacam-se, igualmente, o pintor cubano Wifredo Lam (1902-1982), acolhido com braços abertos por Picasso e seguidores do cubismo. Assim como o chileno Roberto Matta (1911-2002), que passou do surrealismo a pinturas mais comprometidas com a política.

É uma presença gigantesca de criadores, “mas bastante desconhecida”, observa o curador Jean-Paul Ameline.

A França estava em ruínas após a guerra, e o conflito esvaziou as escolas artísticas. Em meio a esse cenário atomizado, os Estados Unidos e o expressionismo abstrato pareciam dominar.

Embora alguns artistas tenham decidido explorar essa tendência artística, eles continuavam desembarcando na França, atraídos pela liberdade que Paris oferecia.

Os mais sortudos conseguiam vender nos Estados Unidos, como Picasso ou Salvador Dalí já faziam, sem abrir mão da vida boêmia parisiense.

O haitiano Télémaque, de 84 anos, deixou os EUA na década de 1960 para enfrentar o racismo em Paris(foto: Jacques Demarton/AFP/23/2/15 )

Racismo

Porém, nem sempre as coisas corriam bem. O haitiano Télémaque, que abraçou na década de 1960 a pop art, tipicamente americana, instalou-se em Paris porque não se sentia confortável em Nova York.

Ao descobrir o racismo em Paris, o preconceito se refletiu em seus quadros. A tela “A bas les nègres”, de 1967, foi pintada depois de Télémaque ler um grafite no metrô.

 

“Escolhemos esses artistas pela maneira como viveram o fato de serem migrantes”, conta Ameline.

Eduardo Arroyo (1937-2018), filho de um falangista espanhol, decidiu emigrar para Paris não como perseguido político, mas em busca de novas experiências.

A húngara Judit Reigl (1923-2020) chegou a Paris em 1950, após fugir de seu país, que enfrentava a ditadura comunista.

“Eles tiveram permissão para trabalhar e suas vidas foram facilitadas. Foram testemunhas do renascimento cultural da França”, detalha Jean-Paul Ameline, que foi curador-chefe do Centro de Arte Contemporânea Georges Pompidou. “Mas isso não significa que conseguiam vender imediatamente.”


Pintura 'Pour les refugies espagnols' do cubano Wilfredo Lam, influenciado por Picasso, aborda o exílio político(foto: Emmanuel Dunand/AFP12/11/10 )

Apagão

A vida parisiense, com seus encontros e dificuldades, marcou a trajetória dos artistas migrantes, até esse foco cultural ser apagado progressivamente na década de 1970. O relativo apagão artístico de Paris coincide com o fim dos chamados Trinta Gloriosos, referente às três décadas depois de 1945.

Naquele período, a França registrou extraordinária recuperação econômica, da mesma maneira que toda a Europa Ocidental, em grande parte graças à ajuda americana.

Alguns artistas, como Eduardo Arroyo, decidiram voltar para casa. No caso dele, a Espanha voltou a ser uma democracia.

Um ciclo foi encerrado, embora com exceções. O argentino Antonio Seguí, que pintou no quadro “Cuando te vuelvo a ver” (1985) um homem com a cabeça em Buenos Aires e os pés no vazio, morreu aos 88 anos, em fevereiro de 2022, na sua terra natal.

Seguí pediu para ser enterrado em Arcueil, nos arredores de Paris, onde manteve sua oficina durante a juventude.

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ONGs do Mediterrâneo já salvaram 10 mil migrantes em 2022

 


Desde o início de 2022, a Itália já recebeu 71,3 mil migrantes forçados via Mediterrâneo Central, um crescimento de 54% sobre o mesmo período do ano passado. Esse número também já é maior que o total de chegadas registradas em 2021 inteiro: 67 mil.

Dos mais de 71 mil deslocados internacionais que desembarcaram em solo italiano em 2022, cerca de 35 mil foram resgatados no mar - além de navios de ONGs, a cifra engloba embarcações da Guarda Costeira, da Guarda de Finanças e mercantis. A outra metade chegou ao país de forma autônoma, sem a necessidade de uma operação de resgate.

As principais nações de origem dos migrantes são Tunísia (14,6 mil), Egito (14,2 mil), Bangladesh (10,9 mil), Afeganistão (5,4 mil) e Síria (5,3 mil)

O tema da imigração sempre foi um dos cavalos de batalha de Giorgia Meloni, futura premiê da Itália e que tem como promessa de campanha impor um bloqueio naval contra barcos clandestinos no Mediterrâneo.

A expectativa é de que, uma vez no poder, a líder de extrema direita endureça as políticas migratórias do país, assim como seu aliado Matteo Salvini fez entre 2018 e 2019, quando era ministro do Interior.

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sábado, 1 de outubro de 2022

Prefeitura de Guarulhos já atendeu emergencialmente 648 afegãos no aeroporto

 


De janeiro até o último dia 23 de setembro a Prefeitura de Guarulhos atendeu 648 afegãos que chegaram ao Brasil pelo aeroporto internacional de Guarulhos. Eles ingressam no país com visto humanitário concedido pelo governo federal após deixarem sua terra natal com a ascensão ao poder dos radicais do Talibã, grupo fundamentalista islâmico. 

O Posto Avançado de Atendimento Humanizado ao Migrante, equipamento especializado em abordagem social aos migrantes instalado dentro do aeroporto, é o responsável por realizar o primeiro atendimento dos afegãos, fazendo o referenciamento com o objetivo de entender suas necessidades, saber o número de pessoas e se são um núcleo familiar, entre outras informações. 

“Eles chegam e não têm para onde ir, pois venderam tudo o que tinham para conseguir comprar a passagem”, explica o secretário de Desenvolvimento e Assistência Social, Fábio Cavalcante. Por isso, no momento em que são referenciados, a Prefeitura de Guarulhos inicia a busca por vagas de acolhimento junto ao Governo do Estado e a instituições parceiras, já que a rede de acolhimento da cidade está lotada. Famílias com gestantes, crianças e idosos são priorizadas no encaminhamento. 

Enquanto estão nas dependências do aeroporto, a assistência social da cidade garante a segurança alimentar de todos com marmitas no almoço e kits lanche no período noturno, além de água e cobertores. Desde abril, mais de 2,6 mil refeições gratuitas foram entregues no local.

Eles também recebem visitas de equipes da Secretaria da Saúde, que verificam o estado de saúde dos idosos e crianças e garantem a atualização vacinal contra covid-19 e outras doenças. 

Residência Transitória para Migrantes e Refugiados

Por conta da demanda elevada de afegãos que começaram a chegar ao Brasil a partir de abril deste ano, a Prefeitura de Guarulhos promoveu a abertura da Residência Transitória para Migrantes e Refugiados, serviço inaugurado em 10 de agosto. Trata-se de um local que oferece apoio e moradia para migrantes estrangeiros em situação de vulnerabilidade e risco pessoal e social, com capacidade para receber 27 usuários em quartos separados para pessoas do sexo masculino, feminino e um específico para mães com crianças.

O atendimento ocorre 24 horas por dia e os encaminhamentos são realizados pelo posto do aeroporto, desde que o migrante seja estrangeiro com solicitação de refúgio ou visto humanitário. A gerência do local é de responsabilidade da Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social (SDAS), em parceria com a Cáritas Diocesana de Guarulhos e com o apoio do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). 

“Já passaram pela residência 62 pessoas. A ideia é que o local seja uma retaguarda para o aeroporto, para receber essas pessoas emergencialmente e encaminhar para outros acolhimentos assim que surgirem vagas. O problema que enfrentamos atualmente é que as vagas estão esgotadas em quase todo o Estado por conta do alto número de afegãos que estão chegando sem aviso prévio”, explica o secretário Fábio Cavalcante.

Posto Avançado de Atendimento Humanizado ao Migrante

O equipamento é gerenciado pela Prefeitura de Guarulhos, por meio da SDAS, e funciona no mezanino do Terminal de Passageiros 2 do aeroporto de segunda a segunda das 7h às 19h. Atualmente conta com nove funcionários qualificados para atender migrantes, tanto do Afeganistão quanto de outros países. No momento também integra o quadro de funcionários um mediador cultural afegão naturalizado.

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